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Sempre por um triz …

Quando A Última Palavra Grita Solidão

O curta-metragem A Última Palavra nos convida a reflexões de ordens várias: lá estão as íntimas ligações entre amor e morte de que nos fala o cientista social Zigmund Bauman…

É clara a influência da obra incisivamente poderosa do poeta Augusto dos Anjos em sua vocação inescapável para os temas da finitude: são imagens de cemitério que ilustram os diálogos cruciais das duas personagens principais. E, embora possa até não ter pensado nisso conscientemente, o diretor coloca na tela diversas cenas cuja inspiração notamos vir de nomes como Caravaggio ( primeiro grande representante do estilo Barroco na pintura),  da teatralidade imagética do diretor mineiro Gabriel Villela (codificado no pé da cigana que nunca pára estático), e até Arthur Bispo do Rosário, ícone da Arte Contemporânea do Brasil, que utilizava a palavra como elemento pulsante – como pulsantes são os fragmentos de discursos amorosos que abrem e fecham o curta de Chico Cavas.

 Já o precioso espírito dos artistas impressionistas – acostumados a trabalhar ao ar livre e sob a luz do sol -, como Monet, Renoir, Mondrian está patente na cena em que a cigana encontra sua futura partner, em passeio matinal numa praça qualquer de uma grande cidade – o filme traz essa ambiência sem localizar uma geografia específica, portanto, a trajetória da cigana é atemporal  e recôndita, embora lídima – poderia se passar em qualquer lugar do mundo. Também intuímos a opacidade plástica de Magrit (maior representante do Surrealismo na Bélgica) através de seu célebre quadro dos amantes que se beijam de olhos vendados, afirmação de dois desconhecidos ante o mesmo desejo.

O amor, que tanto pode suplantar a morte como causá-la, está disposto em A Última Palavra, conforme bem definiu o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu: A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.

Assim, a harmoniosa fotografia de Lília Moema facilita a construção de um arcabouço imagético sensível e poderoso, conseguindo extrair do mais banal uma rica palheta de cores e significados que desafiam um olhar mais acurado e a atenção aos detalhes mais sutis, como no insólito ambiente da última morada. Essa construção também nos transporta ao universo barroco de Aleijadinho, trasmudado nas estátuas e símbolos ecumêmicos evidenciados nos insólitos quadros de um cemitério deserto, entregue ao abandono físico e sensório, tão maior e cruel quanto tão profunda é a dor pela perda de um amor, encerrado sem sequer uma palavra de adeus.

Afinal, de quem é o olhar que olha Carmen e sintoniza Esther ? Quem nos convida a prestar atenção na cigana e a prescrutar as sonoridades de sua inquietação existencial ? De quem o farol a guiar o espectador por este mundo insólito de sombras e dúvidas onde os horizontes semelham labirintos e parecem estágios de solitude e descompreensão diante do nada, do finito, da instabilidade emocional ?

Este olhar que nos desassossega do estado de não-imersão é o mesmo que nos remete involuntariamente para tentar decifrar os sentimentos de Carmen, os caminhos e descaminhos que a personagem perfaz, quer por vontade própria ou por circunstâncias alheias à sua voluntária decisão. Estes, são tantos quanto estão representados na instigante concepção das Sete Vidas, trazodas ao ecrã pela opção estética da apresentação dos felinos no cemitério… eles são sete e ilustram o último diálogo das amantes, cujo fim é trágico, como sói acontecer na quase totalidade das histórias que se constroem entre iguais ou dos amores que existem e se afirmam fora das obsoletas e toscas visões de um tipo único e idealizado de par amoroso.

Tudo que ali nos parece estranho ou incompleto ao mesmo tempo desenha intersecções com experiências já vividas ou intuídas. A certeza de palavras já ditas, versos já ouvidos e sons de rascante intensidade aproximam o espectador da polaridade sentimental que invade a alma em certos momentos de angústia ancestral, não nos abandona e perpassa o leitmotiv do filme em todos os fotogramas.

Lília Moema e Aurora Miranda Leão: filmagens realizadas no centro de Fortaleza em clima de absoluta alegria…

Conseguir captar e traduzir isso tudo em apenas 15 minutos não é tarefa fácil. Necessário um roteiro competente, uma equipe bem entrosada, uma construção de ambiente e luz adequada ao clima que se quer imprimir na textura da obra, uma produção que atente para essas sutilezas do roteiro e uma câmera bem conduzida. Ressalte-se então o inovador e bem construído roteiro de Chico Cavas Jr. (estreante na função) e toda a disponibilidade da equipe envolvida na realização de A Última Palavra. Lília Moema é fotógrafa com anos de atuação no métier e aqui revela, mais uma vez, seu talento e vocação para os cuidados e afetos necessários à captação da luz, escolhendo ângulos que se aproveitem não só por sua beleza mas, sobretudo, pela delicadeza de sua significação e a sincronicidade com o que o roteiro desenha em palavras.

Em A Última Palavra, as saídas para o vazio que se interpõe entre as amantes são as estradas ermas de um espaço de contemplação da morte ou a areia da praia que fareja o mar e sua imensidão infinita. As cartas que um dia anunciarão o amor estão agora dispersas num túmulo que, apesar de tudo, é díficil negar. Por outro lado, o mar e o vazio que sua imensidão desenha no oceano infinito – disponibilizado em sua essência mais trivial para as personagens Esther e Carmen – é como uma foice afiada a amolar seus gumes no oco imenso e profundo que dilacera a alma ante a desilusão do amor que podia ter sido e morreu antes de florescer.

Será assim o amor, sempre por um triz, como tão sabiamente canta Herbert Vianna em uma de suas pérolas ?

Amor & Morte Tematizados em A Última Palavra

A ÚLTIMA PALAVRA É O CONFLITO

 
Carmen sente-se dilacerada e angustiada diante da perda de Esther.

Mas quem é Esther? Afinal, quem é Carmen?

Divididas entre dois mundos, essas mulheres passam a compartilhar um sentimento forte que vai além da razão, e, passa por cima de qualquer sentimento. Resulta por assim
dizer numa forma de viver conflituosa, onde o amor é questionado e o
ódio a expressão da verdade.
O curta-metragem A Última Palavra representa o que podemos
classificar como extrema valorização da subjetividade romântica.

Uma história de duas pessoas que se conhecem, apaixonam-se e seguem seus
caminhos. O amor entre Carmen e Esther caracteriza-se pelo conflito
espiritual, da alma e do sentimento de culpa por ser quem são.

O roteiro da obra audiovisual prima por ser poético e dramático. Tem
como influência o russo Bakhtin e sua teoria do romance, baseado nos
questionamentos da literatura e da estética, limitando-se às
apreciações da linguagem acessível, assim como a expressividade e a
caracterização das personagens, sem introduzir nestas opiniões ou
quase nada de sentido artisticamente determinado.

A estética dos romances considerados sentimentais tem como
característica, num primeiro momento, a identificação visual. O que significa dizer que a linguagem da imagem apresentada está carregada de signos e ainda de apoio para representações ideológicas.

A estética apresentada na obra A Última Palavra é a expressão do gênero
idealizado, da natureza plástica onde as cores representam elementos
que compõem a história e a sensibilidade ilustrativa através das ações
das personagens.


Esther é uma mulher pobre de espírito, frágil e impulsivamente
amorosa. Enquanto a cigana, Carmen, é a representação efêmera do
pecado, do egocentrismo e do desejo de viver.

Elas são mulheres marcadas pela marginalidade, amor autodestrutivo e performance.

As duas são plural na sua sexualidade e totalmente diferentes quanto às
experiências de vida, mas partilham de algo em comum: estão perdidas
em seu mundo e são intrigantes quanto ao seu universo. São o que
podemos classificar de oposição entre o mundo material e o espiritual.


O ocultismo e a morbidez são temáticas recorrentes à obra ficcional
como elemento representativo da natureza sensitiva e da contemplação
do olhar. Há também uma influência e exploração dos efeitos sensoriais
que estão presentes no curta, tais como cor, tom, forma, volume,
sonoridade e magia.

* Texto do diretor e roteirista Júnior Cavas

Um Amor Cigano em A Última Palavra…

Especializandos Realizam Filmagens em Tempo Recorde

Tudo começou com a idéia do trabalha o ser apresentado como conclusão de curso. Turma 2 da Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos (Universidade Federal do Ceará): Júnior Caval pensava em fazer um documentário e nos contou que haveria apenas um personagem ficcional e que gostaria que nós interpretássemos o papel. Não pensei duas vezes: a tela de cinema me atrai ainda mais que o palco… Algumas semanas depois, entre conversas, idéias de trabalhos, tarefas das disciplinas a cumprir, rápidas férias e participação minha em alguns festivais de Cinema, Júnior me contou da necessidade de mudar o rumo do projeto. Faria então uma ficção e não um Doc. Perguntou se topávamos e a nova idéia me atraiu ainda mais.

 Atores em cena.  

Aurora Miranda Leão, Luzy Gomes e Arthur Leite gravam no Passeio Público…

Assim nasceu A Última Palavra, roteiro do publicitário cearense Júnior Caval com direção de fotografia de Lília Moema, produção de Luzy Gomes com auxílio luxuoso de Alberto Maia e do jovem realizador Arthur Leite (conterrâneo de Quixeré, selecionado com projeto de Doc para o Revelando os Brasis), Still de Cris Queiroz, atuação de Jeane Ramos da Silva e colaboração de muita gente.

Depois de alguns encontros, bate-papos e ensaios, as gravações foram marcadas para o último findi de novembro: 26, 27 e 28. E hoje escrevo com alegria e satisfação pelo dever cumprido: gravamos nas primeiras horas do sábado , 27, e no início da tarde de domingo, 28, A Última Palavra estava pronto para ganhar a ilha de edição.

 Esther sofria porque amava muito, já Carmen era uma mulher com prazo vencido.

História de Amor sem final feliz para Cigana Carmen…

Aguarde notícias em breve. E acompanhe no twitter: http://twitter.com/auroramleao

A Última Palavra é Ser Cigana…

 

Jornalista Aurora Miranda Leão assume cigana Carmem em belo roteiro de Júnior Caval, cujas filmagens aconteceram neste sábado e serão encerradas neste domingo, em Fortaleza.

Filme é trabalho de conclusão de curso da Especialização em Audiovisual 2 da UFC e reúne vários alunos: Lília Moema pilota Direção de Fotografia, Luziany responde pela produção com Alberto Martins, Cris Queiroz divide still com o próprio Júnior Caval, Aurora e Arthur Carvalho (promissor cineasta de Quixeré, em fase de produção de seu roteiro premiado pelo projeto Revelando os Brasis)… 

Curta A Última Palavra deve trazer boas surpresas, incluindo belo trunfo na área musical… aguarem outros posts…