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CARPINEJAR: “A chuva lava minha ferida e o vento seca”

abç Carpi Carpinejar: o Poeta que, cotidianamente, renova nosso encantamento…

A cada vez que lembramos que ele foi criança maltratado, espezinhado, achincalhado, sofrendo bullying na escola, ouvindo impropérios, marcado pelo abjeto preconceito que não respeita as diferenças, e teve sua inteligência massacrada pela estupidez de muitos, a revolta toma de conta e a vontade é de gritar alto no ouvido desses idiotas que desconsideraram a importância de uma infância feliz e do quanto é bom e prazeroso tratar uma criança em toda a dimensão de sua beleza. Porque assim são as crianças, de todas as cores, idades, e lugares: todas são lições para nos melhorarmos como gente e bênçãos para seguirmos adiante cultivando a pureza do olhar, a beleza do sentimentos nobres, e a necessidade do amor e da solidariedade.

“A educação é o primeiro passo da humildade e o último passo da generosidade”.

Taí que eu queria muito saber quem são os idiotas que fizeram sofrer tanto uma criança como Carpi. A esse bando de gente sem coração, também quero ofertar gratidão: é também por conta de vocês, seus desalmados imbecis, que hoje podemos usufruir – e espalhar, e seguir, e louvar, e aplaudir – do imenso arsenal de belos textos, em prosa e poesia do garoto de Caxias do Sul que vocês tanto apedrejaram.

Cada farpa que jogaram contra ele só o ajudou a tornar-se a pessoa linda que É, e o Poeta Magistral com milhares de seguidores nas redes sociais, a nos encantar mais e mais, a cada uma de suas muitas publicações diárias.

Com seu egocentrismo, estupidez e despropósito de suas invejas, carências e fracassos, vocês, bugres da infância de Carpi, poderiam ter ajudado a formar mais um recalcado, invejoso, cruel e complexado ser humano. Mas a Sabedoria Infinita é Todo Poderosa: ao contrário do que vocês, abutres, desejavam, Ela ajudou a construção da força motriz  do Poeta Maior – extraindo do calcário, da truculência e da insensibilidade – um dos mais férteis e exponenciais ourives da escrita de Língua Portuguesa !

Fabrício CARPINEJAR é o mais notável, intenso, magnânimo e relevante Poeta Brasileiro da Contemporaneidade. CARPI é um Poeta Grandioso, de Alma Nobre, lindo na sua transparência e coragem de mostrar-se por inteiro, sem medo de ofertar ao leitor suas chagas e escancarar vivências que lhe custaram tanta dor e tristeza. Mas talvez seja por isso mesmo que ele tornou-se o Intelectual de atuação consagrada e invejável que é: homem de talento múltiplo, Carpinejar é bom em tudo que faz. E ele faz muito: é jornalista, professor, apresentador de TV, entrevistador, crítico literário, cronista, twitteiro, poeta, palestrante, e é, sobretudo, um generoso coração de criança numa alma gigante de adulto altruísta, sensível, sábio, cada vez mais um tipo de Ser Humano de que o mundo carece.

Carpi falta usar

Fabrício CARPINEJAR é Exemplo de Gente pra ser imitado ! A ele, nosso mais efusivo #AplausoBlogAuroradeCinema, todo nosso Respeito, carinho e Admiração, sempre maior !

“Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido secreto. Não tenho o queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics. Muito menos a suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças. Ele me compara ao personagem pelo meu alto poder de cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto. Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta. A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver de novo a luz. Tenho fúria de viver. Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca. A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro. Eu sobrevivi a tanta coisa. Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental. Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que tinha algum retardo mental. Sobrevivi à desistência dos professores com meu desempenho. Sobrevivi à traição de amigos. Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos adultos. Sobrevivi à briga de rua. Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na adolescência. Sobrevivi a enterros de jovens colegas. Sobrevivi a três acidentes de carro. Sobrevivi a quatro separações. Sobrevivi ao vício do cigarro. Sobrevivi a dois assaltos a mão armada. Sobrevivi a várias demissões. Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos amados. Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora. Só não entendia onde meu pai enxergava as garras retráteis de Logan. – E as garras das mãos, pai? – São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela para não morrer.

* Do meu livro “Me Ajude a Chorar” ( Bertrand Brasil)

Wolverine Carpi

Wolverine: nova tatuagem, no braço esquerdo de Carpinejar, mais uma homenagem ao pai do escritor genial… Saravá, CARPI !!!

Carpinejar muda de opinião para jamais mudar de sentimento

O Poeta Gaúcho Fabrício Carpinejar, que tem o invejável dom de ENCANTAR, mais uma vez oferta um leque de sentimentos e emoções com maestria de ourives.

É de arrepiar dos pés a cabeça a antológica crônica do Poeta Maior, publicada ontem no jornal O Globo, e reproduzida aqui no #BlogAuroradeCinema, como costumamos fazer sempre que Carpinejar nos deixa sem fala e capta, com absoluta perspicácia, nosso sentimento.

Mais uma vez, O efusivo #AplausoBlogAuroradeCinema para Fabrício Carpinejar, de pé, como ele tanto merece !

NÃO DESEJO ISSO NEM PARA MEUS INIMIGOS

* Fabrício Carpinejar

Amar é sempre faltar algo.

Amar é sempre precisar de algo.

Não é uma suficiência, não nos sentimos completos, não nos enxergamos saciados.

É uma ausência que se cria a cada nova exigência.

Amar é se desfalcar por completo. É se esvaziar e oferecer o próprio corpo como casa.

Só somos inteiros quando não amamos – não nos importamos com as consequências de nossos atos.

Amar é o desespero de se perder mais do que perder alguém. É o desespero de perder alguém mais do que a si mesmo.

É acariciar o fogo e acotovelar a água.

É medir o relâmpago e empurrar a chuva.

Todo descuido dói, toda distração arrebenta, toda resposta evasiva provoca apreensão, todo distanciamento mínimo é uma agressão.

Quem ama é possessivo.

Quem ama é instável.

Quem ama é chato.

Quem ama é indignado.

Quem ama é implicante.

Quem ama é insaciável.

Quem ama é inconsolável.

Quem ama é insubordinado.

Quem ama jamais está contente, jamais está plenamente feliz, jamais está em paz consigo.

Quem ama reclama.

Quem ama protesta.

Quem ama é insuportável.

Quem ama é ciumento.

Quem ama é indeciso.

Quem ama é inverossímil.

Quem ama é tirano.

Quem ama é perturbado.

Quem ama é desequilibrado.

Quem ama é nocivo.

Quem ama é antissocial.

Quem ama cria seus motivos para pressionar e perdoar.

Quem ama não espera, não tem paciência, tem pressa de estar junto para depois não decidir nada.

Quem ama discute por qualquer palavra, cicatriza por qualquer silêncio.

Quem ama muda de opinião para jamais mudar de sentimento.

Quem ama diz que acabou a paciência e se reabastece do impossível para oferecer mais.

Quem ama pede o que não sabe, pelo prazer de não saber e pelo prazer de pedir.

Quem ama experimenta um inferno maravilhoso de depender de uma única pessoa.

A exclusividade é terrorista.

É uma atenção extrema para agradar, para olhar, para corresponder, que não tem como ser natural.

Quem ama não é espontâneo, apenas se atrapalha. É tanta vontade de dar certo que exageramos o cuidado. É tanta vontade de abraçar que esmagamos. É tanta vontade de beijar que mordemos. É tanta vontade de viver que adoecemos.

A preocupação é urgência, a saudade é socorro, o medo é emergência.

Mas só para quem ama. Os outros estão salvos.

Carpi edit

Ainda estou pra ver alguém escrever com a mesma profundidade e empatia do genial poeta gaúcho CARPINEJAR… benza Deus !

Carpinejar em sua versão para crianças: LULU

Carpi blog

Amanhã é dia de encontrar o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar na Livraria Saraiva Moinhos Shopping, em Porto Alegre.
O Poeta, multifacetado e imparável, estará lançando mais um carrossel de seus adoráveis poemas. E um DETALHE IMPORTANTE: a renda com a venda dos livros “Lulu” será destinada à Kinder – Centro de Integração da Criança Especial, que atende crianças com deficiências múltiplas.

A poesia é a linguagem de todos os sentidos, a única que produz sentido para o coração. Descubra a história da menina Lulu, que perde gradativamente a audição, mas ganha a leitura do mundo de modo intenso e inesquecível, amparada pelos olhos curiosos de sua mãe.

O lançamento será no horário das 15:30 – 16:30h. Se vocêestá em Porto Alegre, não deixe de comparecer: é uma chance maravilhosa para ajudar crianças que necessitam e para conhecer ou encontrar o magistral poeta FABRÍCIO CARPINEJAR !

Carpinejar e o mais belo texto sobre o poeta Manoel de Barros

O magistral Poeta gaúcho encharca de profunda beleza nossa sensibilidade, reafirmando-se como o mais importante poeta da literatura contemporânea a prestar a mais arguta, sensível, profunda e admirável Homenagem ao Poeta Manoel de Barros, falecido hoje.

Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. Inverte a escala do válido e do inválido. O que a sociedade de consumo preza, ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá-lo. Um carro no ferro-velho, de acordo com sua teoria, tem mais valor que um novo na concessionária. O carro é mais importante ao adotar besouros, atuando para uma atividade lúdica. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. “Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus” (Livro sobre Nada).

Com você, leitor amigo do #BlogAuroradeCinema, o texto de Fabrício Carpinejar sobre o poeta MANOEL DE BARROS:

SINGELEZA DO ORVALHO

Fabrício Carpinejar

Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma. Qualquer fresta é festa do grafite.

Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve.

Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Durante cinqüenta anos, desde o momento que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as delas tinham o mesmo tamanho: até 25 letras. Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou a altura ideal do seu poema. “Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem”, afirma Manoel de Barros.

Como ele mesmo confessa em um verso do livro “Poemas Rupestres” (Record, 2004): “Minha naturezinha particular: Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.”

Não é como advogado, profissão que desistiu pela timidez e nervosismo (“Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia”), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do seu pai João, que se tornou conhecido. Mas apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores.

Natural de Cuiabá (MT), Manoel de Barros completou noventa e sete anos. “Fui longe”, diz por telefone. “Longe sempre me deixando por perto”.

Seu amor pela mulher Stella, 91, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 65 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais. “Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: – Sobe e vai trabalhar mais. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom. Conhece meu estilo”, confessa.

A cumplicidade e telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como “alguém fora dele”. “Ela é alguém dentro de mim”, avisa.

Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida e contemplação líquida, diferente dos rótulos que recebeu de ‘poeta do Pantanal’, ‘alternativo’ e ‘ecológico’.

É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura no Museu de Arte Moderna. “Virei fã da pura expressão de Charles Chaplin”, aponta. Residiu quarenta anos no Rio de Janeiro, tempo que se casou, formou-se em Direito e só voltou para o centro-oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense.

Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa e da moral. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como Antonio Houaiss, Millôr Fernandes e Ênio Silveira.

Editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Barros é um virtuoso dos erros. Desvirtuado a lagartos. Desvirtuado para pedras. Desvirtuado em árvores. Ele se distrai com facilidade, pois o ingresso para o espetáculo da mata custa caro. Poucos se dão conta de que custa o milagre de uma vida.

Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, ao invés de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos.

Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade. Tudo o que não presta serve para sua lírica. “Poesia não é para compreender, mas para incorporar”, conceitua.

Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família.

Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhuma, pacus, graxas e beija-flor de rodas vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância.

Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. “É manso, não atrapalha e canta melhor livre”, comenta Barros.

Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos inutensílios (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos “nadifúndios” (latifúndios do nada). “O cisco tem agora para mim uma importância de Catedral” (Retrato do Artista Quando Coisa).

Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo.

O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de “desaprender oito horas por dia ensina os princípios.”

Faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos e penas. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. “Poesia é voar fora da asa” (O Livro das Ignorãças).

Nada é impossível em sua visão de mundo. Manoel de Barros fotografa o vento. Ou o pega pelo rabo no topo das árvores. Sua lógica é o de um menino aprendendo a falar e repetindo as frases para convencer os pais. Interessa-se pelos desvios da língua, quando a criança tropeça no dizer convencional e potencializa seu estreito vocabulário com neologismos. “O que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.” (O Livro das Ignorãças).

Barros não presta atenção se alguém falar que escuta os passarinhos de manhã, porém será todo ouvidos se alguém comentar que escuta a cor dos passarinhos de manhã. A distorção é pensar diferente. Acredita que a linguagem não pode se restringir a uma finalidade comunicativa, e deve servir a outros propósitos como o de sempre indagar o que significa exatamente tal coisa e de estranhar o já conhecido para aprender de novo.

A operação proposta é a de readquirir o sabor de inaugurar o dia e a língua. Em seu vocabulário, adivinhar supera o ato de lembrar. Adivinhar é antecipar o divino em cada um. Deseja atingir o estado de improviso, de “criançamento”, em que os vocábulos urinam na perna.

O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá-la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade. Atua no espaço do “faz-de-conta”. O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos.

Suas poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de minicontos, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre o álbuns de fotografias da família.

No poema “Emas”, fala do medo que sua mãe tinha do bicho de comer os cobertores de dormir e os vidros de arnica da vó. Suas memórias de repente acontecem somente na imaginação, o que não deixa de ser um acontecimento. São memórias inventadas. Emprega o tom biográfico, da experiência, para acentuar a força dos relatos. Ele é o principal protagonista dos seus poemas, o que favorece a confusão entre o autor e a obra. O que ele escreve não é o que ele foi, é o que gostaria de ser. “Nossa tarefa principal era a de aumentar o que não acontecia”, assinala um de seus versos.

A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana (que completa o centenário de nascimento neste ano), com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda do enovelamento lingüistico e da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da “universidade do folclore” de Câmara Cascudo e da travessia lendária de Raul Bopp.

Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Aceita a ordem natural da vida. O estágio de sua lírica é o da fermentação, das intumescências, da ferrugem e do adubo. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando de que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados. O que prepara a metamorfose ou a indefinição das formas. O moço pode ser a rã; o mar, um tordo; o inseto, árvore brotada. Humaniza a natureza e mineraliza o homem.

Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. Inverte a escala do válido e do inválido. O que a sociedade de consumo preza, ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá-lo. Um carro no ferro-velho, de acordo com sua teoria, tem mais valor que um novo na concessionária. O carro é mais importante ao adotar besouros, atuando para uma atividade lúdica. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. “Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus” (Livro sobre Nada).

Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa.

Manoel de Barros, “Poeta do simples e da delicadeza”,  como tão bem descreve o poeta Carpinejar…

Carpinejar: “Quem tem preguiça escreve demais”

Carpi blog

Ele é exatamente o que sugere nos textos que escreve, de todos os tipos, para as mais diversas mídias. Ser aluna do Poeta CARPINEJAR é uma Honra, uma Alegria e um aprendizado cotidiano. O Poeta é Impossível ! Promove com intensidade e constância um revertério na cabeça do aluno, assim como acontece com os ouvintes do programa Consultório Sentimental que ele faz na Rádio Gaúcha com outros dois colegas – Junior Klein e Everton Behenck – , e muitas vezes também o faz nos twittes e crônicas semanais.

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Carpinejar ministrando oficina no curso B.arco. Foto #BlogAuroradeCinema

Partindo do princípio de que a doença é a INDIFERENÇA, o escritor afirma:

A pior coisa que existe hoje é as pessoas terem vergonha do ciúme. Ele é tratado como doença. Você não vai dizer para o namorado que está com ciúme. Vai tentar sonegá-lo, escondê-lo, e ele só vai crescer. Se a mulher confessa que tem ciúme, o homem diz “Você não confia em mim?”. Assim, ele coloca em risco o relacionamento e não permite que você sinta ciúme. E eu acho que o ciúme é indispensável. Porque é a pessoa ciumenta que vai se importar com você, vai ser leal, escutar o que você diz. A gente pensa nos efeitos colaterais do ciúme, no barraco, no escândalo, mas a gente esquece o lado positivo, a cumplicidade, a intimidade, a preocupação. Ele só se torna incontrolável quando sufocado”.

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Carpinejar e a jornalista Aurora Miranda Leão, fã assumida do Poeta gaúcho…

Na aula de CARPINEJAR, que tem duração de 4 horas diárias – das 19h às 23h, o tempo passa mas você não sente. Jamais assisti a uma aula de tempo tão extenso e ao mesmo tempo tão breve. Jamais assisti a aula cronologicamente com mais de uma hora que não olhasse o relógio para ver quanto tempo faltava para terminar. CARPINEJAR consegue a façanha singular de tornar uma aula prazerosa, curta, necessária, relevante, especial, única e ainda consegue te fazer achar que o tempo foi muito curto e ainda há tanto para aprender com ele.

Isso é das proezas que o Poeta alcança… verouvir Carpinejar falando dá súbita impressão de que o tempo parou no espaço e que tudo pode e deve ser eternizado em Poesia, Humor, e Sensibilidade.

Carpi corpo inteiro

O Poeta afirma: “SEM ESTRANHEZA, A GENTE NÃO VALORIZA O QUE TEM”. E ele está, mais uma vez, coberto de razão !

Vida longa para FABRÍCIO CARPINEJAR !

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Fabrício Carpinejar ganha abraço efusivo da jornalista Aurora Miranda Leão…

“A crônica não é feita para ser um cabedal de impressões, é para contar uma história. Escrever é uma alegria, uma dança” – CARPINEJAR

CARPINEJAR: “Sou tudo o que escrevo”

Fabrício Carpinejar é a leitura diária do #BlogAuroradeCinema

Mais uma vez, o Poeta Fabrício Carpinejar nos surpreende com uma crônica antológica. Não dá pra não ser completamente encantada com a poderosa inteligência, sensibilidade, bom humor e perspicácia do escritor.

Fabrício Carpinejar é ANTOLÓGICO, absurdamente verdadeiro e comovente. LINDAMENTE CORAJOSO !!! É o mesmo Poeta que temos diariamente em crônicas e palavras primorosas !!!!!

Carpi Nejar é, definitivamente, um POETA NECESSÁRIO !!!

Deliciem-se, pois, queridos leitores !

NÃO SOU GAY
                                                                         * Fabrício Carpinejar

Desculpe decepcionar, mas não sou gay.

Sou hétero, tosco, apaixonado por buceta.

Sempre me relacionei exclusivamente com mulheres e será assim até o fim do meu tempo.

Não tenho nenhuma queda pela bissexualidade, não me passarei por moderno, não defendo swing, relação aberta ou sexo livre.

Minha liberdade sexual é intimidade.

Nunca me esconderia no armário, tenho muita roupa para guardar.

Seu preconceito é com qualquer um que conheça o universo feminino, como só o gay fosse sensível, observador e atento.

Você não gosta de homens que perturbem seus modelos.

Você gosta de homens monotemáticos, preguiçosos e diretos, presas fáceis da dominação.

Não é o meu caso. Posso ser submisso para influenciar ainda mais. Posso ser generoso para receber ainda mais.

O contrário é persuasivo. Quem é somente o que é não entendeu metade da missa em latim.

Talvez estranhe minha voz de turista (superei sérios problemas de dicção na infância), talvez estranhe meus gestos espalhafatosos (abraço até o vento), talvez estranhe minhas roupas extravagantes. No fundo, eu me acho apenas desengonçado.

Realmente sou educado: não vou arrotar em público, cuspir minha gripe no canteiro, palitar os dentes em churrascaria.

Minha preferência é por expor meus sentimentos: vou gritar por amor em público, pisar nos canteiros por ciúme, rilhar os dentes por justiça.

Não me envergonho de minhas dúvidas e sou capaz de permanecer horas ao telefone com amigos falando de relacionamento. Assim como qualquer mulher.

Sei fazer nó de gravata e, se precisar, posso ajudar a se maquiar. Assim como sei trocar lâmpada e pneu.

Na ausência de terapia, arrumo a casa. A faxina é um exorcismo barato, além de ser uma lição de humildade.

Gay não é aparência, gay é alma, e minha alma é essencialmente masculina. Tive vários casamentos e meu sonho é me aquietar com alguém que me entenda e me admire até envelhecer.

Sou independente, feio e estável financeiramente.

Aliás, sou tudo o que escrevo.

Minha solidão não dura sequer duas horas. Sofro de hiperatividade amorosa, sempre penso em fazer uma gentileza e agradar minha companhia. Ser carinhoso é também irritante, já que crio dependências desnecessárias.

Amo balada desde que possa sair na hora em que quiser. Festa boa não significa ficar até amanhecer, já aprendi isso em minha adolescência.

Danço com os braços e as pernas, meu quadril não se movimenta, infelizmente. Meu samba é batucar caixa de fósforos, desafiando a escuridão.

Cozinho apenas o básico para os filhos: ovo, arroz, massa e bife. Pai PF.

Perco meu senso de humor quando meu time perde. Vou ao estádio aos domingos, com a minha camiseta da sorte e o radinho de pilha da minha infância.

Sofro quando sou incompreendido, mas também quando sou compreendido rapidamente (daí eu me sinto superficial).

Meu temperamento não é fácil: encontro sempre uma desculpa para minhas falhas ou inverto a conversa para me beneficiar.

Não tenho motivos para mentir.

Olhe só como o mundo mudou: hoje temos que assumir que somos hétero.

Minha coluna de quarta-feira
Site Vida Breve

Arte de Eduardo Nasi para a crônica Não Sou Gay, de Fabrício Carpinejar

Ninguém escreve ao Carpinejar…

Carpi abrir Que espécie de inteligência habita o cérebro do poeta Fabrício Carpinejar ? Ou que espécie de cérebro tão especial tem o menino nascido em Caxias do Sul para conseguir abarcar e carregar consigo o farol iluminado e profundamente iluminador que é a inteligência brilhante e a sensibilidade 3D do Poeta Carpinejar ? Meu Deus, quanto mais leio o que o Poeta escreve, mais estupefata fico diante de tanta beleza. Pergunto-me constantamente como é possível. Como e de onde brotam tão precisas as imagens que Carpinejar arruma em frases de eloquência tão profunda que alcançam um nível de inconteste profundidade, eloquência e beleza ? As frases poéticas ou os versos crônicos que o poeta escreve são tão contundentes que tocam a alma como um condão mágico, sensivelmente potente, capaz de fazer chorar, rir, e provocar imediata adesão. Apaixonei-me pelas imagens ricamente construídas com invejável harmonia estética e namoro permanente com a beleza desde a primeira vez em que li um texto de Carpinejar. Foi em 2007 e, até então, não me lembro de ter ouvido falar nele. Mas bastou ler uma vez pra encantar-me e nunca mais deixar de ler FABRÍCIO CARPINEJAR. Leio-o cotidianamente, com a melhor das emoções. E ele escreve coisas novas todos os dias. Leio as novas, e revisito as antigas, cotidianamente. Ler Carpinejar virou meu mais saudável vício.

Impressiono-me e interrogo-me todos os dias sobre como é possível escrever com tanta maestria, e procuro, em vão, uma palavra capaz de traduzir com fidelidade a prodigiosa perfeição imagética, sensorial e emocional com a qual o poeta verseja em crônicas diárias e desfila com leveza, bom humor, delicadeza e absoluta capacidade de encantar a sua visão de mundo, suas ideias, sua forma inusitada de sentir e sua coerência (às vezes assumidamente incoerente) desconcertante e límpida. Fabrício Carpinejar é dotado de uma infinita capacidade de transformar tudo que escreve em metal precioso. Suas letras transbordam da alma e constroem textos, frases, crônicas e poemas com a perfeição de um grande ourives. Não são raras as vezes em que me arrepio ou choro lendo um texto de Carpinejar. Não me canso de repetir isso, nem de ler o poeta, nem de aplaudir o que faz, nem de compartilhar com leitores – centenas que me seguem em diversas redes sociais -, cotidianamente, a maestria da letra preciosa e comovente do poeta gaúcho.

Carpi unhas

Os que acompanham o Poeta sabem – e são milhares: Carpinejar foi considerado, ainda criança, um ser com capacidade limitada de atenção, incapaz de ser alfabetizado e frequentar uma escola. Para a mãe dele, a sábia poetisa Maria Carpi, foi recomendado colocar a criança para estudar numa escola especializada em pessoas com deficiências. Com apenas 8 anos, CARPINEJAR foi ‘avaliado’ como uma criança com deficiência motora grave, incapaz de ter um desenvolvimento motor sadio, normal, em contato com outras crianças. Pois foi graças à sabedoria, dedicação e suprema ousadia e lucidez de Maria Carpi que a criança que foi Fabrício Carpinejar transformou-se neste que é hoje o Mais Aplaudido Poeta Brasileiro Vivo, a Maior Expressão da Poética Brasileira Contemporânea. Foi ela, a ousada e aguerrida Maria Carpi que resolveu ensinar ao filho as letras que a escola não o julgava capaz de aprender. Foi Maria Carpi quem resolveu assumir pra si a árdua e doce tarefa de alfabetizar o filho e conduzi-lo pelos caminhos das letras. Foi inventando versos, rascunhando tarefas em dimensões que só o amor alcança, e lapidando as melhores formas de fazer ressoar no filho criança o que o tornaria capaz de acompanhar o que a escola formal não o julgava capaz de aprender, que Maria Carpi deu força, luz, fé, garra e confiança ao filho Fabrício para chegar onde chegou. E o Poeta sabe bem disso. É de uma gratidão linda, comovente, profunda e constante à mãe. Como cabe ao tamanho de Poeta e Homem Iluminado que é Carpinejar.

É graças a esse esforço inicial de Maria Carpi e de sua não desistência na tarefa de legar ao filho o melhor, e a ele doar as cordas do coração para fazer brotar a sensibilidade, o carisma e a imensa inteligência do filho, que hoje podemos dizer – e dizemos com imenso carinho por ele e por ela, e com indisfarçável apreço pela produção literária de Carpinejar – do orgulho em poder ler com tanta alegria e encantamento a alma linda e notável de que é feito o poeta Carpinejar.

Carpi e a mãe

Por certo foi esse vigor intelectual, essa profusão de sentimentos, e esse redemoinho de emoções que ele tão bem reúne, organiza e transforma em doação ao próximo através da profícua e bela obra que construiu ao longo da breve e invejável carreira, que fizeram com que a escola da infância o taxasse de “incapaz de estudar junto às crianças normais”, “incapaz de aprender como os outros”, “incapaz de ser alfabetizado com as mesmas regras das crianças normais” (?). Sim, o que fica claro pra nós hoje é que o poeta Carpinejar, desde muito tenra idade, já era um super dotado, alguém de uma inteligência tão fulgurante, transgressora, e alucinante que deixou seus mestres (?) perplexamente atordoados. Eles não sabiam o que fazer diante daquele menino-prodígio. Devem ter tido o mesmo assombro que nós temos quando lemos certas crônicas lapidares do poeta, que desconsertam o senso comum, e remexem com as estruturas emocionais mais sólidas. O menino aprendiz de Poeta, aos olhos daqueles mestres (?), aparecia como sinal revelador da completa incompetência deles. Tão leigos que não sabiam sequer traduzir o que não conseguiam assimilar do brilhantismo do menino. Tão tacanhos que preferiram dispensar a presença invulgar de um pequeno gênio nos bancos das suas salas de aula pela incompleta incapacidade de conduzir lições diante de um guri brilhante que mexeu com a infame incongruência de sua pequenez de educadores.

CARPI já devia ser, desde criança, um garoto de inteligência tão incomum e desconsertante que tornava-se incapaz de ser alcançado e entendido por aqueles diretores e professores de escola tão mediocremente normais e cauílas que perderam a espetacular oportunidade de hoje serem tema de uma das brilhantes crônica do poeta. Os medíocres, pobres de espírito e ‘inocentes’ da palavra perderam pra sempre a chance única de poder levantar-se e bradar, com a mão no peito e o orgulho inflando o coração, “nós ensinamos ao poeta Carpi”. Por certo, teriam imenso orgulho de estampar nos flanelógrafos dos corredores da escola a foto do menino Carpi, futuro gênio da Poesia Brasileira, ali esboçando suas primeiras letras, formando as primeiras amizades, e hoje, revisitando o colégio, escrever lindamente sobre os bancos onde aprendeu a escrever as primeiras letras e de onde saiu para tornar-se o Poeta Brasileiro de Maior Número de Seguidores das redes sociais. O Poeta que encanta e atua em várias áreas, brilhante em todas elas, seja como jornalista, radialista, apresentador de TV, cronista televisivo, conselheiro sentimental, palestrante, poeta e escritor fenomenal, merecedor de vários prêmios, no país e no exterior, aplaudido e amado onde quer que vá.

A Fabrício Carpinejar, nosso aplauso efusivo e a gratidão pela generosidade cotidiana expressa em verso e prosa.

Para Fabrício Carpinejar, não nos cansamos de tirar o chapéu. Pra ele, nosso afeto e nossa leitura, sempre.

Fabrício Carpinejar é o Poeta e Cronista que o #BlogAuroradeCinema aplaude de pé, cotidiana e incansavelmente.

SARAVÁ, CARPI !

Deixamos com você, amigo leitor, um trecho da crônica de segunda-feira (16 junho 2014) do Poeta, cujo título é Técnicas Domésticas. Neste pequeno trecho, ou em qualquer outro que você possa buscar nos espaços do poeta na web, você irá igualmente maravilhar-se diante da magnitude inventiva e poeticamente avassaladora de FABRÍCIO CARPINEJAR:

“Saber costurar é uma demonstração de ternura Não há cena mais emocionante do que costurar meias. Meias que rasgam nos calcanhares. Fechar com a linha da cor da meia para ninguém perceber. É muita esperança não jogar fora um par de meias e oferecer uma segunda vida para ele. Demonstra que você não se desfaz das coisas facilmente, que não vai dispensar as pessoas facilmente, que você tenta primeiro remendar, que não é do tipo que estragou e compra outra, que não descarta simplesmente porque foi barato”.

Você pode acessar o blog de FABRÍCIO CARPINEJAR aqui mesmo, através de link que o #BlogAuroradeCinema compartilha em nossa página de abertura. Ou acesse: http://www.carpinejar.com.br/ e http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/

Carpinejar lança autobiografia não autorizada

Genial Poeta gaúcho exacerba do direito de ser brilhante e convida para o lançamento dos 2 primeiros capítulos de sua autobiografia...

CARPI livros

Programa obrigatório pros que estão em Porto Alegre e livros que, muito em breve, estarão na nossa biblioteca particular !Bio CpE enquanto espero a oportunidade de adquirir meus exemplares da Autobiografia Carpinejariana, vou lendo e relendo as pérolas do escritor e divido com você, leitor amigo, um pouquinho da grandeza de FABRÍCIO CARPINEJAR, extraído duma crônica de 2004:

O QUE NÃO É ESPELHO É ROSTO*

Sempre fiquei intrigado com quem diz, com mais saliva do que dentes: eu não o leio porque não faz meu tipo. Ou eu não gosto dele porque é concretista. Aquele cara não presta porque é conservador, neo-romântico. Não fui com o jeito de pronunciar o efê daquele autor. As aparências enganam, mas a falta de aparência engana mais ainda.

Há centenas de tipos de letras, mas a maioria ainda continua a escolher a times new roman. Porque é a primeira que aparece. Os hábitos provocam o desaparecimento da personalidade, a rotina preserva a não-existência. Fazer tudo da mesma forma é um jeito quase seguro de não aparecer, de ser invisível. Uma das maldições da prosa e poesia contemporânea é a formação de bandos, tribos, seitas, com o dízimo pago pontualmente nas dedicatórias e epígrafes. Como que isso acontece? Quando a saudável influência vira apostolado. A máxima funciona nos extremos: ou se é de algum time ou não se é jogador. Depois da antropofagia, vem a autofagia, que dá no mesmo. Já se parou para pensar que a tradição pode ser mais repetição do que consistência?

A literatura não é uma religião, não há a figura de um padre ou pai-de-santo ou pastor ou rabino a seguir. É uma solidão dentro do nome. Mais desaforo do que elogio. Mais dúvida do que dogma. Estranheza em estado bruto, inadiável, que inverte a ordem do senso comum, cava contradições, fornece velocidade ao idioma, não serve para enrolar, mas para dizer unicamente o necessário. Um bom livro não adormece, instaura a insônia da alegria, a euforia de ter encontrado a palavra certa para o que vivemos ou podemos viver. O poema, por exemplo, tem que ser simples, não simplório; rápido, não fácil; autêntico, não rebuscado.

Está se precipitando uma guerra pouco santa. Encalha-se no narcisismo desde a leitura. A criação apenas a amplifica. Acredito que se desaprendeu a ler para reafirmar a vaidade da autoria. Todo leitor se transforma em um escritor apressado, louco para se enxergar estampado na capa de alguma brochura. Ou seja, o leitor está mais interessado em escrever do que ler. E ler se converteu em escritura anônima. Segue-se uma receita, com a covardia em preparar o almoço de olho e acrescentar novos ingredientes. Nada disso seria problema, mas acaba-se não sabendo ler o que não é espelho, intimidando possibilidades de transgressão e aventuras na linguagem. O que não é espelho é rosto e muitos se apavoram em olhar de frente os olhos abertos que não os seus. Não se lê outros autores porque se está interessado unicamente em reiterar a identidade. Assim, ninguém lê ninguém, o autor somente se procura em cada livro e não valoriza o que difere de sua voz. Ao invés de multiplicar as diferenças, soma-se as subtrações. A megalomania na leitura gera mais crítica dentro da criação do que criação. Os livros passam a ser ensaios de como se escrever mais do que narrativas e poesias versando sobre o cotidiano. O que era para servir para entrar no mundo assumiu o caráter de fuga do mundo. Os escritores lêem escritores para se amar duas vezes, mergulhando em uma metalinguagem sem bilhete de volta. Esquecem que o público não está interessado em manuais de datilografia ou de poemas falando de poemas. Coroa de flores nunca vai cheirar a flor.

Não aprendi muito na literatura, mas algo me previno: eu não leio para repetir o que escrevo. Nem escrevo para repetir o que leio.

* Fabrício Carpinejar

Poeta consegue se superar constantemente e é um rosário de belezas, formatadas em várias versões, múltiplos afetos e sensibilidade jamais vista em intensidade, extensão e volume… Salve, CARPINEJAR !!!

CARPINEJAR escreve às famílias e amigos das vítimas de Santa Maria…

NÃO DESISTAM DE VIVER

* Fabrício Carpinejar é jornalista, professor, poeta e escritor

A vontade é de abandonar o trabalho, não acordar mais, definhar abraçado ao travesseiro, encolher-se no canto e não erguer nem mais o braço para atender a porta e pedir ajuda. Nada tem mais sentido, e ordem.
A vontade é de não ter mais vontade.
Os filhos morreram, os irmãos morreram, os colegas morreram. Eu entendo.
Entendo que vocês levantarão, sobressaltados, às duas horas de todas as madrugadas de suas existências, que haverá sempre uma sirene abrindo as ruas do sangue, que será insuportável raciocinar diante de um alarme dos bombeiros ou de ambulância lá fora.
Entendo que a casa está vazia, como a cidade está vazia, como o corpo está vazio. Mas não podemos chorar a morte dos familiares se não valorizarmos nossa vida. Entendo que não será mais a vida idealizada, não será mais a vida planejada, não será mais a vida que merecíamos.
Mas ainda que seja uma vida desesperada, uma vida atormentada, uma vida traumatizada, ainda é a nossa vida. Ainda é a vida que ficou. Ainda a vida que temos que cuidar. Ainda é a vida que temos que salvar. Afinal, nossa vida era tudo o que a gente pretendia assegurar para eles que se foram na boate Kiss.
Gostaríamos que os duzentos e trinta e sete jovens estivessem com a gente, então não podemos nos jogar fora.
Não podemos esnobar a chance de estar aqui. Continuar a viver é preservá-los. Continuar a viver é sabedoria. Continuar a viver é fé. Continuar a viver é humildade.
Continuar a viver é respeito: é não ser mais vítima do que as vítimas, por mais que doa doer o dia inteiro.
É imperioso cortar o cordão umbilical da Rua dos Andradas, abolir as hipóteses: se eu tivesse proibido meu filho de sair, se eu tivesse viajado com a família, se eu tivesse telefonado antes, se eu tivesse sido mais rigoroso…
O “se” não devolve o que perdemos, nem diminui o sofrimento. A culpa não deve abafar a justiça, o medo não deve sufocar a esperança. Não há como controlar o destino.
A tragédia não aconteceu porque vocês falharam. Vocês, familiares, não teriam como evitá-la.
O que sobra é amar a si para explicar o que é amor, para explicar o que é saudade. O que nos resta é a responsabilidade de lembrá-los com garra. De lavar as escadarias das igrejas com flores. De ir adiante para que esse incêndio criminoso nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo deste Brasil.

Que nossos filhos de Santa Maria jamais morram para a História.

* Publicado originalmente no jornal ZERO HORA (RS) em 5 fev 2013

Viva CARPINEJAR, nosso MESSI da Literatura !

Comecei a ler os escritos do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar há alguns anos, meio por acaso, ao pesquisar coisas na web para minhas postagens aqui, e textos para sites e revistas para os quais assino matérias.

O encanto pela escrita de CARPINEJAR foi imediato. E de uns textos aqui, outros versos ali, de repente me vi, constantemente, em busca das palavras do poeta.

Hoje, sou sua FÃ, surpreendida positivamente a cada dia com seus escritos, impressionada cotidianamente com sua versatilidade e impressionante capacidade de expressar-se e, ao fazê-lo, conseguir tocar de forma inequívoca o coração de todos quanto o lêem, e já somos milhares… até quando diz estar apenas fazendo prosa, ou nas suas postagens no twitter, ou apenas respondendo entrevistas, CARPINEJAR é um Mestre da Palavra.

Nasceu Poeta e parece ter o invejável destino de encharcar o mundo com o reluzente cristal da diafania.

Chego a pegar carona em seu texto sobre o genial artilheiro argentino do Barcelona, Lionel MESSI, e digo que ‘Carpinejar não procura as palavras para escrevê-las, as palavras dançam no imaginário de Carpi procurando a chance de ser por ele descobertas e traduzidas em poemas’.

Deixo com você, leitor amigo, mais um texto do Poeta, de quem sou fã de primeira hora, e a quem Aplaudo com carinho, gratidão e profunda admiração.

Salve CARPINEJAR ! Viva a Poesia que consegue prosear com tantos leitores ao mesmo tempo, e os versos que conseguem transbordar emoção e contagiar pela profundidade, beleza e propriedade com o qual são ditos.

FALO EU TE AMO FÁCIL, FÁCIL

Nada acontece por acaso.

Em tudo há um porquê.

Era para a gente se encontrar.

… Apague essas frases, largue o curso preparatório de noivos.

Amor não é uma fatalidade, é algo que inventamos, é a responsabilidade de definir, de assinar, de honrar a letra.

Colocamos a culpa no destino para não assumirmos o controle, tampouco sustentarmos nossas experiências e explicarmos nossas falhas.

Amar é oferecer nossas decisões para o outro decidir junto, é alcançar o nosso passado para o outro lembrar junto, mas jamais significa se anular.

É vulnerabilidade consciente. É fraqueza avisada.

É entregar nossa solidão ciente de que é irreversível, podendo nos ferir feio, podendo nos machucar fundo.

Não existe nada mais horrível e mais lindo.

Ninguém nos mandou estar ali, ninguém nos obrigou a nos aproximar daquela pessoa, ninguém nos determinou a começar uma relação.

Não teve um chefão, um mafioso, um tirano, um ditador nos ordenando namorar.

Foi você que optou. Assuma até o fim que é sua obra, inclusive o fim. Assuma que sua companhia é resultado direto do seu gosto, sendo canalha ou santa. Não adianta se iludir e tirar o pé. Não vale fingir e mentir freios.

Amor não é hipnose, passe, incorporação. É você querendo o melhor ou pior para sua vida. É você roteirizando e dirigindo as cenas.

Aquele que tem receio de se declarar não se deu conta de que é o próprio diretor do filme, e que a tela vai mostrar o sucesso e o fracasso de sua imaginação.

Por isso, não tenho medo de dizer “eu te amo” desde o início. O amor aumenta para quem diz “eu te amo”.

Se vou errar, eu é que errei. Se vou acertar, sou eu que acertei. Se vou me danar, o inferno será meu.

Falo “eu te amo” já no segundo encontro. Já para assustar. Já para avisar quem manda. Já para estabelecer as regras do jogo.

Falo no calor da hora ou no moletom do entardecer. Amor não surge do além, amor se cria da insistência.

A precipitação é uma farsa. Não há como me adiantar e me atrasar em sentimento que eu mesmo realizo. É bobagem negacear prazos, esperar amadurecer limites.

Exponho minha paixão fácil, fácil. Nem precisa perguntar.

Aprendo a amar amando, para entender que a maior declaração ainda não é o “eu te amo”. É quando alguém confessa: “Não consigo mais viver sem você”.

Mas isso não é amor, é coragem.

* FABRÍCIO CARPINEJAR

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 31/12/2012 e 1/01/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17299