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Miguel e a morte inafiançável

Morte de Miguel expõe o racismo estrutural por trás das ...

Diante da trágica morte do garoto pernambucano Miguel, vítima do descaso, racismo, indiferença e negligência de uma patroa (branca) de sua mãe, ficamos todos mudos e indignados.

O Poeta CARPINEJAR foi quem melhor traduziu toda a perplexidade, revolta, repulsa e aflição diante da evitável tragédia. A seguir, a crônica iluminada do notável escritor gaúcho:

DEUS NÃO ACEITA FIANÇA
Fabrício Carpinejar

Diante de Deus, você não terá direito a fiança, não terá desculpas, não terá influência, não terá advogados poderosos, não terá costas quentes, não terá tradição, não terá imóveis, não terá sobrenome, não terá barganha, não terá privilégios, não terá acesso a celulares de governantes.
Diante de Deus, você não será branca, rica, loira, olhos claros, primeira dama, viajada, culta, nada.
Diante de Deus, conhecerá uma inédita igualdade, uma surpreendente justiça, todos são iguais em Sua presença, o que aconteceria com a doméstica se ela fizesse isso com o seu filho realmente acontecerá com você.
Diante de Deus, pagará a conta de sua consciência, não poderá mentir, disfarçar, sonegar a verdade.
Ele sabe que andar apertou no elevador, Ele sabe que você não quis perder tempo com o filho da empregada, Ele sabe exatamente o que você pensou, Ele sabe quem você é, Ele sabe que você abriu a porta para a morte.
Diante de Deus, entenderá o que é um olhar demorado, o que é cuidar, aquilo que deixou de fazer por uma criança indefesa.
Diante de Deus, suas unhas pintadas não serão mais importantes do que a vida de um menino.
O inferno não é um lugar inventado, vem daqui da terra. De seu coração.

Carpinejar derrama poesia ao falar sobre a mãe

     “A decepção materna é a minha maior intuição”

Sesc convida Maria Carpi para debate sobre poesia - Guia21

A poetisaa gaúcha Maria Carpi, mãe do poeta e cronista Fabrício Carpinejar.

 

Outro dia, quase as lágrimas me invadem logo cedo ao ler crônica do poeta Carpinejar em que ele falava de Decepção.
Foi em sua galeria do Intagram e a foto era de sua mãe, a bela poetisa gaúcha Maria Carpi, aquela mãe exemplar que alfabetizou o filho em verso e prosa com delicadeza, disponibilidade, amor e dedicação invejável, tão logo recebeu do colégio a indicação de que deveria tirar o filho da escola pois ele não tinha condições de acompanhar o desenvolvimento da turma.
Ao que Maria prontamente virou as costas, fez ouvidos de mercador, e exerceu o mais sublime da maternidade: educar com sentimento, verdade, na trilha do bem, convidar para a alegria, abrir espaço para a emoção, estender os braços para a arte do convívio e da generosidade, celebrar as vitórias, sorrir de mãos dadas com o vento e enxergar o positivo em cada curva ou ribanceira do caminho. Dessa forma, ela legou ao filho um arsenal de empatia, amor e disponibilidade ao novo invejáveis.
Por saber de tudo isso é que a foto falando em decepção surpreendeu-me, mas apenas por segundos. Sabia que só poderia vir junto uma torrente de delicadeza e gratidão.
Deixo então você. leitor amigo, com a beleza cheia de ternura desta crônica de Fabrício CARPINEJAR, Poeta de minha maior Admiração !

VOCÊ SÓ DECEPCIONA QUEM É PRÓXIMO

* Fabrício Carpinejar

Para se decepcionar, você precisa ter intimidade.

Confundimos a decepção, que requer o contato constante, com o desapontamento, com o desencantamento. Não é a mesma coisa.

A decepção é feita depois do entendimento de como realmente é o outro. Depende de um longo convívio. Depende do julgamento das virtudes e dos defeitos. Depende de estar próximo para comparar o antes e o depois. Depende de experimentar a fundo a personalidade, ultrapassando as aparências da opinião.

Você decepciona pai e mãe, irmãos, filhos, namorado ou namorada, marido ou esposa, melhores amigos, não quem lhe conhece de fora.

Decepção é mágoa de uma transformação, aponta que rompeu alguma lealdade de origem. Deixou de ser fiel a si.


Tanto que sofro quando a minha mãe me censura dizendo “você não é assim”. Sei que mudei para pior, que estou mesquinho, egoísta, completamente equivocado.

A decepção materna é a minha maior intuição. Sou capaz de me enganar, jamais de enganá-la.

Ela me sabe de cor desde pequeno, meu jeito de fugir dos enfrentamentos, minhas manhas, minhas desculpas, minhas fugas. Não tem como convencê-la de que é só uma impressão. Guarda todas as minhas versões para perceber que me desviei da minha essência.

Ao ouvir sua reprimenda, paro tudo para reestabelecer a rota. Ainda que seja necessário recuar para en
direitar a minha estrada.
carpi e mãe

Aí essa crônica sobre decepção, me trouxe à lembrança outra pérola do Poeta, também dedicada à mãe, que é ANTOLÓGICA:

 

Mãe não tem fim – Fabrício Carpinejar

Minha mãe não tem igual.

Eu não dormia fácil de pequeno, com aquele resmungo de cólica. Minha mãe me carregava no colo, me segurava pela barriga, e não me aquietava. Recusava bico, leite, conforto espiritual. Desdenhava da cama, do móbile, do carrinho, do andador. Aflita, ela pegava o carro e me levava para passear de madrugada. Na terceira quadra, me entregava ao sono.

O carro foi meu segundo ventre. Até hoje quando sento no banco de trás, eu fecho docemente as pálpebras. É o único lugar em que fico em silêncio. Não me apresentei: sou o filho preferido de minha mãe. Meus irmãos também acham que são os filhos preferidos. Ela criou todo filho como se fosse único. Para cada um separava uma cantiga de ninar e um segredo. “Não conta para ninguém, tá?”, ela me alertou. Como eu não falei para meus irmãos, nem meus irmãos falaram para mim, ninguém sabe qual o segredo que é meu, qual o segredo que é deles. Vários segredos juntos formam um mistério.

É um problema quando estamos reunidos. Eu acho que ela cozinhou para mim, os outros também acham. É um problema quando estamos longe. Eu acho que ela só ligou para mim, os outros também acham.

Ela reclama imensamente de mim, nunca está satisfeita com o que eu faço. Penso que somente reclama de mim, reclama da família inteira na mesma proporção. Assim como divide um doce de forma igual. Assim como divide o pão em fatias gêmeas.

Mãe não tem dedos, tem régua. Reclamar é sua lista de chamada. Reclamar é um jeito disfarçado de sentir saudade. No fundo, torce para que eu me distraia de uma de suas regras. Ela aponta a louça para lavar, e logo limpa a pia. Ela pede uma carona, vou me arrumar, já tomou um táxi. Nunca pede duas vezes. Ou ela é rápida demais ou eu demoro. Na verdade, ela é rápida demais e eu demoro.

Mãe é gincana. É agora ou nunca. Nem invente de responder nunca para ela. Sua reclamação tem virtude, sua reclamação é um quarto privativo, reclama só para mim. Para os demais, me torna muito melhor do que sou. Não me elogia para mim porque não quer me estragar. Tem esperança de que não me estraguei.

Ela vibra quando encontra algo que não fiz. Inventa necessidades para ser reconhecida. Atrás da mínima palavra, pergunta se eu a amo. Ela escreve isso com os olhos, eu leio isso em seus lábios. O que a mãe mais teme é ser esquecida. Não tem como: mãe é a memória antes da memória. É a nossa primeira amizade com o mundo.

O que parece chatice é cuidado. Cuidado excessivo. Cuidado a qualquer momento. Cuidado a qualquer hora, ao atravessar a rua, ao atravessar um namoro. Para o nosso bem, repete conselhos desde a infância. Para o nosso bem.

Repetir o amor é aperfeiçoá-lo. Mãe não cansa de nos buscar na escola, mesmo quando não há mais escola. Mãe não cansa de controlar nossa febre, mesmo quando não há febre. Mãe não cansa de nos perdoar, mesmo quando não há pecado. Mãe não cansa de nos esperar da festa, mesmo quando já moramos longe. Mãe se assusta por nada e se encoraja do nada. Entende que o nosso não é um sim, que o nosso sim é talvez. Avisa para pegar o último bolinho, o último bife, em seguida arruma uma marmita para o lanche da tarde.

Mãe tem uma coleção de guarda-chuvas prevendo que perderemos o próximo. Está sempre com a linha encilhada na agulha e caixinha de botões a postos. Conserva nosso quarto arrumado como se houvesse uma segunda infância. Mãe passa fome no lugar do filho, passa sede no lugar do filho, passa a vida guardando lugar ao filho.

Mãe é assim, um exagero incansável. Adora chorar de felicidade nos observando dormir. Minha mãe chorava quando finalmente descansava no carro. Ela sussurrou o segredo, disse que eu era seu filho favorito. Não fofoquei para meus irmãos, não pretendia machucá-los. Eles também não me contaram que eram os favoritos dela.

Carpi frase

Depois da riqueza sentimental que são essas duas crônicas, lembro a você, leitor amigo, que está à venda o mais novo livro do CARPINEJAR:

COLO

“Adaptar-se nunca é uma derrota, é vencer por dentro.”

* Parte das vendas deste novo livro serão revertidas ao Hospital das Clínicas – SP, para ajudar no combate à Covid-19. Adquira seu exemplar num dos endereços a seguir:

“Colo, por favor! – Reflexões em tempos de isolamento”
Fabrício Carpinejar
176 páginas
@planetadelivrosbrasil
Amazon: https://bit.ly/ColoPorFavorAmazon2 (livro) ou https://bit.ly/AmazonColoPorFavor (ebook)
Submarino: https://bit.ly/ColoPorFavorSUB
Livrarias Curitiba: https://bit.ly/ColoCuritiba
Leitura: https://bit.ly/ColoLeitura
Americanas: https://bit.ly/ColoAmericanas
Livraria da Vila: https://bit.ly/ColoPorFavorVila

Carpinejar: “Somos o que ficamos depois de sofrer”

Carpinejar questiona a supervalorização do celular nos ...

Poeta Carpinejar faz lives na quarentena e vai prosear com o #auroradecinema nesta quarta, 15 de abril…

 

Gostei do que ele escreve desde as primeiras frases que li. Era tão bonito e diferente, que fui procurar saber do autor. Fui encontrando outros textos, e descobri matérias de jornais e sites. E fui procurar outros textos, e encontrei, e gostei mais ainda. Até que cheguei às entrevistas, e um dia lá estava ele na tevê, no saudoso programa do qual a gente lembra com saudade porque não ia pra cama sem ele. Jô Soares entrevistou por mais de uma vez o poeta gaúcho de Caxias do Sul, filho do escritor Carlos Nejar (sobre quem meu pai costumava falar) e foi sempre ótimo: a poesia se derramava em respostas ágeis, inteligentes, espontâneas e sempre de mãos dadas com a transgressão. Seria impossível não empatizar.

Fabrício Carpinejar: o olhar de despedida é o mais bonito: o ...

Desde aquele 2000, nunca mais deixei de ler CARPINEJAR. E ele escreve coisas novas todos os dias. Adoráveis. Leio as novas, e revisito as antigas, cotidianamente. Nas manhãs de quarta, é possível ver o poeta no programa de Fátima Bernardes. Mas sua grandeza e eloquência são muito anteriores à presença na TV: ao contrário, a tevê é que o chamou para enriquecer suas manhãs.

Fabrício Carpinejar é um esteta da emoção. Impressiona-me sua capacidade de dizer tão bem sobre temas tão diversos e trazer sempre um frescor em sua poética tão singular. Interrogo-me sobre como é possível dizer e escrever com tanta maestria, e procuro, em vão, uma palavra capaz de traduzir a riqueza imagética, sensorial e emocional que habita suas crônicas diárias.

Fabrício Carpinejar: "Como eu amo quem se importa em amar, apesar ...

Difícil não sintonizar Carpinejar. O poeta gaúcho parece dotado de infinita capacidade de transformar tudo que escreve em metal precioso. Não raras vezes, arrepio ou choro lendo texto dele. Não canso de repetir isso, nem de ler o poeta, tampouco de aplaudir o que faz.

Os que o acompanham sabem, e são milhares: Carpinejar foi criança vista com limitado coeficente de atenção, sem condição de ser alfabetizado e frequentar uma escola. À mãe dele, recomendaram colocá-lo para estudar numa escola especializada em pessoas desprovidas de capacidade. Sim, aos 8 anos, o poeta foi “diagnosticado” com deficiência motora grave, incapaz de ter desenvolvimento motor sadio, normal, em contato com outras crianças.

Pois foi graças à sabedoria, dedicação e suprema ousadia e lucidez da poetisa Maria Carpi que a criança “descapacitada” transformou-se neste que é hoje o Mais Aplaudido Poeta Brasileiro Vivo, notável expressão da poesia nacional, com mais de 40 livros publicados, os maiores prêmios literários do país, programas de rádio, e milhares de seguidores em diversas redes sociais. Carpi já chegou ao teatro, divide parceira musical com a dupla Kleiton e Kledir, e faz semanalmente um consultório sentimental chamado “Procon do Amor”, no qual há espaço para desabafos e confissões de apaixonad@s, sobretudo do sexo masculino. É o poeta, mais uma vez, trilhando a contramão da normalidade e reafirmando o poder da transgressão e da livre profusão de caminhos.

Foi ela, a ousada e aguerrida Maria Carpi, sua mãe, que resolveu ensinar as letras que a escola não o julgava capaz de aprender: Maria assumiu a árdua e doce tarefa de alfabetizar o filho e conduzi-lo pelos caminhos das letras. Foi inventando versos, rascunhando tarefas – em dimensões que só o amor alcança, e lapidando modos para ensinar as letras que a escola formal não o julgava capaz de aprender -, que a mãe deu força, luz, fé, garra e confiança ao filho para chegar onde chegou. E o Poeta sabe bem disso. É de uma gratidão linda, comovente, profunda e constante à mãe. Como cabe ao tamanho de Poeta e Homem Iluminado que é Carpinejar.

Enquanto a escola da infância o taxava de ‘incapaz de estudar junto às crianças normais”, “incapaz de aprender como os outros”, “incapaz de ser alfabetizado com as mesmas regras das crianças normais”, o amor de mãe prosseguiu lhe ofertando amor, respeito, inteligência e dedicação, e assim foi lapidando o vigor intelectual e o redemoinho de emoções que o poeta espraia pela profícua obra que chegou ao público em 1998 com o primeiro livro, “Um terno de pássaros ao sul”.

25 melhores imagens de Carpinejar | Carpinejar frases, Pensamentos ...

Carpinejar acaba de disponibilizar na internet o audiobook de seu penúltimo mais recente livro (“Família é tudo” é o mais recente), “Cuide dos pais antes que seja tarde”, mais um best-seller da carreira, com mais de 40 mil cópias vendidas. Para fazer o download, basta acessar o site da Auti Books: queroacessar/autibookscom/vamosajudar e utilizar o cupom de desconto integral. A obra traz pequenas reflexões, sem títulos e sem divisão em capítulos, sobre o envelhecer em família: “É uma canção de ninar aos pais, um pedido de desculpas de um filho adulto tentando ser o filho possível”, diz o poeta.

Sobre o livro, diz ainda o poeta: “É a maturação do meu processo de ser um bom filho, porque tinha percebido que não estava sendo, que odiava meus pais, que não os conhecia e que eles eram estranhos íntimos. Os filhos acabam realizando uma omissão de socorro. Por outro lado, os pais não têm medo da morte, mas sim, da solidão. Querem ouvir do filho ‘estou aqui, pai, estou aqui, mãe’. Só não querem ir para o outro lado sem segurar a mão do filho”.

 

Carpinejar acredita que há uma recuperação desse mundo paterno e materno em que nem todos se enxergam e conta como nasceu a ideia do livro: “Só nos damos conta quando perdemos. Quando fui levar meu pai ao médico, ao preencher o prontuário percebi que não sabia nada dele. Se tinha alergia a alguma medicação, se tinha feito alguma cirurgia, quais remédios tomava, o tipo sanguíneo”. A partir daquele dia, percebeu que era filho mas não amigo do pai: “Ele me sabia de cor, mas eu não sabia ele de cor. Passamos a metade da vida fugindo deles e a outra procurando-os. Os pais não querem muito. Não querem nada nababesco, faraônico, querem que os filhos cheguem à casa deles de surpresa.”
Carpinejar destaca como gestos simbólicos, como um café da tarde com os pais, são importantes:
“Não nos damos conta do tempo que a gente pode devolver, só do que a gente quer consumir. Não temos a gratidão, e isso é o que mais falta hoje. Quem tem gratidão perdoa com mais facilidade. O único jeito de curar lembranças tristes não é ficando longe, é continuando a conviver, criando lembranças felizes”.

Ele, o Poeta, que encanta e atua em várias áreas, brilhante em todas elas – seja como jornalista, radialista, apresentador de TV, cronista televisivo, conselheiro sentimental, palestrante, poeta e escritor, merecedor de vários prêmios, no país e no exterior, aplaudido onde quer que vá -, anda fazendo lives nesta quarentena. Como não podia deixar de ser: nada mais semelhante a Carpi do que abrir trilhas para o contato com o leitor/seguidor, e sua imensa capacidade de renovação.

Pois quem participará de uma LIVE com o Poeta nesta quarta, 15 de abril, é esta que vos fala: foi com muita emoção que recebemos o convite do próprio poeta na semana passada. E de lá pra cá, estamos a reler Carpi e a nos mobilizar para recomeçar uma conversa com o poeta, ainda que virtual, mesmo que cada um na sua casa. Tudo bem: o tempo exige, a quarentena dita e nós fazemos nossa parte. Mesmo porquê, próximo ou distante, eu e Carpi estamos e estaremos sempre próximos em sentimento, emoção e palavras e empatia.

Carpinejar | Aurora de Cinema Blog

Poeta Carpinejar e jornalista Aurora Miranda Leão vão se encontrar em Live nesta quarta, 15 de abril, às 20h, pela rede social Instagram…

 

A você, amigo leitor, convidamos para conferir a LIVE Eu e Meu Leitor com o poeta Carpinejar conversando com a jornalista Aurora Miranda Leão: é nesta quarta, 15 de abril, às 20h, na conta dele do Instagram ou na nossa @auroradecinema.

Até lá !

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Valei-nos, Carpinejar !

CARPI 114

Carpinejar e a arte de embelezar até a dor

REFÉM DA SEPARAÇÃO

Arte de Remedios Varo

Você mergulhou no relógio lento de um sequestro.

À espera de um telefonema, de uma mensagem, de um comunicado do valor a retirar do fundo de si.

Não pretende envolver a polícia dos familiares, não falará para ninguém, para evitar represálias.

Só quer seu amor de volta. Inteiro. Ouvir a voz do amor para ter certeza de que está vivo e não sofreu nenhum ferimento.

Seu tempo é voltar atrás, é retornar os ponteiros, é ontem e anteontem. Não mais frequenta o tempo normal. O tempo parado da rotina. O tempo absoluto da continuidade, de explicar a manhã pela tarde e a tarde pela noite.

Não orbita mais no tempo dos compromissos, da agenda, do café/almoço/janta.

Não tem pressa de sair de casa, tem pressa por algo que não sabe nem o que é.

Sua pressa é um disparo aleatório, um rompante inexplicável, um ataque de ansiedade. É uma urgência de não fazer coisa alguma. É um desespero sem vontade, uma dor sem lugar para doer.

Escuta sua respiração, nítida, como se estivesse caminhando dentro d’ água. Andando no interior de uma piscina, economizando ar. As palavras sobem à superfície, presas em bolhas. São bolhas de sabão da tristeza, do desencanto adulto.

Desde que você se separou, os minutos são horas, as horas são dias.

Acredita que sobreviveu a um ano sem aquela que amava mas apenas transcorreu um dia.

A sensação é que no seu rosto falta uma sobrancelha, um nariz, um ouvido, e todos já identificaram a ausência, menos você.

Passeia aparentemente inteira porque guarda sua imagem da véspera. Não viu como está agora. Tem medo de ver.

Você não se separou dela, mas de si.

Sua boca é aflitiva, na densidade da água no ar, juntando lembranças e força para pagar um resgate.

Como pagar oito anos de volta? Quanto orgulho custa uma reconciliação?

Você olha o mundo e não enxerga. Pede emprestado para qualquer sombra que passa. Olha um pássaro e pede seu voo emprestado. Olha um cachorro e pede seu faro emprestado. Olha um gato e pede sua elasticidade emprestada.

Sua angústia tomou o tamanho da esperança.

Enquanto dorme e sonha, não lembra que está sozinha.

É acordar que logo recorda da mão vazia de anéis. Tem aquela confusão da descrença: será que aconteceu mesmo?

Está acontecendo sempre quando acorda. Não para de acontecer.

Estende as pernas para tocar no corpo dela e o pé descobre que a cama não termina de terminar.

O coração não termina de terminar.

A palavra não termina de terminar.

Nada termina, nada anoitece, nada é eterno como já foi um dia.

 * Crônica publicada no jornal O GLOBO de hoje, 15/10/2014.

Fabrício CARPINEJAR é colunista exclusivo do jornal carioca, no qual escreve semanalmente.

 

Para Carpinejar, o riso é confissão ! Então, já somos confidentes !

“A poesia possui essa capacidade de perdurar o que não pode ser dito, o que foi sentido

Há tempos, queríamos fazer uma oficina com o Poeta Carpinejar, ouvir uma palestra dele, ir a uma noite de autógrafos, participar de um Consultório Sentimental ao Vivo, fazer uma entrevista com ele, conversar, trocar ideias, enfim, queríamos conhecer o magistral poeta gaúcho de perto. E finalmente, a hora chegou e semana que vem estaremos na oficina dele – que tem o sugestivo título de TANTA TERNURA – lá em Sampa, no Centro Cultural B. Arco.

Calhou de dar certo, calhou de estar no Rio e arrumar tempo de ir a São Paulo, e até esqueci os compromissos a cumprir em Fortaleza. Mas os desígnios de Deus são imperscrutáveis (conforme dizia meu sábio avô, Dr. João Miranda Leão), e se a oportunidade apareceu agora, é porque agora é que tem de ser.

Fabrício Carpinejar: nova oficina poética em São Paulo semana que vem…

E desde quando decidi-me por ir a São Paulo e participar da oficina, e que consegui comprar as passagens, e fiz minha inscrição, penso no quão insólito isso é pra quem há anos é leitora cotidiana do Poeta. E os amigos de verdade entendem e torcem, as amigas comentam e sabem de meu contentamento, e imaginam o tamanho da minha FELICIDADE.

E pensando nisso desde quarta, e, principalmente nesta sexta, em andanças pela orla carioca, fiquei matutando no quão é difícil conviver com o silêncio quando o falar e escrever precisam ser imperativos. Porque, afinal, o que pensa em primeiro lugar um jornalista quando admira alguém e vai encontrá-lo ? Naturalmente, pensa em fazer uma entrevista com esse certo alguém. E ao pensar na entrevista que tanto sonho em fazer com o poeta Carpinejar, sobrevém um estrondoso silêncio, e faltam-me as perguntas. Afinal, o que perguntar a alguém com a transparência de Carpi ? O que indagar a um Poeta que se mostra inteiro em suas belas crônicas (quase diárias) e em suas postagens cotidianas no Twitter ? O que ainda perguntar a quem se revela intensamente, e aos pedaços, em cada ideia ou pensamento que solta para o leitor como quem dá um mergulho num oceano sem medo do desconhecido ou das pedras e feras que possa encontrar no mar ?

Porque quem lê Carpinejar com a atenção devida e a sensibilidade necessária sabe que o POETA está integralmente presente nas palavras que emprega com maestria de ourives. Basta ter o cuidado de prestar atenção: a Alma do Poeta nos é entregue em papel celofane com uma coragem indubitável e uma notável capacidade de despir-se para melhor ofertar-se e solidarizar-se com o leitor !

Diante disso, ronda-me a inquietação: o que direi ao Poeta ao conhecê-lo ? O que ainda falta perguntar a ele que não tenha dito em suas crônicas antológicas, suas entrevistas, suas reportagens, suas participações no programa #encontro, seus ensinamentos no programa da Rádio Gaúcha, seus muitos e maravilhosos livros, seu arrebatador programa A Máquina ?

Não sei por onde começar… mas nada melhor que recorrer ao próprio Poeta para iniciar uma conversa com ele, e assim vou me apoiar em fortalezas carpinejarianas, como ele próprio ensina:

“Quando conhecemos alguém, o mais complicado é acertar as brincadeiras. Afinar o humor. Rir e fazer rir. É somente pelo riso que nos confessamos.”

“Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar”

“Não seja séria; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira.”

“Não tenho participação nas duas principais decisões da vida: nascer e morrer. O que me leva a concluir que só posso fazer bobagem.”

É o Poeta quem diz: “Felicidade é estar sensível, disponível, atento a qualquer distração; é uma predisposição a mudar de planos”.

Portanto, eu só posso é estar vivendo um momento de plena FELICIDADE. Afinal, meus planos foram absolutamente mudados: não me preparei para ser aluna de Carpinejar; não pensava ir a São Paulo agora; não imaginei sair do Rio embarcando para São Paulo, desviando minha rota para alcançar o sonho de conhecer o Poeta ao vivo. Mas como diz o querido Herbert Vianna, “Se é assim mesmo/ Que assim seja !

Que venha enfim o TANTA TERNURA, e que Deus me ajude a saber o que dizer diante de alguém a quem tanto Admiro e quero bem !

A oficina TANTA TERNURA,  com aulas de escrita criativa ministradas pelo Poeta CARPINEJAR, apresenta as teorias sobre o fazer literário e a possibilidade de acentuar a beleza da banalidade, Vai ser nos próximos dias 23, 24 e 25 em São Paulo, e as inscrições prosseguem abertas até dia 23.

Informações:
Carga horária total – 12 horas – 3 encontros
Aberto a todos os interessados em escrever crônicas.
Inscrições http://barco.art.br/oficina-de-cronica-tanta-ternura/

Como não amar absolutamente Carpinejar ?

O magistral escritor gaúcho nos deixa novamente calados ante a eloquência e beleza avassaladora de sua poesia derramada em forma de crônica !

Impossível não ser solidária e reverenciar, completamente, a maestria deste irretocável Mestre das Palavras !

Sua bênção, CARPINEJAR !

DESENCANTADO

Arte de Diego Rivera

* Fabrício Carpinejar

Foto: DESENCANTADO
Arte de Diego Rivera

Fabrício Carpinejar

Hoje estou desencantado do amor. Desencantado: o avesso de sua palavra preferida. 

Hoje acho que vou morrer solteiro e cínico, acho que vou morrer sozinho e cítrico, vou morrer desiludido e ríspido. 

Hoje tenho ódio das aparências, dos perfis perfeitos nos aplicativos, da compreensão fingida do início. Hoje tenho ódio da paixão que não continua com os defeitos. Hoje tenho ódio de quem se apresenta de um jeito para agradar e não assume o que é desde o primeiro encontro. Espumoso ódio daquele que tudo concorda para depois sabotar, que tudo aceita para depois sonegar, que tudo quer para depois rejeitar. Indomável ódio da loucura invisível das pessoas, que são sempre certas e exatas em seu raciocínio e volúveis em seus desejos. Imenso ódio dos que jamais dobram os braços para agradecer e os joelhos para rezar. Absoluto ódio da confiança, palavra traiçoeira, que é apenas mais um sinônimo para esperança. Insaciável ódio das frases ditas para sempre e que não duram nem alguns meses. Invejável ódio da convivência de afeto espaçado e de ternura episódica. Incomparável ódio do egoísmo disfarçado de independência. Implacável ódio da crueldade que todos recebem quando se desarmam por completo. Incompreensível ódio de me expor, pois não há como se esconder dos próprios sentimentos. 

Hoje estou desencantado do amor. Mas só hoje.

Hoje estou desencantado do amor. Desencantado: o avesso de sua palavra preferida.

Hoje acho que vou morrer solteiro e cínico, acho que vou morrer sozinho e cítrico, vou morrer desiludido e ríspido.

Hoje tenho ódio das aparências, dos perfis perfeitos nos aplicativos, da compreensão fingida do início. Hoje tenho ódio da paixão que não continua com os defeitos. Hoje tenho ódio de quem se apresenta de um jeito para agradar e não assume o que é desde o primeiro encontro. Espumoso ódio daquele que tudo concorda para depois sabotar, que tudo aceita para depois sonegar, que tudo quer para depois rejeitar. Indomável ódio da loucura invisível das pessoas, que são sempre certas e exatas em seu raciocínio e volúveis em seus desejos. Imenso ódio dos que jamais dobram os braços para agradecer e os joelhos para rezar. Absoluto ódio da confiança, palavra traiçoeira, que é apenas mais um sinônimo para esperança. Insaciável ódio das frases ditas para sempre e que não duram nem alguns meses. Invejável ódio da convivência de afeto espaçado e de ternura episódica. Incomparável ódio do egoísmo disfarçado de independência. Implacável ódio da crueldade que todos recebem quando se desarmam por completo. Incompreensível ódio de me expor, pois não há como se esconder dos próprios sentimentos.

Hoje estou desencantado do amor. Mas só hoje.

O #BlogAuroradeCinema aplaude FABRÍCIO CARPINEJAR e declara sua admiração incondicional pelo Poeta !