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APLAUSO para SÉRGIO RICARDO

Um dos artistas brasileiros mais completos e criativos de todos os tempos, o compositor Sérgio Ricardo dividiu-se, e continua dividindo-se, entre as mais diversas expressões da arte.

Sérgio Ricardo – Canto Vadio, obra escrita por Eliana Pace, coincide com os 60 anos de carreira do artista e prova que ele fez muito mais do que quebrar um violão no palco. O lançamento da Coleção Aplauso acontece hoje na Casa das Rosas. 

“Quem guardou na lembrança apenas a imagem de Sérgio Ricardo quebrando seu violão, talvez ignore a biografia de um dos nomes mais marcantes da cultura brasileira.

Cantor, compositor, poeta, escritor, cineasta com assinatura em uma série de curtas e longas-metragens premiados no Brasil e no exterior, pintor e um dos precursores da Bossa Nova, Sérgio Ricardo é um artista multimídia graças à sua inquietação e que está sempre se revezando entre a música e o cinema, o cinema e a pintura, a pintura e a música”.

É dessa maneira que a jornalista Eliana Pace, autora da biografia de Sérgio Ricardo, resume o significado do artista na abertura do livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com lançamento marcado para HOJE, 10 de maio, às 19 horas, na Casa das Rosas – Av. Paulista, 37.

Todo escrito em primeira pessoa, o livro percorre a vida de Sérgio, pseudônimo de João Lutfi, desde seu nascimento em Marília, interior paulista, no ano de 1930. Seu pai, comerciante, era “um grande contador de histórias” e leitor voraz, enquanto a mãe “cantava o tempo todo, até mesmo na cozinha ou lavando roupa”.

Sua infância foi típica de um menino do interior. Mais velho de quatro irmãos, aos 17 anos foi morar em São Vicente, com um tio. Ali trabalhou na Rádio Cultura, exercendo praticamente todas as funções. Pouco tempo depois realizou o sonho de ir morar no Rio de Janeiro, dessa vez com outro tio. Logo na seqüência, sua família também se mudou para a ainda capital federal.

Após uma breve e indisciplinada passagem pelo Exército, realizou o sonho de tocar piano na noite. Nesta fase fez amizades com diversos artistas que viriam a se tornar, como ele, expoentes da música nacional. Entre eles, Tom Jobim, João Donato, Johnny Alf e João Gilberto – de quem se tornou grande amigo e o influenciou a tocar violão.

 

Uma das curiosas passagens de sua vida aconteceu com Dick Farney, um de seus ídolos: “Ele veio durante o meu ensaio para ouvir Tu És o Sol, que eu tinha acabado de compor, e assim que saí do piano, sentou-se e aprendeu a música na hora. Impressionou-me a sua rapidez, cantou e tocou lindamente, dizendo que queria gravar a música. Fez apenas um reparo num acorde, queria mudar um mi bemol menor por um mi bemol maior, achava que ficaria melhor. Discordei e foi a maior burrice que fiz na vida”. Farney levantou-se do piano, foi embora e não gravou a música.

Entre idas e vindas, foi convidado para ser ator da TV Tupi e radioator da Rádio Tamoio. Depois, passou por várias emissoras, como ator, apresentador e diretor de programas, inclusive pela TV Globo. Sergio conta também sobre seu lado cineasta, tendo dirigido diversos filmes. Era grande amigo de Glauber Rocha – foi autor da trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Terra em Transe, além de filmes de outros diretores – e conviveu com figuras como Roberto Santos, Cacá Diegues, Leon Hirzsman, David Neves, Ruy Guerra, Capovilla e Joaquim Pedro de Andrade. Como se não bastasse, Sérgio foi também ator teatral, tendo sido dirigido inclusive por Augusto Boal e Chico de Assis. 

Fica clara no livro a contrariedade de Ricardo em rotular os gêneros musicais. Até mesmo sobre sua participação na “criação” da Bossa Nova o biografado mostra-se reticente: “Eu gostava muito dos shows que fazíamos, Pernas e outras composições minhas tinham a cara do movimento, mas eu não concordava com as regras estabelecidas pelo clubinho do Ronaldo Bôscoli: ser ou não ser Bossa Nova. ser ou não ser Bossa Nova.Johnny Alf não era Bossa Nova, João Donato não poderia ser Bossa Nova, nem Vinicius com suas canções de amor maravilhosas que ganhavam uma nova dimensão e que fez uma revolução poética na música popular”.

Sua preocupação com as questões sociais brasileiras e sua ligação com os partidos de esquerda fizeram com que fosse censurado durante o regime militar. Criou o Circuito Universitário, pelo qual fazia apresentações com cenários improvisados em universidades e permitia a participação dos estudantes nas apresentações. Quanto mais a repressão aumentava, mais Sergio Ricardo atuava nos “bastidores”, quase isolado, enquanto outros artistas exilavam-se.  

Sobre o famoso episódio em que quebrou o violão no palco, durante o Festival da Record de 1967, Sergio explica que tinha a ver com o avanço da repressão. Mas as conseqüências não foram boas: “O pior foi estar, daí em diante, não só na mira da censura, mas na autocensura das gravadoras, rádios e TVs, fato que dificultava a divulgação do meu trabalho ou da minha contratação para shows. Até ser esquecido como artista”. 

Sérgio Ricardo é ainda autor de três livros e, atualmente, desenvolve outra de suas vocações artísticas: a pintura. No final do livro, há a discografia completa, todas as músicas compostas, as trilhas sonoras gravadas, os filmes dirigidos e os livros escritos.

 

JORNALISTAS na Coleção Imprensa em Pauta

            

 IMPRENSA OFICIAL LANÇA PERFIS DOS JORNALISTAS PAULO FRANCIS, JOSÉ RAMOS TINHORÃO E ROBERTO MÜLLER FILHO

 

Cada um a seu modo, Paulo Francis, José Ramos e Tinhorão e Roberto Muller Filho influenciaram de maneira decisiva o jornalismo brasileiro. Livros fazem parte da Coleção Imprensa em Pauta e serão lançados dia 28 na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. 

Três jornalistas singulares, com características únicas e importância vital para o jornalismo brasileiro – Paulo Francis, José Ramos Tinhorão e Roberto Müller Filho – terão suas trajetórias registradas em novas biografias da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. “Paulo Francis – Polemista Profissional”, de Eduardo Nogueira; “Tinhorão, O Legendário”, de Elizabeth Lorenzotti, e “Roberto Müller Filho – Intuição, Política e Jornalismo”, de Maria Helena Tacchinardi, serão lançados no dia 28 de abril (quarta-feira), a partir das 18h30, na Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915. As obras fazem parte da Coleção Imprensa em Pauta. 

“São três nomes que revolucionaram e deixaram marcas definitivas na imprensa brasileira, contribuindo decisivamente para moldar sua qualidade e pluralidade”, destaca Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado. 

O carioca Paulo Francis (1930-1997) foi um dos mais conhecidos e influentes jornalistas brasileiros de todos os tempos. Amado ou odiado, despertava paixões extremas sempre estimuladas por suas talentosas polêmicas. Francis desempenhou papel importantíssimo na resistência à ditadura militar.Foi um dos fundadores do Pasquim, em 1969, e mais tarde colaborou com os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, além de fazer comentários na TV Globo. Suas polêmicas com artistas, políticos ou intelectuais – algumas delas antológicas – não deixavam ninguém indiferente.

 

O texto inicial da obra é a reprodução de um texto de Millor Fernandes, publicado 10 anos após a morte de Francis. A primeira parte do livro conta sua trajetória, desde a infância até sua consagração profissional. Depois, aborda algumas das principais polêmicas em que se envolveu, passa pelos livros que escreveu e encerra detalhando sua transformação de trotskista em conservador. A parte final do livro traz um ensaio fotográfico de Francis, produzido por Bob Wolfenson na década de 1990. A quarta capa tem assinatura de Ruy Castro.

 

Figura singular da história do jornalismo brasileiro, José Ramos Tinhorão construiu, a partir de seus artigos pioneiros sobre música e cultura popular, uma história da cultura urbana. Começou no jornalismo como copidesque, em 1952, no Diário Carioca, e seus primeiros artigos sobre música saíram em 1961, no Jornal do Brasil. Nacionalista convicto, rigoroso e intransigente com suas ideias – muitas delas controvertidas, que desafiavam consensos estabelecidos – o estudioso logo ganhou fama de chato. Em 1980, abandonou o jornalismo para mergulhar ainda mais fundo nas pesquisas, que continuaram causando polêmica: ele demonstrou que o samba nasceu no Rio e não na Bahia, que a modinha nasceu no Brasil como dança e só depois chegou a Portugal como canção. O livro traça um perfil biográfico de Tinhorão ao mesmo tempo em que fala dos bastidores da imprensa carioca dos anos 1950 e 1960 e passa em revista as várias de suas querelas, como a que envolveu a Bossa Nova. Completa o volume uma copiosa antologia de textos de Tinhorão. 

Criador do modelo que deu credibilidade e prestígio à Gazeta Mercantil, ainda nos anos 1970, Roberto Müller Filho transformou o jornal em uma das publicações mais importantes do país – referência nas áreas de economia, negócios, política e diplomacia. Ele assumiu o cargo de editor chefe da Gazeta Mercantil, em 1974, com a missão de transformar o jornal em uma publicação independente, influente e rentável. Escrito com base em longos depoimentos concedidos por Müller, o livro é um reencontro com quase cinco décadas da história do Brasil.

NARA LEÃO REVIVIDA

NARA é um espetáculo musical ? Sim. Mas não da mesma estirpe dos musicais da Broadway – com luzes especiais e cenários grandiosos. Segundo a própria idealizadora e atriz principal, Fernanda Couto: “Nara é um musical de câmara. Pequeno, intimista, delicado”.

O espetáculo sobre a trajetória da musa da Bossa Nova, Nara Leão (1942-1989) estréia amanhã no teatro Augusta, em São Paulo. Na peça, flashes sobre a vida pessoal e profissional da cantora.

“Cada passagem é acompanhada por uma canção ou um pedacinho de canção”, conta Fernanda. “Foi difícil escolher o repertório. Ela tem uma obra muito diversificada e ampla”, completa.

No repertório da peça, 20 canções interpretadas por Nara. Entre elas, clássicos como Insensatez (Jobim & Vinícius), “Diz Que Fui Por Aí” (Zé Ketti), A Banda (Chico Buarque) e outros.

“Muita gente só identifica a Nara como aquela cantora de bossa nova, com a voz delicadinha, cantando coisas românticas e até inocentes. Mas ela fez muito para o samba de morro, a música de protesto e até pelo tropicalismo”, explica Fernanda.

A atriz divide o palco com três músicos-atores (Rogério Romera, Sílvio Venosa e Rodrigo Sanches) – que além de tocar seus respectivos instrumentos se revezam em papéis de amigos, amores e artistas que passaram pela vida de Nara.

“Nós temos momentos de Nara com seu grande amigo Roberto Menescal, seus amores Ronaldo Bôscoli, Cacá Diegues e muitas outras figuras”, destaca Fernanda. 

NARA – Teatro Augusta. Rua Augusta, 943. Tel. (011) 3151-4141. Temporada: quartas e quintas-feiras, 21 horas. Ingressos: R$ 30

Adeus a Johnny Alf

O músico Johnny Alf, um dos precursores da bossa nova, morreu na tarde desta quinta, em Santo André (SP). O artista estava internado no Hospital Estadual Mário Covas, onde passava por um tratamento contra um câncer na próstata.

Segundo Nelson Valencia, empresário de Alf, o músico havia sido internado na última segunda-feira (1), quando seu estado se agravou. A doença havia sido diagnosticada há 10 anos.


“Johnny era uma pessoa muito serena e espiritualizada. Estava encarando a doença com otimismo, nunca se desesperou”, conta o empresário.

Valencia explica que mesmo após saber da doença, Alf continuou a fazer shows. “Nos últimos três anos ele deu uma parada. Mas até agosto do ano passado chegou a fazer algumas pequenas apresentações”.

Segundo o empresário, o velório do artista será realizado no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. A assessoria de imprensa da Casa ainda não confirma a informação. O enterro será nesta sexta, no Cemitério do Morumbi, com horário a ser definido.
 

Alfredo José da Silva nasceu em 19 de maio de 1929, no Rio de Janeiro, e iniciou os estudos de piano ainda criança. Na adolescência, se interessou pelo jazz e pelas músicas do cinema norte-americano. O apelido foi dado por uma amiga americana.

No início da década de 50, Alf formou seu primeiro grupo musical no Instituto Brasil-Estados Unidos. Logo depois, uniu-se a Dick Farney e Nora Ney apresentando-se na noite carioca e nas rádios. Dessa época são as composições “Estamos sós”, “O que é amar”, “Podem falar” e “Escuta”, que apareceram no disco de Mary Gonçalves “Convite ao romance”, de 1952, e ajudaram a lançar a carreira de Alf.

Em 1955, lançou a lendária Rapaz de Bem e O Tempo e o Vento em compacto considerado o primeiro disco da bossa nova. Chega de saudade, de João Gilberto, só apareceria três anos depois.

Segundo o escritor Ruy Castro, Alf é “o verdadeiro pai da bossa nova”. Tom Jobim, outro pioneiro, da bossa costumava chamálo de GeniAlf’.


Na segunda metade da década de 1950, Alf também passou a se apresentar em São Paulo, dividindo as noites com o grupo Tamba Trio, de Sérgio Mendes, Luís Carlos Vinhas e Sylvia Telles. Em 1967, apresentou a música “Eu e a brisa”, uma de suas mais conhecidas, no III Festival da Música Popular Brasileira em 1967, da TV Record.
Uma das últimas apresentações de destaque do pianista aconteceu na exposição Bossa na Oca, em São Paulo, em 2008. Na mostra que homenageava os 50 anos do estilo musical que projetou o Brasil mundialmente, Alf teve um encontro virtual com ídolos como Tom Jobim, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Stan Getz. O artista tocava piano com as projeções dos colegas, já mortos, para um filme que foi exibido ao longo do evento.

“Ele ficou muito emocionado quando viu o resultado, os olhos encheram d´água”, conta o curador da exposição, Marcello Dantas. “Ele falava pouquinho, em decorrência de um derrame que havia sofrido pouco tempo antes. Mas o semblante dizia tudo, não era preciso palavras”.

Para o curador, o artista foi desvalorizado pela memória do país. “É o caso clássico do artista que não teve o reconhecimento a altura de seu talento. E Alf foi um gênio, teve participação na história da nossa música”.