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É Tudo Verdade: Ainda dá tempo !

Até dia 17 podem ser feitas inscrições de documentários brasileiros para participar do É Tudo Verdade 2013 – 18º Festival Internacional de Documentários. As inscrições são gratuitas.

Fundado e dirigido pelo crítico de cinema Amir Labaki, o mais importante evento dedicado à produção não-ficcional na América do Sul, será realizado entre 4 e 14 de abril, simultaneamente, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O circuito de itinerâncias será posteriormente divulgado.

É exigido ineditismo absoluto no país para os longas e médias-metragens documentais candidatos a disputar a mostra competitiva nacional, cujo prêmio, no valor de R$ 110 mil, é a maior premiação para documentários brasileiros, independentemente de compromissos com distribuição em salas ou veiculação televisiva.

Não há exigência de ineditismo para a competição de curtas brasileiros, mas a seleção dará preferência a produções inéditas. O mesmo critério vale para a seleção de títulos nacionais para as mostras informativas do festival (O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano). Regulamento e ficha de inscrição no site www.etudoverdade.com.br.

Filme de Mocarzel abraça Raiz para não ficar à margem…

À MARGEM DO LIXO, documentário de Evaldo Mocarzel, entra em cartaz dia 13 de abril no Rio, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Florianópolis. Entre os meses de abril e maio, 1109 cineclubes de 700 cidades do Brasil também vão exibir o filme. 

À Margem do Lixo mostra a rotina de vida dos catadores de papel e materiais recicláveis na cidade de São Paulo. Trata-se da terceira parte de uma tetralogia iniciada com À Margem da Imagem, que recebeu 19 prêmios em festivais no Brasil e no exterior, e À Margem do Concreto, que recebeu prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival de Brasília.

 

“O documentário tenta focalizar a indústria da reciclagem a partir do catador. O Brasil é líder mundial da reciclagem de alumínio. 87% do alumínio produzido é reciclado”, explica o diretor Evaldo Mocarzel“A lucratividade desta indústria é sustentada de muitas maneiras pela economia informal e pela miséria destes catadores”, completou Mocarzel.

 

O diretor, que também é jornalista, faz questão de frisar a diferença entre um documentário e uma reportagem. “No documentário, você pode fazer uma imersão em um tema e não tem que ouvir todos os lados. Se eu colocasse um dono de fábrica [de reciclagem de materiais], eu estaria criando uma armadilha ética condenável”, explicou. “Eu queria um filme que falasse sobre o trabalho. Eu queria um cinema de propaganda da luta e da militância”, ressaltou. 

Cine Mais Cultura

À Margem do Lixo, do diretor Evaldo Mocarzel, será distribuído, entre os meses de abril e maio, a 1109 cineclubes de quase 700 cidades de todos os estados brasileiros. Participarão filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes (entidade da sociedade civil que representa os cineclubes do país) e contemplados do Programa Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura (ação que disponibiliza, por meio de editais, equipamentos de projeção digital, obras brasileiras do catálogo da Programadora Brasil, e oficina de capacitação cineclubista, atendendo prioritariamente periferias de grandes centros urbanos e municípios em vunerabilidade social).

A RAIZ DISTRIBUIDORA deseja provocar uma grande discussão sobre as formas alternativas de exibição no lançamento de filmes no Brasil. Como sabemos, os filmes brasileiros têm enormes dificuldades de competir por um espaço no circuito exibidor comercial com os grandes lançamentos internacionais. Portanto, a RAIZ quer cumprir a missão de fazer o documentário À Margem do Lixo ser visto pelo máximo de pessoas possível, em todos os cantos do país. 

Sobre Evaldo Mocarzel

Nasceu em Niterói (RJ) e formou-se em Cinema e Jornalismo na Universidade Federal Fluminense. Seu primeiro curta-metragem Retratos no Parque foi realizado em 1999. Dois anos depois, dirigiu o curta À Margem da Imagem, que discute a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão social mais absoluta e que virou longa-metragem em 2003. No ano seguinte, realizou o documentário Mensageiras da Luz. Em 2005, Evaldo Mocarzel dirigiu dois documentários: Do Luto à Luta, sobre a Síndrome de Down, e À Margem do Concreto, sobre os sem-teto de São Paulo. No ano de 2006, finalizou o documentário Jardim Ângela. Em 2007, lança mais dois documentários: Brigada Pára-Quedista, sobre a tropa de elite do Exército, e O Cinema dos Meus Olhos, sobre a relação de críticos e realizadores com o cinema. Em 2008, finalizou o documentário À Margem do Lixo e Sentidos à Flor da Pele. Os projetos BR-3 A Peça e BR-3 Documentário foram realizados em 2009, junto com os longas Quebradeiras e São Paulo Companhia de Dança. Seus dois últimos projetos, finalizados em 2010, foram Cubra Libre e Encontro das Águas.

 FICHA TÉCNICA de À MARGEM DO LIXO

Brasil, 2008, 84 min, livre

Direção: Evaldo Mocarzel

Produção: Assunção Hernandes

Produção Executiva: Fernando Andrade

Direção de Produção: Leonardo Mecchi

Produção de Set: Celso Martins e Beto Nogueira

Direção de Fotografia: Gustavo Hadba e André Lavenère

Roteiro: Evaldo Mocarzel e Willem Dias

Pesquisa: Eduardo Nunomura

Montagem: Willem Dias

Fotografia de Still: Epitácio Pessoa

Música: Thiago Cury e Marcus Siqueira

Produção de Finalização: Letícia Santos e Leonardo Mecchi

Distribuição: Raiz Produções 

Prêmios Recebidos

41° Festival de Brasília (2008) Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme pelo Júri Popular, Prêmio Aquisição TV Brasil, Melhor Fotografia.

XII Festival Internacional de Derechos Humanos: Melhor Documentário

 

Os vencedores do É Tudo Verdade, por Carlos Alberto Mattos

A força dos personagens

Meirelles, Cuíca, Sganzerla

Apesar do espaço cada vez maior que os festivais de cinema brasileiros vão abrindo para os documentários, o É Tudo Verdade continua a ser a menina dos olhos da turma do real. É ali onde se forma um certo senso de comunidade, e o foco se concentra nas questões dessa modalidade de cinema. O festival virou um motivo a mais para novos documentaristas se aventurarem a bordo de suas câmeras.

No último dia 31, foram conhecidos os premiados da 17ª edição, encerrada no Rio e em São Paulo, seguindo dia 10 para Brasília e em maio para Belo Horizonte. O vencedor da competição brasileira de longas-metragens leva um prêmio no valor de 110 mil reais – mais um motivo de interesse para quem lida com os orçamentos miúdos da chamada não-ficção.

O que salta aos olhos desse conjunto de sete trabalhos selecionados pelo festival é, mais que tudo, a força dos personagens centrais. À exceção de Tokiori – Dobras do Tempo, de Paulo Pastorelo, que trata de uma rede de imigrantes japoneses numa área rural de São Paulo, os demais são dominados por personalidades fortes. Quatro delas dão título aos respectivos filmes, mostrando como a personalização é dado recorrente na pauta dos documentaristas brasileiros. De todos, Mr. Sganzerla, de Joel Pizzini, e Os Irmãos Roberto, de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, antípodas em matéria de estilo, são os que mais se colam à forma de expressão dos seus personagens.

Pizzini cria uma espiral barroca de referências para apresentar o cineasta Rogério Sganzerla através de quatro grandes admirações: Orson Welles, Oswald de Andrade, Noel Rosa e Jimmi Hendrix. Pelo uso abundante de falas de Sganzerla, numa edição veloz, o filme reproduz a sua verve de enfant terrible, as alusões obsessivas e o estilo indisciplinado que o fizeram, assim como Glauber Rocha, quase tão importante pelo que disse e escreveu como pelo que filmou. A impressão de excesso é parte da proposta um tanto avassaladora de ser fiel ao personagem.

No extremo oposto da escala de irreverência, Os Irmãos Roberto enfoca, com imagens e depoimentos bem organizados, o trabalho dos arquitetos modernistas Marcelo, Milton e Maurício Roberto, responsáveis pelo célebre escritório MMM Roberto. O filme os apresenta através de falas e imagens bem compostas, editadas de maneira a sugerir linhas de continuidade e harmonia de formas condizentes com a obra que enfoca. Embora nada se fale da vida pessoal dos Roberto, são eles, como personagens, que norteiam um debate mais amplo sobre os destinos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

Uma figura como Dino Cazzola, o produtor cinematográfico italiano que registrou a criação e consolidação de Brasília durante três décadas, tem sua vida privada referida rapidamente em Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília. No filme, Andrea Prates e Cleisson Vidal trazem uma seleção de imagens daquele acervo praticamente desconhecido. A intenção é contar a história da capital por um viés crítico, ainda que se utilizando de filmagens quase sempre “chapa branca” em sua origem. Mas os poucos dados biográficos de Cazzola despertam a curiosidade do espectador. Com sua cidade destruída, ele teria ajudado os pracinhas brasileiros na Itália e vindo com eles para o Brasil ao fim da II Guerra.

Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, e Coração do Brasil, de Daniel Santiago, são filmes de expedição que se inscrevem numa das primeiras tradições do documentário brasileiro. Mesmo assim, são os personagens principais que controlam o timão dos docs. Paralelo 10 viaja com o sertanista José Carlos Meirelles por um rio do Acre, nas proximidades da área dos índios isolados. Meirelles é um dos fundadores da nova mentalidade indigenista que visa respeitar o direito do índio ao não contato. Já em Coração do Brasil, são três homens de idade avançada que se dispõem a refazer a viagem que empreenderam 30 anos antes ao centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Aqui também, é a personalidade dos viajantes que acaba se sobrepondo às peripécias do trajeto.

Nenhum, porém, é mais pitoresco do que o personagem-título de Cuíca de Santo Amaro. O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um “canalha modesto” no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

FLUXUS – Rede Criativa de Cinema

FLUXUS 2011 : um lugar expandido para o cinema
Festival exibe 34 filmes em competição no SESC Pompeia e no site
www.fluxusfestival.com
 
Qual é o lugar para se ver um filme? No cinema, em casa na TV, no computador? O lugar predeterminado para acontecer a experiência cinematográfica vem se expandido nas últimas décadas. Extrapolou há muito os parâmetros da caixa escura. Há 11 anos, o Fluxus – Festival Internacional de Cinema na Internet propõe que o cinema esteja online em www.fluxusfestival.com: ver filmes, compartilhar, o cinema como informação e formação cultural.
 
Ao Fluxus interessa exibir o cinema contemporâneo de curta duração produzido seja por novos talentos ou por cineastas premiados que contribuam para a arte do audiovisual.
A oitava edição do Fluxus 2011 apresenta 34 filmes na mostra competitiva. São filmes de ficção, documentários, animações e vídeos experimentais, captados em diferentes suportes  – digital, 35mm, Super8, Super 16, miniDV – e realizados em 18 países. Todos eles poderão ser vistos no site do Fluxus – www.fluxusfestival.com – a partir do dia 28 de junho.
 
Além da site, o Fluxus propõe também uma nova concepção para se ver filmes e participar do festival. No SESC Pompeia, de 29 de junho a 31 de julho, doze telas exibem simultaneamente os 34 filmes da mostra competitiva. O espectador percorrerá um circuito circular de exibição, em que poderá transitar por entre as telas, escolher qual curta quer ver. Não há sessões nem horários marcados. O espectador faz seu trajeto, é responsável pela sua programação.
 
O Fluxus 2011 – Festival Internacional de Cinema na Internet é apresentado pela Petrobras, através da Lei Rouanet – Ministério da Cultura. A exposição no SESC Pompeia é uma realização do SESC e tem produção e idealização da Zeta Filmes.
 
Os filmes da mostra competitiva foram escolhidos entre 1.200 inscritos. Os selecionados trazem o frescor da diversidade de temas e formas inusitadas de retratá-los. As ficções são a maioria, destacando-se entre elas aquelas em que as relações amorosas estão em destaque, como em “15 verões mais tarde”, do espanhol Pedro Collantes e “Alfama”, do português João Viana.
 
Entre os cinco documentários da competição destaque para o íntimo e pessoal “Adeus, Mandima” de Robert-Jan Lacombe; e a vida isolada na Galícia em “Rural Pretérito”, das irmãs Sonia e Miriam Albert Sobrino. O cinema brasileiro está presente com cinco filmes: do documentarista mineiro Marcos Pimentel,“Taba”; novos diretores de ficção Laura Lima (“Um Par”) e Stefano Capuzzi Lapietra (“Nalu”); o trabalho experimental do paulista Alfredo Hisa(“Nearby”) e, finalmente, a inventividade do mineiro CarlosMagno Rodrigues com “Drop in the Darkness”.
 
O Melhor Filme será eleito pelo voto do público no site do festival, mas será decidido também pelo voto dos convidados da Rede Fluxus. A partir de julho, e durante quatro meses, 50 convidados, selecionados entre formadores de opinião, artistas, jornalistas, cineastas, etc., não serão responsáveis apenas em votar, mas também farão indicações de filmes e comentários que serão replicados no Twitter e no Facebook. A ideia do Fluxus é criar no site do festival uma rede criativa e crítica sobre os filmes. O Melhor Filme será anunciado em novembro quando o Fluxus abre uma nova exposição no Oi Futuro, de Belo Horizonte.
 
 
Fluxus 2011 em números:
 
Mostra Competitiva: 34 filmes : 18 ficções, 9 experimentais, 5 documentários e 2 animações.
 
18 países: Brasil (5 filmes), Coreia do Sul (5), Espanha (5), França (3), Suíça (2),  Irã (2), e, com um filme cada, Alemanha, Argentina, Bélgica,  Estados Unidos,  Holanda, Indonésia, Inglaterra, , Portugal, Rússia, Taiwan, Turquia, Ucrânia.
 
Serviço
Fluxus 2011 – 8º Festival Internacional de Cinema na Internet
Site:www.fluxusfestival.com
twitter: @fluxus_festival
facebook.com/fluxusfestival

Cultura da Pichação na Tela

www.luzcamerapichacao.com.br
Um documentário sobre a pouco compreendida cultura de rua da Pichação no Rio de Janeiro

DSC01606 - redimen.jpg        1a Exibição Aberta ao Público no Brasil     

 

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No último 16 de Junho, cerca de 350 pessoas assistiram à primeira exibição aberta do documentário Luz, Câmera, PICHAÇÃO e lotaram um auditório com capacidade para 250 na UERJ. Pessoas pelas escadas, e mesmo deitadas logo abaixo da tela, marcaram o evento que contou com a presença tanto dos realizadores, assim como de alguns pichadores presentes no filme.

E o LCP segue pelo Mundo.

No próximo dia 25, às 18:30, o Luz, Câmera, PICHAÇÃO será exibido na maior mostra de StreetArt já feita nos Estados Unidos. Desde Abril no MOCA (Museum of Contemporary Art) em Los Angeles, a exposição “Art in the Streets” faz um panorama da história da StreetArt e com a exibição do LCP, passa, então, a não deixar de fora o fenômeno da Pichação.

Confirme sua presença no Facebook: http://on.fb.me/jBXhWe

Documentário Celebra José Lewgoy

O texto é do colega José Geraldo Couto, do Estadão, o qual reproduzimos pela preciosidade a que se refere, com absoluto conhecimento de causa.

José Lewgoy em ‘Quando a Noite Acaba’, de 1950

Todo grande ator é único, mas José Lewgoy (1920-2003) foi talvez o “mais único” de todos. Nenhum outro trafegou com tanta desenvoltura – e estilo inconfundível – de Strindberg à chanchada, de Terra em Transe à novela das 7, de Werner Herzog a Eu Dou o Que Ela Gosta.

Um vívido retrato desse artista múltiplo é o documentário Eu, Eu, Eu, de Claudio Kahns, que deve chegar às telas em junho. Amigo de Lewgoy desde as filmagens de O Judeu (de Jom Tob Azulay), no final dos anos 80, Kahns não chegou a filmar depoimentos do ator para o documentário. “Ele sempre rechaçava”, explicou ao Estado. Dizia: “Isso é para quem está com o pé na cova, você está querendo me matar”.

Mas não faltam no filme entrevistas de Lewgoy, um homem que sempre gostou de falar de si mesmo. O próprio título Eu, Eu, Eu vem daí. É Paulo César Pereio que conta no documentário a saborosa história. Lewgoy estava falando ao telefone com Carlos Reichenbach, que se recuperava de um enfarte. Lá pelas tantas o cineasta pergunta ao ator: “Escuta, você não quer saber como eu estou? É só “eu, eu, eu”?”.

O proverbial mau humor de Lewgoy era, de acordo com os amigos, apenas aparente, superficial. “Ele é como o mar. Você passa aquelas primeiras ondas, na arrebentação, e depois é tranquilo”, diz o cartunista Chico Caruso no filme. O cineasta Guilherme de Almeida Prado, que o dirigiu em Perfume de Gardênia e A Hora Mágica, define lapidarmente: “Lewgoy tinha senso de mau humor”.

A ranzinzice do ator tinha certamente a ver com sua aguda consciência do próprio valor. E talvez, também, com o fato de ter vivido na profissão periódicas “quedas” – ou mudanças percebidas como tal por ele quando ocorreram.

Um exemplo foi sua volta ao Brasil, no final dos anos 40, depois de ter estudado arte dramática na Universidade de Yale, nos EUA, com uma bolsa conseguida graças à ajuda de Erico Verissimo, que o vira atuar no Teatro do Estudante de Porto Alegre.

“O navio nem tinha zarpado e eu já me arrependia da decisão de voltar”, diz o ator no documentário. “Deixei naquele cais (de Nova York) minha carreira de ator internacional.” O golpe foi duro. Após conviver com a nata do teatro norte-americano e atuar com sucesso em peças de Strindberg e Molière, Lewgoy se viu reduzido a papéis de vilão em chanchadas da Atlântida e sentiu isso como uma humilhação.

Paradoxalmente, foram esses papéis que lhe deram fama instantânea no Brasil. Lewgoy vivia tão duro que um amigo lhe pagou o ingresso para assistir à estreia de Carnaval no Fogo (Watson Macedo, 1949), no Rio. “Entrei no cinema desconhecido e saí famosíssimo”, relembra o ator no documentário.

De acordo com o jornalista e crítico Sérgio Augusto, estudioso da chanchada, passar de repente a ser reconhecido na rua serviu como uma compensação para o que o ator sentia como um “rebaixamento”:

 “Com sua experiência de teatro moderno e sua visão de cinema – pois tinha visto muitos filmes nos EUA -, Lewgoy era muito mais preparado que os atores brasileiros, que vinham do rádio, do teatro de revista, do circo”, explica o crítico em depoimento ao filme.

Mas a carreira do ator teve outras guinadas espetaculares. Depois de cinco anos de chanchada, durante os quais cristalizou sua persona de vilão, foi convidado para o Festival de Cannes de 1954. Foi para passar 15 dias, acabou ficando dez anos na França, onde, entre outras coisas, atuou sob a direção de Georges Rouquier (em S.O.S. Noronha, 1958) e contracenou com Louis Jourdan e Jean Marais, de quem se tornou amigo.

Na nova volta ao Brasil, em meados dos anos 60, viu-se sem lugar no mercado. A chanchada estava extinta. O Cinema Novo voltava seu olhar sisudo para a favela ou o sertão, cenários em que a figura de Lewgoy não se encaixava. A solução para o impasse veio num filme de exceção, em todos os sentidos: Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha.

O crítico e professor de cinema na USP, Ismail Xavier, resume ao Estado a importância de Lewgoy para a obra-prima de Glauber: “Sua contribuição foi fundamental para o filme como alegoria política. Ele compôs de forma extraordinária a entonação da voz, as oscilações da fisionomia e a retórica dos gestos largos do líder populista Vieira nas distintas fases de sua carreira, sua força e fraqueza, a faceta do “homem cordial” tomado pelos afetos (positivos e negativos) e o ar sombrio do político realista nos momentos de reflexão”.

Depois de Glauber, outra “queda” na cultura de massa. Em poucos anos, Lewgoy foi vilão em filmes de Roberto Carlos e coadjuvante num punhado de pornochanchadas como A Cama ao Alcance de Todos e Como é Boa a Nossa Empregada, e de telenovelas como Cavalo de Aço e O Rebu. De novo, a oscilação entre o reconhecimento “culto” e o êxito popular.

Essa versatilidade extrema, essa facilidade de transitar do registro mais sutil e refinado ao mais popular, quando não de fundir os dois, foi o que levou um de nossos cineastas mais cultos, Julio Bressane, a escalar Lewgoy em dois de seus longas (O Gigante da América, de 1978, e Tabu, de 82) e a escrever sobre ele um ensaio, José Lewgoy: Da Persona à Personalidade.

“A máscara de cera de Lewgoy era muito forte. Uma fácies espetacular”, disse Bressane ao Estado. “No Gigante ele fez coisas de improviso, inventou novos gestos, ressuscitou gestos antigos, numa sofisticada mise-en-scène do corpo. Ele trabalhava com muitos tempos heterogêneos. Era um ator e também um intelectual, leitor de Faulkner e Dos Passos. Citava de cor páginas inteiras de Camus.”

O cineasta Werner Herzog intuiu essa complexidade toda em Lewgoy ao vê-lo atuar em telenovelas brasileiras e resolveu chamá-lo para o papel de um barão da borracha em Fitzcarraldo (1982). O depoimento do diretor alemão é um dos pontos altos do documentário de Claudio Kahns.

“Eu ia enviar um cineasta alemão para captar o depoimento de Herzog, a partir de uma pauta que eu tinha preparado”, contou Kahns ao Estado. “Qual não foi minha surpresa quando Herzog preferiu que seu filho fizesse a entrevista, pois seria no final do ano com a família, numa casa que tem nos Alpes austríacos. Herzog deu um depoimento fantástico, quando recebi a fita nem acreditei. Ele inclusive tinha filmado alguns planos de cobertura, me mandou um recado dizendo como eu deveria utilizá-los.”

Não é preciso dizer que Lewgoy não só correspondeu às expectativas de Herzog como as superou, com seu extraordinário desempenho como o antagonista do alucinado Klaus Kinski em Fitzcarraldo.

Eu, Eu, Eu não chega a dar conta de todas as facetas e nuances desse artista singular, tarefa aliás impossível. Tampouco explica – nem poderia – seus enigmas e mistérios. Em compensação, traz cenas de boa parte dos cem filmes (84 brasileiros, 16 estrangeiros), bem como das 23 novelas e minisséries em que José Lewgoy atuou.

O próprio Lewgoy começou a escrever sua autobiografia, mas parou na primeira página. Ouvimos um trecho dela, na voz do ator, ao final do documentário: “Sou uma mistura de um personagem de Alice, aquele gato que sorri sempre, o Cheshire cat, que vai desaparecendo todo até ficar o sorriso, e o Mersault, de O Estrangeiro, do Camus. Quem quiser saber como eu sou, quem eu sou, leia Alice no País das Maravilhas e O Estrangeiro”. Então é isso.