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O Cinema de Invenção de Jairo Ferreira no CCBB de Sampa

 
 Cena do filme O Vampiro da Cinemateca (1977), de Jairo Ferreira
  • Cena do filme “O Vampiro da Cinemateca” (1977), de Jairo Ferreira

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo está exibindo a mostra Jairo Ferreira – Cinema de Invenção, dedicada ao cineasta paulistano que também foi um dos maiores críticos de cinema que o Brasil já teve (e que raramente é visto como tal).

Serão exibidos todos os filmes que Jairo realizou (dois longas, um média e seis curtas), produções que exemplificam com imagens o que o crítico explicou em seu livro clássico Cinema de Invenção, espécie de Bíblia para jovens que procuram o caminho da autoria em cinema.

Era difícil não gostar de Jairo Ferreira. Quem o conheceu, o admirava por sua paixão, pela clareza com que desenvolvia pensamentos complexos, pela imensa generosidade com que acolhia interessados em sua obra, ou mesmo em conversas sobre artes e cinema.

Nos últimos anos de vida, desprezado pela grande imprensa, difundia seus conhecimentos para grupos de cinéfilos em mostras estratégicas, das quais a de Cinema Marginal, organizada por Eugenio Puppo no CCBB-SP em 2001, foi a mais importante. E defendia suas paixões: cinema japonês, Raul Seixas e sessões de magia.

“O GURU E OS GURIS” (1973), CURTA DE JAIRO FERREIRA

Assim, após a exibição do longa “Perdidos e Malditos” (1970), de Geraldo Velloso, em tal mostra, saiu comentando que “a cena de magia é muito bem realizada”. De outro modo, após a exibição de “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla (cineasta que ele admirava muito, e que como crítico tinha grandes paralelos com sua produção), disse para os mais próximos: “Não é dos que mais gosto do Rogério. Aquela cena de magia é ruim”.

Adorava o cinema de Kenji Mizoguchi (“O Intendente Sansho” e “Contos da Lua Vaga”) e Shohei Imamura (seu preferido era “Todos Porcos”), e frequentemente dizia maravilhas de algum outro filme japonês descoberto ao longo dos anos.

Jairo Ferreira foi colaborador da Folha de S.Paulo nos anos 1980, e antes, do jornal São Paulo Shinbum, dedicado à comunidade nipônica, mas disputado por cinéfilos que nada tinham de japonês, ávidos pelo contato com seus escritos (e os de Carlos Reichenbach).

Além de toda a produção de Jairo Ferreira no cinema, a mostra exibe também alguns filmes em que ele participa como ator ou roteirista, e outros sobre os quais escreveu como crítico.

A ausência de filmes japoneses é um equívoco. Poderiam ter colocado também “Suspiria”, de Dário Argento, ou “Dillinger Está Morto”, de Marco Ferreri, filmes que inspiraram críticas essenciais do autor. Existem muitos outros que não fariam mal ao seu panorama na crítica de cinema. Optou-se por privilegiar o cinema brasileiro, o que não é negativo a priori, mas pode dar uma ideia imprecisa de sua produção crítica.

Apesar das ausências (inevitáveis, dado o pequeno tamanho da mostra), a seleção de filmes garante uma série de sessões imperdíveis no pequeno cinema do centro de São Paulo.

Veja alguns dos destaques da Mostra:

Divulgação

 

A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla, estrelado pela musa Helena Ignez

Divulgação

Nem Verdade Nem Mentira (1979), de Jairo Ferreira

Divulgação

Ritual dos Sádicos (1969), de José Mojica Marins

5 FILMES DIRIGIDOS POR JAIRO FERREIRA:

“O Guru e os Guris” (1972)
Curta-metragem. Encontro inspirado com Maurice Legeard, fundador da Cinemateca de Santos.

“O Ataque das Araras” (1975)
Curta-metragem. Filme Herzoguiano que mostra uma trupe teatral no Amazonas.

“O Vampiro da Cinemateca” (1977)
Não apenas uma homenagem e um retrato da cinefilia brasileira, mas um dos maiores filmes realizados no Brasil. Se você só puder ver um filme na mostra, que seja este.

“Horror Palace Hotel” (1978)
Média metragem em que Jairo Ferreira registra encontros impagáveis durante o Festival de Cinema de Brasília.

“Nem Verdade Nem Mentira” (1979)
Curta-metragem em que Jairo pensa o jornalismo, com Patrícia Scalvi.

5 FILMES DE OUTROS DIRETORES:

“Limite” (1931), de Mário Peixoto
Obra-prima do cinema experimental brasileiro. É figura fácil em mostras, mas deve ser sempre revisto, como parte de um aprendizado.

“A Mulher de Todos” (1969), de Rogério Sganzerla
Talvez este seja o filme que melhor exemplifique o chamado “Cinema Marginal”.

“Ritual dos Sádicos” (1969), de José Mojica Marins
Também conhecido como “O Despertar da Besta”, é a obra-prima de Mojica.

“A Herança” (1970), de Ozualdo Candeias
Hamlet, se Shakespeare, no sertão paulista. A genialidade de Candeias em cena.

“Crônica de um Industrial” (1978), de Luiz Rosemberg Filho
Existem outros filmes dignos de destaque na mostra, mas nenhum deles é tão injustiçado quanto este longa especial de Rosemberg.

* Por Sérgio Alpendre
Do UOL, em São Paulo


JAIRO FERREIRA – CINEMA DE INVENÇÃO
Quando:
até 12 de fevereiro
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil – Cinema (r. Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 0/xx/11/3113-3651); 70 lugares
Quanto: R$ 4
Site oficial: bb.com.br/cultura

Bressane: “Precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro”

‘Não me enterrem vivo’

Cineasta Julio Bressane reclama de boicote ao seu trabalho por parte das esquerdas e da imprensa

* Arnaldo Bloch para o jornal O Globo

 Julio Bressane em Lisboa, na Avenida da Liberdade - Foto Enric Vives-Rubio

Em Lisboa para mais uma retrospectiva europeia de sua obra, o cineasta Julio Bressane diz que no Brasil é ignorado pelos editais de financiamento de filmes, as esquerdas e a imprensa o boicotam há 40 anos e a opinião pública de hoje é herdeira do fascismo. 

Como é ser um dito cineasta marginal no século XXI?

JULIO BRESSANE: Hoje a expressão marginal goza até de certo prestígio. Mas foi uma invenção espúria no âmbito de um certo esquerdismo que não perdoava qualquer espírito de vanguarda que não rezasse pela cartilha, como o meu. Não era um bloco monolítico. Afinal, Cinema Novo, em termos de filmes, não queria dizer nada. É sempre assim: no fim, colocam um rótulo para facilitar a inserção no mercado.

Como a bossa nova…

Ou como a Nouvelle Vague. Truffaut, quando indagado sobre o movimento, disse que eram uns contra os outros. Mas o fato é que a coisa do “marginal”, para esse grupo, significava a abjeção suprema, o antissocial. E essas pessoas criaram a Embrafilme, tomaram conta das fontes de financiamento e continuam no poder até hoje. Assim o guichê da Embrafilme ficou vedado a uma meia dúzia de desajustados, entre os quais gente como eu e o Sganzerla. Por isso precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro, para sobreviver.

Mas como seus filmes são financiados?

Em geral, como qualquer filme: através do dinheiro público. Mas com orçamentos pífios, que variam de R$ 200 mil a R$ 500 mil. Porém, um dos meus projetos recentes no qual eu mais apostava, “O beduíno”, vem sendo barrado há dois anos. Nos três editais de que participei, solicitando R$ 600 mil para produzir todo o filme, as comissões julgadoras concederam seu aval para 65 longas-metragens e eu fiquei de fora!

O que aconteceu?

Além das razões que citei antes, há esta mentalidade de que “filme de público” ou “filme de mercado” têm preferência. Ora, isso não existe. Com raras exceções, não há filme que dê lucro. A cada 50 filmes americanos, um se paga. Se considerar o custo do filme, o público não paga nem a cópia. O dinheiro vem única e exclusivamente das fontes, privadas ou oficiais, de financiamento. São elas que pagam as equipes, os diretores, os atores. Os filmes brasileiros, então… Com exceção de um ou dois, é tudo deficitário.

Dos seus filmes, qual deu mais público até hoje?

Nenhum deu “mais público”, já que nenhum deu público algum… Mas mesmo que nem eu vá, eles nunca dão prejuízo em comparação com esses colossos de custos astronômicos. Filmes que custam R$ 200 mil já estão no lucro só de irem à tela. O mais recente, “A erva do rato”, ficou nove semanas em cartaz numa sala. Há grandes produções que ficam o mesmo tempo e produzem grandes rombos. Outra limitação é a imprensa. Venho sendo vítima de um trabalho prolongado de censura a mim e a meus filmes. Quando fiz “Cleópatra”, a maneira com que o filme foi tratado foi de uma brutalidade e vulgaridade sem par. É uma mentalidade genocidária. O que não quero é que me enterrem vivo, isso é que não pode. Essas coisas representam uma espécie de veto à sua vida. Feito por gente com sensibilidade de barata. Esquecem que há gente sensível. Às vezes o que para uma pessoa é uma coisa natural pode levar outra à morte. Conheço em cinema pelo menos três casos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/05/06/julio-bressane-reclama-de-boicote-ao-seu-trabalho-por-parte-das-esquerdas-da-imprensa-924399511.asp#ixzz1Ljsd7CGr

 

* N.R.: Cineasta de minha maior admiração, cuja obra O Mandarim, de 1995, foi tema de meu trabalho de conclusão da Pós-Graduação na UFC – Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos -, JÚLIO BRESSANE é de nossos cineastas o mais erudito e um dos homens mais doces com quem já tive a oportunidade de conversar.

Fico profundamente triste e solidária ao desabafo de BRESSANE e, por isso, não posso deixar de expressar minha mais intensa sintonia com o pensamento e a obra magnânima deste Cineasta – a quem o mundo reverencia constantemente, seja através de mostras retrospectivas, palestras, debates e festivais de cinema, vide a homenagem que ora recebe em Portugal; a que recebeu no início do ano no Uruguai; e as homenagens anuais na Itália -, bem como minha completa repulsa a esta sensação de indiferença e desapreço que hoje se apossa de Julio, inexplicável por tudo quanto já doou à Cultura Brasileira e ao acervo emocional de tantas pessoas que, como eu, aprenderam a  admirá-lo por sua obra importante, singular, e necessária, e descobriram no cineasta um homem sábio, profundo conhecedor da cultura de seu país, sensível, de uma delicadeza que se expressa até na sua maneira pausada de falar e na sua voz sempre baixinha, e, sobretudo, um homem de Cultura e da Cultura, um erudito na verdadeira acepção da palavra.

Nosso APLAUSO mais carinhoso e solidário a JÚLIO BRESSANE e nossa profunda Admiração pelo seu Cinema e sua obra magistral.

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APOIO INSTITUCIONAL: CINEMATECA BRASILEIRA

APOIO CULTURAL: TPK EXPRESS E GFK COMUNICAÇÃO

ASSESSORIA DE IMPRENSA F&M PROCULTURA