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Em cenário “filme catástrofe”…

Para Célia Bitencourt

Películas “escapando” de suas latas, dezenas de fitas VHS, entre o mofo e a desfiguração apodrecida, fotografias amareladas e espalhadas pelo chão, recortes de jornais voando pela sala quente e inadequada para armazenar tamanha riqueza de registros imagéticos e sonoros da Parahyba…

Em típico cenário “filme catástrofe”, eis que desponta um espectro na embaçada imagem da vitrine. Ao passar a mão, o vulto dá lugar a um cineasta… Mas, ele não faleceu? – pergunto-me ao mesmo tempo que um frio percorre a espinha, gelando até a alma. Sim, é verdade! Como, então?! Ao tentar racionalizar a resposta, uma nova dimensão se interpõe, destituindo de sentido a indagação. Diante de mim, lá está Machado Bitencourt no Espaço Cultural, esbravejando em cena aberta de “filme silencioso”, do qual visualizo apenas expressões de angústia e revolta em estado puro.

Ensaio voltar ao sentido perdido, pois reza a lenda que os mortos serenam seus ânimos. Qual nada! “Aqui”, a normalidade cotidiana é absolutamente subvertida; dou-me conta então do pesadelo em que estou mergulhado.

Ainda lembro dos sonhos como manifestação de desejos, já dizia Freud… Este, porém, se passa em velocidade chapliniana, sem sonorização, acompanhado apenas de música triste enquanto Machado nos lembra Michael Douglas (Um Dia de Fúria), revirando o que restou de seu acervo até levar as mãos à cabeça em desespero incontido ante um desfecho tão apoteótico quanto desolador:

Fotogramas escorrem impunemente em transmutação líquida (“síndrome do vinagre”, que configura a decomposição da película) pelas rampas do Espaço Cultural, na mais surreal e fantástica tomada com força de “tsumani”. Desperto subitamente, ainda acometido do forte aroma do tempero doméstico.

Tal como um náufrago, eis o melancólico resumo da fita, Machado parece ter perdido de vez as esperanças de que sua “garrafa”, lançada ao mar de indiferenças e má vontades recorrentes… seja um dia encontrada.

Eita Parahyba velha de guerra ! Nem na vida eterna dá descanso a seus filhos !

* Texto do professor e documentarista paraibano, LÚCIO VILLAR, coordenador-geral do Festival ARUANDA de Documentários, que acontece todo dezembro na adorável João Pessoa…