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Xica da Silva no MoMA

  

 Trinta e quatro anos depois da estreia de Xica da Silva (1976) nas telas brasileiras, o filme protagonizado por Zezé Motta estreia em Nova York, com legendas em inglês e a presença do diretor Cacá Diegues e da atriz para apresentar o longa ao público da oitava edição do Premiere Brazil !. 

  O festival de cinema brasileiro anual do MoMA, que segue até dia 29, homenageia o alagoano CACÁ (um dos ícones do Cinema Novo) com a exibição do longa já citado e de Bye bye Brasil (1979). Ambos foram adquiridos pelo Museu para fazer parte de seu acervo cinematográfico, e suas cópias restauradas poderão ser exibidas para cinéfilos americanos. 

Ao lado da brasileira Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, que faz a curadoria da mostra nova-iorquina junto de Jytte Jensen, responsável pelo departamento de filmes do MoMA, Zezé Motta disse que se sentia tão emocionada quanto na época da estreia do filme no Brasil. 

– Sei que pelo menos 20 pessoas foram testadas para fazer a Xica. Não acreditava que pudesse ser escolhida até o dia em que recebi um telefonema da produção e a pessoa do outro lado da linha disse: “Bom dia, senhora Xica da Silva” – recorda a atriz, cujo currículo antes do filme resumia-se a oito anos de teatro e pequenos papéis na televisão. 

Cacá Diegues, que viajou direto do Festival de Paulínia (SP) para Nova York, ressaltou a importância da atriz para o longa: 

Estava convicto na época de que, se não encontrasse a pessoa ideal para o papel, abandonaria o projeto. Na condição de atriz, cantora e dançarina, Zezé reunia todos os predicados necessários para o papel. 

 

A história da ex-escrava, um personagem real, era até então desconhecida do grande publico. Cacá conta que ouviu falar dela graças ao samba do Salgueiro, de 1963, e a partir dali decidiu levar sua trajetória para o cinema. A divertida sátira de costumes que ele produziu em 1976 é citada até hoje, embora o cineasta lamente que nem todos levem em consideração o contexto político brasileiro da época em que o filme foi feito. 

Existe uma concepção errada quanto ao meu filme, que vive se repetindo – salientou o cineasta. – Não se trata de um filme sobre escravos ou sobre a sua herança étnica, mas sobre os exageros a que as pessoas podem chegar com uma liberdade obtida a partir de uma opressão extrema. Eu queria antecipar e comemorar o fim da ditadura que estava para ocorrer no Brasil. Não queria esperar por uma revolução, e sim comemorar o fim daquele período negro. 

Distribuído às portas da abertura, o filme não foi censurado, apesar da forte interpretação de Zezé Motta e das alegorias sobre os abusos que quem está no poder pode cometer. Dentro desse contexto, o filme é visto pelo MoMA como um importante documento da época em que foi produzido, e por isso mesmo merece lugar em seu acervo. 

A cenografia e o roteiro já são um espetáculo à parte – enaltece Jytte Jensen. – Quando levamos em consideração as condicoes em que foi realizado, o filme se torna ainda mais espetacular. Não é à toa que o filme faz sucesso até hoje

Relacionada à personagem até hoje, Zezé Motta não se mostra incomodada com a referência constante. 

Antes de fazer o filme eu só tinha saído do Brasil três vezes e, graças a ele, fui a 17 países para apresentá-lo – celebra a atriz. – Basta dizer que todos os papéis que consegui na televisão ou no cinema depois foram de protagonistas ou de personagens marcantes. A imagem mítica de Xica da Silva me acompanha e me dá muito orgulho. 

* Texto de Franz Valla, especial p/o JB   

  

Zezé Motta: interpretar Xica da Silva abriu portas para a atriz

Selton Mello em Clima de Esperança

Foto: Divulgação

Selton Mello vem sobrevivendo a momentos de desestabilização. Não só sobrevivendo como revertendo a seu favor. Depois do mergulho intenso em Lavoura arcaica (2001), transposição cinematográfica de Luiz Fernando Carvalho para o romance homônimo de Raduan Nassar, passou por uma crise durante as filmagens de Jean Charles (2009), de Henrique Goldman, quando questionou seu vínculo com a profissão de ator. A crise gerou seu segundo longa-metragem como diretor, O palhaço, cujas filmagens estão tomando conta, nesse momento, dos estúdios de Paulínia.

Meu personagem sonha em deixar o circo. Ele se pergunta se realmente quer continuar trabalhando como palhaço. Mas hesita em abandonar o pai, já idoso – diz Mello, sobre Benjamim, que forma com o pai, Valdemar, a dupla circense Puro Sangue e Pangaré.

Os nomes dos personagens, interpretados pelo próprio Mello e por Paulo José, são homenagens aos pioneiros palhaços Benjamin de Oliveira, também compositor e ator, e Arrelia (Waldemar Seyssel), o primeiro a aparecer na televisão brasileira. Antes de começar as filmagens, que irão se estender até 12 de abril (com locações em Ibitipoca, MG), Mello investiu num longo processo de pesquisa, que pretende transformar num produto adicional ao filme.

– Conheci palhaços como Biribinha e Cochicho, que hoje trabalha no circo de Beto Carrero e nos ajudou nas gags físicas – conta Selton, que chama atenção para as mudanças decorrentes da passagem do tempo. – Antigamente, o palhaço era a grande estrela. Depois passou a ter a função de costurar os números.

Não há como deixar de pensar na referência de Bye bye Brasil (1979), de Carlos Diegues, filme que registra o momento de passagem de um país voltado para o entretenimento artesanal para outro, sintonizado nas antenas de TV.

Além de Bye bye Brasil, revi O profeta da fome (1970), de Maurice Capovilla, Tico-tico no fubá (1952), do Adolfo Celi, e filmes de Mazzaropi – enumera Selton Mello.

Paulo José, contudo, diferencia O Palhaço de produções anteriores.

– Acho que Selton não questiona propriamente a decadência do circo. Até porque a crise não é definitiva, mesmo que não vivamos mais a época das tradicionais famílias circenses. Basta notar que o circo é cada vez mais incorporado por quem faz teatro. Luiz Carlos Vasconcelos, por exemplo, criou o palhaço Xuxu – observa Paulo, presente na coletiva de imprensa, ao lado de Selton, da produtora Vânia Catani e de Emerson Alves, secretário de Cultura de Paulínia.

Paulo José (com as filhas Ana e Bel Kutner) volta ao set vivendo o palhaço Valdemar no novo longa de Selton Meelo

O ator sabe do que está falando. Afinal, é ligado ao circo desde o início de sua carreira.

– Sou de Lavras do Sul. Lá eu e meus irmãos tínhamos um circo de fundo de quintal. Depois formei com Flavio Migliaccio a dupla Shazan & Xerife. Eu e Dina (Sfat) fizemos ainda uma dupla de circo na novela O homem que deve morrer recorda Paulo, que poderá ser visto, em breve, em outros filmes, como Insolação (2009), de Felipe Hirsch, e Quincas Berro D’água, versão de Sergio Machado para o romance de Jorge Amado. – Na época do Teatro de Arena os atores viajavam pelo interior e se apresentavam em circos, já que os espetáculos eram concebidos para o formato circular.

Hoje, Paulo perpetua um pouco sua ligação com o circo através do vínculo com o Grupo Galpão. Da companhia, Mello convidou Teuda Bara para integrar o elenco. Também fazem parte da equipe de O palhaço os atores Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Thogun, Hossen Minussi e Álamo Facó. Selton hesitou diante do desafio de acumular as funções de ator e de diretor.

Ofereci o personagem a Wagner Moura, que não pode aceitar por causa de Tropa de elite 2, e a Rodrigo Santoro, que estava envolvido com um filme sobre Heleno de Freitas. Então, decidi fazer. Percebi que não precisaria explicar para outro ator o que queria.

“Sou um cineasta bipolar”

Apesar de retomar o universo do convívio familiar, Selton Mello caminha em direção oposta ao amargo Feliz Natal (2008), sua estreia como diretor. Através da figura do palhaço, ele quer trazer à tona a qualidade lúdica própria da infância.

– Mandei Feliz Natal para Raduan Nassar assistir. Ele me ligou e disse: “Nossa, é um filme tão sem esperança”. Eu contei que estava começando a filmar O Palhaço, ambientado num circo que se chama Esperança. Avisei que será um filme solar. Sou um cineasta bipolar – diverte-se Mello, antes de afirmar sua vocação para a diversidade. – É provável que meu trabalho como diretor contemple projetos tão diferentes quanto os que faço como ator.

No caso de O Palhaço, Mello gostaria que esta nova empreitada fosse classificada como uma “comédia sonhadora”. Uma rápida visita a um dos estúdios do Polo Cinematográfico de Paulínia, onde foi montada a lona do Circo Esperança de Valdemar e Benjamin, sugere uma atmosfera amorosa e nostálgica. Uma sensação impregnada nas cadeiras gastas da platéia, na cortina de veludo, nas luzes coloridas que atravessam o palco e nos muitos ventiladores antigos.

Um filme impregnado de candura é o mais louco que podemos fazer numa época como a de hoje. .. Quando você pensa em coisas alegres, fica distante da morte – conclui.

* Reportagem de Daniel Schenker, Jornal do Brasil