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LG Analisa Cinema Alemão

Runze completa 85 anos de batente

Cineasta germânico dos melhores, mas pouco conhecido dos cinéfilos, tão raro ver celulóides alemães por estas plagas, Ottokar Runze completou neste 2011 nada menos de 85 anos bem vividos, tempo durante o qual atuou como realizador e também como escritor cinematográfico, ator e produtor de filmes tanto para a telona como para a TV!. Mestre da concisão e do preciso, cônscio da importância dos signos visuais, mormente daqueles sugestivos de algo subjacente ou prestes a acontecer, Runze lega para os amantes da 7ª Arte um registro de 18 filmes de categoria (v. filmografia mais adiante) recomendáveis para o cinéfilo atento e, naturalmente, para quem estuda cinema e conseguiu ver pelo menos alguns dos seus filmes.Assim, pareceu-nos bastante justo este preito a Runze, pois nem todos os cineastas chegam aos 85 anos com saúde e disposição para trabalhar – e muito – por trás das câmaras e orientar os jovens iniciantes sobre como aproveitar a experiência e as lições de mestres como Schirk, Weingarter, Schwenke e vários outros, máxime no tocante à sempre difícil transformação de uma obra literária em representação cinematográfica. A noção segundo a qual as ações de um filme oscilam entre a continuidade e o intervalo também não pode ser esquecida por quem se inicia na carreira diretorial ou quer aventurar-se na crítica.

Ponto de partida

Nascido em Berlim em 1925/26, Runze começou sua carreira aos 23 anos como ator, mas já aos 26 foi “manager” de um dos teatros de vanguarda atuantes em Berlim, Munique e Hamburg, quando assumiu a TV Aurora. Também atuou no “Deutsches Theater” e de 1956 em diante dirigiu o prestigiado “British Center´s Berlin Theater”. Foi “free lance” até 1968, quando começou a produzir pequenos filmes independentes. Seu primeiro grande sucesso como diretor foi com “Der Lord von Barmbeck” (1973) pelo qual ganhou seu primeiro Prêmio de Cinema concedido pelo Governo Federal. Precederam-no “Viola e Sebastian” (Viola und Sebastian, 1972) e “O Dinheiro Está no Banco” (Das Geld Liegt auf der Bank, 1971), este feito para a TV. Seus filmes, assim como boa parte da sua atuação no “script”/direção, focalizaram o drama criminal, os erros judiciais, a questão da culpa e da pena, e também as falhas do sistema prisional e da nossa visão dos criminosos e de como os tratamos, conforme registra Sandra Brennan, biógrafa de Runze. Como escritor de “teleplays” e realizador, Runze muito contribuiu, segundo Sandra, para o salto qualitativo da TV alemã, uma das melhores da Europa.Quanto ao mais, é preciso não esquecer as lições deixadas pelos cobras do cinema alemão no tocante à adaptação de textos literários para as telas dos cinemas. Poucos fizeram tão bem, daí o motivo pelo qual vale a pena revê-los em DVD, se for possível conseguir os filmes dessa plêiade à frente da qual estão Runze, Farberbock, Müller, Kluge, Tykwer, Schlondorff, Herzog, Monk, Staudte, Baier, Richter, Hirschbiegel, Becker e tantos outros.

 Conceito

“Da retrospectiva do novo cinema alemão destaco particularmente ´O Vulcão´ (Der Vulkan, 1999), ´O Estandarte´ (Die Standarte, 1977), ´O Assassinato´ (Der Mörder, 1979), todos de Ottokar Runze e, naturalmente, ´Inquérito´ (Aufrage, 1962), ´Um Dia´ (Ein Tag, 1967) e ´Os Irmãos Oppermann´ (Die Geschwister Oppermann, 1983), estes de Egon Monk, de categoria ímpar”. (Eberhard Fechner, transcrito do “Deustsche Zeitung”, 1999).

Rumo ao cinema

Findas as experiências ganhas por Runze depois de assumir a Televisão Aurora em 1972, e também o sucesso conquistado por ele como diretor cinematográfico em 1973, pode-se incluir a seu favor o rico aprendizado decorrente do trabalho persistente com os atores e as discussões com os autores, um tanto difíceis, a maioria delas concernente a problemas de iluminação, desenho, adequação de cenários. Tanto o “regisseur” de cinema como o de teatro enfrentam às vezes dificuldades outras nos bastidores, mas Runze logrou resolvê-las. Ele também trabalhou como técnico incumbido da dublagem de filmes estrangeiros para o idioma alemão, e veio daí sua aproximação com a magia do cinema e o interesse em aprofundar-se nos meandros da arte do século. Foi quando Runze começou a fazer seus próprios filmes experimentais e penetrar no mundo de possibilidades ensejadas pela arte das imagens em movimento.

Essa ambiência cinematográfica naturalmente o contaminou, levando-o a estudar cinema não só analisando os livros dos melhores autores do seu tempo, como Bela Balázs, André Bazin, Renato May, Peter Wollen, Ralph Stevenson, Hans Richter, Jean Marie Straub, Visevolod Pudovkin e Sergei Eisenstein, mas também vendo e revendo os filmes dos cineastas mais importantes de alguns países, como Orson Welles, William Wyler, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni, e naturalmente da Alemanha, como os clássicos de F. W. Murnau, Joseph von Sternberg, Arnold Fanck, Walter Ruttmann, Sepp Algeir e Leni Riefenstahl (cineasta de talento invulgar mas infelizmente, como sabemos, peça importante da máquina de propaganda nazista e do sanguinário ditador), e os modernos Alexander Kluge (a inteligência condutora e a voz eminente do novo cinema alemão), Egon Monk, Helmut Käutner, Rainer W. Fassbinder, para citar apenas estes nomes vindos à memória.

Sobre “O Vulcão”

“O Vulcão” (Der Vulkan), elogiada adaptação da obra de Klaus Mann, com “script” do próprio Runze e de sua filha Rebecca e de Ursula Grützmachertabori, tem sido exibido em alguns cineclubes daqui e dali. Por isso mesmo, dos filmes alemães vistos e revistos por este crítico, tanto na Casa de Cultura Alemã da UFC como no Instituto Goethe do Rio de Janeiro, selecionamos “Der Vulkan” para homenagear o derradeiro filme de Runze para a tela, pois soubemos ter retornado novamente para a TV. Além disso, já havíamos comentado “Aimée & Jaguar” (1998), de Max Farberbock (filme louvado por Kenneth Turan, do Los Angeles Times), “Despedida de Ontem” (Abschied von Gestern, 1966), de Alexander Kluge, “O Jovem Torless” (Der Junge Torless, 1967) e “O Tambor” (Die Blechtrommel, 1979), ambos de Volker Schlöndorff, e “A Deusa Imperfeita” (Die Macht der Bilder, 2003), de Ray Müller.

O título O Vulcão foi escolhido pelo romancista Klaus Mann para sugerir metaforicamente o perigo iminente, algo está para explodir o “status quo” socioeconômico e político da França, pouco tempo antes de estourar a II Guerra Mundial, embora alguns franceses desavisados confiassem na intransponibilidade da Linha Maginot ! Como se enganaram ! Em verdade, o Rei da Bélgica, fascista disfarçado e simpatizante de Hitler, não permitiu o prolongamento da linha de defesa da França até o território belga, motivo pelo qual os exércitos do ditador alemão puderam contornar a Linha Maginot em maio de 1940 com suas Divisões Panzer e derrotar as forças de defesa da França para logo chegar em Paris, apesar da bravura dos combatentes franceses.

L.G. DE MIRANDA LEÃO

Ottokar Runze, Expoente do Cinema Alemão

Runze em Oberhausen

Primeiro plano de Marion (Nina Ross) num momento de descontração no estúdio, preparando-se para interpretar sua última canção no filme, um momento inesquecível

Um dos personagens deste fragmento de cena, sempre muito discreto, é o agente infiltrado da GESTAPO. O espectador saberia descobri-lo em tempo?

Marion tenta convencer o amigo a uma tomada de posição diante da situação de como fugitivo

Registramos anteriormente,  numa visão histórico-panorâmica simplificada, a participação de vários realizadores para o ressurgimento do cinema germânico. Por lapso, omitimos o nome de Ottokar Runze, o qual também contribuiu, então com 37 anos, para o ímpeto do “Junger Deutscher Film” (JDF), nome pelo qual o Novo Cinema Alemão ficou conhecido e teve seu ponto de partida em 1962, no Oberhausen Manifesto. Como se recordarão os cinéfilos, trata-se de documento assinado naquele Film Festival por um grupo de 26 escritores e cineastas a exigirem liberdade para contestar certas restrições e exigências às vezes descabidas das convenções da indústria e de produtores, bem como as normas de caráter comercial para o cinema. Havia realmente algo de novo no ar.Houve aliás quem visse a influência da Nouvelle Vague sobre vários realizadores da Europa. Mesmo não sendo a NV um movimento formal, mas antes o trabalho de cineastas franceses com idéias renovadoras abrangendo grande variedade de temas, emprego de atores pouco conhecidos, filmagens fora dos estúdios, câmara na mão, espontaneidade dos diálogos, fluidez do ritmo, ruptura com o cinema um tanto teatral de então, etc. O princípio básico da NV, recorde-se, era o do “auteur”, ou seja, cada filme expressava a visão pessoal e as idéias do seu “metteur-en-scène”.

Nos primeiros tempos, como se sabe, o triunvirato formato pelos jovens François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol esteve sob a influência de André Bazin (1918-1958), crítico, teórico, diretor da “Cahiers du Cinèma”, prestigiosa revista de análises e ensaios da melhor qualidade. Oportuno citar aqui as observações do escritor Neil Thomas para quem a NV nasceu da intelectualização dos filmes franceses dos anos 1950 e início da década de 60, com sua explosão de energia criativa. Foi de fato um movimento marcante do cinema francês.

Diferente da NV, todos eles críticos e redatores da Cahiers sob a liderança de Bazin, principalmente como reação aos métodos convencionais do cinema clássico, o denominador comum do jovem cinema alemão foi uma afronta espontânea à qualidade de vida burguesa, embora a filosofia e o estilo dos seus diretores variassem muito, individualmente: suas realizações foram limitadas por um zelo similar revolucionário e uma visão de vida humanística, quando não com freqüência fatalista.

Os novos cineastas alemães também exigiam liberdade de expressão em face das restrições impostas pela indústria, do contrário não se poderia criar um Novo Cinema Alemão. O Manifesto de Oberhausen veio para ficar. Digam-no Roland Suso Richter, Florian von Donnersmark, Tom Tykwer, Jo Baier, Ray Müller, Jean-Marie Straub e as qualidades dos filmes dos anos 70. As décadas de 80 e 90 já traziam outros enfoques temáticos e destacavam mulheres cineastas, como Agnieska Holland e Doris Döorie, ao lado de Percy Adlon, Eberhard Junkersdorf, Michael Klier, e Hans W. Geissendorfer, Edgar Reitz, Roger Fritz e Will Temper, dentre outros.

Sobre Bazin

Muito grande foi a autoridade intelectual de André Bazin (leia-se “O Que É Cinema?”) sobre os “nouvelle vagueurs” franceses, considerados por muitos como o “professor dos meninos”. Bazin, recorde-se, privilegiava a “mise-en-scène” e não a montagem, bem assim os estilos fundados no plano-sequência e na profundidade de foco dos filmes de Welles tão bem analisados por ele numa coletânea de artigos dedicada ao gênio de Wisconsin, o “enfant terrible” de “Kane” e “Ambersons”.

Bazin privilegiava também a verdadeira “continuidade fílmica” e reproduzia situações dramáticas de forma mais realística, deixando a interpretação de determinadas cenas mais com o espectador e menos com o ponto-de-vista da montagem. Alguns cineastas alemães assimilaram muitos dos ensinamentos de Bazin, aliás leitura obrigatória para todos quantos estudam cinemas e dirigem filmes.

Direção do elenco

Quanto à condução dos intérpretes, Runze não poderia ter feito melhor. Todos estão afinados com seus papéis e mesmo os personagens secundários não comprometem sua participação no drama. Para Nina Ross sobram encômios. São expressivos seus cantos de protesto, não só a prolação das palavras, como a expressividade das suas imagens-rosto. Vale a pena transcrever pequena parte dos versos da bela melodia criada por Heinz Eisler, a última, um canto de saudade, libertador, no qual imagens metafóricas e hiperbólicas se combinam harmoniosamente para dar aos versos um caráter invulgar. /”Meu dia está sombrio/Seu dia está sombrio/ Vamos juntos, queremos nos dar as mãos E nos entendermos muito bem. /O caminho é longo, o caminho é tortuoso, Com certeza seremos premiados.

/Queremos nos prender a alguma idéia realmente feliz E ter um castelo /na lua Um pouco de saudade, um raiozinho de sol, Uma saudade dos dias sombrios/ Saudade, não importa por qual razão /Um pouco de saudade e um sonho efêmero Saudade que jamais acabe, mintamos para nós mesmos /Enganemo-nos penetrando neste mundo e uma vez nele /Transformemo-nos em príncipes e princesas, seres de ouro, /Um pouco de saudade, /um sonho efêmero, Uma saudade que jamais acabe (…)

Senso do cinema

Próximo ao final, Runze surpreende ao produzir um efeito criativo com a colagem de dois planos sucessivos, de tal modo o espectador não perca a continuidade da narrativa visual. Vemos e ouvimos Nina cantando, mas Runze corta e retorna para a jovem em procedimento de aborto, enquanto a enfermeira lhe deixa cair gotas de anestésico na meia-máscara e lhe pede para soletrar os números… Na sua categoria de filme dedicado a todos quantos foram forçados e deixar sua pátria em busca de uma sobrevivência mais digna, “Der Vulkan” é uma realização como poucas dirigida por quem conhece o metiê. O arremate mesmo se dá no face-a-face com a presença do agente infiltrado. O espanto é de quem se vê a sós com uma mulher bonita e decidida, mas o espanto também é nosso. Vemos os dois personagens: eles não se falam. Não há nada a dizer. As imagens dizem tudo.

O ponto final

Dos conflitos vividos pelos personagens do drama e da tensão crescente a caminho do clímax e das imagens-significantes, como se lê na tipologia de Truffaut, (surpresa, choque ou impacto), chega-se ao final. Antes já se vira como a jovem grávida, submetida depois a um aborto, prepara o seu suicídio. O ponto vermelho no braço e sua posição no estrado dizem tudo. Só uma voz parece dizer “a morte é a noite fria” e “a vida, um dia abafado”… Ecoam algumas frases como “Éramos estranhos em nossa própria terra”, enquanto as imagens parecem sugerir outras como “Hoje somos pessoas em trânsito, sem destino fixo”. “Onde estão nossos amigos?”, alguém pergunta. “Todos executados em Sachenhausen”, um campo de extermínio só possível de existir em nosso mundo louco. Pior, havia outros campos da espécie para eliminar judeus e até crianças como em Auschwitz.

A câmara em posição “plongée” leva o espectador aos companheiros em volta do túmulo, enquanto a objetiva se vai movimentando em torno deles. De lá o ajuste de contas entre Marion e o agente infiltrado, como já referido. Depois se torna bastante expressivo o uso dos planos próximos quando a fumaça das locomotivas parece mesclar-se ao apito dos trens e casar-se com o choro de Nina e a despedida de amigos a caminho da Espanha fascista de Franco. Poucas vezes, aliás, se lê num filme o significado intrínseco das imagens-movimento dos trens de ida-e-volta. Runze encerra sua obra-mestra com a volta de Mãe Schwalbe ao mesmo cemitério onde as folhas amareladas do outono começam a cair como na abertura do filme. Um plano visualmente rico capta, à direita, Marion de costas, com seus cabelos louros, e ao fundo, longe, em profundidade, vê-se apenas o espaço vazio. Cai o pano.

Saiba mais

“Le Cinéma Allemand”, de Bernard Eisenschitz, Paris: Nathan, 1999;

“20 Ans de Cinéma Allemand”, de J. L. Pessek, Centre O. Pompidou, Paris, 1978;

“As Teorias dos Cineastas”, de Jacques Aumont, 2ª ed. Papirus Editora, 2008;

“O Que É Cinema ?” (Qu´est-ce que Le Cinéma?), de André Bazin, Col. Horizonte de Cinema, Brasiliense e Livros Horizonte, 1992;

“França”, de Neil Thomas, Larousse do Brasil, São Paulo, 2009;

“Movies, A Language in Light”. de Richard L. Stromgren & Martin F. Norden, Prentice Hall, Inc. Englewood Cliffs, New Jersey 07632, 1984;

“The Film Encyclopedia”, de Ephraim Katz, 3rd. ed. revised by F.Klein & R.D.Nolan, Harper Perennial, New York, NY, 1998; e

“Cinema as Art”, de Ralph Stevenson & J. R. Debrix, Baltimore, Maryland, USA, 1970.6.

Mais sobre Cinema de Ottokar Runze

Filmografia de Runze: 18 filmes

 
  

  

   

 Cena de de “Uma vida Perdida” (Verlorenes Leben, 1976)

Runze tornou-se prestigiado diretor cinematográfico nos anos 70, 80 e 90. Como em 2000 voltou-se mais uma vez para a TV alemã, incluímos nesta filmografia 4 dos seus filmes feitos para a tecnologia de telecomunicações. Ei-los todos:

1.”O Vulcão” (Der Vulkan, 1999);

2.”Cem Anos de Brecht” (Hundert Jagre Brecht, 1998);

3.”Cela: Laura, meu Anjo” (Tatort – Laura, mein Engel, 1994) (TV);

4.”Poeira de Ouro” (Gold Staub, 1993) (TV);

5.”Linda” (Linda)” (1991);

6.”As Irmãs Hallo” (Die Hallo Sisters, 1990);

7.”O Céu Roubado” (Der Verunteute Himmel, 1990) (TV);

8.”O Farejador” (Der Schnüffler, 1983);

9.”Sociedade Permissiva” (Feine Gesellschaft – besch rankte Haftung (1981);

10.”Estrela sem Céu” (Stern ohne Himmel, 1980);

11.”O Assassinato” (Der Mörder, 1979);

12.”O Estandarte” (Die Standarte, 1977);

13.”Vida Perdida” (Verlorenes Leben, 1976);

14.”Faca nas Costas” (Das Messer im Rücken, 1975);

15.”Em nome do Povo” (Im Namen des Volkes, 1974);

16.”O Lorde von Barmbeck” (Lord von Barmbeck, 1973);

17.”Viola e Sebastian” (Viola und Sebastian, 1972);

18.”O Dinheiro Está no Banco” (Das Geld liegt auf der Bank, 1971) (TV);

Muitos dos filmes citados acima tiveram outros títulos nos EUA e em países da América do Sul e da Europa subordinados à sigla AKA ou aka (also known as). De muitos deles, por isso ou por aquilo, não há cópias disponíveis em DVD, pelo menos até agora. Quem possui algumas, não quer emprestá-las…

Ainda Runze

“Segundo li, a maioria dos filmes bem cotados na filmografia de Runze foram exibidos com êxito em vários países europeus. Não encontrei registro da projeção desses filmes no Brasil. Não causa espanto serem tão poucos os cinéfilos conhecedores do moderno cinema alemão! Quem só apreciou Murnau, Sternberg, Stroheim e outros mestres do cinema clássico simplesmente parou no tempo!” Orestes Lima Jr., excerto de carta encaminhada a uma das produtoras alemãs em 2007″.

Opiniões

“A maestria demonstrada por Runze no jogo de luzes, tanto nos espaços interiores como ao ar livre, deve ter sido fruto não só de sua afinidade com refletores como de sua experiência no teatro e na TV, sabendo-se ter sido ele, também falante de outros idiomas, incumbido de dublar filmes estrangeiros para a língua alemã. Nada como a experiência vivida por trás das câmaras para agudizar a visão de quem filma”. Sandra Brennan, biógrafa de Ottokar Runze, citada por Fechner in “Cem Anos de Brecht” (1998).

Sinopse

Os crimes do abominável regime nazista, segundo escreve Mark Deming, sejam eles de ordem política ou não, constituem provavelmente um dos maiores tesouros encontrados pelos produtores e diretores cinematográficos para fazer um filme. Isso não deve surpreender, é normal, pois os maiores crimes da história neste mundo louco e sem sentido dentro do qual vivemos sempre podem chocar as pessoas. “Der Vulkan”, de um diretor independente e bom profissional, foi adaptado com ponto de apoio em livro antinazista. Difere o filme, no entanto, dos padrões tradicionais, pois não se vêem campos de extermínio, tampouco cenas de torturas ou de violência explícita, a não ser no começo das ações, quando um grupo de oficiais uniformizados das SS invade o pequeno teatro onde atua Marion von Krammer (Nina Ross), a personagem central, cantora de prestígio popular, para quebrá-lo e destruí-lo pelo fogo. Marion ousa criticar alto e bom som os beleguins nazistas, chamando-os de “gentinha” (Menschen) repetidas vezes por tudo quanto estavam fazendo arbitrária e covardemente.

Em verdade, o perigo nazista como um todo é mostrado via diálogos e nas reações individuais e na recriação cinematográfica de uma atmosfera, bem assim nas ações subreptícias dos agentes, infiltrados da temível Gestapo e nas dos confiscadores de passaportes capazes de invadir o quarto de um casal bem à vontade para levar consigo o amante da jovem, quase em trajes menores, para acareações…

Os atores do drama

A maior parte dos atores foi escolhida a dedo por Runze, também o produtor do filme. Assim, tão logo entra em cena a Mãe Schwalbe (Katharina Thalbach) ou se abre a cortina, como dizem no teatro, percebemos estar diante de quem conhece o metiê ou entendeu bem, como atriz veterana, tudo quanto quis dela o “metteur-en-scène”. A protagonista vivida pela jovem Nina Ross foi premiada como a Melhor Atriz do Festival de Cinema de Montreal de 1999. Coube-lhe o papel de Marion von Krammer. E como Nina se sai bem, mormente quando muda o tom das canções! Amiga de um grupo de compartriotas residentes na Cidade-Luz, Nina irá conviver com vários personagens e atores como Udo Samel (Professor Abel), o líder oficial do grupo, Martin Korella (Christian Nickel), um jovem autor insatisfeito, Kickjou (Boris Terral, amante de Martin). Stefan Kurt interpreta o agente infiltrado. V. será capaz de descobri-lo?

Nina Ross também se distinguiu pelo seu compromisso social, ou seja, a atriz apóia as ações “Make Poverty History” contra a mutilação genital feminina e diz, alto e bom som: “Para mim, a tortura da mutilação genital é um dos piores crimes praticados em nome da assim chamada honra existente na Terra. Sonho ser possível eliminar essa forma de barbárie e de dominação sobre as mulheres.” Um mundo realmente louco este nosso.

Nina vem de uma família liberal. Seu pai, Willi Hoss, é sindicalista e político (membro do Bundestag pelo Partido Verde). Sua mãe, Heidemarie Rohweber, também atuou como atriz do Staatstheater e mais tarde como diretora do Wurtembergischen Landesbühne Esslingen. Em 2006, segundo lemos nos informes publicados sobre “Der Vulkan”, Nina interpretou o personagem titulo do filme “Yella”, dirigido por Christian Petzold. Por esse papel, Nina foi também premiada com o Urso de Prata de Melhor Atriz na edição de 2007 do Festival de Berlim.

Visão crítica

“O Vulcão” não entrou em nosso circuito comercial,mas foi exibido há tempos na telinha e de uma cópia em VHS foram feitas outras três em DVD para presentear um casal de amigos cinéfilos. Uma outra foi entregue ao crítico e cineasta Wálter Hugo Khoury quando aqui esteve fazendo um filmete para o Banco do Nordeste. “O Vulcão” foi considerado uma das melhores realizações antinazistas dos anos 90, opinião expressa também pelo saudoso cineasta de “Amor, Estranho Amor”.

Plano de exposição

O filme abre de forma invulgar: num cemitério francês, vazio naquele fim de tarde, onde caem as folhas amareladas do outono, uma mulher, Mme Schwalbe, citada anteriormente, dirige-se ao espectador (voz over) e faz pequena analogia entre as folhas e os refugiados alemães judeus em fuga pela França. Todos eles estavam ali, dispersos, mas de alguma forma juntos. Aqueles tempos já se foram, fugiram, irreparavelmente. Fica a lembrança de Nina Ross, cantora de prestígio popular vinculada ao grupo: liderava-o, aliás, ajudando os amigos a fugirem, atuava em reuniões sigilosas e bares da noite. Os eventos mostrados na tela daí em diante foram vivenciados por Mme. Schwalbe, como se ela estivesse narrando para os espectadores os dramas vividos por todos os amigos e companheiros. Próximo ao final ela se reencontra com os sobreviventes daqueles tempos amargos…

Dirigido por quem sempre abominou as ditaduras de qualquer espécie, “O Vulcão” revela, ao longo dos seus 90 minutos de proficiência técnica e senso de oportunidade relativo à escolha do momento e do tempo de duração das imagens, o chamado “timing” do cineasta, enquanto a interação dos ritmos externo e interno também contribui para a fluidez narrativa.

Fique por dentro e atento à teoria

Teoria do Filme. O vocábulo “teoria” tem sido definido pelos mestres como o conjunto de princípios fundamentais duma arte ou duma ciência. Uma teoria do filme, portanto, como a vêem os enciclopedistas Ephraim Katz e seus dois assessores Fred Klein e Ronald Dean Nolan (v. Para Saber Mais), tenta explicar a natureza intrínseca do cinema e analisa como os filmes produzem efeitos emocionais e cognitivos em quem assiste a eles. Com freqüência, as teorias do filme (defendidas pelos livros dos mais importantes teóricos do planeta, como Münsterburg, Arnheim, Aumont, Bazin, Stephenson, Debrix, May, Eisenstein, Burch, Pudovkin, Agel, Stam, Balázs, Kracauer, Epstein, Martin, Kulechov, Dulac, Mitry, Metz) colocam o cinema num contexto mais amplo (sócioeconômico, político, psicológico, filosófico) e provêem uma estrutura para avaliação do mérito artístico. Diferente da prática jornalística, concernente antes à interpretação e julgamento de filmes específicos, a teoria do filme busca estabelecer princípios aplicáveis a todos os filmes.

CineCE Começa na Quinta

  

MURO DE BERLIM no

20º CINE CEARÁ

 

 A 20ª edição do Cine Ceará, a ser realizada de 24 deste a 1º de julho em Fortaleza, terá algumas mostras paralelamente à Mostra Competitiva de longa e curta-metragem. Uma delas é a Mostra Memórias do Muro, que vai retratar uma das fronteiras mais midiáticas da história, o Muro de Berlim, que foi sem dúvidas o símbolo mais visível da Guerra Fria e da divisão do mundo em dois blocos.

 

Com Lúcía Ramos como curadora, a mostra reúne 11 produções, dentre elas documentários e filmes de ficção, que abordam a temática sobre diversas perspectivas, enfocando aspetos da realidade cotidiana e refletindo os conflitos humanos numa cidade e num mundo dividido.

Entre os filmes documentos históricos das cinematografias da Alemanha oriental e ocidental, assim como sete produções inéditas no Brasil. (Confira a programação e as sinopses de cada filme no final deste release). Uma dessas produçõs inéditas é o filme Coelho à Berlinesa, de Bartek Konopka e Piotr Rosolowski, que foi indicado ao Oscar em 2010 na categoria de Melhor Documéntario de Curta-metragem.

 

Stefan Weinert, diretor do filme Contra o Muro, também inédito, é um dos convidados da mostra e tem presença confirmada no evento. Stefan se formou como ator em Colônia e Nova York e estudou cenografia na Escola Superior de Artes Aplicadas de Viena. Desde 2001 trabalha principalmente como ator em produções alemãs e internacionais. Como produtor e diretor realizou os curtas-metragens: Samstag Nacht (2000), The right one (2000) e Always Sergej (2002). O documentário Contra o Muro (Gesicht zur Wand, 2009) é seu primeiro longa-metragem. 

 

O 20º Cine Ceará é uma promoção da Universidade Federal do Ceará, através da Casa Amarela Eusélio Oliveira com apoio do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura e Desporto, e do Ministério da Cultura, através da Secretaria do Audiovisual. A Realização é da Associação Cultural Cine Ceará e conta com patrocínio de empresas públicas e privadas, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura (SIEC) e da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

 

Sobre o Muro de Berlim

 

Levantado em 1961 sem prévio aviso, dividiu a cidade durante 28 anos, deixando um grande número de mortos, separando famílias e ocasionando grandes dramas pessoais. Construído pelo governo da Alemanha Oriental sob o nome de “Muro de Proteção antifascista”, com o objetivo de proteger a República Democrática Alemã da agressão ocidental, deixou a Zona Oriental praticamente isolada e não só tentou bloquear a influência capitalista mas também impediu a emigração dos próprios cidadãos. Sua queda em 1989 representaria o fracasso de uma ideologia e a desaparição de um mundo.

 

Do Muro de Berlim se conserva em pé pouco mais de um quilômetro. O resto virou uma linha de paralelepípedos que cruza a cidade como uma cicatriz quase imperceptível, mas as marcas que deixaram os 28 anos de Muro e os 40 anos da existência de dois estados tem tardado muito tempo em se apagar e evidentemente até hoje desapareceram completamente. À reunificação política de 1990 seguiu um longo processo de integração cultural que ainda não se concluiu. Muito além da divisão da Alemanha em dois sistemas políticos diferentes  foram as respectivas estruturas sociais e mentais que trouxeram consigo este choque cultural. Tanto assim que nos anos seguintes à queda do Muro muitos alemães orientais se sentiam estrangeiros no seu próprio país, e, sobretudo para estes, a reunificação desencadeou uma crise de identidade e uma necessidade de reafirmação semelhante à de um emigrante. Mais do que uma “reunificação” o que aconteceu foi uma quase total absorção do Oriente pelo Ocidente, do Socialismo pelo Capitalismo.

 

Como “perdedores” da Guerra Fria, foram os habitantes do lado socialista os que tiveram que se adaptar a um novo sistema. A velocidade vertiginosa com que aconteceu o desmantelamento da República Democrática Alemã fez que, de um dia para o outro, toda uma geração assistisse ao desaparecimento das suas referencias culturais e à substituição de todos os elementos identificatórios que constituíam sua identidade nacional e sociocultural.

 

PROGRAMAÇÃO MOSTRA MEMORIAS DO MURO

Espaço Unibanco de Cinema Dragão do Mar – sala 2

Sempre às 16h

Dia 25 de junho

PAISAGEM ORIENTAL / ÖSTLICHE LANDSCHAFT / PAISAJE ORIENTAL

INÉDITO
Eduard Schreiber.
Documentário. 13 Min. Alemanha. 1991

DEPOIS DA QUEDA / NACH DEM FALL / DESPUÉS DE LA CAÍDA

Frauke Sandig, Eric Black. Documentário. 85 Min. Alemanha. 1999

Dia 26 de junho

A FRONTEIRA / DIE GRENZE / LA FRONTERA

Franz Winzentsen. Animação. 2.20 Min. Alemanha. 1995

O OUTRO LADO /  DIE ANDERE SEITE / EL OTRO LADO

Ellie Land. Documentário animado. 5 Min. Inglaterra. 2007

 O PANORAMA / DIE AUSSICHT / EL PANORAMA

Kurt Krigar. Documentário. 10 Min. República Federal da Alemanha RFA. 1965

 

COELHO À BERLINESA / MAUERHASE / CONEJO A LA BERLINESA

INÉDITO
Bartek Konopka. Documentário. 39 Min. Polónia/Alemanha. 2009

Dia 27 de junho

CONTRA O MURO / GESICHT ZUR WAND / CONTRA EL MURO

INÉDITO

Stefan Weinert. Documentário. 85 Min.  Alemanha.  2009

 Dia 28 de junho

ADEUS LENIN! / GOOD BYE LENIN! / ADIOS LENIN

Wolfgang Becker. Ficção 121 Min. Alemanha. 2003

Dia 29 de junho

PELOS NOSSOS FILHOS / FLUCHT INS VATERLAND-DER KINDER WEGEN / POR NUESTROS HIJOS

INÉDITO                                                                                                          
Winfried Junge, Hans Kracht.
Documentário. 16 Min. República Democrática Alemã RDA.1965

 O DESTINO DE UM SOLDADO DE FRONTEIRA/ HELDENTOD – DAS SCHICKSAL EINES GRENZSOLDATEN/ EL DESTINO DE UN SOLDADO DE FRONTERA

INÉDITO

Britta Wauer. Documentário. 50 Min. Alemanha. 2001

 

Dia 30 de junho

E TEU AMOR TAMBÉM / UND DEINE LIEBE AUCH / Y TU AMOR TAMBIÉN

INÉDITO

Frank Vogel. Ficção. 92 Min. República Democrática Alemã RDA. 1962