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Março de Teatro e É Tudo Verdade no CCBB carioca…

 

Paulo José, JT Leroy, Natália Lage, Caco Coelho, Daniela Thomas, Nelson Rodrigues, e Viviane Pasmanter
 
O Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro apresenta este mês 3 novos espetáculos de teatro
 
Baseado em episódio real, com direção de Susana Ribeiro e Paulo José, JT – Um Conto de Fadas Punk traz a atriz Natália Lage no papel de JT Leroy, jovem escritor consagrado como grande fenômeno da literatura mundial, admirado por personalidades como Madonna, Bono Vox, Winona Rider e que, na verdade, nunca existiu.
 
Natália Lage volta aos palcos dirigida por Paulo José…
 
Um marco na dramaturgia nacional, o espetáculo Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, ganha versão inédita com direção de Caco Coelho e direção artística de Daniela Thomas. No ano do centenário de um dos maiores dramaturgos brasileiros, a montagem ocorre em cenário especialmente desenvolvido para dar vida aos três planos – realidade, alucinação e memória. Ocupando a rotunda do CCBB Rio, durante o dia, o cenário se transformará em exposição interativa, com tablets que mostrarão a obra do autor. O elenco traz Vivianne Pasmanter, Renata de Lelis, Vanessa Garcia, Charles Asevedo, Bruno Fernandes, Felipe Di Paula, Flávia Pucci, Sandra Alencar, Renato Linhares e Luciana Belchior.
 
Tudo Que não Invento É Falso é o espetáculo de dança infantojuvenil inspirado na obra Memórias Inventadas, do poeta matogrossense Manoel de Barros.
 
Presente no CCBB Rio desde sua primeira edição, o Festival É Tudo Verdade completa 17 anos reconhecido como principal evento dedicado à cultura do documentário na América Latina. O Cinema I exibe parte da destacada da programação, recebendo algumas de suas principais mostras.
 
 
 
Sala A Contemporânea abre a série 2012/2013 com a exposição individual inédita: José Rufino – Divortium Aquarum, 2012. Norteado pela apropriação e transmutação de memórias locais, socioculturais e políticas, o site specific do artista paraibano recupera memórias relacionadas ao universo dos rios e do mar.
 
A Galeria de Valores, espaço interativo que conta a história da moeda no Brasil e no mundo apresenta nova mostra na sua última sala: Art Decó/Art Noveau, reunindo um conjunto de jóias de um período mítico da história recente, marcado pelo luxo.
 
Anjos Tortos é a série musical que traz à cena parte do repertório de Itamar Assumpção, Wilson Simonal, Wally Salomão e Torquato Neto. Geniais e geniosos na mesma medida, esses artistas se importavam menos com o sucesso comercial do que com viver e criar intensamente. Entre os convidados estão: Isca de Polícia, Arrigo Barnabé, Max de Castro, Jards Macalé e Chico César.
 
As séries musicais permanecem no Teatro II com espetáculos temáticos: Gauchada Sul Gêneris traz Marcelo Delacroix e Band, Simplesmente Inédito tem como tema Linguagens, Eternos Modernos recebe Quarteto Radamés Gnatalli e participação especial de Paulo Sérgio Santos.
 
A edição de março de A Ópera na Literatura: Uma Inútil Precaução traz Ivo Barbieri (ensaísta), Osvaldo Ferreira (maestro) e André Paes Leme (diretor teatral) para falar de Elektra (Richard Strauss & Hofmannsthal).

Monique Gardenberg: De Volta ao Teatro falando de Solidão

Desencontro entre Desiludidos Marca Inverno da Luz Vermelha

 

Em 1997, o dramaturgo americano Adam Rapp viajou com seu melhor amigo para Amsterdã, na Holanda, onde conheceram uma prostituta na região conhecida por Bairro da Luz Vermelha. Rapp buscava ajudar o colega, que sofria por um desentendimento amoroso. A mulher, no entanto, envolveu-se com os dois e modificou o relacionamento entre os amigos. A trama marcou também Rapp que, em 2005, escreveu e dirigiu a peça Inverno da Luz Vermelha, cuja montagem nacional estreia amanhã, no Teatro Faap, marcando a volta de Monique Gardenberg à direção teatral depois de três anos, atendendo ao convite dos produtores Beto Amaral e Pedro Igor Alcântara.

 

Como não poderia ser diferente, a concepção ganhou ares mais requintados – inicialmente desinteressada pelo texto, cuja primeira leitura revelou um certo exagero dos personagens, Monique logo descobriu o fio condutor que orientou sua concepção criativa. Assim, David (André Frateschi), decidido a ajudar na recuperação sentimental de Matheus (Rafael Primot), aproveita a viagem de férias que fazem à capital holandesa para contratar o serviço de Christine (Marjorie Estiano), prostituta francesa. O encontro ultrapassa o simples jogo sexual, pois uma relação de afetividades mal resolvida acaba se instaurando.

“Não consigo trabalhar com personagens totalmente desprezíveis, assim, depois de limitar um pouco a ação de cada um deles, acredito ter encontrado o tom certo”, conta Monique, que faz aparas sutis mas necessárias. David, por exemplo, no original, é completamente execrável, da mesma forma que Matheus é homem por demais torturado em sua amargura. “Na nossa versão, isso não acontece, assim como foi eliminado um certo moralismo”, observa Frateschi. Ele se refere especificamente à ação do segundo ato, quando, passado um ano, os personagens voltam a se encontrar, agora em São Paulo. Nesse momento, Matheus revela sua total devoção por Christine, representada por um casaco que ela deixou no quarto, depois daquela noite. A moça, aliás, volta ao Brasil em busca de Davi – sim, ela não é francesa e se chama, na verdade, Ana. E, depois de descobrir que é portadora de um vírus letal, retorna ao País. O reencontro do trio é trágico e lembra o célebre poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade: Matheus ama Christine/Ana, que ama Davi, que não ama ninguém. Foi sobre esse triângulo que a encenadora lapidou as relações amorosas de forma direta. “Afinal, o drama é molhado enquanto a tragédia é seca”, comenta.

“É um momento revelador da peça, pois cada personagem demonstra ter transformado fatos banais em coisas grandiosas, o que não traz satisfação nenhuma”, conta Rafael Primot, detectando as filigranas no texto de Rapp que conquistaram diretora e elenco. “Rapp retrata a dor do mundo ao mostrar o tamanho do desencontro das pessoas”, afirma Monique. “E o resultado dessa aposta errada é a solidão”, sentencia Marjorie Estiano. E, como Matheus é um escritor e prepara uma peça abordando exatamente a relação entre os três, surgiu aí a chave da concepção de Monique. “A metalinguagem, ou seja, uma encenação acontecendo dentro de outra sem que ninguém saiba ainda como será o final, inspirou todo o espetáculo”, conta a diretora, que influenciou também o trabalho da cenógrafa Daniela Thomas. Assim, ao abrir a cortina, o público descobre um palco totalmente despido, com seus cabos de aço e a parede de tijolos ao fundo à mostra. E a área da encenação é delimitada por alguns elementos, como uma porta, um sofá, uma estante de livros, posicionados de forma a montar um quadrado. “Com a iluminação de Maneco Quinderé, surge um certo toque de irrealidade, que ajuda a alimentar a dúvida da plateia”, comenta Monique, que parte de uma história banal para fazer um fino comentário sobre a solidão.

PRESTAR ATENÇÃO Na música. Habitual nos trabalhos de Monique Gardenberg, a trilha é de arrasar, com destaque para Tom Waits. No solo. Ao cantar Creep, do Radiohead, na guitarra, David (André Frateschi) quase simula uma relação sexual com Christine (Marjorie Estiano). No cenário. Inspirado no filme Dogville, de Lars von Trier, Daniela Thomas demarca o espaço apenas com alguns móveis. Na semelhança. Christine terá o mesmo destino que a atriz Jean Seberg, citada na peça.

QUEM É MONIQUE GARDENBERG

Organizou eventos (Free Jazz Festival, entre 1985-2001), dirigiu filmes (Benjamin, 2003) e peças (Os Sete Afluentes do Rio Ota, 2002).

* Texto de Ubiratan Brasil in www.estadao.com.br