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O legado ao cinema de um gênio da palavra

Crítico LG de Miranda Leão relembra Alain Robbe-Grillet, cineasta e escritor, papa do Nouveau Roman

Alain Robbe- Grillet: legado importante para a Literatura e a Sétima Arte…

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Cenas do premiado O Ano Passado em Marienbad, com roteiro de Robbe-Grillet
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Alain Robbe-Grillet foi um dos grandes nomes do cinema, falecido de síndrome cardíaca aos 85 anos no Centro Hospitalar Universitário de Caen. Papa do “Nouveau Roman” e um dos grandes nomes da intelectualidade francesa, Robbe-Grillet foi romancista, ensaísta, roteirista e cineasta. Imortal da Academia Francesa de Letras, eleito em 17 de março de 2005, Robbe-Grillet jamais a visitou, nem mesmo para o seu esperado discurso de posse. Sua mágoa maior foi não ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura, quando tantos méritos tinha para isso.

Conforme assinala o jornal espanhol El País, as obras de Alain Robbe-Grillet eram apreciadas por “scholars” franceses tão díspares quanto Roland Barthes e Georges Bataille, e por autores americanos de outras afinidades como o contista John Cheever, o roteirista Rod Serling e David Ely ou como o inglês Rex Warner, citado por A.C. Ward b no seu livro “Longman Companion to 20th Century Literature” (1972).

O derradeiro livro de Robbe-Grillet, A Retomada (“La Reprise”), resgata os temas da tragédia clássica para dar ao novo século, segundo o “L ‘Express” um de seus textos fundadores, numa antevisão invulgar do futuro da literatura. A Retomada é também um dos livros mais inquietantes de Grillet e um prodígio de imaginação, não só pelos diálogos secos de certas passagens e pelas observações numeradas, lembrando notas de pé-de-página para contradizer o narrador, como pelos incidentes com os quais o autor pavimenta o caminho até o fecho surpreendente.

A propósito, cabe transcrever aqui duas citações do romance nele incluídas a título de prólogo. A primeira é de Soren Kierkegaard (1813-55), filósofo dinamarquês, in verbis: “Retomada e recordação são um mesmo movimento, mas em direções opostas; porque aquilo que é recordado aconteceu: trata-se então de uma repetição voltada para o passado, enquanto a retomada propriamente dita seria uma recordação para o futuro”. A segunda é do próprio Robbe-Grillet: “E depois não me venham apoquentar com as eternas denúncias de detalhes errados ou contraditórios. Nesta narração se cuida do real objetivo e não de uma suposta verdade histórica qualquer”.

Nascido em Brest, na Bretanha, em 18 de agosto de 1922, família da classe média alta, capaz de propiciar-lhe educação esmerada em Paris, Alain Robbe-Grillet diplomou-se como engenheiro-agrônomo e estatístico. Fluente em inglês e espanhol (lia bem outras línguas), viajou praticamente por todo o planeta e morou muitos anos em Hong Kong, onde encontrou inspiração para seus romances. Esteve no Brasil algumas vezes e conheceu várias cidades do sul do país e da Argentina. Foi presença marcante em seminário de literatura realizado em Buenos Aires, destacando-se pela atenção dada a quem lhe fazia perguntas e pelo nível de suas respostas, sempre esclarecedoras e convincentes. Em 1976 esteve em Salvador, Recife e Fortaleza, debatendo nesta cidade aspectos do “nouveau roman” com professores das universidades Estadual do Ceará (UECE) e Federal do Ceará (UFC), tendo deixado a melhor das impressões como intelectual de vanguarda. Também participou como um dos juízes do II Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, quando aproveitou a oportunidade para falar sobre o mesmo tema na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo sido bastante aplaudido. Sobre sua estada na então Cidade Maravilhosa, afirmou levar algumas de suas melhores recordações de viagens. Impressionou-se com a topografia da urbe e as praias, onde a beleza da mulher brasileira não poderia lhe passar despercebida.

PRESENÇA NO BRASIL

A propósito da permanência do mestre francês no Brasil, o acadêmico Eduardo Portella, ex-ministro da Educação, escreve excelente artigo sobre o “nouveau roman” e dele nos servimos de alguns pontos-chave para esclarecer os leitores pouco familiarizados com “estas formas romanescas capazes de exprimir (ou de criar) novas relações entre o homem e o mundo e entre todos quantos se decidiram a inventar o romance, vale dizer, a inventar o homem”. Esse compromisso com a invenção, diz Portella, é a prova de identidade artística de Robbe-Grillet, daí o motivo pelo qual ele recusa toda teoria prévia da literatura. Em lugar do romance “feito”, acabado, anterior ao seu próprio lazer, Robbe-Grillet coloca o romance em processo no qual “o nouveau romancier” não se sente traído pelos elementos convencionais da intriga romanesca: o personagem, o enredo ou o meio.

Para Robbe-Grillet, a literatura de nossa época – problemática, imprevisível -, não pode ser “a imagem de um universo estável, coerente, contínuo, unívoco, inteiramente decifrável: esse mundo deixou de existir”. “Quem afirmar o contrário”, lembra Portella, “estará exprimindo uma dolorosa ingenuidade ou não quer entender as coisas como realmente são”. Daí a nova organicidade do “nouveau roman”, a conveniência de uma estrutura aberta, na qual a perspectiva do próprio leitor seja um ingrediente ativo da composição. Não foi sem alguma propriedade a denominação de “école du regard” dada por Robbe-Grillet. Ou seja, o número desse novo romance está onde momentaneamente se localiza o ângulo de visão ou de apresentação, onde o ponto-de-vista é o agenciador da estrutura. Robbe-Grillet diz: “Não pretendo elaborar mensagens e sim estabelecer vias de comunicação com o leitor e fazê-lo meditar sobre o mundo contraditório e sem sentido algum dentro do qual vivemos”.

“O que Robbe-Grillet quer afirmar”, esclarece Portella, “é que o novo romance não preexiste ao romance tradicional, pois “as coisas não são claras no momento da decisão”. A propósito, Portella cita a observação de Roland Barthes segundo a qual “o novo romance ensina a olhar o mundo não mais com os olhos do confessor, do médico ou de Deus(?), todas essas hipóstases significativas do romancista clássico, mas com a visão de um homem que anda pela cidade sem outro horizonte que o espetáculo, sem outro poder que aquele mesmo dos olhos”. Deve-se basicamente essa posição ao papel preponderante exercido pelos objetos na obra de Alain Robbe-Grillet, ou seja, ao “chosisme”. Vários críticos já interpretaram sociologicamente essa presença agressiva dos objetos como uma atitude desindividualizadora, como a percepção aguda do nosso horizonte social, planetário e de massa. Insistiu-se psicologicamente em ser essa fixação neurótica dos objetos o reconhecimento patético do fracasso de uma civilização capaz de transformar seres em coisas, de coisificar os homens, a existência.

LIVROS

Bastante marcado pelas técnicas do cinema, não admira terem sido chamadas de cine-romances as obras literárias de Robbe-Grillet, o qual parece buscar na Sétima Arte seu principal meio de expressão. Observe-se, por exemplo, como joga magistralmente em “O Ciúme” com o duplo significado de “jalousie”, ciúme e persiana.

De qualquer modo, importa relacioná-las. O primeiro romance do Papa do Nouveau Roman foi Les Gommes (The Erasers”) – Os Apagadores (1953), o qual criou as bases dos seus trabalhos iniciais, seguindo-se-lhe Le Voyeur (A Espreita) (1955), “La Jalousie” (O Ciúme) (1957), “Dans le Labyrinthe” (1959), “Pour un Nouveau Roman” (ensaio sobre uma literatura do olhar nos tempos de reificação) (1963), “La Maison de Rendez-Vous” (A Mansão dos Encontros” (1965), “Projet pour une Revolution à New York” (1970), “Topologie d’une Cité-Fantôme” (Topologia de uma Cidade-Fantasma) (1976), “Les Derniers Jours de Corinthe” (1994) e “La Reprise” (2002). Com suas belas obras literárias, ensaios, palestras e filmes, Robbe-Grillet agitou a literatura francesa e projetou vários escritores da hierarquia de Nathalie Sarraute, Michel Butor e Claude Simon.

E assim abriram-se caminhos para o cinema de vanguarda, como veremos a seguir, quando lembraremos a criação de L’Année Dernière à Marienbad, Leão de Ouro no Festival Internacional de Veneza (1961).

L.G. De Miranda Leão*
*Professor de Língua e Literatura Americana, jornalista e Crítico de Cinema