Monique Gardenberg traduz Chico Buarque no Cinema

“Eu Te Peço Perdão por Te Amar de Repente”   
                                                                                                         * Aurora Miranda Leão

                       
              BENJAMIM, filme de Monique Gardenberg é das coisas mais impactantes já realizadas no cinema nacional nos últimos tempos. Não à toa, coleciona elogios por onde passa. Transcrição da obra literária de homônima de Chico Buarque, o melhor poeta vivo da MPB,  Benjamim é desses filmes para os quais você não sente o tempo passar. São duas horas de projeção mas quando  a sessão acaba, você leva um susto ao ver que o tempo passou e foi tudo isso. Parece muito menos. Ou por outra, achei até breve demais. Ficaria mais tempo me deliciando com aquela instigante trama onde pontificam Ariela Mazé, Benjamim Zambraia e Castana Beatriz – um achado também estes nomes de personagens encontrados por Chico. Aí também se sente o talento incomum do genial Artista.


             Benjamim impressiona desde o início. A música com que Monique escolheu abrir o filme, é um colosso. Que delícia rever o Rio de Janeiro de outrora ! Cleo Pires, de beleza rebelde, travessa, ora ingênua ora sabendo jogar com a sensualidade como a mulher que sabe o que quer, realmente impressiona. Por isso mesmo despertou atenção, olhares e interesses na edição 2003 do Festival do Rio. É formidável a desenvoltura com a qual construiu as duas enigmáticas personagens chicobuarquianas. De fotogenia exuberante, Cleo merece protagonizar muitos outros filmes. E parece ter tomado o gostinho embriagador. Foi estudar teatro no exterior. Quer ter embasamento pra fazer mais e melhor. Paulo José é o dândi conhecido de todos. Desnecessário falar de sua contundente presença na bela realização de Gardenberg. Aliás, Benjamim é bom desde a abertura. Os letreiros são criativos e a música de fundo é daquelas pérolas dos anos 60 – infelizmente, o nome me foge agora. Mas a partir daí, o filme vai num crescendo e está gravado na memória e no coração como um dos mais competentes registros da Sétima Arte Brasileira.

                     

Gosto de tudo no filme. Mas principalmente quando Monique selecionou trecho de uma de minhas preferidas do Poetinha Vinícius, ela “me ganhou”. É quando o Benjamim de Paulo José diz pra Castana Beatriz: “Eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção para os teus ouvidos”. É incrível como Monique soube pinçar em Vinícius a mais perfeita tradução já dada por alguém para esta inquietação afobada/calma, eletrizante/terna, impulsiva/recatada, desvairada/sã que toma conta dos apaixonados. E é sempre do mesmo jeito. E não morre nunca, mesmo se o objeto amado está longe, não nos quer mais, fugiu ou sumiu no mundo sem nos avisar. O amor permanece em nós, sempre, e quando alguma lanterna mágica clareia a força que o mantém vivo, ele renasce,ressurge, reaparece, se reafirma da forma mais bela com a qual se veste, a forma apaixonada que tanto enlouquece e faz bem. É justamente tudo isso que Monique nos quer dizer e diz de forma tão clara na cena onde há somente esta fala dita por Paulo José, com o tempo, a entonação e o sentimento necessários. Pena não mais estar entre nós nosso querido Vininha. Ele adoraria conhecer CLEO, se encantaria com sua enigmática presença, e se orgulharia de ter seus versos selecionados pela cineasta e ditos por Paulo José. Pois é bem capaz de em algum lugar deste outro mundo para onde vão os bons, Vininha já tenha muitas vezes visto e se emocionado com Benjamim. Ao escolher os versos de nosso maior Poeta do Amor, Monique cravou fundo a alma dos apaixonados ou dos que assim desejam o Amar. Afora as qualidades técnicas do filme, a trilha sonora, a participação marcante de Nélson Xavier, Danton Mello, Mauro Mendonça e Chico Diaz, o filme já merecia  todo apreço pelo requinte na seleção dos versos de Vininha, e pela sensibilidade com a qual a diretora escolheu o elenco. Portanto, muitas e muitas Luas para Monique Gardenberg !


              Se vocë marcou bobeira e ainda não viu Benjamim, não precisa chorar a projeção perdida. Vá até a locadora mais próxima e leve o DVD pra casa. Com certeza, você vai concordar comigo e também vai-se encantar com o filme. Pode ser também, que você discorde. Tudo bem ! Adoro opiniões divergentes, quando inteligentes.
              Mas fique certo de uma coisa: ainda que você consiga não gostar dessa história inspiradora, romäntica, às vezes cruel mas muito apaixonada e cinematograficamente competente,  você pelo menos terá um, ou mais um, filme brasileiro para figurar no seu cardápio crítico de cinéfilo e poderá, mais tarde, quem sabe,  contribuir com debates sobre a Sétima Arte Brasileira, onde quer que eles aconteçam.
               Um DEZ emocionado e feliz para Monique Gardenberg e toda a equipe que tornou possível esta belíssima criação do genial Chico Buarque no Cinema.

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