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Carpinejar lança autobiografia não autorizada

Genial Poeta gaúcho exacerba do direito de ser brilhante e convida para o lançamento dos 2 primeiros capítulos de sua autobiografia...

CARPI livros

Programa obrigatório pros que estão em Porto Alegre e livros que, muito em breve, estarão na nossa biblioteca particular !Bio CpE enquanto espero a oportunidade de adquirir meus exemplares da Autobiografia Carpinejariana, vou lendo e relendo as pérolas do escritor e divido com você, leitor amigo, um pouquinho da grandeza de FABRÍCIO CARPINEJAR, extraído duma crônica de 2004:

O QUE NÃO É ESPELHO É ROSTO*

Sempre fiquei intrigado com quem diz, com mais saliva do que dentes: eu não o leio porque não faz meu tipo. Ou eu não gosto dele porque é concretista. Aquele cara não presta porque é conservador, neo-romântico. Não fui com o jeito de pronunciar o efê daquele autor. As aparências enganam, mas a falta de aparência engana mais ainda.

Há centenas de tipos de letras, mas a maioria ainda continua a escolher a times new roman. Porque é a primeira que aparece. Os hábitos provocam o desaparecimento da personalidade, a rotina preserva a não-existência. Fazer tudo da mesma forma é um jeito quase seguro de não aparecer, de ser invisível. Uma das maldições da prosa e poesia contemporânea é a formação de bandos, tribos, seitas, com o dízimo pago pontualmente nas dedicatórias e epígrafes. Como que isso acontece? Quando a saudável influência vira apostolado. A máxima funciona nos extremos: ou se é de algum time ou não se é jogador. Depois da antropofagia, vem a autofagia, que dá no mesmo. Já se parou para pensar que a tradição pode ser mais repetição do que consistência?

A literatura não é uma religião, não há a figura de um padre ou pai-de-santo ou pastor ou rabino a seguir. É uma solidão dentro do nome. Mais desaforo do que elogio. Mais dúvida do que dogma. Estranheza em estado bruto, inadiável, que inverte a ordem do senso comum, cava contradições, fornece velocidade ao idioma, não serve para enrolar, mas para dizer unicamente o necessário. Um bom livro não adormece, instaura a insônia da alegria, a euforia de ter encontrado a palavra certa para o que vivemos ou podemos viver. O poema, por exemplo, tem que ser simples, não simplório; rápido, não fácil; autêntico, não rebuscado.

Está se precipitando uma guerra pouco santa. Encalha-se no narcisismo desde a leitura. A criação apenas a amplifica. Acredito que se desaprendeu a ler para reafirmar a vaidade da autoria. Todo leitor se transforma em um escritor apressado, louco para se enxergar estampado na capa de alguma brochura. Ou seja, o leitor está mais interessado em escrever do que ler. E ler se converteu em escritura anônima. Segue-se uma receita, com a covardia em preparar o almoço de olho e acrescentar novos ingredientes. Nada disso seria problema, mas acaba-se não sabendo ler o que não é espelho, intimidando possibilidades de transgressão e aventuras na linguagem. O que não é espelho é rosto e muitos se apavoram em olhar de frente os olhos abertos que não os seus. Não se lê outros autores porque se está interessado unicamente em reiterar a identidade. Assim, ninguém lê ninguém, o autor somente se procura em cada livro e não valoriza o que difere de sua voz. Ao invés de multiplicar as diferenças, soma-se as subtrações. A megalomania na leitura gera mais crítica dentro da criação do que criação. Os livros passam a ser ensaios de como se escrever mais do que narrativas e poesias versando sobre o cotidiano. O que era para servir para entrar no mundo assumiu o caráter de fuga do mundo. Os escritores lêem escritores para se amar duas vezes, mergulhando em uma metalinguagem sem bilhete de volta. Esquecem que o público não está interessado em manuais de datilografia ou de poemas falando de poemas. Coroa de flores nunca vai cheirar a flor.

Não aprendi muito na literatura, mas algo me previno: eu não leio para repetir o que escrevo. Nem escrevo para repetir o que leio.

* Fabrício Carpinejar

Poeta consegue se superar constantemente e é um rosário de belezas, formatadas em várias versões, múltiplos afetos e sensibilidade jamais vista em intensidade, extensão e volume… Salve, CARPINEJAR !!!

Porto Alegre e uma Redenção de Saudade…

Gauaíba

Imagem do Astro Rei no famoso rio Guaíba… (foto Joyce MLeão Martins)

“Domingos em Porto Alegre têm um não-sei-o-que de encanto. Não se vestem de tédio. Não espalham poeira nas ruas, enquanto quedamos parados em casa (aliás, nenhuma vontade de ficar em casa !).

Domingo na Redenção 9 jun 13

Não se descolorem como as folhas caídas do outono. Ao contrário, devem ter uma certa intimidade com a PRIMAVERA. Mesmo quando abusam das cores (e dos ventos) do frio, convidam o entusiasmo a passear. Acinzentados ou ensolarados, os domingos aqui costumam vir sempre acompanhados de crianças, cachorros, rapazes, moças e seus cachecóis. E ainda atraem a música, a arte, a amizade, todas ali, juntinhas, a caminhar pelo Parque da Redenção. Coisa mais linda !”

* O texto é de autoria de Joyce Miranda Leão Martins, que também fez a maioria das fotos.

POA jun 13

O Parque da Redenção, em Porto Alegre, num domingo frio de junho…

Redenção junho 13

Porto Alegre é uma cidade que me encanta, desde que a conheci. Gostar não se explica e talvez não saiba mesmo dizer porque gosto tanto da capital gaúcha. Sobretudo depois que minha filha foi morar lá, aí mesmo é que eu poderia ter passado a ‘desgostar’ da cidade… afinal, é meio por causa de Porto Alegre que hoje moro longe dela, minha única filha, amada e tão merecidamente admirada.

Outonal

Uma flor cearense em meio à bela paisagem outonal gaúcha…

ipês

Mas o fato de Porto Alegre ser hoje uma saudade constante e apertada no peito, não me faz gostar menos dela.  Ao contrário: POA passou a ser minha segunda cidade porque a cidade que recebeu de braços abertos e abriga com generosidade, beleza, amigos, outono, flores e folhas o melhor pedaço de mim… embora isso tudo me encha os olhos de lágrimas….

Jardim Botânico

O Jardim Botânico de Porto Alegre: serenidade verde em cenário encantador…

O que me faz imediatamente lembrar-me do genial poeta gaúcho, Fabrício Carpinejar, cuja vocação poética extrapola qualquer pretensão de definir seu talento ou esquadrinhar sua versatilidade exemplarmente tocante, iluminada e iluminadora.

E Carpinejar é então mais um motivo para aumentar meu apreço e meu bem qeurer a Porto Alegre. O Poeta é de tal modo encantado com a cidade, que tem tatuado nas costas o mapa com a planta original da capital gaúcha. Mesmo nascido em Caxias do Sul, Carpinejar é um declarado apaixonado por Porto Alegre. E isso também contribui para meu amor por esta cidade… “Coisas de magia, sei lá…”, como tão bem cantam Kleiton e Kledir, outros dois queridos gaúchos.

Museu de Arte

Ai eu penso em SAUDADE e reproduzo aqui a mais bela crônica que já li sobre o tema. Pra variar, o texto também é de autoria de CARPINEJAR:

Saudade é uma covardia corajosa, uma ansiedade cheia de paciência, uma preocupação despreocupada. É se ofender elogiando outro, é se elogiar ofendendo o outro.Saudade é uma antecipação do abandono. Uma despedida provisória que dói igual a um desenlace definitivo. É um aceno que não entrega a mão ao ar, um cumprimento que não fecha os dedos.A saudade é acordar na sexta como se fosse sábado. É vestir nossa roupa predileta para permanecer em casa. É arrumar a cama para dormir no sofá.A saudade surge antes da saudade. Definimos dentro do fato qual será a lembrança de que sentiremos saudade. Sentimos saudade no meio da experiência.Saudade é uma alegria entristecendo. Porque toda alegria só será definitiva depois da saudade. Depois da tristeza.

livro do Carpi pra mim

Novo livro de Carpinejar, autografado para esta redatora: uma alegria imensa !

E pra fechar, mais uma crônica de Carpinejar, onde nos irmanamos no amor e afeição a PORTO ALEGRE:

“Nunca vai nevar em Porto Alegre, apesar dela acreditar em milagres. Se a cidade fosse previsível, não estaria nela. O Guaíba é um engradado de cerveja. De vez em quando alguma garrafa explode com o pôr-do-sol. E o casco espuma. O vento briga com o vento, como dois cães brincando. Há ilhas em sua volta, uma ilha em volta de ilhas. Amo a possibilidade de caminhar pela cidade a esmo. Posso atravessá-la e não estender a mão. Ir do estádio Beira-rio ao Olímpico e não reclamar do cansaço. Dá a certeza que chegarei em casa. Apanho a cidade com o canto do olho. Não é desesperada, atônica, nem alegre demais, afônica. É uma cidade sábia, como alguém que envelhece e não se aposenta. Em Porto Alegre, é possível pedir uma informação fora do guichê, ficar no banco sem parecer desempregado, cochilar no ônibus e ser acordado no ponto final. Não progrediu agredindo, nem retrocedeu censurando. Ficou do jeito que o último morador a deixou. Fruta que é mais gostosa verde. Porto Alegre foi engolida ainda no pé. Cidade baixa, que não serve aos suicidas. Exibicionistas não encontram trapézio nos viadutos. O viaduto é apenas uma criança subindo no muro. Porto Alegre tem um jeito residencial, mesmo no centro. Infantil, como um jóquei que deixa o cavalo crescer em seu lugar. Há mais lendas do que histórias, pelo estranho hábito de transformar em lenda a falta de notícia. As árvores aparecem de forma suficiente a não percebê-las. Não são numerosas, nem reduzidas, são. As nuvens se concentram em shoppings como balões promocionais. A orla é uma bicicleta, a curva de bicicleta – só cabem dois para olhá-la. Porto Alegre é uma cidade sem segunda-feira, começa tudo na terça. São seis dias por semana. Quem nasce em Porto Alegre recebe um dia de desconto. O domingo de sol cheira a churrasco. Cidade que usa pantufas, não chinelo de dedo […] Não se acorda de noite para comprar um maço de cigarro, até as assombrações têm preguiça. O escuro conserva os vaga-lumes. A vida é como ela não poderia ser. Cidade vaidosa do seu passado mais do que seu futuro. Os recados são deixados nas paredes, não na geladeira. As velhas casas usam quadros-negros. As praças surgiram depois das estátuas. Deus é chamado em caso de urgência. Em Porto Alegre, não existe urgência”.

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Aurora de Cinema e a reverência a um dos mais aclamados poetas gaúchos, Mário Quintana, grande influência na obra de Fabrício Carpinejar…