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Candé Faria, O Carteiro e um bilhete…

Bilhete a Candé Faria

Dentre tantas e tão boas coisas que a estada em Manaus – a convite do Amazonas Film Festival – trouxe a mim este ano, uma delas foi conhecer Candé Faria.

Candé é um jovem ator, nascido numa família de artistas, e estava na capital amazonense acompanhado da equipe que fez com ele O Carteiro, filme dirigido por seu pai, o também ator Reginaldo Faria.

Reginaldo Faria dirige o filho Candé em sua estréia no cinema…

Estive pensando muito em Candé nestes tempos que correm céleres ante à espreita do Novo Ano que vem vindo. E como nessas horas, involuntariamente, terminamos fazendo um balanço do ano que ainda existe mas já dá sinais do fim, lembrei dele… daí porque resolvi escrever-lhe este bilhete em forma de crônica, inspirada na maneira de comunicação ensinada pelo meu querido amigo e Mestre, sábio homem das Artes, das Letras e da Comunicação, Artur da Távola.

Meu caro e doce Candé Faria:

Andei lembrando muito de você porque você me transmite uma docilidade e benfazejo sentimento irretocado de infância feliz, que em tempos de Natal é tão pulsante, fazendo ainda mais a humanidade lembrar-se do tanto que precisa desse sentimento e dele sente falta.

Pois eu fiquei devendo a você, Candé, uma palavra de empatia desde a última vez em que nos vimos.

Depois da estada no Amazonas, eu escrevi alguma coisa sobre O Carteiro, mas nem sei se você viu (eu esqueci de lhe avisar), no meio do emaranhado que deve ser a vida de um ator que começa a destacar-se no meio do Cinema.

De mais a mais, eu queria mesmo era dizer a você o quanto o carteiro que você nos apresentou, trazido lá de Vale Vêneto, me tocou, e o quanto tocou fundamente.

O Carteiro que você compôs com tanto preciosismo, talvez não tenha sido entendido por muitos, ou tenha passado despercebido ante à profusão de imagens que cada vez mais se nos intrometem no nosso cotidiano.

Mas eu preciso lhe dizer do quanto o seu carteiro – esmiuçado em gestos, olhares, sorrisos, galanteios, mentiras, omissões, traquinagens, mudanças de humor e de intenção – tocou minha sensibilidade nas filigranas desenhadas por seu talento para revelar as muitas sutilezas deste tipo ingênuo, interiorano e trapalhão que você compôs com refinada competência. Assim, não havia como eu assistir ao filme e não ficar completamente impressionada com sua atuação.

Candé Faria ao lado de Fiuk, com quem contracenou em Malhação

Sou daquele tipo que acredita que um ator, ao interpretar, coloca inteira sua alma no personagem, ainda que não se dê conta disso. Esse modo de perceber o trabalho de um ator está sustentado em anos de estudos das artes cênicas com acompanhamento de palestras e conversas com atores, leituras diversas sobre o tema (inclusive de inúmeras críticas) e observações sobre o cotidiano de quem atua nesse métier.Tenho ademais, para sustentar esta noção de que um Artista é tão mais verdadeiro quanto mais sua alma aflora em seus personagens, nomes como os de Domingos Oliveira, Helena Ignez, e Artur da Távola, que, ao longo de suas trajetórias, disseram a mesma coisa de maneiras diversas.

Domingos, de quem tive a honra de ser aluna, sempre diz ser melhor trabalhar com um amigo que não sabe atuar do que com um grande ator que jamais você quisesse para amigo – ‘porque você pode transformar um bom caráter sem talento num ator razoável, mas você jamais transformará um grande ator mau caráter num bom caráter’.

Helena Ignêz diz estar convencida de que todo grande artista é também um grande caráter, e não acredita que alguém possa ser mau e, ao mesmo tempo, um artista relevante.

Mestre Artur afirmava: “Como o ser humano precisa fazer passar tudo pelo crivo do seu eu e só vê o mundo através da ótica do seu eu, a representação é a expressão mesma do seu pensar, do seu sentir, do seu imaginar”.

Vendo Candé atuar, ‘a impressão é de não haver nada de premeditado ou especial em seu desempenho, a não ser a profunda verdade da consciência humana dentro da situação definida pelo diretor’, diria o mestre Tarkovski.

Ou ainda: Para que um ator seja eficiente no cinema, não basta que
se dê a entender. Ele tem de ser autêntico. O que é autêntico
nem sempre é de fácil compreensão, e sempre transmite
uma sensação especial de plenitude — é sempre uma experiência
única, que não se pode nem isolar nem explicar.

Pois foi, assim, meu querido Candé, com essa sensação especial de plenitude que fiquei ao ver sua interpretação no novo filme de seu pai, onde você bate um bolão com o ator Felipe de Paula, criando cenas divertidas e outras nem tanto, mas que estão exatamente expressas como parece pedir a situação.

Fui uma alegria muito grande estar com vocês em Manaus e descobri-los tão cordatos, sinceros, sem pose alguma, tranquilos e gentis como quem tem consciência de estar no lugar que escolheu, fazendo o que gosta, e da maneira como acreditam ser.

Esta verdade que você e Felipe me transmitiram na convivência em Manaus está inteira na tela, e é uma satisfação poder lhe dizer isso.

Aproveito para dizer ainda mais e lhe enviar este abraço em forma de bilhete-crônica: vá em frente, garoto, porque você manda muito bem e fez bonito ao responder com tanta segurança, competência e senso profissional o papel que seu pai lhe confiou. Você fez a plateia embarcar naquela história que, a princípio, poderia parecer meio deslocada no tempo e no espaço – cartas em plena era internética ? – mas você fez bonito demais, encharcou a tela de leveza, meiguice, apreço pela infância que campeia na alma sem freios, e reinventa a paixão. De quebra, ainda convidou o amigo Felipe pra pedalar essa trilha junto, e ambos convidaram a plateia pra embarcar numa viagem poético-sensória-sonoro-imagética que atende por O Carteiro e merece ganhar as telas do país.

Um grande beijo e vida longa pra sua carreira, meu querido Candé  !

Felipe de Paula, Fabiana Santana, Ingra Liberato, Candé Faria, Ana Carolina Machado e Beto Turquenitch no tapete vermelho do Amazonas Film Festival

* Ah, e preciso dizer também que a equipe que esteve em Manaus com Candé, comandada por Fabiana Sasi (leia-se TGD Filmes) era um pitéu: só gente bonita, bacana e de bom astral. Estavam lá a doce e mui querida Ingra Liberato, a jovem Ana Carolina Machado, Felipe de Paula e o produtor Beto Turquenitch.  A todos eles, meu carinho, meu respeito e meu aplauso pelo belo filme que ajudaram a construir.

O CARTEIRO – Filme de Reginaldo Faria assume inspirações e faz convite à ternura e ingenuidade das primeiras paixões

CANDÉ FARIA: estreia na telona com atuação  convincente e digna de aplausos…

Primeiro trabalho em longa-metragem de ficção da produtora gaúcha TGD Filmes, O Carteiro é o mais recente filme do ator/diretor Reginaldo Faria, que estava há 27 anos sem filmar. O filme encerrou a mostra competitiva do Festival de Gramado este ano e foi exibido na competitiva internacional do VIII Amazonas Film Festival.

Integrante de um dos clãs do cinema brasileiro, Reginaldo Faria cresceu no meio. Ao lado do irmão, Roberto Farias (que dirigiu e produziu os três filmes emblemáticos com o Rei Roberto Carlos), viveu a rotina dos sets e estreou como diretor em 1969 com a comédia “Os Paqueras”, sucesso de público, com as divas Leila Diniz e Darlene Glória no elenco. Fez outros filmes do gênero, experimentou o policial em “Barra Pesada” (77) – que ele considera seu melhor filme – e o último foi a comédia “Aguenta, Coração” (84).

Na volta de Reginaldo aos sets, após longo hiato, motivado por problema de saúde que o deixou meses de cama, percebe-se os sentimentos motivadores a nortear o diretor, fazendo-o optar por fazer uma comédia romântica, leve, cujo foco está entre a nostalgia de um tempo feliz e a esperança de dias menos áridos, violentos, descartáveis, tal como o diretor declarou meses atrás: “Estamos vivendo tempos de extrema paranóia e neurose, as pessoas e o sistema estão partindo para uma loucura. Resolvi sair disso.”  

Ao lado do filho Marcelo, Reginaldo diz: Trabalhar em família é algo que vem de longa data. Virou tradição”.

Como homem de cinema, Reginaldo não poderia deixar de colocar esses sentimentos em seu mais recente trabalho autoral. Assim, a delicadeza tão bem representada em O Carteiro por seu filho mais novo, o jovem e talentoso Candé Faria, é bem um espelho do que o próprio diretor pensa da vida e desses novos tempos, onde a modernidade nem sempre significa melhoria e progresso:

“A nossa cultura está se esvaindo, está indo para o bueiro. Na música popular, o refrão é mais importante do que a letra. Hoje você fica vendo um monte de besteira porque as pessoas não têm imaginação nenhuma, não têm criatividade. Você vai se perdendo dentro desse esvaziamento cultural, inclusive no cinema brasileiro.”

O Carteiro mostra um artista por trás das câmeras, interessado sobretudo em dialogar com gerações mais jovens, arriscando-se a falar sobre um tema tão em desuso como a elaboração de cartas. Em plena era de e-mails e redes sociais, Reginaldo se aventurou num tema aparentemente desinteressante, mas afirma que amou fazer o filme:

“Não se pode subestimar a inteligência e a sensibilidade da plateia. Não acredito que as pessoas estejam se afastando tão radicalmente do que é mais humano. Quanto mais você tocar no assunto, mais sensibiliza as pessoas. O que a gente tem de fazer é atrair as pessoas para isso. Como ? Fazendo um filme como eu fiz.” 

De fato, O Carteiro tem uma ambiência de romantismo, bem temperada com momentos de descontração e bom tom de comédia – especialmente através dos personagens principais. O diretor consegue conduzir o espectador por um benfazejo estado de afetividade e pureza, quase perdido na voracidade destes tempos modernos  nos quais ter a informação “da hora” e o smartphone mais moderno parece ser o grande trunfo para a maioria.

Candé Faria faz o carteiro atrapalhado e romântico do filme O Carteiro…

Ressalte-se: para alcançar êxito nesta sua empreitada, o cineasta encontrou na dupla vivida por Candé Faria e Felipe de Paula intérpretes à altura. Os atores, em atuações convincentes, parecem dois amigos de longa data, tal a sintonia contagiante com a qual contracenam. Não resta dúvida: Candé Faria e Felipe de Paula são os grandes luminares de O Carteiro.

Candé Faria e Felipe de Paula: dupla super afinada conduz trama de O Carteiro

Argumento inusitado e interessante, baseado em história veridica acontecida na localidade gaúcha de Vale Vêneto –  distrito de colonização italiana de São João do Polêsine, próximo a Santa Maria, no Rio Grande do Sul -, o roteiro é do próprio Reginaldo e foi filmado nos meses de maio e junho de 2010.

Foi na pequena localidade do interior gaúcho – cuja paisagem contribui fortemente para a beleza da fotografia de Roberto Henkin – onde Reginaldo encontrou o cenário ideal para ancorar o universo de Victor, o carteiro fascinado por poesia e Machado de Assis, cujo hábito cotidiano é violar a correspondência dos moradores. Victor conhece todas as paixões e intrigas da comunidade, e conta com a cumplicidade do companheiro de trabalho, Jonas (Felipe de Paula). Os dois se divertem interferindo nas mensagens, tanto para confundir, como para dar ‘uma mãozinha’ a corações desesperados. Até o dia em que Victor se apaixona por uma jovem recém-chegada à cidade (interpretada com a docilidade necessária pela atriz Ana Carolina Machado), que faz sua estréia em longa com O Carteiro.

Como diz o próprio Reginaldo, “Sou apaixonado pelo cinema italiano: Fellini, Monicelli, desde o neorrealismo, eu tenho um pouco essa influência, me fascina essa linguagem europeia de fazer cinema”. Portanto, nada tão bom como encontrar Vila Vêneto para contar essa história, assumidamente influenciada pelo tom de comédia italiano, e indubitavelmente disposta a espalhar a ternura, valorizar afetos, destacar a candura dos gestos mais banais e corriqueiros entre os apaixonados, de todas as idades, e proporcionar momentos de ‘escape’ da agitação, tantas vezes doentia do mundo contemporâneo.

Consagrar a delicadeza como  pedra fundamental para o bom andamento das relações, parece também ser um dos objetivos do diretor, alcançado com grande dose de acerto.

Segundo o produtor executivo de O Carteiro, Beto Turquenitch, a produção foi orçada em R$ 3 milhões, mas custou R$ 1,3 milhão, com equipe 90% composta por gaúchos.

Candé e Reginaldo Faria nas filmagens em Vale Vêneto, interior gaúcho…

Com uma acurada direção de fotografia de Roberto Henkin, direção de arte de Eduardo Antunes e boa trilha de Ricardo Leão, O Carteiro tem no elenco – além da citada dupla Candé Faria e Felipe de Paula, e da estreante Ana Carolina Machado -, Anselmo Vasconscelos, Zé Victor Castiel, Ingra Liberato, Fernanda Carvalho Leite, Dany Stenzel, André José Adler, Marco Suhre, Marcelo Faria e o próprio Reginaldo em participação especial. A estreia está prevista para o primeiro semestre de 2012. 

Semana passada, o filme esteve em exibição em Portugal, e foi escolhido para encerrar o 6° Funchal International Film Festival, na Ilha da Madeira, considerado um dos mais importantes da Europa.

* Candé Faria, Ingra Liberato, Felipe de Paula e Ana Carolina Machado são os integrantes do elenco de O Carteiro que estiveram em Manaus para realçar a exibição do filme na mostra competitiva do concorrido Festival. Conquistaram a todos com simplicidade e simpatia. Não faltaram fãs à procura da bela e sempre cordial Ingra Liberato nem adesões imediatas às carismáticas figuras de Candé Faria e Felipe de Paula, nem o carinho pela meiguice da atriz Ana Carolina Machado.

O elenco  principal de O Carteiro com o cineasta Reginaldo Faria…

Quem acompanhava a equipe em todas as circunstâncias era uma bonita, simpática e alegre Fabiana Santana da Silva, baiana adotada pelo Rio Grande, que assina toda a produção de finalização de O Carteiro, e fez bonito na divulgação do filme em todos os espaços do Amazonas Film Festival. 

 Reginaldo Faria: “Minha faculdade de cinema foi feita através da luta, do trabalho. Eu só queria ser um cineasta de qualquer maneira.”