Arquivo da tag: Fernando Eiras

Pra não esquecer RUBENS CORREA

O ator Sergio Fonta lembra perfeitamente do impacto que sentiu ao ver Rubens Corrêa (1931-1996) em cena pela primeira vez. Foi na montagem do Teatro Ipanema para O arquiteto e o imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, em 1970.

Assisti nove vezes. Fiquei deslumbrado com o espetáculo de Ivan de Albuquerque (1932-2001) e com as interpretações de Rubens e José Wilker. Nós entrávamos no teatro e tínhamos a sensação de que estávamos no meio de uma densa floresta. Quando as luzes eram acesas, percebíamos que havia jornais pendurados como longas folhas. Nós atravessávamos esta “floresta”, até que as folhas eram suspensas e nos deparávamos com o palco nu – reconstitui o ator.

Mais tarde, Fonta iria iniciar uma convivência marcante com o ator, seja entrevistando-o para veículos como Jornal de Ipanema e o Jornal de Letras e até contracenando em peças. A partir de suas lembranças e de uma vasta pesquisa, prepara, neste momento, uma biografia sobre Corrêa para a Coleção Aplauso, da editora Imprensa Oficial, coordenada pelo crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Na época de O arquiteto e o imperador da Assíria, Fonta trabalhava como jornalista. Ainda não tinha ingressado na carreira de ator. Um pouco antes conheceu Rubens pessoalmente.

A imagem mais nítida que tenho dele é a do sorriso largo. E do olhar que brilhava – lembra Sergio Fonta, dividido atualmente entre o desenvolvimento da pesquisa, o trabalho como membro do júri do Prêmio Shell e a expectativa da retomada da temporada de Amadeus, encenação de Naum Alves de Souza para o texto de Peter Shaffer.

Os caminhos de Rubens Corrêa e Sergio Fonta também se cruzaram em Flor do milênio, espetáculo poético-teatral dirigido pelo primeiro em 1982, a partir de um roteiro do segundo em cima de poesias de Denise Emmer. Fonta viveu intensamente a fase do Teatro Ipanema, marcada pela parceria entre Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, desde o fim da década de 50, no Teatro do Rio.

Rubens morava com a mãe numa bela casa de pedra. Tinha o sonho de construir um teatro. Vendeu a casa com a condição de que o prédio construído no lugar abrigasse um teatro no térreo. Assim aconteceu, e ele foi morar na cobertura – conta.

Fonta não esquece o impacto de montagens como Hoje é dia de rock.

– Era um texto libertário encenado numa época de repressão e que ganhava com a interpretação espiritualizada do elenco – sublinha Fonta, acerca do texto de José Vicente (1945-2007), centrado na travessia de uma família, do interior do Brasil rumo à cidade grande. – O cenário do Luiz Carlos Ripper (1943-1996) era a estrada que a família percorria e rasgava o espaço do Ipanema. No último dia de apresentação havia tanta gente querendo ver que todo mundo foi celebrar na praia. Um belo momento de comunhão.

Muitos outros trabalhos de Rubens virão à tona no livro. Um deles, em O beijo da mulher aranha, montagem de Ivan de Albuquerque para o texto de Manuel Puig (1932-1990), foi, inclusive, esmiuçado no livro Sobre o trabalho do ator, de Mauro Meiches e Silvia Fernandes. Cabe mencionar O futuro dura muito tempo, seu último espetáculo, no qual dividiu o palco com Vanda Lacerda (1923-2001), sob a direção de Marcio Vianna (1949-1996). Artaud foi, com certeza, um capítulo à parte.

Considero Artaud o legado de Rubens, a herança de toda uma vida. Quem o viu em cena não passou incólume pela experiência de entrega e reflexão sobre sanidade e insanidade – constata Fonta, bastante emocionado.

Mesmo que tenha se notabilizado como ator de teatro, Rubens será lembrado no livro através de seus trabalhos no cinema e na televisão.

No cinema e na TV ele nunca chegou perto da dimensão que alcançou no teatro. Mesmo assim, esteve bem em novelas como Kananga do Japão. No cinema se destacou em Álbum de família (1981), de Braz Chediak, e, especialmente, em Na boca da noite (1971), adaptação de Walter Lima Jr. da peça O assalto, de José Vicente, que fez com Ivan de Albuquerque – enumera.

Durante a fase de pesquisa, Sergio Fonta vem recorrendo ao arquivo impresso guardado na Funarte e a livros como Reflexões sobre o teatro brasileiro no século 20, organizado por Fernando Peixoto, e realizando entrevistas com artistas bastante próximos de Rubens, como Nildo Parente, Ivone Hoffman, Fernando Eiras e Sergio Mamberti, além dos filhos de Ivan de Albuquerque e Leila Ribeiro.

Num determinado momento, Mamberti precisou mudar-se mudar para São Paulo e não tinha onde guardar a mobília. Como coincidiu com a época de construção do Teatro Ipanema, Rubens falou para colocá-la no palco – revela Fonta, que deverá conversar com José Wilker, Simon Khoury, Angel Vianna e Rosamaria Murtinho.

Não é sua estreia no campo da pesquisa. Há alguns anos, ajudou Sergio Viotti na concepção da Dulcina e o teatro de seu tempo, biografia da atriz e diretora Dulcina de Morais (1908-1996).

Desejo fornecer um painel para que o leitor que porventura não o tenha visto em cena entenda o que significou. Era uma pessoa dotada de grande generosidade natural – resume.

* Texto de Daniel Schenker

NR: ATOR MONUMENTAL, a biografia de RUBENS CORREA  a sair pela Colecão APLAUSO, tem importância seminal para a dramaturgia brasileira.

RUBENS CORREA atingiu um patamar interpretativo de rara sensibilidade, perspicácia, pertinência.

Lamentável que as novas gerações pouco ou nada saibam do Artista, que também foi diretor e produtor de montagens marcantes na história da cena teatral brasileira. Até na web, é quase impossível achar imagens de Rubens…

Tive a feliz oportunidade de ser aluna de RUBENS CORREA em oficina ministrada aqui em Fortaleza, no Teatro José de Alencar, se não me trai a memória, ainda em 1994. Rubens era mesmo um Ser Humano Iluminado, raro, sensível, inteligência, refinado.

Quando ele entrava na sala – como o era quando adentrava o palco – era como se todas as energias parassem pra que algum alquimista assumisse o leme da embarcação. Antes disso, tive também oportunidade de entrevistá-lo, ainda em meados da década de 1980, quando protagonizou o belíssimo espetáculo QUASE 84 no Teatro Ipanema, ao lado de Ivan de Albuquerque, com primorosa direção de Fauzi Arap.

RUBENS CORREA merece todo APLAUSO.

Era um Gigante dos nossos PALCOS & TELAS.

Daniel Schenker comenta PRÊMIO SHELL

A tempestade que caiu segunda-feira sobre a região metropolitana do Rio, causando um caos urbano poucas vezes visto na cidade, não impediu a realização da cerimônia do Prêmio Shell de Teatro, no Complexo Vitória, do Jockey Club. Natural que a atriz Patricia Selonk, escolhida para apresentar a premiação deste ano, só tenha dado início ao evento por volta das 22h, duas horas depois do horário marcado.

Mesmo assim, Paulo César Medeiros chegou após o anúncio de sua vitória pela iluminação de O Despertar da Primavera; Alberto Renault não conseguiu comparecer para receber o troféu por sua original instalação cenográfica para Dois irmãos, e, no momento mais inusitado da noite, Enrique Diaz agradeceu o prêmio de Direção de In on it pelo celular – o ator Fernando Eiras ligou para o diretor e subiu ao palco conversando com ele.

Botelho reclama e é vaiado

Os musicais, destacados nas indicações, não venceram sozinhos. Claudio Botelho expressou descontentamento.

Eu e Charles (Möeller) tivemos 10 indicações, mas só ganhamos dois prêmios – ressaltou Botelho, referindo-se à já citada iluminação de O despertar da primavera e à vitória pela versão das músicas de Avenida Q na categoria especial. – Parece que os meus espetáculos não são tão expressivos.

Os convidados presentes não hesitaram em vaiar Botelho. Polêmicas à parte, o júri – formado por Fabiana Valor, João Madeira, Jorginho de Carvalho, Sergio Fonta e Tânia Brandão – elegeu como grande vencedor o minimalista In on it, ótima montagem de Enrique Diaz para o texto de Daniel MacIvor totalmente centrada nas interpretações de Emilio de Mello e Fernando Eiras, escolhido como Melhor Ator. Uma consagração surpreendente num ano marcado pela força dos musicais.

Meu pai me dizia: “Você é capaz”. Perguntou por que eu queria fazer teatro. Respondi que era algo de que tinha necessidade. Ser ator é uma profissão que dá visibilidade, glamour e talvez dinheiro. No entanto, nós celebramos o fato de precisarmos fazer teatro – destacou Eiras, o mais aplaudido da noite, que prestou tributo a Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, parceiros no Teatro do Rio (depois, Teatro Ipanema), “meus mestres”.

O Shell de Melhor Atriz ficou com Beth Goulart, por sua elogiada atuação em Simplesmente eu, Clarice Lispector.

Clarice costumava dizer que escrevia porque encontrava nisso um prazer… Eu atuo porque encontro  nisso um amor – sublinhou a atriz.

No universo dos musicais, além de O Despertar da Primavera e Avenida Q, foram lembrados Oui oui… A França é Aqui ! A revista do ano, irreverente sátira à influência francesa no Rio de Janeiro, e Miranda por Miranda, evocação da saudosa Carmen Miranda. O primeiro ganhou o prêmio de Melhor Texto, assinado por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche.

Tenho 42 anos. Estou terminando o primeiro tempo da vida e ganhei essa surpresa de escrever para teatro – ressaltou Gasparani, autor de outros musicais bem-sucedidos, como Otelo da Mangueira.

Homenagem a Eva Todor

O segundo foi contemplado na categoria Música

– Andava afastado da direção musical para teatro e fico muito feliz de voltar com esse prêmio – comemorou Tim Rescala, que lembrou de sua parceria profissional com o recémfalecido ator e diretor Buza Ferraz.

A brasilidade de Farsa da Boa Preguiça também  foi evocada através do Shell de Melhor Figurino para Rodrigo Cohen, numa cerimônia marcada pela homenagem à atriz Eva Todor, que dedicou grande parte de sua carreira ao teatro, especialmente durante todos os anos em que foi empresariada pelos dois maridos, Luiz Iglesias e Paulo Nolding.

Venho pensando em algo bonito para dizer. Mas não encontrei palavras para agradecer por este reconhecimento aos meus 76 ininterruptos anos de carreira. É, sem dúvida, uma compensação bonita – exclamou Eva.

* Texto de Daniel Schenker

 

ENRIQUE DIAZ e FERNANDO EIRAS GANHAM SHELL

Aconteceu na chuvosa noite de segunda, no Rio, a entrega da etapa carioca do Prêmio Shell de Teatro.

A peça In on It foi o destaque da noite com duas premiações: Melhor Ator para Fernando Eiras e melhor diretor, prêmio concedido a Enrique Diaz.

O prêmio de Melhor Atriz foi para Beth Goulart, por sua atuação em Simplesmente eu, Clarice Lispector. Já Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche receberam o prêmio pela autoria de Oui oui… A França é aqui.

  Lenise Pinheiro/Folha Imagem  
Fernando Eiras e Emílio de Mello (à dir.) em cena de "In on It", peça ganhou dois prêmios ontem à noite
Fernando Eiras e Emílio de Mello em  “In on It”, peça venceu duas categorias no Prêmio Shell

Eva Todor foi a grande homenageada da noite, por sua carreira de 76 anos. “Este é um reconhecimento que resume uma vida inteira de compensações”, disse a atriz.

Os vencedores em cada categoria receberam uma escultura do artista plástico Domenico Calabroni e uma premiação individual de R$ 8 mil.

Criado em 1989, o Prêmio Shell de Teatro é uma das principais premiações da categoria no Brasil. Em cada edição do prêmio são divulgadas duas listas de indicados. Os espetáculos selecionados na segunda fase estrearam no Rio de Janeiro entre os meses de julho e dezembro de 2009 e cumpriram o número mínimo de 24 apresentações.

Nicole Algranti Revê Clarice Lispector

O livro De Corpo Inteiro, da escritora Clarice Lispector, traz entrevistas memoráveis, feitas por ela para a revista Manchete. Mais do que simples conversas, Clarice conseguia mergulhar no universo dos entrevistados com perguntas fortes, profundas e que faziam refletir. O livro, lançado na década de 1970 e relançado em 1999 pela editora Rocco, reúne mais de 30 entrevistas com personalidades bem distintas, entre elas Rubem Braga, Fernando Sabino e Oscar Niemeyer.

Documentário de Nicole Algranti (de óculos), sobrinha de Clarice, conta com participação de Louise Cardoso. Foto: Taboca Filmes/ Divulgação
A novidade é que a obra foi adaptada para o audiovisual, através do documentário De corpo inteiro Entrevistas, dirigido por Nicole Algranti – cineasta e sobrinha de Clarice. O lançamento é HOJE, às 19h, na Livraria Cultura de Recife, com palestra da diretora e noite de autógrafo. A entrada é franca e o DVD estará à venda no local.

Segundo Nicole, a idéia do lançamento em Recife se deve à própria Clarice , que se sentia pernambucana. Inclusive, Clarice quando questionada sobre sua nacionalidade afirmava: “Sou ucraniana de nascença, nordestina e pernambucana de coração”.

O documentário retrata as entrevistas, que estão no livro. Há recortes de imagens de arquivos e entrevistas dramatizadas. “O filme fala mais da vida dos entrevistados do que da própria Clarice”, pontua Nicole.

Os entrevistados vivos aparecem no vídeo, e os já falecidos são interpretados por artistas. Dentre as que interpretam Clarice, está Aracy Balabanian, Louise Cardoso e Letícia Spiller. Já o ator Fernando Eiras está como Fernando Sabino; Jayme Cunha interpreta Jorge Amado, entre outros.
As entrevistas reais acontecem com Ferreira Gullar, Tônia Carrero, Maria Bonomi, Nélida Pinõn, Oscar Niemeyer e Elke Maravilha. 

Nicole também está em Recife para fechar parcerias. A primeira delas será a criação da Fundação de Leitura Clarice Lispector, na casa onde a escritora morou, na Praça Maciel Pinheiro. “Será uma fundação de incentivo a jovens escritores”. O outro projeto é trazer a peça Romance Nordestino com texto inédito de Ferreira Gullar e direção de João das Neves. A expectativa é que ela entre em cartaz em agosto.