Resta Um Homenageia Cinema Experimental

O curta-metragem RESTA UM é definido por sua idealizadora como um exercício audiovisual coletivo: o trabalho foi realizado em novembro passado, durante a sexta edição do Festival de Goiânia do Cinema Brasileiro, idealizado e coordenado por Débora Torres. Com Ingra Liberato à frente do grupo envolvido, a idéia de fazer o curta contou com apoio imediato de todos os que participavam do festival, como os cineastas Sílvio Tendler, Bruno Safadi, e Henrique Dantas, o escritor Miguel Jorge, e a atriz Rosamaria Murtinho.

A concepção do curta RESTA UM é da jornalista cearense Aurora Miranda Leão, com produção dela e do cineasta mineiro Júlio Léllis, argumento e roteiro de Aurora com colaboração de Alex Moletta, Miguel Jorge e Rogério Santana.  O crítico Rubens Ewald Filho aparece nos créditos como “Contribuição afetiva”… No trabalho, referências explícitas à extinta produtora Belair, inclusive numa recriação da famosa cena vivida pela atriz Helena Ignêz(em quem Ingra se inspira em determinado take), como no caso do filme A Família do Barulho, de Júlio Bressane

Dentre os tantos aspectos relevantes a se notar no curta RESTA UM, há um praticamente impossível de não se destacar quando nos detemos em suas sequências: o caráter de documento de seu tempo. Assim nas produções da BELAIR, assim em RESTA UM.

Ademais, elementos clássicos do cinema produzido pela BELAIR estão neste RESTA UM, que as produtoras Aurora de Cinema e Cabeça de Cuia acabam de finalizar, como o uso da câmera de mão, as filmagens na rua, a mescla de imagens (filmadora, tevê e celular), o estranhamento através de imagens destoantes, desfocadas, sons propositadamente incômodos ou mal definidos, personagens que não representam mas valem pelo que representam, intertextualidade constante, bebendo na fonte de outras referências imagéticas – como na apresentação de cenas de outros filmes -, deixando claro ser a referência proposital e ancorada numa forma autoral de expressão.

O choque como recurso estético, tão freqüentemente utilizado pela Belair (produtora criada pelos cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla), em quem a obra se inspira e a quem pretende homenagear, também se verifica em Resta Um, de Aurora Miranda Leão. Isso fica patente desde o início, quando o apito inconveniente do elevador, azucrina o ouvido da atriz Ingra Liberato e o de quem a acompanha na sala de projeção. E se condensa na tomada do barco-olho que adentra, com barulho (capaz de provocar estranhamento instantâneo), o oceano na tomada inicial (clara referência ao documentário Belair, de Bruno Safadi e Noa Bressane, grande inspirador deste curta).

Numa aparente dessintonia entre as sequências, Aurora vai construindo uma narrativa cheia de percalços, inconclusões, desconexões, onde vida real e ficção (?) se entrecruzam em associações com elementos ícônicos e intertextualidades profícuas, como as que bem ilustram o depoimento lapidar do cineasta Sílvio Tendler.

A homenagem a Júlio Bressane e o legado da Belair aos poucos se insinua, delicada e espontaneamente, nas filigranas que perpassam a anti-narrativa. Esse dado às vezes fica bem explícito, como na sequência a mostrar a noite carioca, em movimento de câmera oscilante e com nitidez rarefeita. Ou ainda através do take no qual se percebem amigos dançando numa discoteca ao som de “Queixa”, de Caetano Veloso, artista de estreita sintonia com o universo bressaniano.

Outro dado a saltar aos olhos e assola o intelecto é o fato de o curta preservar, com propriedade, a característica mais marcante da produção Belair, qual seja filmar entre amigos e o enorme prazer daí advindo. Porque até o espectador mais leigo registra, sem dificuldade, que todas as pessoas envolvidas em Resta Um lá estão por absoluta vontade e adesão ao projeto inicial, dado prazerosamente afirmado no espontâneo depoimento de Ingra. Também a alegria que ilumina o rosto quando o escritor Miguel Jorge aparece e o semblante sereno e internamente feliz de Rosamaria Murtinho são reveladores deste prazer de estar entre amigos e experimentar cinema. E assim como a ironia pensa uma coisa e diz outra, a diretora de Resta Um aparece em seu próprio filme, criando uma instigante dissonância cognitiva, ao criticar, ela própria, o fazer cinema que contagia jovens de hoje e de ontem, de todas as idades.

Como diz a pesquisadora Olgária Matos, “Nos filmes de Bressane, as personagens oscilam entre a lucidez e a evasão fora da luz. Na ausência de qualquer razão profunda de viver, os filmes advertem para o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento”.

Júlio Bressane trabalhou sempre com orçamentos modestos, equipes pequenas, filmagens rápidas e muita invenção, e desenvolveu ao longo dos anos um dos traços mais fortes de sua cinematografia: o intertexto artístico, tão bem captado em Resta Um.

A liberdade radical de experimentação, talvez o maior legado da singular e riquíssima cinematografia de Bressane, é o que mais aflora neste Resta Um de Aurora Miranda Leão.

Afinal, como bem diz Bressane, a câmera na mão fora da altura do olho, jogo de foco, câmera giratória, ab-cenas, o infrasenso da linguagem: a câmera filma a própria equipe que filma, o ‘atrás da câmera’, o som direto com todas as interferências circum-cena, o diretor dirigindo o (in) dirigível etc etc… Tudo isso, toda esta escolha, todas estas figuras, todo este procedimento, toda esta concepção de produção e expressão, tudo é olho Belair. Não há isto no cinema novo. É depois do cinema novo. É Belair.”

2 Respostas para “Resta Um Homenageia Cinema Experimental

  1. Patricia Braz

    Estou ansiosa para assistir, pelo que vi nas gravações em Goiânia no hotel constatei que a criatividade é a grande responsável por essa arte de Aurora Miranda. Tenho certeza que é sucesso!

  2. Estou ansiosa para assistir, pelo que vi nas gravações em Goiânia no hotel constatei que a criatividade é a grande responsável por essa arte de Aurora Miranda. Tenho certeza que é sucesso!
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