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Ao filmar Alice Gonzaga, Betse de Paula dialoga com Umberto Eco e agiganta nossa alma !

                                                                                                      *Aurora Miranda Leão

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Novo filme de BETSE DE PAULA abre esta noite a Mostra de Ouro Preto

“Já tá gravando, então volta que eu vou caprichar melhor !”

É assim que Alice Gonzaga diz para a cineasta Betse de Paula quando esta começava a gravar na CINÉDIA as imagens inaugurais com a notável pesquisadora para levar adiante o projeto do documentário DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA, que esta noite abre a Mostra de Cinema de Ouro Preto.

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Alice é assim, uma mulher multicor, híbrida, uma composição de várias facetas, espontaneidade e bom humor sempre a postos !

Recebo o trailer que a AURORA CINEMATOGRÁFICA está a lançar no Vimeo e me emociono com a grandeza do filme que Betse de Paula realizou. E logo me vem as palavras de Edgar Morin:

“Literatura, poesia, cinema, psicologia, filosofia deveriam convergir
para tornar-se escolas da compreensão. A ética da compreensão humana
constitui, sem dúvida, uma exigência chave de nossos tempos de
incompreensão generalizada: vivemos em um mundo de incompreensão
entre estranhos, mas também entre membros de uma mesma sociedade, de
uma mesma família, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais. […] A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos
os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas
alegrias. É a partir da compreensão que se pode lutar contra o ódio e a exclusão.”

Não, eu não vi o filme ainda, mas esse trailer super bem editado é o prenúncio de um documentário de escol, que tenho certeza, a cineasta carioca realizou.

Sabendo de antemão da qualidade artística de Betse, que tem filmes ótimos como a comédia Vendo ou Alugo e o precioso documentário sobre Sebastião Salgado – além de ter uma carreira marcada por aprendizados com mestres do quilate de Jean-Claude Carrière, Doc Comparato, Joaquim Pedro de Andrade, e Syd Field -, Betse de Paula coleciona prêmios. São estatuetas de vários festivais de cinema do país e também do exterior. Todas são prova da competência e vocação de BETSE de PAULA para a Sétima Arte.

Saber que Alice Gonzaga vai chegar em breve às telas de todo o país a bordo desse filme-emoção que é DESARQUIVANDO ALICE é por si só uma alegria. Constatar que minha amiga querida vai ganhar a telona pelas lentes e o olhar acurado de Betse de Paula é muito mais que uma alegria: é um chafariz a espargir emoção !

O que Betse de Paula conseguiu ao realizar um documentário sobre Alice Gonzaga tem uma grandeza que só pertence aos que militam no território da emoção.

O trailer da Aurora Cinematográfica tem pouco mais de 2 minutos mas tempo suficiente para revelar a riqueza da narrativa que Betse construiu sobre este Patrimônio Brasileiro que  é ALICE GONZAGA.

Captando cenas de Alice Gonzaga em casa, na rua, por entre suas milhares de pastas de arquivos de cinema e de cultura geral, e criando uma dialogia que é da personagem com diversas etapas de sua vida. Seja evidenciando o trabalho meritório do pioneiro Adhemar Gonzaga ou mostrando Alice no colo da mãe, e ainda menina participando dos filmes produzidos pelo pai e que poderiam ter iniciado uma bela carreira artística para a sapeca lourinha, Betse de Paula ressignifica a história do pioneirismo de Adhemar Gonzaga e evidencia a passagem do tempo com uma delicadeza só possível às grandes almas.

Ao captar os vários tempos de Alice, e editar o vasto material colhido com a sensibilidade que vai chegar ao ecrã, Betse protagoniza uma justa e emocionante Homenagem “a maior arquivista do Brasil”: referenda a atuação da Primeira Dama do Cinema Brasileiro e alça voo rumo a um lugar imbuído de magnitude, qual seja o de repartir história, consolidar conhecimento e reafirmar a força precípua da memória, aventurando-se no difícil território da delicadeza, que perfaz uma linha muito tênue com o pieguismo e a puxa-saquice, mas que, ao contar com a inteligência e a sensibilidade de Betse, converte-se outrossim em força de exemplar significação, muito além do que qualquer opinião precipitada possa supor.

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Alice Gonzaga e os preciosos arquivos da Cinédia…

DESARQUIVANDO ALICE reveste-se de relevância ainda maior porque se insere neste tempo de valores incertos e passageiros, de afetos descartáveis, de desatenção ao humano, de refração da memória, misto de insensibilidade, desconhecimento, desvalorização do permanente (ao invés do antigo), e avidez pelo novo que logo se esvai em busca de um novo mais novo.

A potência do documentário de Betse de Paula contrapõe-se exatamente ao caos informativo vivido na contemporaneidade, e que foi tão bem expresso pelo saudoso Umberto Eco:

“A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.”

Portanto, Desarquivando Alice é, de cara, um acerto porque reflete um ganho ! E Betse de Paula ao realizá-lo revela extrema coragem, tão mais forte quanto mais profunda porque sem alarde.

Nestes tempos em que a memória é aviltada ao correr do vento, Betse de Paula inscreve-se como cineasta que acredita na construção de afetos, valores e memórias, e proclama, através dos frames de seu “desaquirvo”, a força da delicadeza, a pertinência da sensibilidade, a necessidade da cultura, e o cultivo da tolerância. São esses os cânones de um cinema que ela realiza com maestria e o faz com a consciência de ser uma cidadã que empresta a seu cinema o lugar de repositório do belo, onde está inscrita a Arte Maior, da qual comunidade nenhuma pode abdicar, sob pena de elegermos motivos para a concretização de uma Sociedade de Poetas Mortos.

E, se a memória é nossa alma, como disse Umberto Eco, visitar a memória, promovê-la, dar a ela o lugar de Patrimônio que merece, é reavivar sua glória, declarar seu valor e a importância de sua preservação. Visitar a memória é aumentar a alma.

E o que Betse de Paula faz ao sublinhar a importância da memória através de Alice Gonzaga é agigantar nossa alma ! 

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Betse de Paula, Daisy Lúcidi, Alice Gonzaga e Natália Thimberg…

Com DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA,, Betse de Paula afirma a eloquência do Cinema, confirma a Sétima Arte como lugar de fala necessário para a demarcação de territórios do sensível, e reafirma a importância das mulheres – a partir de Alice Gonzaga e dela mesma – para a construção de espaços nos quais a injustiça morra de sede, a ingratidão não saiba nadar, a injustiça capengue de inanição e a liberdade possar voar sem medo de ousar e ser feliz !

A Betse de Paula, nosso aplauso mais calorosos pela ousadia de seu cinema, e a Alice Gonzaga outros tantos aplausos pela sua não menor coragem de se expor para as lentes, sem mentiras – sem forjar uma Alice que não é, sem esconder ou negar suas idiossincrasias, suas opções, seu modo de ser e estar no mundo -, repleta de uma verdade que ela assume sem poses ou subterfúgios, e que, por isso mesmo, é uma mulher além de seu tempo !