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O Bandido da Luz Vermelha leva Helena Ignez a Roterdã: atriz será homenageada num dos principais festivais do mundo

O professor Gabe Klinger, radicado nos States desde criança,  é um dos curadores, ao lado do holandês Gerwin Tamsma, da mostra A Boca do Lixo, uma seção especial do Festival de Roterdã, a ser aberto semana que vem na Holanda, e prosseguindo até 5 de fevereiro.

Um dos principais do mundo, o festival vai homenagear o cinema marginal produzido em São Paulo entre o fim dos anos 1960 e meados dos 1980. Serão exibidos 16 filmes, de títulos sugestivos como “Fuk fuk à brasileira”, de Jean Garret; “Orgia ou o homem que deu cria”, de João Silvério Trevisan; “Oh! Rebuceteio”, de Cláudio Cunha; e, claro, “Senta no meu, que eu entro na tua”, de Ody Fraga —todos agora enxergados como cult no exterior, mas praticamente ignorados em seu país de origem, o Brasil.

A Boca do Lixo era o termo utilizado para se referir a uma região no centro da cidade de São Paulo onde funcionavam produtoras, distribuidoras e empresas de equipamento cinematográfico, mais ou menos no local que hoje é chamado de Cracolândia. Seus filmes nunca tiveram uma temática única, mas foram associados aos movimentos do Cinema Marginal e da Pornochanchada.

Só que, no cinema produzido na Boca, foram feitos faroestes, melodramas, kung-fus, comédias eróticas e qualquer outro tipo de obra de baixo orçamento com caráter popular. Seu principal cinema era o Cine Marabá, uma sala bonitona que servia como palco para a estreia dos filmes daquela turma.

— O que a gente ganhava num filme, gastava no próximo, sempre procurando melhorar o nível artístico e profissional — afirma Cláudio Cunha, diretor de “Oh! Rebuceteio” e “Snuff, víimas do prazer” (ambos incluíos na mostra de Roterdã, que vai viajar para o festival holandês) .  Além de Cunha, destacaram-se diretores como Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias, Ody Fraga, Rogério Sganzerla, David Cardoso e José Mojica Marins.

Uns faziam filmes de vanguarda; alguns, aventuras comerciais; outros, comédias eróicas. Na lista do Festival de Roterdã estão “A margem”, de Candeias; “O império do desejo”, de Reichenbach; “O despertar da besta”, de Mojica; e “O Bandido da Luz Vermelha”, de Sganzerla.

Obra-prima de Sganzerla, O Bandido desperta cada vez mais a atenção do mundo…

A Cinemateca Brasileira ajudou na restauração de algumas das cópias.A maioria dos filmes nunca havia sido legendada antes, e um dos trabalhos mais áduos da equipe da mostra foi traduzir alguns dos tíulos selecionados. “Fuk fuk àbrasileira”, por exemplo, virou “Fuk fuk Brazilian style”. Já no caso de “Oh! Rebuceteio”, nã foi encontrada uma tradução apropriada.

—O cinema da Boca do Lixo é uma alternativa interessante ao Cinema Novo porque tem mais a ver com a realidade urbana contemporânea do brasileiro —explica Klinger. —A primeira ideia de Roterdã era fazer uma mostra sobre o sexo no cinema brasileiro. Mas aí percebemos que o recorte de filmes da Boca do Lixo era mais interessante, com mais a se debater. Há obras que exploram o sexo, e outras que mostram a realidade mais triste do brasileiro.  Além disso, é uma maneira de exibir São Paulo no exterior. A imagem mais comum que se tem do brasileiro internacionalmente é a do Rio, nunca a de São Paulo. O curioso quanto ao cinema da Boca do Lixo é que sua incessante busca pelo sucesso foi também a responsável por seu fim —e ainda serve de explicação para o preconceito existente hoje contra parte daqueles filmes. Durante os anos 1970, alguns de seus cineastas passaram a optar por incluir cenas de sexo explícito, principalmente após “O Impéio dos sentidos”, do japonês Nagisa Oshima, ter recebido autorização para chegar à telas brasileiras a partir de uma medida judicial. Por conta do polêmico filme japonês, os diretores da Boca descobriram o caminho do sexo e das medidas judiciais. E conseguiram exibir seus filmes com toda a sacanagem que pudessem imaginar.

A intenção era atrair cada vez mais púlico. Mas também afastou as famíias das salas e fez com que o cinema brasileiro ficasse marcado pelos anos seguintes como um cinema baixo, sujo e apelativo.

—A censura atacava por um lado, e a banda podre da mídia, por outro. Chamavam todos os nossos filmes de “porno” alguma coisa. Era pornodrama, pornocomédia, pornochanchada ou pornoterror. Eu fiz o “Sábado alucinante”e chamaram de pornodiscoteca —lembra Cládio Cunha. —Foi isso que acabou com o nosso cinema. Nó deixávamos os departamentos de censura com os filmes retalhados e depois enfrentávamos uma mídia que nos tratava como marginais.

Agora, após a homenagem em Roterdã, essa história pode ser revista. Gabe Klinger pretende aproveitar as novas cópias dos filmes e levar a mostra para outros cantos do mundo, sobretudo para o Brasil. Seria uma maneira de resgatar um gênero que foi taxado com vários nomes pejorativos. Mas que, sobretudo, deveria ser lembrado como uma importante escola do cinema brasileiro.

* Reportagem de André Miranda, do Globo

Amazônia vira Jóia de Cinema na criação de RITA PROSSI

A estada no Amazonas por conta da oitava edição do Amazonas Film Festival teve alegrias de muitas cores, conversas ricas e diversificadas, passeio de barco para ver o monumental encontro entre os rios Negro e Solimões, o contato com a deliciosa culinária amazonense, o convívio com Damas da categoria de Helena Ignêz, Alice Gonzaga e Tânia Carvalho, uma passagem pela Casa Cor, e uma visita obrigatória ao Museu do Homem do Norte, além de uma parada ‘estratégica’ na loja de BioJóias da artista Rita Prossi – indicada por Cervantes Sobrinho.

A atriz Helena Ignêz, famosa como Musa da emblemática produtora Belair e grande inspiradora da melhor fatia do Cinema Marginal, já conhecia a fina produção de Rita, e até circulava com peças da artista. Quis voltar para apreciar as novidades e eu tive a alegria de ir à loja PROSSI com ela e Alice Gonzaga, uma mulher sempre disposta a qualquer passeio e ótima companhia para qualquer ocasião.

Pois aproveitamos a manhã da terça ‘folgada’ em Manaus e fomos até a loja de Rita Prossi no Centro de Artesanato da antiga rua Recife.

Saímos de lá encantadas com a beleza e refinamento das peças.

Helena Ignêz lembrou que a filha Sinai esteve lá ano passado e saiu abarrotada de belos exemplares daquela artesania tão especial e singular de La Prossi. O slogan da marca é sugestivo: “A nossa história tornou-se lenda; as nossas lendas viraram mitos e os mitos… viraram jóias”.

Nas jóias de Rita Prossi, é comum encontrarmos sementes de paixiubão; semente de tucumã em colares e pulseiras; a folha de bananeira, de maná e de tajá enriquecendo a artesania que promove a riqueza amazonense; peças inspiradas no traje da onça pintada; sementes de jarina com letras e signos; e até um exótico Pingente tucunaré com couro de peixe. Enfim, se você gosta de jóia ou pretende dar um presente de valor a uma pessoa querida, será de bom proveito conhecer as criações originais de Rita Prossi.

A griffe tem bastante fama na cidade e já levou as preciosidades de suas coleções até para exposições no exterior, sempre atraindo atenção e despertando interesse. Portanto, para quem aprecia Jóias de caráter artesanal, defende a ética da qualidade de vida e do respeito ao meio ambiente, um bom caminho no Amazonas é conhecer as encantadoras coleções de Rita Prossi.

Joalheira Rita Prossi participa de evento na Alemanha

Caso não tenha nenhuma viagem agendada praquelas bandas nem pretenda ir por estes meses pra Manaus, não se aflija: você também pode adquirir as criativas peças através da internet.

E pode ter certeza: Vale a pena !

O Aurora de Cinema recomenda, com louvor, as Jóias de RITA PROSSI

Em visita à loja de Rita Prossi, Helena Ignêz é recebida por MrElizeu Souza, parceiro de Rita…

Saiba mais sobre as jóias de RITA PROSSI

A empresa amazonense R.de c. Mendonça Prossi, mais conhecida como Rita Prossi, é pioneira na utilização do manancial da floresta amazônica na confecção de jóias bio-ecologicamente recomendáveis.

Através de pesquisas, e inspirados pelas lendas amazonenses, a griffe de jóias RITA PROSSI contribui para a promoção da riqueza auto-sustentável da Amazônia, atuando com extremo respeito ao meio ambiente. Com um design singular e inovador, de qualidade confirmada pelo naipe de pessoas que consomem e divulgam a griffe, Rita Prossi hoje é uma marca que constrói sua história pela qualidade de suas criações e a delicadeza das peças que viram jóias apreciadas em todo o mundo.

A empresa trabalha com mão-de-obra exclusiva de Manaus, através de uma vasta cadeia produtiva, unindo tecnologia, material qualificado, ousadia e sensibilidade nas criações,  além de competência no métier e dedicação aos clientes, valendo-se dos mais variados matizes da cultura amazonense para fazer o visitante levar não só uma peça artística mas um pedaço da Amazônia em forma de jóia para ser exibida e apreciada em qualquer  local onde a elegância for o enfoque principal.


 
A pesquisa que a equipe Rita Prossi realiza com os materiais a serem utilizados é por conta de garantir qualidade à produção: testes sçao realizados para garantir que o material a ser utilizado não apresentará problemas futuros, tanto no meio ambiente, como também no decorrer do uso das peças.

A produção Rita Prossi integra uma vasta cadeia: o índio, que tece a palha ou colhe a semente; o artesão que limpa, lixa e corta a semente; a design criadora do modelo; o ourives, responsável pela produção; os “pedristas”, fornecedores das pedras; os “cravadores”, que cravam essas pedras na montagem das peças; as índias do alto Rio Negro que produzem as embalagens (feitas a mão); e, por fim, os funcionários que distribuem para as lojas e revendedores.

A empresa RITA PROSSI atua nessa cadeia produtiva, beneficiando projetos de oficinas para organização de trabalhos indígenas e artesanais, contribuindo para a transformação desse material, fruto da riqueza e diversidade da região amazonense, num sistema sustentável e promissor para os habitantes da Amazônia e pra todos quanto sabem da relevância e necessidade de se proteger e preservar a Floresta. 

Aurora Miranda Leão, MrElizeu Souza, Helena Ignêz e Alice Gonzaga em manhã de jóias amazonenses…
 

* Com a visita de Helena Ignêz mais uma vez à loja de Rita Prossi em Manaus, a estilista de jóias comprometeu-se a criar uma coleção especialmente dedicada ao novo filme da atriz e diretora, que terá cenas rodadas no Amazonas.

Uma parceria inteligentemente refinada, que promete novos e muitos bons momentos.

Para saber mais, consulte: http://www.ritaprossi.com/conhecanos.htm

A propósito do Resta Um…

Porque o RESTO é sempre MAIOR que o Principal 

Estávamos todos contagiados. O mesmo sentimento de euforia e entusiasmo contagiou a mim, Ingra Liberato, Rosamaria Murtinho, Miguel Jorge, Rogério Santana e Alex Moletta naquela agradável noite goiana, ancoradouro privilegiado para nossa emoção, transformando em vibração entusiástica os pilares e preceitos nos quais se ergueu a Belair. A calorosa sensação de ter encontrado alguma coisa que parecíamos buscar há tempos, invadiu o espírito de todos, e nossa vontade era sair abraçando cada um, como dizia a inspirada letra de Chico : “Era uma canção, um só cordão, uma vontade, de tomar a mão de cada irmão pela cidade”… Sim, era como se, a partir das contundentes e belas imagens garimpadas por Bruno Safadi e Noa Bressane, tudo começasse a criar sua própria lógica e os sentidos eregiam conexões absolutamente inovadoras, criando sensorialidade onde antes havia interrogação e tédio. Uma incisiva sintonia aflorou e o rosto de cada um estampava fulgores até então impensáveis.

Capital goiana foi a concha envolvente que abrigou o RESTA UM

Assim, foi-se desenhando com mais clareza a idéia inicial de fazer um registro imagético do inesperado encontro em Goiânia, cidade aprazível demais para deixarmos perder-se nos desvãos do andamento voraz do cotidiano, próprio da modernidade líquida onde estamos imersos(tão bem definida pelo sábio sociólogo Zigmunt Balman).

Miguel Jorge, Ingra l.iberato, Alex Moletta, Aurora, Rogério Santana, Rosamaria Murtinho e Débora Torres: cada um, a seu modo, contribuindo pro RESTA UM

Qual deveria ser o próximo passo então ? Como alinhavar os elos das intersecções que fomos amealhando ao longo daqueles dias, arejados de imagens e plenos do oxigênio das afinidades que se impõem pela naturalidade de ideais siameses ? Como traduzir pelo gesto da palavra e a alquimia do olhar análogo aquela luminosidade que nos arrebatava e intrometia-se em nossas conversas, todas as horas, noite adentro ? Como significar a eloqüência do instantâneo entrosamento em Goiânia e o contato absolutamente conversor expresso no encontro com a Belair ? A Belair de Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignêz…

Cineasta Júlio Bressane, inspirador do clima nas gravações do Resta Um

As idéias então foram tomando assento: no restaurante do hotel, na van que nos conduzia ao cinema, nas cadeiras da sala de exibição, nas trocas de assunto a palpitar quando, a maioria de nós, assumia a função de jurados.

Então Samuel Reginatto, imagem da alegria numa única noite de cinema e festa, se juntou a Júlio Léllis, cineasta amante da Literatura e da sensatez; e se somou à disponibilidade integral de Ingra Liberato, ganhando a benfazeja cumplicidade de Rosamaria Murtinho; e conquistou Miguel Jorge, sábio escritor que de imediato aderiu à nossa idéia de fazermos um filme; e chegou até a Alex Moletta, ator e roteirista a nos encher de ânimo e verdade; e encontrou guarita em Débora Torres, chegando até Rogério Santana, e extrapolando fronteiras para ganhar Sílvio Tendler, Henrique Dantas e o próprio Bruno Safadi. 

Assim, em apenas cinco dias de absoluta imersão no universo da Sétima Arte, do qual Goiânia é âncora todos os novembros, foi gestado o Resta Um, curta-metragem agora ofertado para o olhar, a mente e o coração de quem estiver na platéia ou com este texto em mãos.

Resta Um é um curta digital, colorido, tem 19’25”, roteiro e direção de Aurora Miranda Leão. Ingra Liberato é a presença mais constante, embora não possamos dizê-la “personagem principal” ou protagonista. Isso não existe nos filmes Belair. Lá como cá, os atores não representam mas valem pelo que representam, como nos diz Antônio Medina Rodrigues, e aí a cabeça do espectador tem todo o controle e pode optar por entender o que quiser. O que pra uns pode estar explícito, para outros pode ser apenas um jogo do roteiro ou uma insinuação da direção.  

A imagem icástica de Ingra Liberato a ilustrar o cartaz, bem como o material de divulgação do filme, mostra o indicador da atriz apontando… como a indicar que Resta Um

O que resta encontrar então neste novo filme que Aurora Miranda Leão ora nos oferece ? 

O que resta pode ser você, espectador, que não participou das filmagens e não conviveu com o grupo formado em Goiânia. Resta você que entende a intenção da obra ou resta você que vai sair do cinema perguntando sobre o que é mesmo que viu e qual o sentido deste filme. 

Resta Um filme a ser feito, um fotograma a ser exibido. 

Resta Um desejo de falar da vida e contar da alegria através do cinema. Resta Um desejo de contagiar e fazer coro ao convite de Sílvio Tendler para tentar fazer mais gente entrar nesta canoa. 

Resta Um ator que não estava nas filmagens, um vinho que não foi tomado, e um beijo que não foi roubado. Resta você que se pergunta sobre o sentido deste filme, resta você que poderia ter dado um depoimento. Resta Um espectador que chegou atrasado e um diretor que não foi convidado.

Resta Um convite que não foi aceito e um amor que não se realizou. Resta Um filme que não foi feito e um roteiro inacabado, um caminho a ser seguido e um piano esquecido no canto da sala. 

Resta Um punhado de bons filmes a ver e belas músicas pra ouvir.

Resta Um violão que emudeceu e um canto de passarinhos que não se reproduziu.   

Resta Um carinho esquecido, um afago a ser lembrado e um afeto nunca recebido.

Resta Um filme a ser visto, um aplauso a ser ouvido e um som a ser imitado.

Resta Um enquadramento por fazer, um som e uma luz em sintonia.

Resta Um coração a ser tocado, um amor a ser encontrado.

Resta Um barco no oceano e um barco-olho rumo ao infinito.

Resta Um motivo a mais para se cultivar a ética, um passo a mais a ser dado, um gesto a menos a ser esquecido.

Resta Um belo quadro na parede, flores viçosas na varanda e um roteiro a ser escrito.

Resta Um canto triste a embalar a solidão e um tango sempre disposto a tocar.

Resta Um coro de pássaros a anunciar uma manhã na qual os jornais só estampem boas notícias e um amor de pai e mãe que nem a dor da ingratidão abafou.

Resta Um gol argentino a ser aplaudido, um drible de Messi a ser imitado e uma canção de Lupicínio ecoando na sala. 

Resta Um desvario a ser socorrido, um cotidiano de sonhos a percorrer o imaginário e um arrojo de Kubrick a ser lembrado. 

Resta Um quadro de Picasso a querer ver, um Renoir ainda intacto, um Rembrandt pra quem desconhece as nuances da cor e um bolero de Ravel acordando as madrugadas douradas. 

Resta Um caminho novo a buscar, uma ousadia nova a perseguir e um lixo amontoado na calçada que Vik Muniz precisa transformar. 

Resta Um samba em homenagem à nata da malandragem, um swingue de Gil e Mautner, um ator com a competência de Mauro Mendonça, um desejo de ouvir a contagiante gargalhada de Zéu Brito e mais algumas pérolas de Wisnik.

Resta Um canto feliz de andorinha a sonorizar a espera tão acalentada, e um movimento de Tchaikovsky tocando pra quem não tem medo da música clássica. 

Resta Um texto de Rubens Ewald Filho pra ler, um poema de Jorge Salomão que não nos sai da cabeça, um personagem para Fernando Eiras interpretar e um ator da grandeza de Emiliano pra gente ensinar aos que ainda vão chegar.

Resta Um brilho no olhar da criança esquecida nas madrugadas soturnas das grandes cidades, e um brilho de esperança no gesto de quem vivencia a solidariedade. 

Imagem de Aos Pés, premiado curta do cineasta gáucho Zeca Brito…

Resta Um take a mais de Zeca Ferreira, mais um documentário que Gui Castor está a concluir, uma nova inquietude imagética de André da Costa Pinto, e um novo mergulho nas invenções fílmicas de Zeca Brito.

Resta Um outro Benjamim de Gardenberg para Paulo José, um outro Suassuna para Nachtergaele, um texto com a concisão de Carlos Alberto Mattos, um novo documentário com a assinatura de João Moreira Salles e o precioso olhar de Coutinho.

Resta Um livro a ser lido e um grande autor a ser celebrado. 

Resta Um disco bonito na vitrola, um guardanapo com um poema que a noite revelou, um lenço para amparar lágrimas de amor. 

Resta um quadrilátero de paixão nas esquinas nas quais ela em vão aguardou um adeus. Resta Um um sinal de que a vida é o bem maior. 

Resta Um poeta que a noite teima em querer despertar e um silêncio revelador que o ouvido atento antevê. 

Resta Um desassossego da alma em desalinho pela paixão que arrebata e se intromete nas horas mais improváveis.

 

Resta Um violão dedilhando Bossa Nova e um bar em Ipanema rememorando Vininha.

Resta Um choro de flauta aguardando Pixinguinha e um verso ousado de Clarice, Coralina ou Adélia Prado.

Resta Um solo de Toquinho, uma marchinha do Lalá, um twiiter de Carpinejar e um olhar acurado de Caetano que a manhã precisa revelar. 

Resta Um minuto para que possamos afirmar a palavra necessária e um espanto ante à embriaguez do luar. 

Resta Um comovido apelo à Paz e uma busca incessante pela alquimia dos grandes amores. 

Resta Um olhar sempre atento à obra de Truffaut e à dramaturgia de Fassbinder, um interesse crescente pelo bandoneon de Piazzolla e um espanto ante à indiferença da sociedade do descartável. 

Resta Um motivo sempre novo para ver Fernanda representar e reler a grandeza necessária de Ibsen. 

Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis e um incontido apego aos lugares onde a emoção fez amigos e plantou saudades. 

Resta Um cantinho, um violão, um microfone para celebrar Mário Reis e um anseio de ouvir cantar como Francisco Alves. 

Resta Um filme de Bressane a ser visto e estudado e um olhar acurado sobre a cinematografia inspiradora da Belair. 

Resta Um dilacerante silêncio ante a brutalidade do desaparecimento de John Lennon e um inexplicável mal-estar ante as ingerências nefastas da política no cotidiano. 

Resta Um infinito e revolucionário desejo de se perpetuar nos fotogramas que hoje são pixels nas alquimias da edição digital, tão rápida e eficiente que nos faz brincar com as horas e achar graça da facilidade de criar temporalidades diversas, fazer andar pra frente e retroceder nos ponteiros de nossa imersão cotidiana. 

Resta Um constante e permanente desejo de continuar abraçando o cinema brasileiro e um desejo intermitente de ouvir o som paralâmico da guitarra de Herbert Vianna

Resta Um olhar para A Última Palavra, aquela que nos tirará do dilema profundo que parece nos atar ao nada existencial. 

Resta Um indormido desejo de expressar-se e traduzir em imagens o que vai n’alma e no pensamento. 

Resta Um permanecente intuito de reaprender a amar pra não morrer de amar mais do que pude. 

Resta, sobretudo, essa vontade enorme de acertar e prosseguir fazendo cinema e apostando em coisas nas quais acreditamos, sejam elas concludentes ou não. 

Resta ademais um desejo de falar de vida, o aconchego do abraço amigo nas noites eternas, e a ânsia de chegar a um tempo onde a ingratidão morra de sede, a indiferença naufrague de tédio, a injustiça definhe por inanição e a estupidez se envergonhe de existir… 

Porque, enfim, Resta Um desejo de amar e ser amado

Amar sem mentir nem sofrer

Desejo de amar sem mais adeus…

Até, quem sabe,

Resta Um desejo de morrer de amar mais do que pude. 

Enfim, Resta Um anseio de que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. 

* O título deste artigo e as palavras finais nos foram inspirados por textos do cronista Artur da Távola, bem como as citações óbvias aos versos do saudoso poeta Vinícius de Moraes

Seguindo o espírito BELAIR…

Dentre os tantos aspectos relevantes a se notar no curta RESTA UM, há um praticamente impossível de não se destacar quando nos detemos em suas sequências: o caráter de documento de seu tempo. Assim nas produções da BELAIR, assim em RESTA UM.

Ademais, elementos clássicos do cinema produzido pela BELAIR (produtora que durou 3 meses, em 1970,  durante o regime de exceção que imperava no Brasil, e que realizou 7 longas-metragens) – cujos gritos revolucionários ainda ecoam no cinema brasileiro, mesmo sem a propagação de seus filmes – estão neste RESTA UM, curta que as produtoras Aurora de Cinema e Cabeça de Cuia Filmes acabam de finalizar, como o uso da câmera de mão, as filmagens na rua, a mescla de imagens (filmadora, tevê e celular), o estranhamento através de imagens destoantes, desfocadas, sons propositadamente incômodos ou mal definidos, personagens que não representam mas valem pelo que representam, intertextualidade constante, bebendo na fonte de outras referências imagéticas – como na apresentação de cenas de outros filmes -, deixando claro ser a referência proposital e ancorada numa forma autoral de expressão.

O choque como recurso estético, tão freqüentemente utilizado pela Belair (produtora criada pelos cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla), em quem a obra se inspira e a quem pretende homenagear, também se verifica em Resta Um, de Aurora Miranda Leão. Isso fica patente desde o início, quando o apito inconveniente do elevador, azucrina o ouvido da atriz Ingra Liberato e o de quem a acompanha na sala de projeção. E se condensa na tomada do barco-olho que adentra, com barulho (capaz de provocar estranhamento instantâneo), o oceano na tomada inicial (clara referência ao documentário Belair, de Bruno Safadi e Noa Bressane, grande inspirador deste curta).

Numa aparente dessintonia entre as sequências, Aurora vai construindo uma narrativa cheia de percalços, inconclusões, desconexões, onde vida real e ficção (?) se entrecruzam em associações com elementos ícônicos e intertextualidades profícuas, como as que bem ilustram o depoimento lapidar do cineasta Sílvio Tendler.

A homenagem a Júlio Bressane e o legado da Belair aos poucos se insinua, delicada e espontaneamente, nas filigranas que perpassam a anti-narrativa. Esse dado às vezes fica bem explícito, como na sequência a mostrar a noite carioca, em movimento de câmera oscilante e com nitidez rarefeita. Ou ainda através do take no qual se percebem amigos dançando numa discoteca ao som de “Queixa”, de Caetano Veloso, artista de estreita sintonia com o universo bressaniano. E, sobretudo, na sequência em que INGRA protagoniza homenagem explícita à cena de A Família do Barulho, na qual a câmera se fixa bastante tempo na atriz Helena Ignêz, que aparece em close, até chegar ao momento em que escarra “sangue”. 

Outro dado a saltar aos olhos e assolar o intelecto é o fato de o curta preservar, com propriedade, a característica mais marcante da produção Belair, qual seja filmar entre amigos e o enorme prazer daí advindo. Porque até o espectador mais leigo registra, sem dificuldade, que todas as pessoas envolvidas em Resta Um lá estão por absoluta vontade e adesão ao projeto inicial, dado prazerosamente afirmado no espontâneo depoimento de Ingra. Também a alegria que ilumina o rosto quando o escritor Miguel Jorge aparece e o semblante sereno e internamente feliz de Rosamaria Murtinho são reveladores deste prazer de estar entre amigos e experimentar cinema. E assim como a ironia pensa uma coisa e diz outra, a diretora de Resta Um aparece em seu próprio filme, criando uma instigante dissonância cognitiva, ao criticar, ela própria, o fazer cinema que contagia jovens de hoje e de ontem, de todas as idades. Como diz a pesquisadora Olgária Matos (professora de Filosofia Política da USP): “Nos filmes de Bressane, as personagens oscilam entre a lucidez e a evasão fora da luz. Na ausência de qualquer razão profunda de viver, os filmes advertem para o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento”.

Martha Anderson e Grande Otelo em O Rei do Baralho

Júlio Bressane trabalhou sempre com orçamentos modestos, equipes pequenas, filmagens rápidas e muita invenção, e desenvolveu ao longo dos anos um dos traços mais fortes de sua cinematografia: o intertexto artístico, tão bem captado em Resta Um.

A liberdade radical de experimentação, talvez o maior legado da singular e riquíssima cinematografia de Bressane, é o que mais aflora neste Resta Um de Aurora Miranda Leão. Afinal, como bem diz Bressane, a câmera na mão fora da altura do olho, jogo de foco, câmera giratória, ab-cenas, o infrasenso da linguagem: a câmera filma a própria equipe que filma, o “atrás da câmera”, o som direto com todas as interferências circum-cena, o diretor dirigindo o (in) dirigível etc etc… Tudo isso, toda esta escolha, todas estas figuras, todo este procedimento, toda esta concepção de produção e expressão, tudo é olho Belair. Não há isto no cinema novo. É depois do cinema novo. É Belair.”

RESTA UM… Divulgadas Primeiras Imagens

     RESTA UM… ficou pronto… Filmagens foram realizadas em Goiânia, em novembro passado, por ocasião do VI FESTIVAL NACIONAL DE GOIÂNIA do CINEMA BRASILEIRO…

RESTA UM é uma parceria Aurora de Cinema e Cabeça de Cuia Filmes

INGRA LIBERATO  é a estrela. ROSAMARIA MURTINHO, a ATRIZ especialmente convidada.

FILME é uma declarada HOMENAGEM a Júlio Bressane, nosso cineasta mais singular, o erudito do Cinema Brasileiro, que revolucionou nossa cinematografia a partir dos filmes instigantes e semimais que realizou, como Cara a Cara, O Anjo Nasceu, e MATOU A FAMÍLIA e FOI AO CINEMA…

INGRA LIBERATO: novo trabalho, sob direção de Aurora Miranda Leão, tem declarada inspiração na atriz HELENA IGNÊZ, musa da produtora BELAIR, que fez o maior buchicho no país em 1970…

Parceria BRESSANE x SGANZERLA…

* Depois explicamos melhor… Aguardem novos posts…

RESTA UM…………