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Ainda sobre o The Voice…

Resultado do The Voice remete ao ‘incômodo’ causado pela chegada da guitarra elétrica…

“Nada novo sob o sol”

Contar uma historinha aqui. Nesses tempos em que todo mundo se tornou especialista em música (especificamente na brasileira), eu acredito que a narrativa vale a pena. Passemos, então, ao ano de 1967. Marcha contra a guitarra elétrica. Liderados por importantes nomes da MPB, uma pequena multidão saiu às ruas para protestar contra o americanismo na música brasileira. Enquanto isso, Nara Leão e Caetano Veloso observavam, da janela de um hotel, o movimento, sobre o qual ela comentou “que mais parecia uma manifestação integralista”…
  1. Não sei se Caetano já estava com a Tropicália no olhar, mas o fato é que, em pouco tempo, trouxe a guitarra para a música brasileira e arrebenta, com outras palavras e novas linguagens, até hoje.

    Moral da história: naquele ano, foi uma guitarra, em 2013 é uma voz. Não vi nenhum “grande crítico” de hoje lembrar esse episódio de 1967. Não sei o nome de nenhum crítico daquela época (na qual, pelo contexto, a xenofobia ainda é compreensível). Algum daqueles de 1967 terá contribuído tanto para a nossa música como Caetano e a Tropicália?

    p.s.: o Gil participou da tal marcha, mas hoje morre de vergonha de lembrar disso.

    p.s.2: Caetano e Sam são incomparáveis pelos talentos ímpares que carregam, mas os “expertos” em música, que têm visão diminuta, parecem ser recicláveis.

    * Joyce Miranda Leão Martins é Mestre em Sociologia e Doutoranda em Ciência Política pela UFRGS.

João Cláudio Moreno e um bom humor contagiante…

Artista piauiense conquista com simpatia, inteligência e carisma, deixando um rastro de lucidez e alegria por onde passa…

Ele vem do Piauí e mata todo mundo de rir !

Queria ser padre, formou-se em Jornalismo e em Medicina, para agradar a mãe, mas nunca exerceu a profissão. E foi quase por acaso que deixou aflorar sua vocação indisfarçável para o humor.


João Cláudio Moreno: humor inteligente e carisma no coração do Brasil…

Com Chico Anysio veio a primeira grande chance. E não foi preciso mais que uma primeira aparição na telinha da Globo ao lado do grande mestre cearense do Humor para que ele se tornasse um recordista de aplausos.

João Cláudio Moreno conquistou o riso farto de centenas de brasileiros pelo país inteiro e ganhou aplausos de todas as idades. Foi com Caretano Zeloso, ao lado de Zé Alberto Zel, que ele tornou-se conhecido em todo o país.

A impressionante caracterização de João Cláudio Moreno é a melhor de todas quantas já foram feitas, tendo como inspiração o grande músico e artista baiano Caetano Veloso.  Daí, o resultado não podia ser outro: ‘Caretano Zeloso’ virou sucesso nacional !

Você pode recordar ou conhecer ‘Caretano Zeloso”, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=-BhmA18JnYI

Nascido em Piripiri, ele diz que suas grandes referências vieram sempre de Fortaleza, capital muito mais próxima de sua cidade que a ‘matriarca’ Teresina.
Semana passada, João Cláudio Moreno esteve em Fortaleza para apresentações que, mais uma vez, lotaram o espaço noturno onde ele era atração. E é sempre assim.

JC a penúltima

Calé Alencar, João Cláudio Moreno e Aurora Miranda Leão no estúdio da Universitária FM de Fortaleza…

Quase um cidadão cearense, o humorista não esconde sua paixão por Fortaleza, cidade a qual retorna com frequência. E aproveitando a passagem do humorista pela capital cearense, João Cláudio Moreno concedeu-nos uma entrevista para o programa radiofônico Conversando com Arte, atendendo a convite do músico Calé Alencar, que produz o programa patrocinado pelo Centro Cultural Banco do Nordeste – instituição que se esmera na construção da identidade nordestina e na valorização dos inúmeros talentos artísticos florescidos na região de sol forte, praias belas, povo de fibra e com dotes quase naturais de artesania, além das baladas delícias culinárias.

JC 9 abr 13

O programa Conversando com Arte, veiculado pela rádio Universitária FM todo domingo, das 15h às 16h, vai ter João Cláudio Moreno como convidado no próximo dia 5, primeiro domingo de maio.

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Um programa imperdível, no qual você, leitor amigo e ouvinte, terá a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre esta figura ímpar que é João Cláudio Moreno, que, além de humorista de estupendo talento e vocação singular, é um homem culto, inteligente, educadamente amável, misto de simpatia e simplicidade que encanta no primeiro cumprimento.

JC fala 2
Acompanhando o Conversando com Arte você terá a chance de ficar, como eu, encantado (a) com a prosa alegre, sagaz, irônica, inteligente e antenada de João Cláudio Moreno, um piauiense que orgulha sua terra e envaidece o nordeste inteiro com seu talento fora de série e sua maneira de ser Artista com cérebro, sensibilidade e profundo sentido de irmandade partilhada.

JC Zé e eu

O operador de áudio José Raimundo Lustosa, João Cláudio Moreno e a jornalista Aurora Miranda Leão em dia de entrevista na Universitária FM…

Daqui, o mais caloroso Aplauso AURORA DE CINEMA para JOÃO CLÁUDIO MORENO !

* Quem quiser conhecer mais do trabalho de João Cláudio Moreno, acompanhe pela web:

http://www.youtube.com/watch?v=rRNP98ewXjk

http://www.youtube.com/watch?v=mnjTNjv9APo

http://www.youtube.com/watch?v=vXPPcWG_h7g

http://www.youtube.com/watch?v=wcewHCuh7rM

Tropicália chega aos cinemas em setembro

O filme Tropicália, que abriu o festival É Tudo Verdade deste ano, em São Paulo, chega às telas dos cinemas no próximo dia 14 de setembro e acaba de ganhar o trailer oficial.

Um dos maiores movimentos artísticos do Brasil ganha vida no documentário. Numa época em que a liberdade de expressão perdia força,  Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Rita Lee, e Tom Zé, entre outros, misturaram desde velhas tradições populares a muitas das novidades artísticas ocorridas pelo mundo e assim criaram o Tropicalismo, mexendo com vários conceitos e estruturas da vida social, e influenciando  várias gerações.

Com depoimentos reveladores, raras imagens de arquivo e embalado por algumas das mais festejadas canções do período, Tropicália apresenta panorama diversificado de um dos mais lendários movimentos culturais do Brasil.

Onda tropicalista espalhou-se e inspirou look AURORA DE CINEMA

Dirigido por Marcelo Machado (Ginga), Tropicália é uma produção da  BossaNovaFilms e tem como coprodutores a Mojo Pictures (EUA), a Record Entretenimento, a VH1 no Brasil, a DLA, além da associação da Americas Film Conservacy, da inglesa Revolution Films e do coprodutor executivo Fernando Meirelles (360). A distribuição é da Imagem Filmes.

Marcelo Machado iniciou sua carreira em 1981 quando lançou a Olhar Eletrônico Vídeo, produtora pioneira na produção independente. Ali codirigiu “Marly Normal” com Fernando Meirelles; e dentre vários trabalhos, em 2004, codirigiu o documentário de longa-metragem “Ginga – a alma do futebol brasileiro”; em 2007, dirigiu o documentário “Oscar Niemeyer – O Arquiteto da Invenção”; e desde 2007 Marcelo vinha se dedicando à pesquisa e levantamento das condições para a produção do longa Tropicália, realizado em 2010-11.

Festival de Paulínia começa na Quinta

Evento que mobiliza todas as atenções do Cinema Nacional em Julho será aberto com  filme Corações Sujos, de Vicente Amorim, seguido de show da cantora Rita Lee

Na próxima quinta, 7 de julho, começa o Paulínia Festival de Cinema, com exibição de filmes, debates e shows de grandes nomes da MPB, levando cerca de 700 convidados ao município paulista entre atores, diretores, produtores e distribuidores de filmes.

Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Bruno Garcia, Maria Paula, Thiago Lacerda, Isis Valverde, Bruna Lombardi, Carlos Alberto Ricelli, Debora Duboc e Eduardo Moscovis são alguns dos atores que já confirmaram presença. 

Caetano Veloso e Seu Jorge, Gilberto Gil e Vanessa da Matta também se apresentam em Paulínia, respectivamente dias 8 e 9. Philippe Seabra e André Muller, do Plebe Rude, que estão no documentário Rock Brasília – Era de Ouro, vão prestigiar a sessão do filme, no sábado, dia 8.

A premiação do Paulínia Festival de Cinema vai acontecer após a exibição de Assalto ao Banco Central, do ator e diretor Marcos Paulo, no encerramento do evento, dia 14, quinta-feira.

Festival de PAULÍNIA: Júri e Programação

 
O IV Paulínia Festival de Cinema divulga a programação, bem como o júri de longas e curtas.  

JÚRI 

Longas (Documentário e Ficção):

Denise Weinberg (atriz), Heloisa Passos (diretora de fotografia), Isabela Boscov (crítica de cinema), Gustavo Moura (documentarista) e Sérgio Rezende (diretor). 

Curtas (Regional e Nacional):

Bruno Torres Moraes (ator), Daniel Ribeiro (diretor), Leila Bourdoukan (produtora e jornalista), Pedro Butcher (jornalista) e Sérgio Borges (diretor). 

PROGRAMAÇÃO 

Quinta-feira, 7 de julho

20h: Cerimônia de Abertura; exibição do longa-metragem Corações Sujos, de Vicente Amorim; (sessão fechada para convidados)

23h: Paulínia Fest: Rita Lee e DJs Addictive TV 

Sexta-feira, 8 de julho

Selton Mello e Paulo José, protagonistas de O Palhaço, que estará em competição

18h: Curta Nacional: O Cão, de Emiliano Cunha e Abel Roland

18h30: Documentário: Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat

20h30: Curta Nacional: Polaroid Circus, de Marcos Mello e Jacques Dequeker

21h: Ficção: O Palhaço, de Selton Mello

23h: Paulínia Fest: Caetano Veloso e Seu Jorge 

Sábado, 9 de julho

18h: Curta Nacional: A Grande Viagem, de Caroline Fioratti

18h30: Documentário: Rock Brasília – era de ouro, de Vladimir Carvalho

20h30: Curta Nacional: Tela, de Carlos Nader

21h: Ficção: Meu País, de André Ristum

23h: Paulínia Fest: Gilberto Gil e Vanessa da Mata 

Domingo, 10 de julho

18h: Curta Nacional: Café Turco, de Thiago Luciano

18h30: Documentário: A Cidade Imã, de Ronaldo German

20h30: Curta Nacional: Trocam-se Bolinhos por Histórias de Vida, de Denise Marchi

21h: Ficção: Onde Está a Felicidade?, de Carlos Alberto Riccelli 

Segunda-feira, 11 de julho

18h: Curta Regional: Argentino, de Diego da Costa

18h15: Curta Nacional: Off Making, de Beto Schultz

18h30: Documentário: Ibitipoca, Droba pra Lá, de Felipe Scaldini

20h30: Curta Nacional: Qual Queijo você quer?, de Cíntia Domit Bittar

21h: Ficção: Os 3, de Nando Olival 

Terça-feira, 12 de julho

18h: Curta Regional: Adeus, de Alessandro Barros

18h15: Curta Nacional: Uma Primavera, de Gabriela Amaral Almeida

18h30: Documentário: Ela Sonhou que eu Morri, de Maíra Bühler e Matias Mariani

20h30: Curta Nacional: O Pai Daquele Menino, de Raul Arthuso

21h: Ficção: Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra 

Quarta-feira, 13 de julho

18h: Curta Regional: 3×4, de Caue Nunes

18h15: Curta Nacional: Acabou-se , de Patrícia Baía

18h30: Documentário: As Margens do Xingu – vozes não consideradas, de Damià Puig

20h30: Curta Nacional: O Cavalo, de Joana Mariani

21h: Ficção: Febre do Rato, de Cláudio Assis 

Marcos Paulo é o diretor do filme que encerra o festival de Paulínia

Quinta-feira, 14 de julho (sessão fechada para convidados)

19h: Cerimônia de Encerramento; exibição do longa Assalto ao Banco Central, do ator e diretor de cinema e TV, Marcos Paulo.

Jorge Salomão Mobiliza URCA em Celebração a Nelson Cavaquinho

Querido amigo Poeta e incansável agitador cultural, JORGE SALOMÃO aprontou mais uma das suas. E até Caetano Veloso e Chico Buarque apareceram pra prestigiar !

Nelson Cavaquinho foi o pivô e, em pleno centenário. a prova de sua força e maestria de sua obra, permanecem cada vez mais vivas.

O compositor – um dos baluartes da Escola de Samba Verde e Rosa -, é reinventado no RIO e ganha outras preciosas luzes na parceria SALOMÃO, POOCK e Cravo Albin. Ele merece todas as reverências.

E no Instituto Cultural Cravo Albin, na Urca, Nelson Cavaquinho pode ser visto mais e melhor. Vamos às VOZES DE NELSON !

Poeta JORGE SALOMÃO: sempre fazendo eventos badalados no RIO…

SALVE JORGEEEEEEEEEE !!!

                 Com curadoria do poeta, compositor e agitador cultural Jorge Salomão, a mostra Vozes de Nelson Cavaquinho foi aberta ontem em noite festiva e repleta de celebridades, no Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA), na Urca.

A mostra Vozes de Nelson Cavaquinho é uma homenagem ao centenário do compositor mangueirense e reúne imagens de 35 intérpretes que gravaram obras dele, clicados em cena pelo fotógrafo Ricardo Poock. A exposição integra as comemorações pelo centenário do nascimento do compositor mangueirense.

            Ricardo Poock é fotógrafo profissional desde 1999 e editor do boletim cultural Acontece na Cidade. Desde 2000, Poock registra shows, mantendo um acervo de cerca de 600 artistas em cena. Suas fotografias passarão a ilustrar o Dicionário da Música Popular Brasileira, que reúne mais de 5 mil referências da MPB. “Fotografar em cena exige técnica, paciência e muita sensibilidade para que a imagem retrate a emoção do artista, a intensidade da interpretação”, afirma o pesquisador Ricardo Cravo Albin.

            Sambistas tradicionais como Alcione, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Elton Medeiros, Leci Brandão, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Wilson das Neves e Zeca Pagodinho, e a nova geração, como Diogo Nogueira e Teresa Cristina, estão entre os artistas fotografados. Mas também foram retratados intérpretes como Benito de Paula, Caetano Veloso, Chico Buarque. Gal Costa, Marisa Monte, Paulo Moska e Zeca Baleiro, entre outros.

            A mostra Vozes de Nelson Cavaquinho permanece em cartaz até 2 de junho e a visitação pode ser feita de segunda a sexta, das 11h às 17h, agendada pelo telefone 2295-2532. O Instituto Cultural Cravo Albin fica na Avenida São Sebastião, 2, cobertura, Urca, Rio.

* Com informações de Gória Castro

CAETANO: Declarações Polêmicas e Inteligência Afiada

Conquistadas as plateias no Brasil, América Latina, Estados Unidos e Europa, o show zii e zie, de Caetano Veloso, chega ao formato DVD, pela Universal, com o selo MTV Ao Vivo (a emissora vai exibi-lo às 21h30 de terça-feira, dia em que começam as vendas nas lojas). Amalgamado à jovem banda Cê – Pedro Sá na guitarra, Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo e no teclado -, ele reconstrói músicas da Tropicália para cá, seus “transambas” e “transrocks”, arranjadas a quatro.

Marcos de Paula/AE

Marcos de Paula/AEPaizão – O DVD de ‘zii e zie’ sai por insistência do filho Zeca, que assina a codireção

A gravação foi no Rio, há quatro meses. São 23 faixas. Sob a proteção da asa-delta que lhe serve de cenário, de inspiração carioca, Caetano, que ano que vem chega aos 70, conversa, pula, rebola. Hoje, não mais, lamenta, já que teve uma hérnia de disco, empecilho para pular o carnaval como gosta.

Nos extras, há bastidores interessantes das marcações de palco e da costura do repertório, como o nascimento do arranjo de Lapa, ponto alto de zii e zie, no estúdio, com os “meninos”. A música é uma das que foram testadas antes na série de shows Obra em Progresso, de maio de 2008. Estes também foram registrados e as imagens seguem num disco à parte, vendido numa edição especial, a R$ 49,90. O CD sai a R$ 29,90.

Na quinta-feira à noite, o compositor baiano falou ao Estado sobre esse e outros temas, da discussão sobre a relativização dos direitos autorais ao estilo Dilma de governar.

O DVD está saindo por insistência do seu filho Zeca, de 18 anos, que assina como codiretor. Mas hoje para você, como para tantos artistas, não tem sido um caminho natural CD virar DVD?

Acontece muito, mas o plano do escritório e da gravadora era nenhum. Quando as gravadoras podiam, antigamente, isso já vinha no pacote. Foi difícil pra Paulinha (Lavigne, produtora), porque ela não conseguia patrocinador. Ninguém se animou. Ela fez economias e fez por conta própria, organizando os trabalhos que eu tinha pra financiar esse, e procurando fazer da maneira mais barata possível.

O DVD começa com A Voz do Morto, uma música esquecida nos anos 60, seguida de Sem Cais, que é do repertório de zii e zie, e, depois, vem um clássico, Trem das Cores. Como se dá essa mistura?

Eu acho que é muito forte que um número alto de canções tropicalistas esteja tão sintonizado com o repertório novo. Todas elas se harmonizam muito bem. Deu um show mais agradável de assistir do que o Cê, embora eu ache o disco melhor, porque minhas composições são mais concentradas. O show do zii eu gosto mais, porque é mais fluido, mais palatável.

Depois de cinco anos e dois trabalhos, você vai continuar trabalhando com a banda Cê?

Quero fazer pelo menos mais um CD. Tenho mais ou menos claro uma ideia de como vai ser, mas não muito, porque estou totalmente dedicado a fazer o CD da Gal. Estou compondo todas as canções, coproduzindo as faixas, trabalhando com o Moreno (Veloso, seu filho mais velho), Kassin, Rabotnik.

Quais são os planos para o carnaval? Vai levar sua namorada argentina para ver os trios em Salvador?

Não sei. Tive uma hérnia de disco e a primeira coisa que a fisioterapeuta disse foi: “Não pule”. Então não vou pra rua na Bahia, como eu gosto. O Paraíso do Tuiuti (pequena escola de samba do Rio) me homenageia e eles me convidaram a participar…

Em sua coluna no jornal O Globo, você vem falando da questão dos direitos autorais e do Creative Commons, mas sem fechar questão. Sendo um dos maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil, e informado que está sobre o assunto, ainda não tem uma opinião formada?

Tenho desejo de fazer algum tipo de mediação, ajudar a manter a discussão num nível bom. Ninguém pode negar o conceito de direito autoral e ninguém pode negar a existência da internet. A briga não pode ser maluca. Há canções, como Minha Mulher Não Deixa Não, que ouvi na Bahia, que não são de ninguém. É interessante, mas isso não quer dizer que Garota de Ipanema não seja de Tom Jobim, que Saudade da Bahia não seja de Dorival Caymmi.

Você está na lista do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) de 2009, publicada em 2010, como o autor com terceiro maior rendimento do País.

Então eu acho que devo defender o Ecad… (risos)

Esse dado mostra que, em 2009, o primeiro lugar foi do Victor, da dupla Victor & Léo, depois vieram Roberto Carlos e você.

Eu adorei essa companhia, não sabia. É bom estar em terceiro lugar, é o lugar de Alegria, Alegria no festival (de 1967)… Ou terá sido quarto? (foi quarto)

Você diz que não “entende de dinheiro”. Não sabe quanto recebe de direitos?

Realmente não faço as contas, não pergunto, isso é muito ruim. Mas sei que o Ecad passou a arrecadar melhor nos últimos anos, todo mundo diz isso. Você vê que o Roberto Carlos se pronuncia nitidamente, chegou a dizer que faria uma passeata se quisessem acabar com o Ecad. Alguns dos que defendem o Creative Commons dizem que o Ecad é uma caixa preta, os outros, que o Ecad é transparente. A indústria são várias camadas que vão se acomodando, não se pode chegar como se fosse o anjo exterminador.

Em mais de 40 anos de carreira, o que lhe deu mais dinheiro: venda de disco ou show?

O que se diz é que se ganha mais dinheiro com show. Quando eu estava na Inglaterra (nos anos 70), o pessoal dizia: os Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin gastam fábulas pra produzir um show, com o qual eles não ganham quase nada, para poder vender o disco. No Brasil, nessa época, já era pelo menos igual ou superior o que se ganhava em shows em relação aos discos. Ou seja, os brasileiros já estavam acostumados a isso. Aqui, o show de sucesso lotava a casa e você ganhava mais dinheiro do que com os discos. Ficou mais parecido com o que era no mundo de língua inglesa, e lá ficou mais parecido com o que nós éramos. É a brasilificação do mundo.

Li que você está “adorando” o governo Dilma.

O Lula era show business, e eu já sou muito show business. Há um alívio geral. Mesmo em quem adorava Lula, com o show permanente, eu noto isso. Não necessariamente desmerece Lula, porque são personalidades diferentes. O Lula encheu o saco, mas o Lula é maravilhoso. Esse período Fernando Henrique Cardoso-Lula foi auspicioso para o Brasil, era muito uniforme, um contínuo, embora os petistas digam que não. Eles terem chegado lá já é algo bom, mesmo que não tivessem conseguido resultados para a população. É por isso que a gente engole mensalão, compra de deputados para a reeleição de Fernando Henrique…

Você leu o texto de Antonio Risério, publicado no “Estado”, em que ele fala que Pernambuco está em fogo alto, e a Bahia, em banho-maria?

Ele está certo. Você chega ao Recife e sente que há uma ideia a respeito de como tratar a cidade. Em Salvador, não. Você não sabe se o prefeito conversa com o governador. Parece uma cidade abandonada, é feio, é triste. E o Recife está maravilhoso.

Diz-se, em tom de piada, que “Caetano opina sobre tudo”. Você dá muita entrevista, fala em todos os documentários sobre música. Sente-se superexposto?

Me chamam pra falar… Mas o Nelsinho Motta está em mais! Às vezes tenho vontade de parar, não falar. Eu gosto de dar entrevista, mas quando eu leio raramente gosto, e, muitas vezes, eu fico amargurado.

Roberta Pennafort / RIO – O Estado de S.Paulo

A propósito do Resta Um…

Porque o RESTO é sempre MAIOR que o Principal 

Estávamos todos contagiados. O mesmo sentimento de euforia e entusiasmo contagiou a mim, Ingra Liberato, Rosamaria Murtinho, Miguel Jorge, Rogério Santana e Alex Moletta naquela agradável noite goiana, ancoradouro privilegiado para nossa emoção, transformando em vibração entusiástica os pilares e preceitos nos quais se ergueu a Belair. A calorosa sensação de ter encontrado alguma coisa que parecíamos buscar há tempos, invadiu o espírito de todos, e nossa vontade era sair abraçando cada um, como dizia a inspirada letra de Chico : “Era uma canção, um só cordão, uma vontade, de tomar a mão de cada irmão pela cidade”… Sim, era como se, a partir das contundentes e belas imagens garimpadas por Bruno Safadi e Noa Bressane, tudo começasse a criar sua própria lógica e os sentidos eregiam conexões absolutamente inovadoras, criando sensorialidade onde antes havia interrogação e tédio. Uma incisiva sintonia aflorou e o rosto de cada um estampava fulgores até então impensáveis.

Capital goiana foi a concha envolvente que abrigou o RESTA UM

Assim, foi-se desenhando com mais clareza a idéia inicial de fazer um registro imagético do inesperado encontro em Goiânia, cidade aprazível demais para deixarmos perder-se nos desvãos do andamento voraz do cotidiano, próprio da modernidade líquida onde estamos imersos(tão bem definida pelo sábio sociólogo Zigmunt Balman).

Miguel Jorge, Ingra l.iberato, Alex Moletta, Aurora, Rogério Santana, Rosamaria Murtinho e Débora Torres: cada um, a seu modo, contribuindo pro RESTA UM

Qual deveria ser o próximo passo então ? Como alinhavar os elos das intersecções que fomos amealhando ao longo daqueles dias, arejados de imagens e plenos do oxigênio das afinidades que se impõem pela naturalidade de ideais siameses ? Como traduzir pelo gesto da palavra e a alquimia do olhar análogo aquela luminosidade que nos arrebatava e intrometia-se em nossas conversas, todas as horas, noite adentro ? Como significar a eloqüência do instantâneo entrosamento em Goiânia e o contato absolutamente conversor expresso no encontro com a Belair ? A Belair de Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignêz…

Cineasta Júlio Bressane, inspirador do clima nas gravações do Resta Um

As idéias então foram tomando assento: no restaurante do hotel, na van que nos conduzia ao cinema, nas cadeiras da sala de exibição, nas trocas de assunto a palpitar quando, a maioria de nós, assumia a função de jurados.

Então Samuel Reginatto, imagem da alegria numa única noite de cinema e festa, se juntou a Júlio Léllis, cineasta amante da Literatura e da sensatez; e se somou à disponibilidade integral de Ingra Liberato, ganhando a benfazeja cumplicidade de Rosamaria Murtinho; e conquistou Miguel Jorge, sábio escritor que de imediato aderiu à nossa idéia de fazermos um filme; e chegou até a Alex Moletta, ator e roteirista a nos encher de ânimo e verdade; e encontrou guarita em Débora Torres, chegando até Rogério Santana, e extrapolando fronteiras para ganhar Sílvio Tendler, Henrique Dantas e o próprio Bruno Safadi. 

Assim, em apenas cinco dias de absoluta imersão no universo da Sétima Arte, do qual Goiânia é âncora todos os novembros, foi gestado o Resta Um, curta-metragem agora ofertado para o olhar, a mente e o coração de quem estiver na platéia ou com este texto em mãos.

Resta Um é um curta digital, colorido, tem 19’25”, roteiro e direção de Aurora Miranda Leão. Ingra Liberato é a presença mais constante, embora não possamos dizê-la “personagem principal” ou protagonista. Isso não existe nos filmes Belair. Lá como cá, os atores não representam mas valem pelo que representam, como nos diz Antônio Medina Rodrigues, e aí a cabeça do espectador tem todo o controle e pode optar por entender o que quiser. O que pra uns pode estar explícito, para outros pode ser apenas um jogo do roteiro ou uma insinuação da direção.  

A imagem icástica de Ingra Liberato a ilustrar o cartaz, bem como o material de divulgação do filme, mostra o indicador da atriz apontando… como a indicar que Resta Um

O que resta encontrar então neste novo filme que Aurora Miranda Leão ora nos oferece ? 

O que resta pode ser você, espectador, que não participou das filmagens e não conviveu com o grupo formado em Goiânia. Resta você que entende a intenção da obra ou resta você que vai sair do cinema perguntando sobre o que é mesmo que viu e qual o sentido deste filme. 

Resta Um filme a ser feito, um fotograma a ser exibido. 

Resta Um desejo de falar da vida e contar da alegria através do cinema. Resta Um desejo de contagiar e fazer coro ao convite de Sílvio Tendler para tentar fazer mais gente entrar nesta canoa. 

Resta Um ator que não estava nas filmagens, um vinho que não foi tomado, e um beijo que não foi roubado. Resta você que se pergunta sobre o sentido deste filme, resta você que poderia ter dado um depoimento. Resta Um espectador que chegou atrasado e um diretor que não foi convidado.

Resta Um convite que não foi aceito e um amor que não se realizou. Resta Um filme que não foi feito e um roteiro inacabado, um caminho a ser seguido e um piano esquecido no canto da sala. 

Resta Um punhado de bons filmes a ver e belas músicas pra ouvir.

Resta Um violão que emudeceu e um canto de passarinhos que não se reproduziu.   

Resta Um carinho esquecido, um afago a ser lembrado e um afeto nunca recebido.

Resta Um filme a ser visto, um aplauso a ser ouvido e um som a ser imitado.

Resta Um enquadramento por fazer, um som e uma luz em sintonia.

Resta Um coração a ser tocado, um amor a ser encontrado.

Resta Um barco no oceano e um barco-olho rumo ao infinito.

Resta Um motivo a mais para se cultivar a ética, um passo a mais a ser dado, um gesto a menos a ser esquecido.

Resta Um belo quadro na parede, flores viçosas na varanda e um roteiro a ser escrito.

Resta Um canto triste a embalar a solidão e um tango sempre disposto a tocar.

Resta Um coro de pássaros a anunciar uma manhã na qual os jornais só estampem boas notícias e um amor de pai e mãe que nem a dor da ingratidão abafou.

Resta Um gol argentino a ser aplaudido, um drible de Messi a ser imitado e uma canção de Lupicínio ecoando na sala. 

Resta Um desvario a ser socorrido, um cotidiano de sonhos a percorrer o imaginário e um arrojo de Kubrick a ser lembrado. 

Resta Um quadro de Picasso a querer ver, um Renoir ainda intacto, um Rembrandt pra quem desconhece as nuances da cor e um bolero de Ravel acordando as madrugadas douradas. 

Resta Um caminho novo a buscar, uma ousadia nova a perseguir e um lixo amontoado na calçada que Vik Muniz precisa transformar. 

Resta Um samba em homenagem à nata da malandragem, um swingue de Gil e Mautner, um ator com a competência de Mauro Mendonça, um desejo de ouvir a contagiante gargalhada de Zéu Brito e mais algumas pérolas de Wisnik.

Resta Um canto feliz de andorinha a sonorizar a espera tão acalentada, e um movimento de Tchaikovsky tocando pra quem não tem medo da música clássica. 

Resta Um texto de Rubens Ewald Filho pra ler, um poema de Jorge Salomão que não nos sai da cabeça, um personagem para Fernando Eiras interpretar e um ator da grandeza de Emiliano pra gente ensinar aos que ainda vão chegar.

Resta Um brilho no olhar da criança esquecida nas madrugadas soturnas das grandes cidades, e um brilho de esperança no gesto de quem vivencia a solidariedade. 

Imagem de Aos Pés, premiado curta do cineasta gáucho Zeca Brito…

Resta Um take a mais de Zeca Ferreira, mais um documentário que Gui Castor está a concluir, uma nova inquietude imagética de André da Costa Pinto, e um novo mergulho nas invenções fílmicas de Zeca Brito.

Resta Um outro Benjamim de Gardenberg para Paulo José, um outro Suassuna para Nachtergaele, um texto com a concisão de Carlos Alberto Mattos, um novo documentário com a assinatura de João Moreira Salles e o precioso olhar de Coutinho.

Resta Um livro a ser lido e um grande autor a ser celebrado. 

Resta Um disco bonito na vitrola, um guardanapo com um poema que a noite revelou, um lenço para amparar lágrimas de amor. 

Resta um quadrilátero de paixão nas esquinas nas quais ela em vão aguardou um adeus. Resta Um um sinal de que a vida é o bem maior. 

Resta Um poeta que a noite teima em querer despertar e um silêncio revelador que o ouvido atento antevê. 

Resta Um desassossego da alma em desalinho pela paixão que arrebata e se intromete nas horas mais improváveis.

 

Resta Um violão dedilhando Bossa Nova e um bar em Ipanema rememorando Vininha.

Resta Um choro de flauta aguardando Pixinguinha e um verso ousado de Clarice, Coralina ou Adélia Prado.

Resta Um solo de Toquinho, uma marchinha do Lalá, um twiiter de Carpinejar e um olhar acurado de Caetano que a manhã precisa revelar. 

Resta Um minuto para que possamos afirmar a palavra necessária e um espanto ante à embriaguez do luar. 

Resta Um comovido apelo à Paz e uma busca incessante pela alquimia dos grandes amores. 

Resta Um olhar sempre atento à obra de Truffaut e à dramaturgia de Fassbinder, um interesse crescente pelo bandoneon de Piazzolla e um espanto ante à indiferença da sociedade do descartável. 

Resta Um motivo sempre novo para ver Fernanda representar e reler a grandeza necessária de Ibsen. 

Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis e um incontido apego aos lugares onde a emoção fez amigos e plantou saudades. 

Resta Um cantinho, um violão, um microfone para celebrar Mário Reis e um anseio de ouvir cantar como Francisco Alves. 

Resta Um filme de Bressane a ser visto e estudado e um olhar acurado sobre a cinematografia inspiradora da Belair. 

Resta Um dilacerante silêncio ante a brutalidade do desaparecimento de John Lennon e um inexplicável mal-estar ante as ingerências nefastas da política no cotidiano. 

Resta Um infinito e revolucionário desejo de se perpetuar nos fotogramas que hoje são pixels nas alquimias da edição digital, tão rápida e eficiente que nos faz brincar com as horas e achar graça da facilidade de criar temporalidades diversas, fazer andar pra frente e retroceder nos ponteiros de nossa imersão cotidiana. 

Resta Um constante e permanente desejo de continuar abraçando o cinema brasileiro e um desejo intermitente de ouvir o som paralâmico da guitarra de Herbert Vianna

Resta Um olhar para A Última Palavra, aquela que nos tirará do dilema profundo que parece nos atar ao nada existencial. 

Resta Um indormido desejo de expressar-se e traduzir em imagens o que vai n’alma e no pensamento. 

Resta Um permanecente intuito de reaprender a amar pra não morrer de amar mais do que pude. 

Resta, sobretudo, essa vontade enorme de acertar e prosseguir fazendo cinema e apostando em coisas nas quais acreditamos, sejam elas concludentes ou não. 

Resta ademais um desejo de falar de vida, o aconchego do abraço amigo nas noites eternas, e a ânsia de chegar a um tempo onde a ingratidão morra de sede, a indiferença naufrague de tédio, a injustiça definhe por inanição e a estupidez se envergonhe de existir… 

Porque, enfim, Resta Um desejo de amar e ser amado

Amar sem mentir nem sofrer

Desejo de amar sem mais adeus…

Até, quem sabe,

Resta Um desejo de morrer de amar mais do que pude. 

Enfim, Resta Um anseio de que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. 

* O título deste artigo e as palavras finais nos foram inspirados por textos do cronista Artur da Távola, bem como as citações óbvias aos versos do saudoso poeta Vinícius de Moraes

Olhar Inusitado para a MPB

Bastidores da MPB, com fotos incríveis, sob o olhar de Cristina Granato

Muita gente vai morrer de rir, outras ficarão um pouco envergonhadas e algumas, nostálgicas. Assim é Um olhar na Música Popular Brasileira, livro de Cristina Granato retratando shows e bastidores da MPB desde a década de 80, com lançamento HOJE, 18, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico.

Cristina tomou uma decisão que tem tudo para agradar a seus muitos amigos e, sobretudo, aos artistas retratados: a tradicional fila de autógrafos está descartada do lançamento. Em vez de autografar, Cristina quer assistir às canjas dos amigos, como o já confirmadíssimo Erasmo Carlos, além de Alcione, Fernanda Abreu, e outros. “Será a primeira vez que vou a um evento para curtir e não para trabalhar”, diz Cristina antes de completar: “Não quero ficar carregando nada. Quero dançar e curtir com os amigos. Acho uma honra o fato de o Erasmo ter topado cantar para mim. Sou superfã dele”. E vai ter muita fã dela por lá também, isso é fato.

João do Valle e Chico Buarque em foto de 1989…

CAETANO no camarim de seu show no COPACABANA PALACE, 1985

TIM MAIA e Marília Gabriela – 2º PRÊMIO SHARPP de MÚSICA, COPACABANA PALACE,  ABRIL 1989

* Da coluna de LU LACERDA, do Rio

Seguindo o espírito BELAIR…

Dentre os tantos aspectos relevantes a se notar no curta RESTA UM, há um praticamente impossível de não se destacar quando nos detemos em suas sequências: o caráter de documento de seu tempo. Assim nas produções da BELAIR, assim em RESTA UM.

Ademais, elementos clássicos do cinema produzido pela BELAIR (produtora que durou 3 meses, em 1970,  durante o regime de exceção que imperava no Brasil, e que realizou 7 longas-metragens) – cujos gritos revolucionários ainda ecoam no cinema brasileiro, mesmo sem a propagação de seus filmes – estão neste RESTA UM, curta que as produtoras Aurora de Cinema e Cabeça de Cuia Filmes acabam de finalizar, como o uso da câmera de mão, as filmagens na rua, a mescla de imagens (filmadora, tevê e celular), o estranhamento através de imagens destoantes, desfocadas, sons propositadamente incômodos ou mal definidos, personagens que não representam mas valem pelo que representam, intertextualidade constante, bebendo na fonte de outras referências imagéticas – como na apresentação de cenas de outros filmes -, deixando claro ser a referência proposital e ancorada numa forma autoral de expressão.

O choque como recurso estético, tão freqüentemente utilizado pela Belair (produtora criada pelos cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla), em quem a obra se inspira e a quem pretende homenagear, também se verifica em Resta Um, de Aurora Miranda Leão. Isso fica patente desde o início, quando o apito inconveniente do elevador, azucrina o ouvido da atriz Ingra Liberato e o de quem a acompanha na sala de projeção. E se condensa na tomada do barco-olho que adentra, com barulho (capaz de provocar estranhamento instantâneo), o oceano na tomada inicial (clara referência ao documentário Belair, de Bruno Safadi e Noa Bressane, grande inspirador deste curta).

Numa aparente dessintonia entre as sequências, Aurora vai construindo uma narrativa cheia de percalços, inconclusões, desconexões, onde vida real e ficção (?) se entrecruzam em associações com elementos ícônicos e intertextualidades profícuas, como as que bem ilustram o depoimento lapidar do cineasta Sílvio Tendler.

A homenagem a Júlio Bressane e o legado da Belair aos poucos se insinua, delicada e espontaneamente, nas filigranas que perpassam a anti-narrativa. Esse dado às vezes fica bem explícito, como na sequência a mostrar a noite carioca, em movimento de câmera oscilante e com nitidez rarefeita. Ou ainda através do take no qual se percebem amigos dançando numa discoteca ao som de “Queixa”, de Caetano Veloso, artista de estreita sintonia com o universo bressaniano. E, sobretudo, na sequência em que INGRA protagoniza homenagem explícita à cena de A Família do Barulho, na qual a câmera se fixa bastante tempo na atriz Helena Ignêz, que aparece em close, até chegar ao momento em que escarra “sangue”. 

Outro dado a saltar aos olhos e assolar o intelecto é o fato de o curta preservar, com propriedade, a característica mais marcante da produção Belair, qual seja filmar entre amigos e o enorme prazer daí advindo. Porque até o espectador mais leigo registra, sem dificuldade, que todas as pessoas envolvidas em Resta Um lá estão por absoluta vontade e adesão ao projeto inicial, dado prazerosamente afirmado no espontâneo depoimento de Ingra. Também a alegria que ilumina o rosto quando o escritor Miguel Jorge aparece e o semblante sereno e internamente feliz de Rosamaria Murtinho são reveladores deste prazer de estar entre amigos e experimentar cinema. E assim como a ironia pensa uma coisa e diz outra, a diretora de Resta Um aparece em seu próprio filme, criando uma instigante dissonância cognitiva, ao criticar, ela própria, o fazer cinema que contagia jovens de hoje e de ontem, de todas as idades. Como diz a pesquisadora Olgária Matos (professora de Filosofia Política da USP): “Nos filmes de Bressane, as personagens oscilam entre a lucidez e a evasão fora da luz. Na ausência de qualquer razão profunda de viver, os filmes advertem para o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento”.

Martha Anderson e Grande Otelo em O Rei do Baralho

Júlio Bressane trabalhou sempre com orçamentos modestos, equipes pequenas, filmagens rápidas e muita invenção, e desenvolveu ao longo dos anos um dos traços mais fortes de sua cinematografia: o intertexto artístico, tão bem captado em Resta Um.

A liberdade radical de experimentação, talvez o maior legado da singular e riquíssima cinematografia de Bressane, é o que mais aflora neste Resta Um de Aurora Miranda Leão. Afinal, como bem diz Bressane, a câmera na mão fora da altura do olho, jogo de foco, câmera giratória, ab-cenas, o infrasenso da linguagem: a câmera filma a própria equipe que filma, o “atrás da câmera”, o som direto com todas as interferências circum-cena, o diretor dirigindo o (in) dirigível etc etc… Tudo isso, toda esta escolha, todas estas figuras, todo este procedimento, toda esta concepção de produção e expressão, tudo é olho Belair. Não há isto no cinema novo. É depois do cinema novo. É Belair.”