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Carpinejar e a arte de embelezar até a dor

REFÉM DA SEPARAÇÃO

Arte de Remedios Varo

Você mergulhou no relógio lento de um sequestro.

À espera de um telefonema, de uma mensagem, de um comunicado do valor a retirar do fundo de si.

Não pretende envolver a polícia dos familiares, não falará para ninguém, para evitar represálias.

Só quer seu amor de volta. Inteiro. Ouvir a voz do amor para ter certeza de que está vivo e não sofreu nenhum ferimento.

Seu tempo é voltar atrás, é retornar os ponteiros, é ontem e anteontem. Não mais frequenta o tempo normal. O tempo parado da rotina. O tempo absoluto da continuidade, de explicar a manhã pela tarde e a tarde pela noite.

Não orbita mais no tempo dos compromissos, da agenda, do café/almoço/janta.

Não tem pressa de sair de casa, tem pressa por algo que não sabe nem o que é.

Sua pressa é um disparo aleatório, um rompante inexplicável, um ataque de ansiedade. É uma urgência de não fazer coisa alguma. É um desespero sem vontade, uma dor sem lugar para doer.

Escuta sua respiração, nítida, como se estivesse caminhando dentro d’ água. Andando no interior de uma piscina, economizando ar. As palavras sobem à superfície, presas em bolhas. São bolhas de sabão da tristeza, do desencanto adulto.

Desde que você se separou, os minutos são horas, as horas são dias.

Acredita que sobreviveu a um ano sem aquela que amava mas apenas transcorreu um dia.

A sensação é que no seu rosto falta uma sobrancelha, um nariz, um ouvido, e todos já identificaram a ausência, menos você.

Passeia aparentemente inteira porque guarda sua imagem da véspera. Não viu como está agora. Tem medo de ver.

Você não se separou dela, mas de si.

Sua boca é aflitiva, na densidade da água no ar, juntando lembranças e força para pagar um resgate.

Como pagar oito anos de volta? Quanto orgulho custa uma reconciliação?

Você olha o mundo e não enxerga. Pede emprestado para qualquer sombra que passa. Olha um pássaro e pede seu voo emprestado. Olha um cachorro e pede seu faro emprestado. Olha um gato e pede sua elasticidade emprestada.

Sua angústia tomou o tamanho da esperança.

Enquanto dorme e sonha, não lembra que está sozinha.

É acordar que logo recorda da mão vazia de anéis. Tem aquela confusão da descrença: será que aconteceu mesmo?

Está acontecendo sempre quando acorda. Não para de acontecer.

Estende as pernas para tocar no corpo dela e o pé descobre que a cama não termina de terminar.

O coração não termina de terminar.

A palavra não termina de terminar.

Nada termina, nada anoitece, nada é eterno como já foi um dia.

 * Crônica publicada no jornal O GLOBO de hoje, 15/10/2014.

Fabrício CARPINEJAR é colunista exclusivo do jornal carioca, no qual escreve semanalmente.

 

Mais uma Pérola do Poeta Fabrício CARPINEJAR !

Permita-me, Fabrício Carpinejar, mas depois de ler esta PÉROLA em forma de CRÔNICA, não tenho outra opção que não a de dividir com meu estimado leitor esta sinfonia poética de rara beleza e perspicácia profunda, capaz de comover até o mais gélido dos mortais.

Um NOBEL DA POESIA para o Poeta da Crônica e Cronista da Poesia, FABRÍCIO CARPINEJAR !!!

Pequenos Céus Somados

O pássaro que voará mais alto é o pássaro que nunca desistiu de puxar a coleira.

Será a ave amarrada pelas patas que não se conformou com o confinamento da gaiola e que toda manhã esticará seu corpo até o máximo.

Até o máximo daquele dia.

Não pode se soltar, mas nem por isso se sentirá preso. Não é livre, mas nem por isso deixará de admirar a possibilidade de flanar.


Se não tem condições de brincar com as árvores, brincará com sua sombra.

Se não tem como brigar pela comida, valorizará o alpiste que recebe em sua tigela quebrando minuciosamente cada grão.

Se não tem vento para expor sua plumagem, baterá as asas para fazer vento em si.

Se não tem o sol na cara, levantará as unhas pelas barras das grades por um punhado de luz.

O pássaro que voará mais alto sempre é o que – enquanto não pode voar – canta, é o que – enquanto não pode subir – caminha, é o que – enquanto não pode planar – afia o bico.

Não reclamará da falta de opção, usará as opções que tem.

Não pode voar, mas treina seu voo esticando a coleira até o máximo. Até o máximo daquele dia.

Puxará a corrente ao limite. Somará pequenos céus com os centímetros de sua corrente.

Tudo o que voará depois será resultado de tudo o que andou em seus limites. Cinco passos repetidos à exaustão darão o condicionamento de quilômetros. Não estará destreinado para as alturas, já que exercitou seu fôlego no chão.

Não desistiu de avançar mesmo com a ausência de espaço. Não se restringiu a uma aparência apagada. Não se encabulou pelo sofrimento.

Quando não havia chance de sair dali, aproveitou a solidão para se conhecer.

Quando não havia com quem conversar, aproveitou o silêncio para afinamentos.

Deveria ser triste pelas suas circunstâncias, porém é feliz pelo temperamento.

Deveria ser melancólico pelo destino, porém é confiante no acaso.

O pássaro que desaparecerá um dia no alto das nuvens, como se fosse mais uma nuvem, foi o pássaro que jamais parou de tentar.

Só voará alto quem carregou suas penas.

Só voará alto aquele que criou seu lugar um pouco por vez, aquele que formou sua virtude em segredo, aquele que não culpou a vida para se manter parado.

Liberdade vem com o tempo, liberdade vem devagar, liberdade é esforço. Não ser do tamanho de nossa prisão, mas ser do tamanho de nossa vontade.

* N.E: os destaques são da redatora, jornalista Aurora Miranda Leão.

** Publicado originalmente no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 17/09/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17556