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Literatura x Cinema: crítico LG de Miranda Leão fala sobre essa relação

Livro é livro, Filme é filme

Os jogos intertextuais, isto é, o diálogo entre as artes, tornaram-se, praticamente, uma marca das produções artísticas a partir da modernidade, e tal ocorre entre cinema e literatura

Palavras (as do título) com as quais o saudoso Walter Hugo Khoury (1929-2003), cineasta brasileiro dos melhores (recordem-se os êxitos de “Estranho Encontro” (1958), “Noite Vazia” (1964), “As Deusas” (1972), “O Anjo da Noite” (1974), “Filhas do Fogo” (1978), “Amor, Estranho Amor” (1982), para citarmos alguns dos mais louvados (iniciava a apresentação de um filme, seguida depois de um debate com a plateia de um dos prestigiados cineclubes paulistas.

Um ponto de vista

Walter Hugo Khoury não apreciava esse antigo “leia o livro, veja o filme” de alguns jornalistas, pois poderia sugerir que o filme era uma continuação do livro ou que ambos os veículos eram inteiramente independentes. Por isso mesmo, preferia o título de apresentação destas notas sobre cinema & literatura.

A frase de WHK nos leva ao tema deste texto informal sobre cinema e literatura, mas traz em seu cerne um lembrete tanto para os cinéfilos como para os aficionados de literatura: não esqueçamos, porém, a força expressiva das imagens por si mesmas, independentes de sua significação no conjunto de uma realização cinematográfica e da tipologia de François Truffaut, menos complicada em relação à de Giles Deleuze: afinal, Deleuze é filósofo, Truffaut, um dos mais respeitados realizadores da Nouvelle Vague francesa, desaparecido aos 54, quanto muito ainda poderia ter feito em favor da 7ª Arte. Como estamos vivendo o tempo do predomínio das imagens, iniciado já nas últimas décadas do século XX, não admira terem elas um poder sobre o espectador de cinema muito maior em relação às palavras escritas, os chamados signos linguísticos. Não estamos, é claro, subestimando o valor intrínseco da boa e criativa literatura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walter Hugo Khoury e o crítico LG: amizade pelo Cinema

Polos distintos

Houve tempo no qual os críticos e/ou fãs de literatura ou de determinados autores (dos quais se fizeram filmes da categoria de “A Carta” (The Letter), de W. Somerset Maugham, levado ao cinema por William Wyler, ou de “Os Assassinos” (The Killers), de um conto de Ernest Hemingway, sob direção de Robert Siodmak, o primeiro deles de 1940 e o segundo de 1946, para só citarmos estes dois), houve tempo, dizíamos, no qual eram censuradas e menosprezadas as modificações, cortes e acréscimos feitos, por isso ou por aquilo, pelos chamados escritores de cinema, os “screenplayers”, “screenwriters” ou “scriptwriters”. No entanto, nas últimas décadas, como bem registra o filmólogo brasileiro Ismail Xavier em oportuno e substancial ensaio, as obras literárias e os filmes nos quais se baseiam ou se apoiam passaram a ser considerados como dois polos distintos e estes comportariam alterações de sentido em função, é lógico, de uma série de fatores.

Assim, a interação entre as mídias, como salienta Xavier, tornou mais difícil recusar o direito do cineasta ou realizador à interpretação livre de um romance ou peça teatral a serem transpostos para o cinema. Admite-se hoje até a possibilidade de o cineasta inverter determinados efeitos, propor outra forma de entender certas passagens do texto original, alterar a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência dos personagens de sua atuação nas telas. “In verbis”, diz Xavier, “o original literário deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência, a qual deve ter sua forma, e os sentidos nela implicados julgados em seu próprio direito”.

As fronteiras

Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo, escritor e roteirista ou cineasta não têm a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar um “diálogo” do adaptador, não somente com o texto original, mas com seu próprio contexto. Por exemplo, se determinado livro, digamos, de cunho dramático gerado na Europa dos anos 20, enfocando conflitos familiares bem antes do advento do abominável nazismo (1933), caísse nas mãos de um roteirista interessado em filmá-lo, teria de sofrer modificações na sua adaptação para o cinema ou na transposição do drama humano para o nosso século, longe dos campos de extermínio do regime hitlerista.

Outro caminho

Quanto à transposição de uma peça teatral para o cinema, alguns roteiristas afirmam ser mais fácil levar a trama para fora do palco e dinamizar, em termos de linguagem fílmica, a intriga do autor, como em “O Tempo e os Conways”, de J.B. Priestley, teatrólogo inglês de renome. Haveria menos dificuldade de narrar, assim, os acontecimentos, recriando com uma câmara ágil e perscrutadora o corte preciso e os elos de continuidade, bem assim o impacto original da peça. De fato, o autor inverteu a ordem dos atos: do primeiro ato, de uma reunião festiva e alegre da família, quando todos felizes fazem seus planos para o futuro, passa-se para o terceiro ato e veríamos todos os sonhos e aspirações desfeitos, alguns no primeiro ato já não estão vivos no terceiro … Mas a continuação da peça com a reunião festiva do segundo ato logra um efeito irônico magistral: o espectador sabe agora como quase toda a família Conway do primeiro ato se desfez com a Grande Guerra e outras vicissitudes e marcas do tempo assassino. As comparações entre livro e filme devem valer mais para tornar mais claras as escolhas de quem leu o texto e o assume como ponto de partida, não de chegada

Noções acerca da intertextualidade

O processo das relações intertextuais implica, antes de qualquer outra coi8sa, a superposição de um texto a outro; isto é, a relação que se estabelece entre dois textos, uma vez que um realiza uma citação do outro. Apesar desse processo de construção artística constituir, hoje, uma dos traços das produções artísticas a partir da modernidade, sabe-se que, a rigor, sempre houve releituras, quer realizadas entre os mesmos gêneros, as mesmas naturezas de arte, quer entre procedimentos de criação diversos: literatura e cinema; literatura e pintura; escultura e pintura; música e dança; dança e pintura; literatura e música – e assim por diante. Ao deparar tais procedimentos, há o leitor no receptor a sensação de, contemplando uma arte, vivenciar a sensação de déjà vu. Este critério leva em conta as relações entre um dado texto e os outros textos relevantes encontrados em experiências anteriores, com ou sem mediação.

L.G. DE MIRANDA LEÃO é crítico há 50 anos e autor dos livros Analisando Cinema (Coleção APLAUSO/Imprensa Oficial de SP) e Ensaios de Cinema (edital BNB/programa Cultura da Gente)

Olhar de Cinema: um Festival que chegou pra ficar !

Foram 7 dias de muito cinema, traduzido em exibições gratuitas de filmes de 22 países, numa seleção ampla e de qualidade, cuja prioridade foram filmes independentes de todo o mundo; além de debates, oficinas e um Seminário de Cinema Contemporâneo, onde houve espaço pra se falar de todos os passos da realização audiovisual, desde as ideias primeiras para se iniciar uma produção até o intrincado processo da distribuição.

Segundo seus idealizadores - os jovens Marisa Merlo e Antônio Júnior, e mais o premiado cineasta Aly Muritiba -, tudo foi feito com um certo sentimento de urgência, na intenção de preencher uma lacuna no cenário cinematográfico paranaense e brasileiro. Sem exigir ineditismo, a proposta do Festival Internacional de Cinema - realizado de 29 de maio a 4 de junho - era promover reflexões sobre a Sétima Arte e incentivar a possibilidade de novos olhares para a telona, promovendo um saudável intercâmbio entre realizadores, produtores, artistas e jornalistas dos quatro cantos do mundo. Afinal, sendo a Arte a Sétima (como bem diz o mestre LG de Miranda Leão, "A mais rica de todas"), não cabe debruçar-se sobre a produção audiovisual com nenhum tipo de preconceito ou ideia formatada virtualmente.

 

O imponente edifício do SESC - Paço da Liberdade: cenário de debates e do Seminário de Cinema Contemporâneo...

Como este AURORA DE CINEMA conferiu o festival de perto - atendendo a convite da gentilíssima Assessoria de Imprensa de Celso Sabadin -, posso afirmar: os organizadores alcançaram seus propósitos e foram felizes numa Curadoria de viés arrojado, aberta a uma multiplicidade de expressões culturais, mesclando novos talentos, diretores veteranos, convidados de renome, boas projeções e salas lotadas.

Filme de Campina Grande mobilizou e teve ótima repercussão entre crítica e público...

Alguns dos destaques da extensa lista de filmes da programação, foram os brasileiros HU, documentário de Joana Traub e Pedro Urano; Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.; Tudo que Deus criou, de André da Costa Pinto; Sudoeste, de Eduardo Nunes; Estradeiros, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro; e o premiadíssimo As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro.

As comissões julgadoras estiveram compostas assim:

JANELA INTERNACIONAL - Andrea Tonacci, documentarista;
Eloisa Solaas, professora de cinema e integrante da equipe de produção do  BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente); Jose Luis Torres Leiva, realizador chileno.

OLHARES BRASIL - Fernando Severo, cineasta e atual diretor
do Museu da Imagem e Som do Paraná; Leonardo Cata Preta, cineasta, Animador, e Artista Plástico; e Lina Chamie, cineasta, Mestre em Música e Filosofia.

Mostra NOVOS OLHARES - Júri Universitário 

Adriano del Duca, sociólogo e estudante de Cinema; Lucas Murari, estudante de cinema e professor de Teoria e Linguagem do Documentário, História do Cinema, Novos Dispositivos Digitais e Pedagogia da Imagem para crianças; e Tomás von der Osten, estudante de Cinema e montador de diversos curtas.

Mostra MIRADA PARANAENSE - Júri RPC/TV 

Carlyle Ávila, jornalista, diretor de programação da Rede Paranaense de Comunicação (RPCTV), filiada à Rede Globo;  Marcos Souza, roteirista e assistente de direção do programa Casos e Causos, da RPCTV; e Marcus Werneck,gerente de produção e diretor de cena na RPCTV, onde já dirigiu mais de 40 curtas metragens.

Como bem nos saudou Celso Sabadin em seu comunicado pós-festival:

" Tenho a impressão que todos nós acabamos por acompanhar um momento histórico: o nascimento de um Festival de Cinema que tem tudo para se transformar, a médio prazo, num dos mais importantes do Brasil. De qualquer maneira, foi muito legal e muito divertido ter vocês como companhia durante esta chuvosa semana curitibana".

Este AURORA DE CINEMA assina embaixo e corrobora: o OLHAR DE CINEMA tem oxigênio suficiente para se transformar num dos mais relevantes festivais de cinema do país. Por isso, parabenizamos a todos os envolvidos na realização do festival curitibano e saudamos seus fundamentais patrocinadores, em especial a VOLVO, a Copel, e a Scheweppes, além do SESI, SESC, Shopping Crysthal, Cinemateca de Curitiba, Museu Oscar Niemeyer e RPC-TV.

E os vencedores do Festival OLHAR DE CINEMA são:

Competitiva Janela Internacional de Longa Metragem

Melhor Filme – Prêmio Olhar:
Sangue Do Meu Sangue (Blood Of My Blood), de João Canijo.
Portugal.

Prêmio Especial do Júri:
Snackbar (Snackbar), de Meral Uslu.
Holanda.

Prêmio de Contribuição Artística:
Country Music (Musica Campesina), de Alberto Fuguet.
Chile/EUA.
Pelo trabalho de direção.

Prêmio do Público:
Las Acacias (Las Acacias), de Pablo Giorgelli.
Argentina/Espanha.

Sangue do meu Sangue: o premiado longa português de João Canijo...

Competitiva Olhares Brasil de Longa Metragem

Melhor Filme – Prêmio Olhar:
As Hiper Mulheres (The Hyperwomen), de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro.

Prêmio Especial do Júri:
Girimunho (Swirl), de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.

Prêmio de Contribuição Artística:
Estradeiros (Wanderers), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.
Pela força da imagem como representação do universo dos personagens.

Prêmio da Crítica – Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine):
As Hiper Mulheres (The Hyperwomen), de Carlos Fausto, Leonardo Sette e
Takumã Kuikuro.

* Pela maturidade no tratamento cinematográfico da cultura indígena em processo compartilhado de criação

Prêmio do Público:
As Hiper Mulheres (The Hyperwomen), de Carlos Fausto, Leonardo Sette e
Takumã Kuikuro.

Mostra Novos Olhares
Para 1º.s ou 2º.s filmes de cineastas brasileiros e internacionais.

Melhor Filme:
Para Além Das Montanhas (Yama No Anata / Beyond The Mountains), de Aya Koretzky.
Portugal.

Competitiva Janela Internacional de Curta Metragem

Melhor Filme – Prêmio Olhar:
Cross-country (Cross), de Maryna Vroda.
França.

Prêmio Especial do Júri:
Could See A Puma (Pude Ver Un Puma), de Eduardo Williams.
Argentina.

Prêmio de Contribuição Artística:
Cross-country (Cross), de Maryna Vroda.
França.
Pelo trabalho de câmera e fotografia.

Prêmio do Público:
Beast (Csicska), de Attila Till.
Hungria.

Lina Chamie, Aurora Miranda Leão e Rubens Ewald Filho: Olhar de Cinema...

Competitiva Olhares Brasil de Curta Metragem

Melhor Filme – Prêmio Olhar:
Assunto de Família (Family Affair), de Caru Alvez de Souza.

Prêmio Especial do Júri:
Na Sua Companhia (By Your Side), de Marcelo Caetano.

Prêmio de Contribuição Artística:
Dona Sônia Pediu Uma Arma Para Seu Vizinho Alcides (Dona Sonia Borrowed A Gun From Her Neighbor Alcides), de Gabriel Martins.
Pelo rigor estético e economia de meios na direção.

Menção Honrosa:
Vereda (Pathway), de Diego Florentino.

Prêmio da Crítica – Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine):
Na Sua Companhia (By Your Side), de Marcelo Caetano.
Por representar um cinema múltiplo tanto no caráter humano como no estético, explorando com sensibilidade expressões amorosas.

Prêmio do Púbico:
Praça Walt Disney (Walt Disney Square), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.

Prêmio Aquisição RPC para um curta da Mirada Paranaense:
O Descarte (The Disposal), de Carlon Hardt e Lucas Fernandes.

As Hiper Mulheres: filme que vem do Mato Grosso foi o grande vencedor do OLHAR DE CINEMA...

* O documentário As Hiper Mulheres é uma parceria do antropólologo Carlos Fausto, do cineasta Leonardo Sette e do indígena Takumã, e retrata a jornada percorrida por um jovem índio, o qual recebe pedido de um tio, cuja mulher está à beira da morte: ele pede para que tente realizar o Jamurikumalu, o maior ritual feminino da região do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso, para que ela possa cantar uma última vez.