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Pelo fortalecimento dos laços Brasil, Caribe, América Latina

AURORA DE CINEMA direto do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS

Bem preservado, Theatro São João é pequena jóia no coração de Sobral (foto AML) …

Breve painel sobre o DIA-A-DIA EM SOBRAL

Terminou na noite de sábado, com saldo bastante positivo, a primeira edição do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS, realizado em Sobral, município do sertão cearense, há poucas horas da capital.

Depois de proveitosas mesas temáticas que ocuparam as manhãs do Theatro São João e das 4 mesas de trabalho formadas para dar melhor encaminhamento às discussões e à redação da chamada Carta de Sobral, a volta pra Fortaleza na manhã de domingo, em ônibus que congregou a maioria dos participantes, foi de troca de afetos, e-ms, contatos e muitos planos para a segunda edição, cujo país-sede será o Peru.

Geraldo Sarno e Eryk Rocha: foco no documentário e nos processos de criação

Tendo como pontos altos a mesa com o cineasta Eryk Rocha, a exibição do documentário Transeunte e uma festa-surpresa oferecida pelo prefeito de Sobral aos participantes – a animação rolou solta na penúltima noite do Encontro – o I Nossas Américas, Nossos Cinemas escreveu uma ousada página nos anais da Cultura do Ceará, e uma nova página na história das convergências/ similaridades/possibilidades de parcerias entre povos da América Latina e do Caribe.

O que se falou, escreveu, partilhou, vivenciou e sonhou junto em termos de integração de povos tão semelhantes, em tantos aspectos, e tão distanciados por barreiras que precisam ser vencidas, foi algo de suma importância para a almejada construção de um novo capítulo no panorama audiovisual destes povos, representados em Sobral por muitos jovens de diversas gerações que querem fazer cada vez mais Cinema e partilhar suas experiências com tantos hermanos.

Alguns pontos dos ‘bastidores’  a destacar:

* A ótima qualidade do material gráfico distribuído, com design de Ricardo Baptista, onde chama a atenção a arte com figuras da cultura popular, criação do artista brasiliense Jô Oliveira;

* O desfile de belos vestidos usados por Bárbara Cariry, que chamavam atenção pelas belas estampas e destacavam a simpatia e simplicidade da Diretora-Geral do Encontro;

* A apresentação segura de Jamile Teixeira, que também trajava modelos finos e fez um Cerimonial marcado por boa dicção, elegância e cortesias;

* A ‘estratégica’ pausa para um cafezinho (delícia !) com bolachinhas saborosas, sessões de fotos e muito bate-papo;

* A simpatia da cineasta cubana Lázara Herrera e a incansável disposição do boliviano Humberto Ríos;

* O olhar atento da cineasta mexicana Saudhi Batalla, que não se desgrudava de sua câmera e fazia fotos de todos, o tempo todo;

A cineasta peruana Carmen Rosa Vargas e Aurora Miranda Leão…

* O índio equatoriano que levou belas peças da artesania criada por seu povo e vendeu todas muito rápido, espalhando cores e beleza pelos espaços do Encontro;

* A ótima tradução de Flávio Duarte Bossa Freitas, possibilitando a nosotros acompanhar a fala do cineasta canadense Michel Régnier;

* A simpatia e poder de aglutinação do produtor Tito Amejeira, um dos Curadores, o mais brasileiro dos argentinos, que no sábado era só felicidade dividindo uma original Tequilla mexicana com os convidados, no restaurante Lancelot, o qual, aliás, serviu uma comida típica, variada e deliciosa, todos os dias do evento;

Os realizadores Arthur Leite, Golda Barros e Bruno Pires…

* A presença massiva dos muitos realizadores de cinema, que foram quase unânimes na constante presença nos espaços do produtivo Encontro, sem deixar de comparecer, toda noite, de forma também quase unânime, a um passeio pelos bares da noite sobralense;

* A presença de Helena Ignez e Sérgio Mamberti na Parada Gay de Sobral, tarde de sábado…

Bárbara Cariry e Helena Ignez na noite de Homenagem à atriz…

… tem muito mais ainda mas fica pra adelante…

No próximo post, novas anotações do I Encontro Nossas Américas, Nossos Cinemas.

Na última noite do Nossas Américas: realizadores de vários lugares…

FARÓIS de Bodanzky e Eryk Rocha

Carlos Alberto Mattos avisa dos FARÓIS, interessante mostra de cinema documental que acontece na capital carioca:

Um dos encontros mais esperados da Mostra Faróis acontece HOJE:

Jorge Bodanzky e Eryk Rocha vão conversar sobre seus filmes e suas grandes referências no cinema.   

Será na Caixa Cultural, logo em seguida à exibição de 18h30, em 35mm, de Iracema – uma Transa Amazônica, de Bodanzky e Orlando Senna. 

A programação de hoje na Caixa reúne filmes e faróis de Bodanzky e Eryk:

15h30 – Ociel del Toa (Nicolás Guillén Landrián) + Nós e As 4 Estações (Artavazd Pelechian)
16h – Hiroshima Meu Amor (Alain Resnais)
18h – Pachamama (Eryk Rocha)
18h30 – Iracema – Uma Transa Amazônica + encontro
 
Para quem quiser chegar só para o bate-papo, este começa pontualmente às 20h.

PACHAMAMA na visão de Carlos Alberto Mattos

Pachamama, no antigo idioma aymara, quer dizermãeterra’, seu significado se expandindo também para ‘vida’ e ‘realidade’. Mas há outra palavra mencionada no filme de Eryk Rocha que se presta melhor a definilo. É Pachakutik, que significauniverso em movimento’.

Eryk fez um roaddoc que se vale de dois procedimentos básicos: a viagem e a sintonia do rádio.

O movimento é reiterado desde as imagens de abertura (asfalto em velocidade) e através de estradas, serras e cidades do centro-oeste e norte brasileiro, do Peru e da Bolívia. ‘Não há limite entre viagem e filme’, diz a voz do diretor logo no início. A viagem, porém, não se torna um tema do filme. Ninguém mais se refere a ela. O que não impede que o movimento seja um eixo narrativo e uma matéria de constante experimentação imagética.

Assuntos e paisagensnaturais e humanas – vão se sucedendo num regime de edição parecido com o girar do dial de um rádio. De vez em quando, é o rádio mesmo que se ouve, provavelmente o rádio do jipe Land Rover, ‘editando’ notícias sobre a situação de determinado lugar. É, portanto, com a superficialidade e a ligeireza de um travelling que Eryk pretende dar conta do motivo de sua viagem: ‘saber o que estava acontecendo no Peru e na Bolívia’ em janeiro de 2007.

Caixa de texto:   Divulgação Empunhando o tempo todo a própria câmera, o diretor recolhe sinais de uma América do Sul em transformação: aqui um muro grafitado em louvor da revolução agrária’, ali a manifestação de um militante em prol da civilização aymara, acolá uma imagem de Evo Morales defendendo na TV a legalidade da folha de coca. O Brasil aparece em reflexo nas considerações de peruanos e bolivianos, entre o ressentimento e a admiração.

Quando saiu à procura desse ‘o que estava acontecendo’, Eryk tinha os olhos voltados não somente para o presente, mas sobretudo para o passado. Peru e Bolívia seriam exemplos de uma tentativa de conciliar política contemporânea e culturas muito antigas. De fato, ouvir a lenda da fundação de Cuzco pela boca de um velho xamã, na língua quéchua, ou a reivindicação de um boliviano a respeito das ‘nações origináriasandinas, é algo que desperta a consciência de uma ancestralidade sul-americana, normalmente sufocada pela premência do futuro e a necessidade do moderno.

Em meio a um amplo descrédito com relação à política tradicional, o filme recolhe também vozes contrárias ao rumo que então tomavam as democracias peruana e boliviana. Há tanto quem duvide que a ascensão de representantes indígenas a postos-chave do estado seja a panaceia para os males do continente, como quem se oponha a essa ascensão, caso dos aguerridos autonomistas de Santa Cruz de la Sierra. Enquanto gira seu dial, “Pachamama” demonstra que está viajando no centro de uma lenta fogueira.

Como em “Intervalo Clandestino”, mas de maneira mais poética e efetiva, Eryk Rocha foca esse novo filme na multidão. Os rostos sem nome enchem a tela como avisos de inquietação, esperança e perplexidade. Quando se move, “Pachamama” é dominado pela exuberância da natureza. Quando se detém, são os rostos que falam, com palavras ou com silêncios nos quais se podem ler muitos significados. A magnífica edição sonora de Aurélio Dias forja ritmos e atmosferas mobilizadoras, abrindo o campo de representação das imagens para além do visível.

Enquanto partilha conosco um passeio elucidativo pelo coração do continente, dando corda a sua veia experimental, Eryk vai confirmando sua relativa discrição enquanto figura enunciadora nos filmes. Se em “Rocha que Voa”, sua condição de filho do personagem Glauber permanecia no plano do engendramento, sem nunca chegar ao proscênio, aqui sua presença resume-se à voz de introdução, à referência de um sindicalista sobre ‘o gringo que nos está filmando’ e à crise respiratória que o acometeu dentro da antiga mina de prata de Cerro Rico de Potosí, na Bolívia.

De resto, é no manejo hábil e sensível da câmera que ele se coloca por inteiro.

Pachamama (Brasil – 2008 – 105’) Direção: Eryk Rocha Ditribuição: Videofilmes

ERYK ROCHA ESTRÉIA PACHAMAMA

Pachamama foi um processo de descoberta. A única coisa que o diretor brasiliense Eryk Rocha possuía quando iniciou o filme era um trajeto de 14 mil quilômetros que cortava três países – Brasil, Peru e Bolívia – e algumas informações do que iria encontrar nesses lugares. “Eu não tinha um roteiro prévio, o documentário foi se construindo dia-a-dia, a partir dos acasos e dos encontros. Era a primeira vez que eu estava fazendo cinema com uma equipe multidisciplinar”, comenta. A viagem durou um mês e teve a companhia de três historiadores e dois engenheiros mecânicos.

Eryk, que já morou seis anos em diversos países da América Latina, sempre sonhou em fazer um filme sobre viagem. Seus trabalhos anteriores foram construídos em cima eixos temáticos e pela primeira vez teve a oportunidade de assumir um filme experiencial “O documentário tem uma pegada de diário, de solidão. No início, não sabia o que ia ser filmado, quando seria, quem seria. Havia um mar aberto nesse sentido. Os primeiros dias de viagem me causaram muita insegurança, me sentia muito solitário. Eu me perguntava ‘que filme é esse’, diz o cineasta.

Pachamama – para os indígenas ‘mãe-terra’ – fala do sincretismo dos povos latinos, da diversidade cultural, especialmente da milenar andina. “Temos uma identidade caótica aqui na América Latina, ela está em ebulição, o filme é construído nela, estamos no olho do furacão”, diz. Além de mostrar o momento político importante que esses países atravessam, com a retomada do poder pelo povo original, o documentário também revela as transformações sofridas pelo viajante, neste caso, o próprio diretor.

A edição foi o mais difícil para Eryk. Transformar 80 horas de material em 90 minutos foi um processo longo. “Na montagem procuramos respeitar o trajeto. Tivemos que escolher os momentos mais intensos e poderosos da viagem”, conta. O cineasta adianta que o restante do material captado será transformado em série para o Canal Brasil.

A estréia em circuito comercial é dia 26. Boa pedida para cinéfilos e estudiosos de Cinema.