HALDER GOMES

“Minha Paixão pelo Cinema está no DNA…”

Halder Gomes: dos tatames para as Artes Plásticas e a direção de Cinema…

Ele é cearense, mas seus conterrâneos só foram mesmo descobrir que ele existia e habitava no Planeta Cinema quando ele estourou em terras norte-americanas com sua primeira direção de longa-metragem. A imprensa mundial repercutiu o êxito do filme e o Brasil ficou conhecendo este cearense que migrou das pequenas participações em filmes para viabilizar seu próprio olhar sobre o mundo.

Halder Gomes nasceu em Fortaleza e morou em Senador Pompeu até os 12 anos de idade.  Formado em Administração de Empresas, pós-graduado em Marketing (ambos pela Universidade de Fortaleza) e Mestre em Taekwondo, Halder iniciou na estrada da Sétima Arte em 1991, quando fez  suas primeiras participações como dublê de lutas em filmes de artes marciais, em Los Angeles, Califórnia.

A estreia como diretor foi em 2004 com Sunland Heat (No Calor da Terra do Sol). Até o momento, seus filmes já foram exibidos oficialmente (cinema, festivais, tv aberta, cable, dvd, etc) em 25 países …

Aqui, você vai ficar sabendo um pouco mais sobre a carreira de Halder Gomes, e como pensa, trabalha, atua em tantas frentes, cria roteiros premiados, dirige, e bem administra a ponte Ceará-Estados Unidos, este nordestino que no próximo dia 8 de junho lança seu filme mais recente – CINE HOLLIÚDY – em sessão especial na noite de encerramento do Festival Cine Ceará.

Mais o que mais impressiona neste artista inquieto e em permanente ebulição é seu jeito descontraído e espontãneo, e, sobretudo, a simpatia, coerência e simplicidade que não foram abaladas nem mesmo pela repercussão de seus trabalhos no mundo inteiro nem pelos constantes convites para percorrer o mundo com seus filmes e sua considerável bagagem cinematográfica.

HALDER GOMES continua um cearense ‘arretado’ que nós aplaudimos com gosto, e por isso ele está em mais uma Entrevista Exclusiva do AURORA DE CINEMA, na qual revela seu processo de criação e alguns de seus novos projetos.

Com você, HALDER GOMES :

AC – O que te despertou pro cinema e te fez optar decisivamente pela carreira no audiovisual ?

HG – Acredito que a paixão pelo cinema está no DNA e é atiçada na infância por algum filme. Só pode ser isso. Entrei num cineminha na infância, em Senador Pompeu, na década de 70 (como o do Cine Holliúdy),  e decidi que um dia faria aquilo sabe-se onde, quando e como…

AC – Que filmes você guarda num lugar muito especial da memória ?

HG – Muitos ! Todos do Bruce Lee, Amor sem fim (Zefirelli), Rocky, O Campeão, Bye, Bye, Brasil, dentre vários. Alguns seriados também foram marcantes: Perdidos no espaço, Kung Fu,Viagem ao Fundo do Mar, Hulk… Quero citar apenas alguns antes de fazer cinema, pois foram vistos de forma naif, sem qualquer conhecimento técnico de hoje.

Halder Gomes: gosto pelo cinema vem da infância…

AC – Quem você aponta como influências importantes na carreira ?

HG – Não tenho uma influência que possa dizer como determinante de um estilo ou olhar. Acredito que a soma de tudo que já vi é a maior influência. Tenho um gosto muito eclético e desprovido de qualquer preconceito de gênero, ator, etc… Adoro o Arnold Shwarzenegger tanto quanto o Bruce Lee, tanto quanto Woody Allen, tanto quanto Kieslowsky e por aí vai. Mas na prática, acredito, a maior influência de qualquer realizador vem do universo que ele vive e de como sua alma interpreta este olhar.

AC – O primeiro curta seu de muito sucesso – O Astista contra o caba do mal – ganhou muita notoriedade através de prêmios e elogios, enquanto aqui no Ceará praticamente ‘descobríamos’ você. Como nasceu a ideia do curta ?

HG – É um filme de memórias dos primeiros contatos com o cinema, na infância, no interior, somado ao olhar voltado pra nossa cearensidade. A soma disso deu origem ao curta. Algo como “Hollywood meets fuleragem”.

Cena de Cine Holliúdy, que vai estrear no CineCE…

AC – E até assinar a primeira direção, foi muito difícil, alguma vez passou pela
cabeça a ideia de desistir ?

HG – Desistir, nunca! Só temos uma vida pra fazer algo. Se faria tudo de novo? Não sei… Quem mais me motivava e provava que era possível conseguir algo considerado pra muitos um sonho distante era a história de vida do Arnold Schwarznegger. Ele conseguiu em uma vida o topo do esporte dele (ele é Pelé do fisiculturismo), o topo de uma carreira no cinema, e o topo, para muitos, de uma carreira política. Acredito que a determinação e o foco da arte marcial me deram mais poder de perseverança pra conseguir mudar de profissão depois dos 30 anos e conseguir relativo sucesso em outra carreira totalmente fora do convencional, complexa e incerta.


O Astista: sucesso em Curta vira longa como “Cine Holliúdy”…

AC Como foi transformar “O Astista” para uma versão longa ? O que permanece do curta na versão atual ?

HG – Em 2004, quando o curta passou na Première Brasil do Festival do Rio, a Ana Maria Bahiana e o José Emílio Rondeau estavam na sessão. Ao final, eles me disseram que eu tinha que transformar o curta num longa. Oxe ?! Como poderia dizer não pra Ana Maria Bahiana? Pouco tempo atrás, a via na televisão comentando o Oscar e, de repente, ela estava me dando uma sugestão…Daí voltei pro Ceará e num fim de semana o roteiro estava pronto no primeiro tratamento. Dei uma história de vida para o ‘Francisgleydisson’ e um contexto de tempo e fatos que justificariam a dramaturgia da história. No longa, ele tem mulher, filho (Francisgleydisson Filho, claro) e o conflito de lutar pra manter vivo seu cineminha, na década de 70, quando a chegada da TV colocava em xeque as salas do interior. Criei vários personagens secundários pra trama e uma história empolgante. Na versão atual, permanece o senso de humor do protagonista, algumas situações semelhantes e toda a nossa cearensidade. O roteiro do longa acabou por ser premiado no Edital do Minc para Filmes de Baixo Orçamento, que viabilizou a produção.

Halder Gomes e a alegria de filmar (foto Soraya Ramalho)

AC –  Você também tem alguns documentários muito premiados, como o do futebol. Qual é o estalo que bate e faz você ter certeza de que ali há um bom tema ?

HG – Tudo surge num estalo. O ‘Loucos de Futebol’, por exemplo, surgiu dentro de um elevador, quando fui a uma reunião com um advogado, junto com um amigo de Los Angeles, que acabara de comprar um apartamento em Fortaleza e precisava fazer toda a operação jurídica e burocrática. Quando o elevador chegou no térreo e a porta abriu, um flanelinha (torcedor do Fortaleza) deu de cara com o advogado (torcedor do Ceará) e começaram uma discussão pra lá de intensa sobre o jogo da noite anterior. O advogado ficou vermelho e alterado. Quando a porta fechou, houve um silêncio sepulcral e o americano, de olhos arregalados, sem entender por quê o advogado perdera a compostura. Quando ele (o americano) me perguntou “É este o advogado que vai cuidar do meu negócio?”, me veio o filme inteiro na cabeça. E foi este olhar, normal pra nós e louco pra outros, que levou Loucos de Futebol a mais de 80 festivais em 25 países. 

Halder chegando ao estádio Castelão, em Fortaleza, para rodar Loucos de Futebol

AC – O que você gosta mais de fazer, dirigir, produzir ou os dois ao mesmo tempo ?

HG – Dirigir e produzir tem seus prós e contras. Se por um lado você tem mais poder criativo e de decisões, por outro lado sobrecarrega a direção. Como a pré-produção é a fase mais complexa e extenuante de um filme, o diretor já chega no set num estágio de desgaste muito avançado quando somado às questões financeiras, burocráticas, logísticas e jurídicas. Gostaria mesmo de dirigir, apenas, mas este é um desejo distante diante das circunstâncias de fazer cinema independente. 

AC – E atuar, também já passou pela sua cabeça a ideia de ser ator ? 

HG – Não. Não consigo me ver como ator, embora já tenha feito pontas nos meus filmes e de amigos. Mas faço apenas como um aprendizado pra compreender melhor o sentimento do ator diante da produção e quais suas dificuldades. Isso me ajuda a entendê-los melhor. 

Halder Gomes e o ator Nelson Xavier no set de As Mães de Chico Xavier
 
AC – Que alegrias te trouxe o filme As Mães de Chico Xavier ?

HG – Muitas, e não param de chegar! A maior de todas foi perceber o conforto espiritual que o filme trouxe pra muita gente. Recebemos centenas de mensagens de todo o Brasil, cada uma delas mais emocionante que as outras. Esses dias o filme esteve no Festin, em Lisboa, e tivemos uma sessão lotada! Foi emocionante ver o filme tocando pessoas e sendo aplaudido em outro país. Nossa, são tantas as alegrias…Ter tido o prazer de compartilhar a direção com o Glauber Filho, ter tido um grande lançamento nacional, ter ultrapassado a casa do meio milhão de espectadores….

Halder Gomes no set do premiado As mães de Chico Xavier… 

AC – Você segue alguma religião ou é apenas uma pessoa espiritualizada ?

HG – Sou católico de batismo, espiritualizado e tenho o cinema como religião.
 
AC – E o Area Q, como surgiu ? Você tinha alguma relação com a cidade de Quixadá, é uma pessoa que acredita em fenômenos como os OVNIs ?

HG – Surgiu de uma conversa com o Gerson Sanginitto (diretor/produtor do filme) e a Carina Sanginitto (fotógrafa/produtora) em Los Angeles, quando eles falavam do próximo projeto da produtora deles, a Reef Pictures. Como o gênero do projeto passava pela ficção científica, falei das nossas histórias e locações e o quanto daria um grande filme. Daí já entramos no argumento, corri de volta pro Ceará pra produzir tudo, e em seis meses estávamos no set, sem nenhum recurso incentivado.Sempre fui alucinado pelo assunto e tenho fazenda na ‘Area Q’. Passei a infância a ter pesadelos com as tais abduções e, por acreditar e saber que podíamos contar uma história com um olhar diferente, propus o desafio ao Gerson e a Carina e eles toparam. Com a entrada da Estação Luz Filmes no projeto, somamos as forças para fazer o filme acontecer. 

Gérson Sanginitto e Halder Gomes: parceria em Area Q...

AC – Como foi concretizar a parceria Ceará-Estados Unidos e como está sendo a carreira do filme ?

HG – Fiquei muito feliz em ver este sonho acontecendo. É algo que sempre lutei. Fortaleza e Hollywood tem em comum a paixão pelo cinema. O filme escreveu uma nova página no cinema nacional ao abordar um tema inédito na nossa cinematografia e abrir precedentes para muitas outras histórias intrigantes que aconteceram em nossos céus. Bezerra de Menezes fez o mesmo, ao abrir as portas para os filmes espiritualistas no Brasil. Só o fato de ter sido uma proposta de vanguarda, nos deixa muito feliz. Além disso, o filme mostrou aos nossos governantes a importância do cinema para criar e imortalizar um lugar, uma história e/ou um cenário. Area Q já causou um forte impacto turístico na região. A carreira do filme foi dentro das nossas expectativas para a incógnita do tema no Brasil. Poderíamos ter ido além dos 40 mil espectadores se não fosse o ‘dump’ provocado pelo filme Os Vingadores, com seus 50% das salas do país, que interrompeu a carreira de muitos filmes nacionais que tinham plateia. São as ‘regras’ do nosso mercado…Mas apesar disso, o filme teve muita repercussão e abriu os olhos de muita gente. O resultado é pra lá de positivo.


AC – Como está o coração às vésperas da exibição de um novo filme, que vem de uma versão de muita aceitação entre o público, na sessão de encerramento de um festival na sua terra, da importância do Cine CE ?

HG – Muito ansioso ! Acho que não poderia ser melhor compartilhar esta exibição em casa, no Cine Ceará, pra nossa plateia. Será um ótimo teste para o filme e algo marcante pra minha carreira. A gente acaba por apresentar os filmes em tantos lugares e, raramente, em casa.

Halder Gomes e Glauber Filho: parceiros em vários trabalhos… 

AC – Entre os seus filmes, você tem um preferido ou algum que foi mais fácil de fazer ?

HG – Acho que cada filme é um filho que colocamos no mundo. É difícil ter um preferido. Temos um carinho especial por cada detalhe de cada um. O que posso dizer é que o ‘Cine Holliúdy’ é o mais autoral de todos e o que mais compila memórias, referências, homenagens, paixões, dedicatórias, etc…O mais fácil….? Eita! Não tem filme fácil de fazer. Cada um levou um pedaço de mim e do meu bolso.

Halder Gomes no set com a equipe de Cine Holliúdy

AC – O que você acredita que é fundamental para a boa carreira de um filme ?

HG – Marketing, marketing, marketing e uma boa história, contada através do coração. 

AC – E por fim, você pode adiantar quais são seus próximos projetos ? 

HG – Venho de um período intenso entre 2009 e 2010, quando produzi 3 longas em 12 meses. Agora, estou na luta pra lançar o último deles, ‘Cine Holliúdy’, e poder entrar de cabeça nos próximos projetos. Digo isso porque lançar é tão complexo quanto fazer. Próximo ano vou produzir, junto com a Estação Luz Filmes, o próximo filme do Glauber Filho, “Bate Coração”, comédia romântica/espiritualista. Tenho também um roteiro pronto e em aprovação na Ancine, “Vermelho Monet”, drama de um pintor clássico, no fim da vida. 

 

Halder papeando com Fiorella Matheis, que está em Cine Holliúdy

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