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Betse de Paula afirma: “Alice Gonzaga é um gigantesco google de papel, memória viva do nosso Cinema !”

Alice 2010 Conservatória

A noite da próxima quinta-feira será de festa na cidade mineira de Ouro Preto: naquela noite, a cineasta Betse de Paula estará lançando seu mais novo filme – DESARQUIVANDO ALICE GONZAGA – na sessão inaugural da décima-segunda edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP –, que será aberta àquela data em cerimônia oficial.

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Betse de Paula em noite de entrega do concorrido KIKITO…

Cineasta, produtora e roteirista premiada, desde a infância Betse de Paula vive às voltas com as artes. A família tem vasta tradição, formada por respeitáveis nomes do cinema, do teatro e da TV, como o pai, o cineasta e produtor Zelito Vianna; o tio Francisco (Chico) Anysio, um dos maiores nomes do humor brasileiro; a tia atriz e diretora teatral Lupe Gigliotti; a prima atriz e diretora de televisão Cininha de Paula; e os primos atores, dubladores e radialistas Nizo Neto, Lug de Paula e Bruno Mazzeo, além de ter sempre convivido com grandes nomes da arte brasileira, em especial do cinema, e em particular do Cinema Novo, que frequentavam a casa paterna, como Glauber Rocha, Mário Carneiro, Carlos Diegues e David Neves. Mas foi com o irmão, o futuro ator Marcos Palmeira, que Betse de Paula ainda criança teve a primeira aproximação ao mundo da arte, concebendo e dirigindo peças para o mano atuar.

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Betse de Paula com o irmão Marcos Palmeira no Programa do Jô

A carreira de Betse de Paula é marcada pelo refinamento da matriz cômica, em que atinge a maturidade e o reconhecimento crítico, com o sucesso de Vendo ou Alugo, e o aprofundamento de uma estratégia discursiva para o documentário.

Diretora de filmes importantes como O casamento de Louise e Celeste & Estrela, nos quais retoma elementos das chanchadas e os conjuga com o humor brasileiro contemporâneo (oriundo de programas como Brasil Legal), optando pela leveza do comentário e da ação em vez do escracho e do quiproquó, Betse funda em 97 a Aurora Cinematográfica, sua própria produtora de cinema.

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Betse de Paula com Marieta Severo e Natália Thimberg, protagonistas de seu premiado filme Vendo ou Alugo...

Acompanhando a voga do documentário como principal esteio de produção do cinema brasileiro contemporâneo, Betse de Paula ingressa no longa-metragem com o premiado Revelando Sebastião Salgado, o que lhe permitiu fixar uma linha de trabalho em torno de personagens novamente “enclausuradas”. Nos últimos anos, associou-se à voga das séries contemporâneas, desenvolvendo um longo projeto sobre os diretores de fotografia brasileiros. E outro sobre Guardiãs da Floresta, mulheres que com seu trabalho e modo de vida defendem a Floresta e o Planeta.

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Alice Gonzaga, por sua vez, conhece o mundo da Sétima Arte desde garotinha. Herdeira do jornalista e produtor Adhemar Gonzaga – pioneiro do cinema brasileiro, idealizador da lendária revista Cinearte e fundador da CINÉDIA, famoso e pioneiro estúdio de cinema fundado em 1930 – Alice dedica seu tempo e sua energia a preservar a memória da Cultura, em especial a do Cinema Brasileiro, De 1997 a 2013 desenvolveu incansável trabalho para salvar a filmografia da Cinédia, conseguindo feito inédito no campo da preservação e inspirando muitos outros produtores e realizadores a valorizar suas criações e sua permanência como patrimônio.

Desde que assumiu a condução da Cinédia, em 1971, após a morte do pai, Alice Gonzaga nunca deixou de trabalhar no arquivo documental, nutrindo-o com os acontecimentos do cinema brasileiro e mundial. E assim mais do que triplicou o tamanho do acervo recebido do pai, distribuindo a massa documental que continua a organizar sozinha por mais de 170 arquivos de aço, estantes e armários. Verdadeira fonte de prazer e senso de pertencimento a uma comunidade forjada por seu pai ainda ao tempo da revista Cinearte, o Arquivo Cinédia é atualmente o maior patrimônio documental do país sobre cinema em geral e cinema brasileiro em particular, cobrindo desde os primórdios até a atualidade, acumulando cerca de dois milhões de documentos.

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A ideia para um filme sobre Alice Gonzaga surgiu de um providencial encontro entre a diretora Betse de Paula e sua personagem durante o IV Anápolis Festival de Cinema, em 2014. No início do século XXI, Betse desenvolvera – em parceria com a roteirista Júlia Abreu – um projeto de longa-metragem de ficção sobre a realização do campeão de bilheteria O Ébrio nos estúdios da Cinédia, naquela época funcionando em São Cristovão. Jogada de Milhões nunca foi produzido e ao reencontrar Alice em Anápolis, Betse percebeu que poderia tratar do universo cinediano de outra maneira. Embora estivesse na cidade goiana para apresentar sua mais nova comédia dramática, Vendo ou Alugo, Betse de Paula se aproximara um pouco antes do documentário como uma linguagem que lhe permitia aprofundar certos aspectos de personalidades que lhe interessavam, como em Revelando Sebastião Salgado, seu primeiro documentário, premiado em Gramado e noutros festivais.O novo campo também lhe interessava por desafios de criação opostos aos da ficção, na medida em que tinha que lidar com o imponderável e a mudança constante dos parâmetros de filmagem.

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Alice Gonzaga no red carpet do Amazonas Film Festival ao lado do ator Rômulo Hussen…

Originalmente pensado como um longa centrado em conversas com Alice Gonzaga, Desarquivando Alice logo transformou-se no acompanhamento da rotina diária da incansável pesquisadora, que se conecta menos com a empresa e mais com seu trabalho cotidiano de recolhimento, organização, catalogação e arquivamento de milhares de documentos anuais relativos à atividade cinematográfica no Brasil. Betse descobriu no portentoso Arquivo Cinédia o cenário ideal para desenhar seu novo filme e um lado pouco conhecido daquela que foi chamada pelo jornalista Arthur Xexéo de “Primeira Dama do Cinema Brasileiro”.

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Alice Gonzaga e o curador do acervo Cinédia, o escritor e professor Hernani Heffner…

Certamente a biografia de Alice Gonzaga poderia se confundir com muitos momentos importantes que a cercaram desde os anos 30 do século passado, passando pelo contato com notáveis das artes, da política e da sociedade; poderia acompanhar sua carreira de jornalista, empresária, produtora e cineasta; poderia até mesmo desvendar um pouco do lado self-made-woman que caracteriza Alice desde que ela resolveu ter renda pessoal e trilhar um caminho próprio. Mas uma Alice Gonzaga no presente se impôs. Do alto de seus 82 anos, não havia como deixar de captar a energia, vivacidade e espírito da Sra. Cinédia.

E assim nasceu DESARQUIVANDO ALICE. Foram 10 encontros ao longo do ano de 2016, com Betse sempre seguindo Alice pelos corredores do arquivo, “com ela nos guiando por sua vida ao mesmo tempo em que arquivava os últimos recortes e nos mostrava tesouros da história familiar, da companhia e do cinema brasileiro.”

Um roteiro completamente diferente do que estamos acostumados, só interrompido pelo mergulho nas imagens e sons do tempo, muitos sugeridos por ela, outros descobertos pela produção. “Na medida que os encontros iam se sucedendo, ela vinha com mais informações, mais documentos, mais filmes. Já tínhamos formatado uma primeira montagem e Alice nos presenteou com imagens inéditas de sua primeiríssima infância. Cenas deliciosas dela bebê, com os pais e brincando na Cinédia ainda em formação. Mudamos tudo e poderíamos ter mudado outras vezes porque o arquivo é inesgotável”, comentou Betse com a montadora Dominique Paris ao final da edição.

O resultado final é um delicado equilíbrio entre as diferentes facetas de uma mulher extraordinária, com destaque para a produtora, a arquivista e a preservadora. Esta última persona talvez tenha sido a mais desafiadora e a mais importante, pois o acervo de filmes e documentos da Cinédia poderia ter tido o destino ingrato de tantas outras iniciativas do cinema brasileiro, não fosse a determinação de cuidar, de preservar, de transmitir que Alice teve, ao procurar os filmes, restaurá-los duas vezes e zelar por sua preservação. “Desarquivar Alice foi também desarquivar um pouco dessa história oculta”, afirma a diretora, emocionada.

Agora é marcar a passagem para Ouro Preto e correr pro abraço em Betse de Paula e Alice Gonzaga, duas fortalezas do Cinema Brasileiro !

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Betse de Paula com a família: o mano Marcos Palmeira, a mãe Vera e o pai Zelito Vianna