Vem de Campina Grande um Cinema Vital: Tudo que Deus criou, um filme tão sincero como André da Costa Pinto

AURORA DE CINEMA  direto de CURITIBA

São fortes as imagens de abertura: uma voz potente em oração intercala cenas de sexo. Fé, religiosidade, perversão, sexualidade, autoridade.

Wilhelm Reich (1897-1957),neurologista, psiquiatra e psicanalista, pioneiro da revolução sexual, da psiquiatria social e da medicina psicossomática, está inteiro lá, nas entrelinhas:

“A estrutura caracterológica do homem atual – que vem perpetuando uma cultura patriarcal e autoritária há quatro mil anos –caracteriza-se por um ‘encouraçamento contra a natureza dentro de si mesmo e contra o mundo social que o rodeia’. Esse encouraçamento do caráter é a base da solidão, do desamparo, do insaciável desejo de autoridade, do medo da responsabilidade, da angústia mística, da miséria sexual, da rebelião impotente, assim como de uma resignação artificial e patológica. Os seres humanos têm adotado uma atitude hostil quanto ao que está vivo dentro de si mesmos, do qual têm se distanciado. Esse encouraçamento não possui uma origem biológica, e sim social e econômica”.

Um filme fala por si. Sendo mais precisa e objetiva, um filme revela muito sobre seu diretor. No caso de Tudo que Deus criou, filme de André da Costa Pinto exibido ontem à noite em lançamento nacional em Curitiba – dentro da programação do OLHAR DE CINEMA – Festival Internacional de Curitiba, o filme tem as marcas principais do cineasta estampadas em todo o seu desenho narrativo: verdade, ousadia, fé e a pulsação da sexualidade.

O filme de André tem uma sinceridade absoluta e um desnudar de alma muito próprio do realizador paraibano: André da Costa Pinto é dessas pessoas cuja tradução preliminar é a sinceridade. Quase transparente, André é o que é, onde quer que esteja: corajoso, audaz, frágil, amoroso, puro, impulsivo, seja lá que adjetivo possa se encaixar em sua personalidade, tal é o diretor, tal é seu filme.
Com a mesma simplicidade, espontaneidade, coerência e invejável sinceridade com que se expõe em mesas de debates e encontros de cinema – como aconteceu durante a mesa do Seminário de Cinema Contemporâneo promovido pelo Festival, onde atuou ao lado de Hernani Heffner -, contando os fatos pitorescos vivenciados até conseguir realizar a primeira edição do festival de cinema que idealizou junto com amigos em Campina Grande (e que hoje caminha para a sétima edição, o ComuniCurtas), André da Costa Pinto se revela igualmente simples, claro, afetuoso e destemido neste seu ousado, potente, poético e simplesmente belo filme Tudo que Deus criou.

Guta Stresser: mergulho abissal na dramática história de Ângela…

Através de uma história cotidiana, cheia de fatos comuns em tantas famílias nordestinas de qualquer parte do país, permeada de aspectos humanitários – onde misturam-se afetos, carências, sensualidades, fragilidades, dificuldades e até pitadas bem humoradas -, André da Costa Pinto conseguiu reunir um naipe de bons atores, protagonizando um roteiro forte e bem alinhavado, onde sobressai-se a competência da fotografia, da direção de arte, a composição de figurinos, e, sobretudo, uma direção que concedeu aos atores um espaço de visível liberdade para criar, propiciando assim um leque de grandes atuações, todas num mesmo nível de competência. Há uma profunda harmonia na interpretação de todo o elenco, tornando absolutamente crível as situações desenhadas na tela, e gerando pontos de fácil adesão às emoções tão vastas e corriqueiras ali apresentadas. Vendo o filme de André, lembro-me de frase lapidar da atriz Helena Ignez: “Todos os filmes de atores são bons filmes”. No caso de Tudo que Deus criou este dado é irrefutável.

Parece-me que o filme de André da Costa Pinto – jovem até então conhecido ‘apenas’ pelo caloroso festival audiovisual que realiza há 7 anos em Campina Grande – ComuniCurtas – e pelos muitos prêmios que ganhou com seus dois curtas (A Encomenda do Bicho Medonho, e Amanda & Monick) – vai causar tanto impacto no circuito cinéfilo e cinematográfico como aconteceu com meu conterrâneo Karim Aïnouz ao lançar Madame Satã. Diante deste, como daquele, não dá para ficar impassível. Tudo que Deus criou é filme para se gostar ou odiar.

Sem dúvida, André da Costa Pinto inaugura com esta sua primeira ficção em longa-metragem (inteiramente patrocinada pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB -, graças à sensibilidade e empenho pessoal da Reitora Marlene Alves) uma nova e relevante página no cinema paraibano.

Guta Stresser e André da Costa Pinto: vem aí mais um longa juntos…

Dando a cara a tapa, ousando com sua juventude e salutar mania de mergulhar sem medo do salto e impregnado de calor humano (como é afetuosa a forma como André se aproxima de coisas, fatos e pessoas), André da Costa Pinto fez um filme que, não bastassem todas as suas qualidades, já seria um capítulo novo, importante e definitivo para o Cinema Brasileiro. Afinal, com Tudo que Deus criou, André da Costa Pinto fez/faz o primeiro longa inteiramente filmado em Campina Grande, portanto, fora da capital do Estado, e com verba advinda exclusivamente de uma Universidade pública (onde ele estudou, hoje leciona e dirige o setor de Audiovisual), e com 90 % da equipe paraibana. Mesclou atores do quilate de uma Maria Gladys (dando ao filme um frescor e uma ousadia que nos remete, pela própria presença desta atriz emblemática, a uma inspiração no Cinema Marginal) com jovens atores de Campina Grande – com destaque para os ótimos Paulo Phillipe e Bruno Oliveira, e o estreante José Victor (criança que está na fila aguardando um transplante de coração, e que é filho de uma aluna de André) – e construiu um filme diante do qual ninguém pode passar impune. E para não desprezar a relevância das atuações, aplausos para a magnífica atuação das atrizes (Gladys, Guta e Letícia) e para o trabalho de Claudio Jaborandy e Paulo Vespúcio (cujo ápice é a cena em que ele ouve do namorado a revelação de sua enfermidade…). Sem a pujança inegável de seu elenco, André da Costa Pinto não alcançaria o resultado que vemos na tela.

Paulo Phillipe e Guta Stresser: irmãos vivendo realidades insólitas…

A fotografia, assinada pelo craque João Carlos Beltrão (assinando sua primeira direção autoral em longa), é um trunfo a mais com composições belíssimas e antológicas, como a cena em que a chuva acontece e cai abundante de significantes e simbologias, compondo com os pombos à beira do telhado uma das imagens mais plásticas do cinema destes dias de tantos efeitos especiais e digitalizações construídas. No filme de André e pela câmera de João Carlos Beltrão, a construção imagética é fruto do olhar sensível, da habilidade em operar a câmera (sem gruas, travellings, e com muita câmera na mão) e do mergulho apaixonado em busca de criar uma história e ofertá-la, da melhor forma, ao espectador.

A plateia silente e respeitosa da primeira exibição no Festival Olhar de Cinema – haverá outra esta tarde -, mostrou com atenção, soluços, risos – nas cenas da personagem Maura, vivida magistralmente por Letícia Spiller) e muitos aplausos ao final, que o filme chegou com seiva para conquistar plateias as mais diversas.

Não é um filme de temática fácil. Não há ajuda de trilha sonora conduzindo a narrativa principal (embora haja três momentos fortes de música, onde
André incorpora composições da conterrânea Val Donato e do músico carioca Nervoso, nome artístico de André Paixão), e há cenas bem fortes de crueldade verbal, desarmonia afetiva, embates familiares, e dificuldades financeiras bem típicas que colocam alguns numa aviltante zona de exclusão. Não são cenas fáceis de digerir, melhor (?) fechar os olhos diante de certas situações tão dolorosas e humilhantes, alguns dilaceramentos d’alma que estão na tela e causam incômodo. Ao final, os letreiros indicam: tudo é baseado em fatos reais.

Paulo Phillipe, Letícia Spiller, Paulo Vespúcio e José Victor: Tudo que Deus criou

Como André conta quando o convidam a debater o filme, da mesma forma singela como explica o seu fazer cinema e sua maneira de ver a vida e enxergar o mundo, como foi o nascimento do roteiro. Mas isso eu vou deixar pra você descobrir quando lhe for dada a chance de conhecer de perto Tudo que Deus criou e seu diretor, o cineasta André da Costa Pinto

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