Arquivo da tag: Djin Sganzerla no teatro e no cinema

Amazônia, Gorki e Eduardo Viveiros de Castro no novo filme de Helena Ignez

Atriz e diretora premiada, Helena Ignez tem roteiro instigante para falar de Humanidade e saudar a Vida 

Diretora prepara terceiro longa com elenco encabeçado por NEY Matogrosso, Djin Sganzerla e Igor Cotrim….

Ela diz estar numa época de completa efervescência artística. E demonstra alegria com isso.

É verdade. Depois do boom que foi sua aparição no cinema na década de 1970, Helena Ignez vive outro momento de consagração e reconhecimento à sua tocante dedicação à Sétima Arte.

Considerada uma Diva do quilate de Marlene Dietrich e Marilyn Monroe, Helena Ignez sempre foi uma das mais belas e ousadas atrizes do Cinema Brasileiro.

Cresci ouvindo meu pai dizer que eu precisava conhecê-la porque ela era bela demais, de uma beleza ousada e sensual, diferente de todas as outras.

E meu pai sempre foi um habitué e estudioso da Sétima Arte. Por isso, e por sua grande admiração por Orson Welles, tinha em Rogério Sganzerla (companheiro da Diva por 35 anos e também um assumido fã do genial artista americano),  um exemplo de grande cineasta. E encontraram-se muitas vezes e o tema principal das conversas era esse.

Portanto, eu sempre admirei Rogério e Helena, e gostava dela muito antes de a conhecer.

Até que chega o dia tranquilo no qual conheço Helena Ignez e nossa sinergia foi imediata. Parece até havia uma trilha do instante ecoando A energia da Amazônia abençoou… Além de tudo que ouvira sobre ela, encantei-me pela mulher de alma translúcida, coração apaixonado, gestos delicados, inteligência refinada, simplicidade cativante e beleza que se entranha no modo de ser e conceber a vida. Por isso, transita entre o Cinema e o Teatro com tanta maestria e consegue ser tão magnânima

A arte de Helena Ignez tem a força poderosa de sua visão de mundo, que traduz uma alma visceralmente interessada em propagar o Bem, brindar a Beleza, espalhar o amor ao próximo, saudar a Natureza, e brindar o dom da vida.

Helena Ignez em Bagé, em foto de Aurora Miranda Leão…

Esta mulher admirável vem sendo constantemente convidada para homenagens em festivais de cinema pelo país, onde acontecem exibições de seus filmes (aqueles nos quais atuou ou os que dirigiu), ou aonde vai para levar a energia de sua presença e também compor comissões julgadoras.

Assim, Helena esteve recentemente no Amazonas Film Festival, no Festival Nacional de Cinema de Goiânia, na edição do Festival do Rio realizada em Berlim, no III Festival de Cinema da Fronteira (Bagé-RS), e segue, no final de janeiro, para o concorrido festival de Roterdã (Holanda). Neste último, ela será jurada, posto até então ocupado por um único brasileiro, o querido mestre Júlio Bressane – de cinematografia aplaudida mundialmente.

Helena Ignez tem um currículo numeroso, recheado de grandes trabalhos, seja no teatro, no cinema, na dança, e mesmo nas artes plásticas. Os dois filmes que dirigiu – Canção de Baal e Luz nas Trevas – tem repercussão mundial, e já ganharam diversos prêmios em todos os lugares por onde passaram – um reconhecimento importante e salutar ao trabalho desta pacifista da Arte.

Helena Ignez leva a Amazônia no pescoço: a jóia é uma criação Rita Prossi…

Agora, entre tantos projetos nos quais está envolvida, Helena Ignez se debruça sobre RALÉ, o terceiro longa, no qual vai atuar e dirigir, juntando grandes amigos e a equipe que já a acompanha há algum tempo.

RALÉ é inspirada no texto homônimo do renomado dramaturgo russo Máximo Gorki (escrito em 1901), mas vai muito além do texto que o inspirou, e promove uma instigante sintonia com a visão inovadora do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, defensor da idéia de um Perspectivismo transformador, a partir da Amazônia e a força de seu povo pioneiro. Para Viveiros de Castro, a Amazônia é o epicentro do mundo.

Helena Ignez vai então colocar o epicentro do mundo na tela e a Amazônia é o primeiro set onde pretende aportar, a partir de maio, acompanhada do ator e cantor NEY MATOGROSSO – “um ator extraordinário, com quem quero sempre trabalhar”.

Ney Matogrosso e Helena Ignez em cena de Luz nas Trevas

HELENA IGNEZ aproveitou a recente estada em Bagé – durante o III Festival de Cinema da Fronteira, e falou pela primeira vez, publicamente, sobre o projeto de filmar RALÉ:

“No fundo, o filme fala sobre a transformação que é possível acontecer nas pessoas através do pensamento. Porque as pessoas que compõem essa RALÉ são todas pessoas que a vida, de alguma forma, chicoteou em algum momento, e elas conseguiram transpor situações degradantes, e se transformaram. O filme foca, sobretudo, o momento em que elas estão saindo para uma transformação maravilhosa através do pensamento”.

Helena no teatro, dividindo a cena com a filha Djin Sganzerla…

Helena Ignez está em fase de captação de recursos. Sua filha Sinai Sganzerla assina a produção executiva, e a Mercúrio Produções (dela e das filhas) é a produtora oficial. Apesar de dizer que estamos num momento não tão favorável para a Cultura,  Helena está empolgada com o novo trabalho e crê que possa estar, já em maio, com a equipe técnica filmando no Amazonas, onde tem cenas de incrível força e plasticidade, ao lado do amigo NEY Matogrosso, protagonista da história.

“O filme tem grande parte ambientada na Amazônia, junto a uma populaçãao ribeirinha, com sequências diferentes, onde estamos eu e Ney, ligadas à cultura amazônia e xamânica. Um filme com um apelo muito visceral para se enxergar a Amazônia em sua devida importância e pluralidade, como epicentro do mundo. Ali está todo um manancial de riqueza natural, essencial para as transformações que o mundo vai vivenciar nas próximas décadas. E o mundo precisa estar alerta para isso e dar a devida atenção àquele rosário de forças poderosas que emana do pulmão do Brasil, a Amazônia”.

Em recente passagem por Manaus, Helena Ignez aproveitou para investigar ainda mais esse universo que pretende colocar na tela: passou a noite num resort na selva, entrosou-se com artistas amazonenses, adquiriu peças da joalheira Rita Prossi (conhecida internacionalmente pela beleza de suas peças artesanais), conversou sobre o filme com a Film Comission e a Secretaria de Cultura do Estado, visitou por duas vezes o Museu do Homem do Norte, e andava sempre com um caderninho, anotando tudo o que pudesse acrescentar ao seus estudos sobre a Amazônia.

 
foto

Helena Ignez no tapete vermelho do Amazonas Film Festival, com Rômulo Hussen e Aurora Miranda Leão…

Eu fui testemunha destas caminhadas de Helena e posso dizer o quanto a atriz saiu verdadeiramente maravilhada com o que viu. Ela diz: “Manaus é um lugar elegantíssimo, um lugar do Brasil que precisa ser conhecido e é a porta para o epicentro do mundo, que é nosso, e que é a Amazônia. E este lugar está entranhado no pensamento antropofágico ligado a Oswald de Andrade e a Rogério Sganzerla, porque a Ralé é uma história ligada a esse pensamento, enriquecido pelos estudos vigorosos deste antropólogo de reconhecimento mundial que é o Eduardo Viveiros de Castro”.

Igor Xotrim, que  também está no elenco, foi convidado por Helena Ignez ainda em Manaus…

E continua: “Nosso filme é de baixo orçamento, de um milhão de reais, e terá também locações numa cidade grande, que deve ser São Paulo, onde vamos fazer cenas de uma cidade em construção, e onde será acentuada a questão da identidade brasileira”.

QUEM É VIVEIROS DE CASTRO

Apontado por Claude Lévi-Strauss como o fundador de nova escola na antropologia e considerado hoje um dos maiores antropólogos do Brasil, Eduardo Viveiros de Castro defende a idéia de que os mitos indígenas têm elementos filosóficos freqüentemente ignorados pelo Ocidente.

Para ele, “A sociedade moderna poderia se inspirar no pensamento indígena para repensar sua relação com a natureza”.

O antropólogo já deu sinal verde a Helena Ignez para explicitar suas ideias nesta Ralé, que será protagonizada por Ney Matogrosso.

Que venham então os patrocínios e apoios para que nossa eterna Diva, atriz consagrada e diretora inspiradora, possa colocar a Amazônia seminal e essa pulsante inspiração no pensamento indígena nas telas de todo o mundo.

* As fotos dos índigenas que ilustram este post são de Viveiros de Castro…

Que venha a RALÉ ! – brasileira, amazônica, indígena, visceral, libertária, renascida como Fênix e inspirada em Gorki e Viveiros de Castro para acrescentar ao enorme e salutar mosaico da cinematografia brasileira a sensibilidade de Helena Ignez e as vivências e visões de mundo de toda a turma que vai compor sua impactante e urgente RALÉ.

Em companhia de Alice Gonzaga, Helena Ignez aproveitou a ida a Manaus para conhecer o antigo Cine Éden e defender sua reabertura.

Helena Ignez em visita ao atelier da artesã de jóias, Rita Prossi, em Manaus…

Djin, uma Bela nada Indiferente…

Helena Ignêz diz que peça é “A radiologia de um amor infeliz”

Ela é filha de dois ilustres da Cultura Brasileira, dois ícones do nosso Cinema. Isso, por certo, deve pesar na estrada de qualquer um, e é preciso muita garra e uma luz muito especial para seguir em frente, dignificando o legado dos pais e perfazendo seu próprio caminho, longe dos ‘compromissos’ que o sobrenome forte pode transformar em cobrança.

Bonita, elegante, sensual e atriz de entrega total ao personagem, ela vem trilhando uma estrada que só dignifica e honra o eloquente legado. Embora sua trajetória exista por seus próprios méritos, é evidente a absoluta intersecção com os alicerces semeados pelos pais, e é patente que sua coerência e pungente inserção na seara cultural exista embasada naqueles, e plena das energias emanadas do ilustre casal, protagonista de uma das mais belas e férteis parcerias da cena artística nacional.

Falo de Djin Sganzerla, a jovem e bela atriz, fruto do amor da grande atriz Helena Ignêz com o polêmico e prolífico cineasta Rogério Sganzerla, jornalista, escritor e gomem de Cinema, tão cedo partido do nosso convívio.

Djin é a filha mais nova e estreou como atriz no último filme do pai, o emblemático O Signo do Caos, de 2003. De lá pra cá, vem fazendo papéis de destaque e arrebatado prêmios por muitas dessas atuações – como é o caso do filme Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi, no qual ela contracena com Gustavo Falcão (!).

Agora, Djin está em cartaz no SESC Consolação, em Sampa, com a peça O Belo Indiferente, texto escrito por Jean Cocteau especialmente para a musa Edith Piaf. A montagem  atual tem direção de André Guerreiro Lopes (marido de Djin), em parceria com Helena Ignêz, e está revestida de pitadas de irreverência na sua abordagem sobre as relações humanas, especificamente o amor.

Pouco encenada no Brasil, O Belo Indiferente registra no currículo, durante os anos 80 e 90 do século passado, atuações icônicas como as das atrizes Helena Ignez (sua mãe), Glauce Rocha e Maria Alice Vergueiro.

Apesar de tratar-se de um monólogo, a montagem atual traz dois personagens: Ela, vivida por Djin Sganzerla, e Ele (Dirceu Carvalho). Ela fala e Ele se cala. O enredo é simples. Durante uma madrugada, uma cantora espera seu amor num quarto de hotel. Seu amado Emílio, enfim, chega! Sem dizer uma palavra, anda pelo quarto, deita-se na cama e lê, tranqüilamente, seu jornal. Ela tenta por todos os meios atrair sua atenção, mas nenhuma estratégia é suficiente: ironia, raiva, sedução, confidências, denúncias, ameaças.

Como será rompida essa incômoda indiferença ? Isso é que o público saberá assistindo ao espetáculo.

Sobre a parceria com a filha, com quem já trabalhou em dois filmes e outros espetáculos, Helena diz que a vontade de acertar reina. “Dirigir um ator é sempre um ato de amor”, explica. Lopes concorda e não reclama de ter a sogra como parceira. “Está sendo muito natural. Cada um traz para a montagem o que tem de melhor”.

Djin Sganzerla segue os passos da mãe, a eterna musa Helena Ignêz

Todos concordam: a experiência e familiaridade de Helena com a obra ajudaram na hora de dar profundidade ao drama da personagem. Além de ter feito Djin recordar da primeira vez em que viu a mãe encenando: Eu era pequena. Tive medo que aquele homem machucasse a minha mãe”, conta. Medo de comparações, ela não tem. “Deixo qualquer pressão para trás.”

Para aproximar o público do casal problemático, o cenário coloca a plateia dentro do espaço cênico, o qual serve como quarto e mente da cantora. “Assim, é mais fácil perceber a grande questão: o que faz uma mulher linda e inteligente não se desprender dessa relação ruim ?”, conclui Lopes.

Contracenando com o marido André Guerreiro Lopes em Luz nas Trevas, longa dirigido pela mãe, Helena Ignêz, e Icaro Martins

André Guerreiro Lopes diz buscar ressaltar a atemporalidade e dramaticidade poética do texto.

“Fugimos de um enfoque naturalista para retratar a situação de uma mulher em crise e seu amante num quarto de hotel. Ao invés de ‘trazer para os dias de hoje, buscamos o que existe de profundamente humano neste amor obsessivo…”.

A montagem original, que estreou em Paris em 1940 com atuação de Edith Piaf, causou controvérsias entre o público da época. Traduzida para todas as línguas, o texto foi encenado por grandes atrizes do mundo.

Djin já foi premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor atriz de 2008 por sua atuação no filme Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi, o qual também lhe rendeu prêmio no Festival de Cinema Luso Brasileiro, em Portugal.

Djin Sganzerla recebendo elogios significativos por sua atuação em O Belo Indiferente…

Serviço
O BELO INDIFERENTE

Temporada – Quintas e sextas, às 21 horas. – 60 minutos. Até 16 de dezembro.
Ingressos – R$ 10,00; R$ 5,00 (usuário matriculado, estudante com carteirinha e aposentado) e R$ 2,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes).
Espetáculo recomendável para maiores de 12 anos.