Quando A Última Palavra Grita Solidão

Um amor quase por um triz…                                                            

                                                                              * Aurora Miranda Leão

O curta-metragem A Última Palavra nos convida a reflexões de ordens várias: lá estão os íntimas ligações entre amor e morte de que nos fala o cientista social Zigmund Bauman… 

É clara a influência da obra incisivamente poderosa do poeta Augusto dos Anjos em sua vocação inescapável para os temas da finitude. E, embora possa até não ter pensado nisso conscientemente, o diretor coloca na tela diversas cenas cuja inspiração notamos vir de nomes como Caravaggio ( primeiro grande representante do estilo Barroco na pintura), Renoir, Rembrandt, Artaud, Cassiano Ricardo, Arthur Bispo do Rosário, o espírito impressionista de Monet ( acostumado a trabalhar ao ar livre e sob a luz do sol), Mondrian, a opacidade plástica de Magrit (maior representante do Surrealismo na Bélgica) através de seu célebre quadro dos amantes que se beijam de olhos vendados, pintura insinuando dois desconhecidos ante o mesmo desejo). 

A harmoniosa fotografia de Lília Moema constrói um arcabouço imagético sensível e poderoso, conseguindo extrair do mais banal uma rica palheta de cores e significados que desafiam um olhar mais acurado e uma atenção aos detalhes mais sutis, como no insólito ambiente da última morada. A construção imagética da fotografia remonta ao barroco de Aleijadinho, transmudado nas estátuas e símbolos ecumênicos evidenciados nos insólitos quadros de um cemitério deserto, entregue ao abandono físico e sensório, tão maior e cruel quanto tão profunda é a dor pela perda de um amor, encerrado sem sequer uma palavra de adeus. 

Afinal, de quem é o olhar que olha Carmen e sintoniza Esther ? Quem nos convida a prestar atenção na cigana e a perscrutar as sonoridades de sua inquietação existencial ? De quem o farol a guiar o espectador por este mundo insólito de sombras e dúvidas onde os horizontes semelham labirintos e parecem estágios de solitude e descompreensão diante do nada, do finito, da instabilidade emocional ? 

Este olhar que nos desassossega do estado de não-imersão é o mesmo que nos remete involuntariamente para tentar decifrar os sentimentos de Carmen, os caminhos e descaminhos que a personagem perfaz, quer por vontade própria ou por circunstâncias alheias à sua voluntária decisão. Estes, são tantos quanto estão representados na instigante concepção das Sete Vidas, trazidas ao ecrã pela opção estética da apresentação dos felinos no cemitério… eles são sete e ilustram o último diálogo das amantes, cujo fim é trágico, como sói acontecer na quase totalidade das histórias que se constroem entre iguais ou dos amores que existem e se afirmam fora das obsoletas e toscas visões de um tipo único e idealizado de par amoroso. 

Tudo que ali nos parece estranho ou incompleto ao mesmo tempo desenha intersecções com experiências já vividas ou intuídas. A certeza de palavras já ditas, versos já ouvidos e sons de rascante intensidade aproximam o espectador da polaridade sentimental que invade a alma em certos momentos de angústia ancestral, não nos abandona e perpassa o lite motiv do filme em todos os fotogramas. 

Conseguir captar e traduzir isso tudo em apenas 15 minutos não é tarefa fácil. Necessário um roteiro competente, uma equipe bem entrosada, uma construção de ambiente e luz adequada ao clima que se quer imprimir na textura da obra, uma produção que atente para essas sutilezas do roteiro e uma câmera bem conduzida. 

Ressalte-se então o inovador e bem construído roteiro de Chico Cavas Jr (estreante na função) e toda a disponibilidade da equipe envolvida na realização de A Última Palavra. Lília Moema é fotógrafa com anos de atuação no métier e aqui revela, mais uma vez, seu talento e vocação para os cuidados e afetos necessários à captação da luz, escolhendo ângulos que se aproveitem não só por sua beleza mas, sobretudo, pela delicadeza de sua construção e a sincronicidade com o que o roteiro desenha em palavras. 

Em A Última Palavra, as saídas para o vazio que se interpõe entre as amantes são as estradas ermas de um espaço de contemplação da morte ou a areia da praia que fareja o mar e sua imensidão infinita. 

As cartas que um dia anunciarão o amor estão agora dispersas num túmulo que, apesar de tudo, é difícil negar. Por outro lado, o mar e o vazio que sua imensidão desenha no oceano infinito – disponibilizado em sua essência mais trivial para as personagens Esther e Carmen – é como uma foice afiada a amolar seus gumes no oco imenso e profundo que dilacera a alma ante a desilusão do amor que podia ter sido e morreu antes de florescer. 

Será assim o amor, sempre por um triz, como tão sabiamente canta Herbert Vianna em uma de suas pérolas ?

Ao final das gravações, o diretor Chico Cavas Jr, Aurora Miranda Leão e a fotógrafa Lília Moema, em foto de Arthur Leite – Fortaleza, novembro 2010…

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