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Brasil perde Paulo César Saraceni

Cineasta estava internado desde outubro, quando sofreu um AVC…

Diretor sofreu falência de órgãos múltiplos; mais recente trabalho foi O Gerente, baseado em obra de Carlos Drummond…

 

 Foto: Tânia Rego/Acervo Universo Produção

O cineasta carioca Paulo Cezar Saraceni, que estava com 79 anos, faleceu morreu ontem (dia 14) em decorrência de falência de órgãos múltiplos.

O corpo de Saraceni será velado hoje na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e será cremado na segunda-feira.

Saraceni havia sofrido um AVC em outubro de 2011. Desde estão, ficou internado no Hospital da Lagoa, no Rio.

Com o cartaz de seu filme Natal da Portela, estrelado por Milton Gonçalves… este filme, SARACENI lançou em Fortaleza…

Ao lado de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, Saraceni foi um dos criadores do Cinema Novo, nos anos 1960.

Com a musa e companheira, Anna Maria Nascimento e Silva…

Saraceni era casado há muitos anos com a atriz Anna Maria Nascimento e Silva, e é considerado um dos precursores do Cinema Novo. Em sua carreira, o cineasta recebeu prêmios como os de Melhor Filme do Festival de Brasília, com A Casa Assassinada, de 1970, e o Prêmio Especial do Júri do Festival do Cinema Brasileiro em Miami, com O Viajante, de 1998.

* Tive a oportunidade de conhecer Saraceni em uma de suas visitas a Fortaleza – cidade pela qual nutria um carinho todo especial – e foi uma enorme honra trocar ideias com ele e desfrutar de sua convivência.

Ao lado de Saraceni, conheci também dois outros grandes de nosso Cinema, os quais também já partiram pro andar de cima: Ferdy Carneiro (pintor, gravador, desenhista industrial e um dos fundadores da Banda de Ipanema), e o grande fotógrafo e iluminador Mário Carneiro. Três figuras supimpas,  de inesquecível convívio !

SARACENI era um gentleman, homem de inteligência refinada, de docilidade cativante, inteligência serena e amabilidades raras. Na área da Sétima Arte, um Mestre. Mas sobre este item, outros falarão melhor que eu.

Fica o Aplauso do AURORA DE CINEMA a Paulo Cezar Saraceni e o desejo de que ele descanse em PAZ, cercado de amigos, música, e muita Luz.

Irandhir Santos, a ministra Ana de Hollanda e Saraceni na Mostra de Tiradentes em janeiro de 2011…

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Os vencedores do É Tudo Verdade, por Carlos Alberto Mattos

A força dos personagens

Meirelles, Cuíca, Sganzerla

Apesar do espaço cada vez maior que os festivais de cinema brasileiros vão abrindo para os documentários, o É Tudo Verdade continua a ser a menina dos olhos da turma do real. É ali onde se forma um certo senso de comunidade, e o foco se concentra nas questões dessa modalidade de cinema. O festival virou um motivo a mais para novos documentaristas se aventurarem a bordo de suas câmeras.

No último dia 31, foram conhecidos os premiados da 17ª edição, encerrada no Rio e em São Paulo, seguindo dia 10 para Brasília e em maio para Belo Horizonte. O vencedor da competição brasileira de longas-metragens leva um prêmio no valor de 110 mil reais – mais um motivo de interesse para quem lida com os orçamentos miúdos da chamada não-ficção.

O que salta aos olhos desse conjunto de sete trabalhos selecionados pelo festival é, mais que tudo, a força dos personagens centrais. À exceção de Tokiori – Dobras do Tempo, de Paulo Pastorelo, que trata de uma rede de imigrantes japoneses numa área rural de São Paulo, os demais são dominados por personalidades fortes. Quatro delas dão título aos respectivos filmes, mostrando como a personalização é dado recorrente na pauta dos documentaristas brasileiros. De todos, Mr. Sganzerla, de Joel Pizzini, e Os Irmãos Roberto, de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, antípodas em matéria de estilo, são os que mais se colam à forma de expressão dos seus personagens.

Pizzini cria uma espiral barroca de referências para apresentar o cineasta Rogério Sganzerla através de quatro grandes admirações: Orson Welles, Oswald de Andrade, Noel Rosa e Jimmi Hendrix. Pelo uso abundante de falas de Sganzerla, numa edição veloz, o filme reproduz a sua verve de enfant terrible, as alusões obsessivas e o estilo indisciplinado que o fizeram, assim como Glauber Rocha, quase tão importante pelo que disse e escreveu como pelo que filmou. A impressão de excesso é parte da proposta um tanto avassaladora de ser fiel ao personagem.

No extremo oposto da escala de irreverência, Os Irmãos Roberto enfoca, com imagens e depoimentos bem organizados, o trabalho dos arquitetos modernistas Marcelo, Milton e Maurício Roberto, responsáveis pelo célebre escritório MMM Roberto. O filme os apresenta através de falas e imagens bem compostas, editadas de maneira a sugerir linhas de continuidade e harmonia de formas condizentes com a obra que enfoca. Embora nada se fale da vida pessoal dos Roberto, são eles, como personagens, que norteiam um debate mais amplo sobre os destinos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

Uma figura como Dino Cazzola, o produtor cinematográfico italiano que registrou a criação e consolidação de Brasília durante três décadas, tem sua vida privada referida rapidamente em Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília. No filme, Andrea Prates e Cleisson Vidal trazem uma seleção de imagens daquele acervo praticamente desconhecido. A intenção é contar a história da capital por um viés crítico, ainda que se utilizando de filmagens quase sempre “chapa branca” em sua origem. Mas os poucos dados biográficos de Cazzola despertam a curiosidade do espectador. Com sua cidade destruída, ele teria ajudado os pracinhas brasileiros na Itália e vindo com eles para o Brasil ao fim da II Guerra.

Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, e Coração do Brasil, de Daniel Santiago, são filmes de expedição que se inscrevem numa das primeiras tradições do documentário brasileiro. Mesmo assim, são os personagens principais que controlam o timão dos docs. Paralelo 10 viaja com o sertanista José Carlos Meirelles por um rio do Acre, nas proximidades da área dos índios isolados. Meirelles é um dos fundadores da nova mentalidade indigenista que visa respeitar o direito do índio ao não contato. Já em Coração do Brasil, são três homens de idade avançada que se dispõem a refazer a viagem que empreenderam 30 anos antes ao centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Aqui também, é a personalidade dos viajantes que acaba se sobrepondo às peripécias do trajeto.

Nenhum, porém, é mais pitoresco do que o personagem-título de Cuíca de Santo Amaro. O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um “canalha modesto” no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

Walter Webb vai ministrar curso de Cinema em Salvador

O cineasta e produtor baiano do eixo Sampa-Los Angeles, Walter Webb, premiado em Cannes e com mais de 50 anos de experiência em cinema, vai ministrar curso na capital baiana quando maio chegar.

Walter Webb é figura carismática, com amplo conhecimento do fazer cinematográfico, e bem sabe transmitir o que conhece. Trabalhou com nomes como Francis Ford Coppola, John Booman, Roberto Faenza, Nicholas Ray, Anthony Mann, entre muitos outros. Ao lado de Glauber Rocha, Roberto Pires e Rex Schindler, participou ativamente do movimento que originou o Cinema Novo.

Conheci-o ano passado, na primeira edição do Festival de Cinema de Anápolis, e posso garantir que vale a pena aprender, curtir e fazer Cinema com Walter Webb.

Se você é de Salvador, está na capital baiana, ou pretende ir pra lá; se se interessa pela Sétima Arte e tem vontade de saber mais sobre o fascinante mundo do cinema, a oportunidade está lançada!

Na edição 2008 do FestCine Goiânia, Webb e Selton Mello

Inscrições: www.nucleoderedacao.com.br/

CONTATO: 3492-2735/9915-7234

Helena Ignez ministra oficina de Teatro-Cinema no Rio

Leve sua PERSONAGEM para ser DESENVOLVIDA num FILME !

Este é o instigante convite que vem sendo oferecido pela ONG Cinema Nosso, que promove no próximo mês de março uma oficina com a atriz e diretora Helena Ignez.

O convite diz:

Venha participar de um work in progress para a construção de um filme dirigido pela cineasta e atriz Helena Ignez. Vai ser  dias 08,09, 12, 13, 14, e 15 de março no Cinema Nosso ! Venham com seus Personagens !

 Personagens Em Busca de Um Filme é um projeto de cinema comunitário que propõe a realização de um filme a partir de uma oficina de atuação com a diretora e atriz Helena Ignez. Cada ator deverá trazer uma personagem para ser trabalhada durante um período de seis dias e o roteiro desse filme será construído através das improvisações dos atores/participantes, nos exercícios propostos para o desenvolvimento das personagens. 
O projeto inspira-se no texto O Tempo Na Cidade, do geógrafo Milton Santos. Nesse texto, a cidade é retratada como um palco de atores, os mais diversos, que se movimentam em suas trajetórias diárias, segundo tempos os mais distintos. 

Cada participante inscrito deverá desenvolver sua personagem através dos exercícios propostos por Helena Ignez, baseados na trajetória da atriz.

Estrela dos filmes de Rogério Sganzerla, como O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos, co-fundadora da legendária companhia de produção Belair, a atriz tem também no seu currículo trabalhos de atuação com os principais cineastas brasileiro, como Glauber Rocha, Julio Bressane, Joaquim Pedro de Andrade, José Mojica Marins, entre muitos outros. 
Diversos fotógrafos de cinema convidados acompanharão a oficina, a fim de registrar não só as experiências performáticas das personagens, mas todo o desenvolvimento da vivência, como debates e improvisações. Um percussionista sonorizará ao vivo os exercícios. A montagem das imagens será coordenada pelo montador e cineasta Ricardo Miranda, editor premiado de importantes filmes do cinema novo e marginal. 
Um filme comunitário, popular, com inscrições abertas não só para atores profissionais, mas para quem deseje expressar uma idéia através da arte cênica. A contribuição sugerida é de 300 reais. 


METODOLOGIA DE TRABALHO 

Durante 6 dias, Helena Ignez estará ministrando a oficina, contando com a assistência de direção de Barbara Vida e com os registros de imagem e som realizados por diversos cinegrafistas convidados.

 A abertura do trabalho será feita pelo cineasta Joel Pizzini, realizador do filme Helena Zero, documentário poético sobre a trajetória cinematográfica da atriz. 

Atriz e diretora consagrada, Helena Ignez vai transmitir um pouco do muito que sabe aos seus novos alunos…
Após a exibição, iniciam-se os exercícios de desenvolvimento dos personagens, os quais consistirão na primeira etapa da oficina: 
1 – Exercícios de aquecimento ligados à prática de Tai Chi Chuan
2 – Concentração através da música, que terá execução ao vivo, com um percussionista convidado. Exercícios de aquecimento corporal relacionados ao dançar e ao se soltar dionisiacamente. 
3 – Estudos de textos teóricos de alguns autores como Nietzche, Artaud e Milton Santos. Esse momento faz parte da construção do roteiro, que terá a participação de todos. 
A segunda etapa da oficina será diretamente direcionada às filmagens das performances individuais de cada participante. 
Em momento posterior, a montagem será realizada pelo cineasta Ricardo Miranda. 

SERVIÇO :

Helena Ignez: carisma, talento, vocação e amor à Arte são o eixo central da atuação desta Artista-Patrimônio da Cultura…

Oficina com HELENA IGNEZ
Dias: 08,09,12,13,14 e 15 de março

Hora: 10h às 14h

Local: Cinema Nosso

Contribuição: R$ 300

Contato: embuscadeumfilme@… / 88731712

Glauber Rocha Homenageado no Festival de Brasília

Leão de Sete Cabeças, restaurado, será exibido HOJE em sessão especial

Guardado durante 30 anos na Cineteca Nazionale di Roma, o filme Leão de Sete Cabeças, primeira produção de Glauber Rocha fora do Brasil, foi finalmente restaurado e será exibido em sessão especial no Festival de Brasília.

Exibição acontece às 17h desta segunda, com entrada gratuita, no Cine Brasília. A restauração faz parte da segunda fase do projeto Coleção Glauber Rocha, que, na primeira, já restaurou os filmes Barravento, Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e A Idade da Terra.

A iniciativa é uma realização do Tempo Glauber e da filha do cineasta, Paloma Rocha, com aporte financeiro do Fundo de Cultura da Bahia, Governo da Bahia, e das Secretarias de Fazenda e Cultura do Estado da Bahia, e contou com apoio da Associação Baiana de Cinema e Vídeo(ABCV), da Cinemateca Brasileira e da Cineteca Nazionale di Roma. O projeto também abarca as restaurações dos filmes Cabeças Cortadas, Claro, Câncer e História do Brasil.

A história da restauração de Leão


O original do filme do filme foi repatriado da Itália para o Brasil em 2009, quando a parceria entre Tempo Glauber, Cinemateca Brasileira, ABCV e Cineteca Nazionale di Roma foi formalizada, com incentivo da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. A restauração consistiu primeiramente no escaneamento no formato 4K e o restauro digital em 2K, realizado pelos Estúdios Mega.

O processo possibilitou a confecção de uma nova matriz, em alta definição, e um novo negativo em 35mm. A versão original do áudio em vários idiomas foi recuperada a partir de uma única cópia 35mm – que estava em avançado estado de deterioração – e de fitas Umatic. O restauro foi executado pela JLS Facilidades Sonoras.

O Filme

O cenário de Leão de Sete Cabeças é o Congo Brazaville de 1969. Vivendo no exílio imposto pela ditadura militar brasileira, Glauber Rocha, principal nome do Cinema Novo, expõe neste filme o colonialismo europeu que domina a África a as tentativas do povo nativo em se libertar desse domínio. Assim, Glauber continuou retratando as mazelas que tanto afligem os países pobres e fez disso marca da sua obra cinematográfica.

Quando Leão de Sete Cabeças estava sendo produzido, os críticos acreditavam que Glauber deveria filmar apenas paisagens em seu próprio país. Mas, quando o filme foi concluído, viram que o argumento se mostrou falho. O  longa demonstrou perfeita integração com a evolução estética glauberiana, embasada na linguagem visual e cênica de uma espécie de “pan-terceiromundismo”, e apresentou personagens arquétipos, todos com algum tipo de poder.

De um lado, os pilares do imperialismo – invasores europeus e norte-americanos, além da Igreja e seu eterno cortejo ao poder. A elite local era um fantoche denominado e coroado presidente. Do outro, os revolucionários locais, contraditórios em suas lutas e indecisos entre a centralização do movimento e a manutenção do sentimento tribal, mesmo em busca de um objetivo comum: a liberdade perante o colonialismo estrangeiro.

Para a professora de Cinema e ensaísta  da UFRJ, Ivana Bentes, “o que Glauber parece dizer é que nenhuma explicação histórica, sociológica, marxista ou capitalista, pode dar conta da complexidade e tragédia da experiência da pobreza”, constata.

Glauber imaginou o filme como uma epopéia africana, pensando-a como ponto de vista do homem do Terceiro Mundo, se opondo aos filmes comerciais que tratavam de safáris, ao modelo de concepção dos brancos em relação àquele continente. Para ele, trata-se de uma teoria sobre a possibilidade de um cinema político, feito na África justamente porque o cineasta acreditava ser o lugar que possuía os mesmos problemas do Brasil.

Ele complementa esse pensamento declarando sua aversão à leitura sociológica da miséria feita pela esquerda, visto no manifesto Estetyka do Sonho, escrito em duas versões(1966 e 1971), e que bebe nas fontes dos seus filmes realizados nesse período. Nesse texto, relata sua impotência e perplexidade perante as ditaduras militares, a fragilidade de intelectuais, artistas e militantes em combatê-las, além da acomodação popular que resulta nessa tragédia.

Glauber acredita que para superá-la é preciso seguir pelo caminho dos sonhos do cinema, provocando distúrbios nos códigos (sociais, políticos, estéticos, de comportamento), algo que já vinha sendo explorado em sua obra. Para alguns autores, Leão de Sete Cabeças pode ser visto como o elo perdido entre Terra em Transe e A Idade da Terra, a chave do enigma que liga a primeira parte da carreira de Glauber (os anos 60) com a segunda (de 1970 a 1980).

Preservação da obra de Glauber Rocha

Um dos objetivos da restauração de Leão de Sete Cabeças é dar continuidade à disseminação da obra de Glauber Rocha em alta qualidade, já que há grande aumento na demanda pelos filmes do cineasta, tanto nas escolas de cinema, quanto nos festivais nacionais e internacionais, e, por fim, para uso de trechos em documentários.

Todos querem assistir à obra de Glauber, em bom ou mal estado, mas isso tem obrigado os detentores das cópias não restauradas a fornecer material de má qualidade, incompleto e deteriorado, o que causa constrangimento e não divulga a sua obra como deveria. A partir de 2003, com o advento da Coleção Glauber Rocha, esta realidade começou a mudar.

As cópias restauradas em formato de cinema digital, DVD e película de 35mm permitem que os filmes sejam distribuídos para mostras nacionais e internacionais, além da exibição em salas de cinema comerciais, universidades e outros espaços onde a obra de Glauber tem alcance bastante significativo. O filme Terra em Transe, por exemplo, após a restauração, atingiu a marca de 10 mil espectadores nas salas de cinema, em apenas duas semanas em cartaz.

Extras do DVD 

Os DVD’s contêm documentários especialmente realizados sobre cada filme, dirigidos por Paloma Rocha e Joel Pizzini. Neles estão reunidas entrevistas com elenco e equipe, cenas de arquivo, entrevistas inéditas com Glauber Rocha, o trailer original, artigos e reportagens, análise crítica feita por especialistas, versões de roteiros, roteiros, cartazes, trilha sonora, desenhos e story-board, tudo o que compreende o processo de criação e de produção intelectual do artista.

Patrimônio histórico e cinematográfico reunido e vivo 

O próprio Glauber, em 1980, escreveu uma carta preocupado com a recuperação dos negativos originais destes filmes. O documento foi editado e utilizado na apresentação do projeto, que ainda relata a necessidade da atenção e dos cuidados urgentes com os negativos originais para que seu processo de deterioração, já avançado, não acabe por prejudicar de modo irreparável a história do cinema brasileiro, no caso da perda definitiva de algum filme. 
Ficha técnica

O Leão de Sete Cabeças
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Rada Rassimov, Jean-Pierre Léaud, Giulio Brogi, Hugo Carvana, Gabrielle Tinti, René Koldhoffer, Baiack, Miguel Samba, André Segolo, Aldo Bixio, povo e dançarinos do Congo
Dedicatória: a Paulo Emilio Sales Gomes
Companhia produtora: Polifilm
Produtores: Gianni Barcelloni e Claude Antoine
Diretor de produção: Giancarlo Santi
Gerente de produção: Marco Ferreri
Assistente de direção: André Gouveia
Argumentistas e roteiristas: Gianni Amico e Glauber Rocha
Diretor de fotografia: Guido Cosulich
Som direto: José Antônio Ventura
Montadores: Eduardo Escorel e Glauber Rocha
Letreiros: Francesco Altan
Música: Folclore africano, Baden Powell e uma versão do Hino Nacional francês cantada por Clementina de Jesus
Locações: Brazzaville (Congo)

Equipe de restauro
Direção do projeto: Paloma Rocha
Curadoria e pesquisa: Joel Pizzini
Direção de produção: Márcia Cardim
Direção de fotografia: Luis Abramo
Assistente de direção: Sara Rocha
Restauração de imagem Mega e
Restauração de Imagem Mega e Som: Cinemateca Brasileira, Estúdios Mega e JLS Facilidades Sonoras
Apoio Financeiro: Fundo de Cultura da Bahia, Governo da Bahia e Secretaria Estadual de Fazenda e Cultura
Realização: Paloma Cinematográfica, Cardim Projetos e Soluções Integradas e Associação Baiana de Cinema e Vídeo – ABCV
Apoio: Associação dos Amigos do Tempo Glauber e Comunika Press

Serviço
Exibição de Leão de Sete Cabeças, filme restaurado de Glauber Rocha
em Sessão Especial no Festival de Cinema de Brasília 2010
Onde: Cine Brasília – Endereço: EQS 106/107, em Brasília-DF
Quando: 29/11/2010
Horário: 17h
Acesso livre

CINEMA Vai Brilhar na Sapucaí

O Salgueiro já tem tema para 2011. A vermelho e branco da Tijuca levará toda a magia do cinema para a Sapucaí com o enredo ‘Salgueiro apresenta, o Rio no cinema: 2011, a ser desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage. O desfile terá um patrocínio de aproximadamente R$ 5 milhões da Fox Film do Brasil e servirá como plataforma para o lançamento do filme Rio 3D, uma animação produzida por Carlos Saldanha, o mesmo de A Era do Gelo.

A ideia chegou até a diretoria do Salgueiro através do prefeito Eduardo Paes, que após uma conversa com Carlos Saldanha, viu no desfile uma excelente forma de promover o filme, que tem a Cidade Maravilhosa como cenário. Antes, no entanto, o tema foi proposto à Vila Isabel. A diretoria da escola tijucana fará o anúncio oficial amanhã, quando promoverá festa que marcará também a reinauguração de sua quadra.

Passeio por clássicos do cinema

Na Avenida, o Salgueiro, que foi campeão em 2009, lembrará grandes filmes ambientados no Rio e que tiveram repercussão internacional, entre eles: ‘Voando para o Rio’, ‘Interlúdio’, ‘Orfeu Negro’, ‘007 – O espião que me amava’, Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite e O Incrível Hulk.

Walter Salles será um dos homenageados na Sapucaí

Diversas fases do cinema brasileiro também serão homenageadas pela Academia do Samba, começando pelo pioneirismo de Humberto Mauro, passando pelas chanchadas e o Cinema Novo e indo até o momento atual. Cineastas importantes como Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Fernando Meirelles e Walter Salles serão citados no enredo.

Salgueiro exaltará a primeira animação ambientada no Rio

Rio 3D conta a história de uma arara azul que deixa o conforto de sua gaiola, no interior do Estado do Minnesota, nos EUA, e parte para o Rio. Anne Hathaway, Rodrigo Santoro e Neil Patrick Harris estão entre os dubladores. A produção fica por conta de Chris Jenkins e Bruce Anderson. O filme tem lançamento previsto para  abril de 2011.

Panorama Internacional de Cinema

VI Panorama Internacional Coisa de Cinema - 100 anos de cinema da Bahia
Estamos a menos de uma semana da abertura do VI Panorama Internacional Coisa de Cinema, que acontece de 27 de maio a 03 de junho, no Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha.
Mais de 40 convidados, cineastas e atores, estarão na cidade para debates, encontros e palestras. O VI Panorama tem como tema os Cem Anos do Cinema da Bahia. Buscando uma reflexão sobre a memória, o festival realiza uma mostra especial com clássicos do cinema nacional, em cópias restauradas.
Dentre outras películas, serão exibidas:
Entre outras películas, serão exibidas
As melhores coisas do mundo - Sala 2
www.coisadecinema.com.br
 

APLAUSO para SÉRGIO RICARDO

Um dos artistas brasileiros mais completos e criativos de todos os tempos, o compositor Sérgio Ricardo dividiu-se, e continua dividindo-se, entre as mais diversas expressões da arte.

Sérgio Ricardo – Canto Vadio, obra escrita por Eliana Pace, coincide com os 60 anos de carreira do artista e prova que ele fez muito mais do que quebrar um violão no palco. O lançamento da Coleção Aplauso acontece hoje na Casa das Rosas. 

“Quem guardou na lembrança apenas a imagem de Sérgio Ricardo quebrando seu violão, talvez ignore a biografia de um dos nomes mais marcantes da cultura brasileira.

Cantor, compositor, poeta, escritor, cineasta com assinatura em uma série de curtas e longas-metragens premiados no Brasil e no exterior, pintor e um dos precursores da Bossa Nova, Sérgio Ricardo é um artista multimídia graças à sua inquietação e que está sempre se revezando entre a música e o cinema, o cinema e a pintura, a pintura e a música”.

É dessa maneira que a jornalista Eliana Pace, autora da biografia de Sérgio Ricardo, resume o significado do artista na abertura do livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com lançamento marcado para HOJE, 10 de maio, às 19 horas, na Casa das Rosas – Av. Paulista, 37.

Todo escrito em primeira pessoa, o livro percorre a vida de Sérgio, pseudônimo de João Lutfi, desde seu nascimento em Marília, interior paulista, no ano de 1930. Seu pai, comerciante, era “um grande contador de histórias” e leitor voraz, enquanto a mãe “cantava o tempo todo, até mesmo na cozinha ou lavando roupa”.

Sua infância foi típica de um menino do interior. Mais velho de quatro irmãos, aos 17 anos foi morar em São Vicente, com um tio. Ali trabalhou na Rádio Cultura, exercendo praticamente todas as funções. Pouco tempo depois realizou o sonho de ir morar no Rio de Janeiro, dessa vez com outro tio. Logo na seqüência, sua família também se mudou para a ainda capital federal.

Após uma breve e indisciplinada passagem pelo Exército, realizou o sonho de tocar piano na noite. Nesta fase fez amizades com diversos artistas que viriam a se tornar, como ele, expoentes da música nacional. Entre eles, Tom Jobim, João Donato, Johnny Alf e João Gilberto – de quem se tornou grande amigo e o influenciou a tocar violão.

 

Uma das curiosas passagens de sua vida aconteceu com Dick Farney, um de seus ídolos: “Ele veio durante o meu ensaio para ouvir Tu És o Sol, que eu tinha acabado de compor, e assim que saí do piano, sentou-se e aprendeu a música na hora. Impressionou-me a sua rapidez, cantou e tocou lindamente, dizendo que queria gravar a música. Fez apenas um reparo num acorde, queria mudar um mi bemol menor por um mi bemol maior, achava que ficaria melhor. Discordei e foi a maior burrice que fiz na vida”. Farney levantou-se do piano, foi embora e não gravou a música.

Entre idas e vindas, foi convidado para ser ator da TV Tupi e radioator da Rádio Tamoio. Depois, passou por várias emissoras, como ator, apresentador e diretor de programas, inclusive pela TV Globo. Sergio conta também sobre seu lado cineasta, tendo dirigido diversos filmes. Era grande amigo de Glauber Rocha – foi autor da trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Terra em Transe, além de filmes de outros diretores – e conviveu com figuras como Roberto Santos, Cacá Diegues, Leon Hirzsman, David Neves, Ruy Guerra, Capovilla e Joaquim Pedro de Andrade. Como se não bastasse, Sérgio foi também ator teatral, tendo sido dirigido inclusive por Augusto Boal e Chico de Assis. 

Fica clara no livro a contrariedade de Ricardo em rotular os gêneros musicais. Até mesmo sobre sua participação na “criação” da Bossa Nova o biografado mostra-se reticente: “Eu gostava muito dos shows que fazíamos, Pernas e outras composições minhas tinham a cara do movimento, mas eu não concordava com as regras estabelecidas pelo clubinho do Ronaldo Bôscoli: ser ou não ser Bossa Nova. ser ou não ser Bossa Nova.Johnny Alf não era Bossa Nova, João Donato não poderia ser Bossa Nova, nem Vinicius com suas canções de amor maravilhosas que ganhavam uma nova dimensão e que fez uma revolução poética na música popular”.

Sua preocupação com as questões sociais brasileiras e sua ligação com os partidos de esquerda fizeram com que fosse censurado durante o regime militar. Criou o Circuito Universitário, pelo qual fazia apresentações com cenários improvisados em universidades e permitia a participação dos estudantes nas apresentações. Quanto mais a repressão aumentava, mais Sergio Ricardo atuava nos “bastidores”, quase isolado, enquanto outros artistas exilavam-se.  

Sobre o famoso episódio em que quebrou o violão no palco, durante o Festival da Record de 1967, Sergio explica que tinha a ver com o avanço da repressão. Mas as conseqüências não foram boas: “O pior foi estar, daí em diante, não só na mira da censura, mas na autocensura das gravadoras, rádios e TVs, fato que dificultava a divulgação do meu trabalho ou da minha contratação para shows. Até ser esquecido como artista”. 

Sérgio Ricardo é ainda autor de três livros e, atualmente, desenvolve outra de suas vocações artísticas: a pintura. No final do livro, há a discografia completa, todas as músicas compostas, as trilhas sonoras gravadas, os filmes dirigidos e os livros escritos.

 

BASTIDORES da ARTE, do cinema e da política nos anos 70

 

Cineasta, morto precocemente em 1984, participou como ator e assistente de direção de filmes com Antonioni, Rossellini, Bertolucci, Glauber e Neville de Almeida.

Um vento me leva: Lembranças de Jirges Ristum

Org. Ivan Negro Isola

Colaboração: André Ristum

Imprensa Oficial, 188 páginas, R$ 100,00 

Irreverente, contestador. Distante do convencional. Sempre bem-humorado. Uma figura apaixonante e também apaixonada pelo que fazia: cinema e versos.Alguém que amava a beleza. Assim era Jirges Ristum, um desses homens que, de tão especiais, são difíceis de esquecer.

Assim o descrevem familiares, amigos e colegas cujos relatos contribuem para remontar, tal como num quebra-cabeça, a imagem desse artista de múltiplas faces. Os depoimentos, somados a escritos do próprio Jirges, compõem a coletânea Um vento me leva: Lembranças de Jirges Ristum, editada pela Imprensa Oficial   

Ele era, como dizia Glauber Rocha, “o maior cineasta brasileiro não revelado”. A morte prematura, aos 42 anos, no começo da década de 80, silenciou uma obra que estava em expansão. De volta do exílio, após colaborar com realizadores como Antonioni, Bertolucci e Rosselini, ele acabara de lançar seu primeiro livro de poemas. Definia-se, na época, como “pós-freudiano, pós-marxista, antiplatônico e antiaristotélico” e, por isso mesmo, disposto a “imaginar as histórias sem censura”.  

“Este livro é uma homenagem a Jirges Ristum, uma espécie de almanaque sentimental para nos lembrarmos da sua performática figura”, afirma o organizador, Ivan Negro Isola. “Aliás, as performances do Turco frequentemente faziam lembrar uma chanchada protagonizada pelo José Lewgoy, com quem ele curtia se parecer. Com o Hugo Carvana também”. 

Como explica o organizador, Jirges não deixou uma obra sistemática. “Grafômano, escreveu cartas, bilhetes, guardanapos, anotou ideias, pensamentos, insights. Deixou-nos manuscritos esparsos que constituem relevantes vestígios de uma vida em sintonia com o seu tempo”, acrescenta Isola.

 Aos textos de Jirges combinam-se relatos de quem conviveu com ele: escritores, jornalistas e intelectuais como Aloysio Nunes Ferreira Filho, Cláudio Vouga, Carlos Vogt, Bernardo Bertolucci, Glauber Rocha, Neville de Almeida Tatiana Belinky. O clima e os acontecimentos narrados ajudam a relevar bastidores da arte, do cinema e da política dos anos 70. 

No projeto, ao lado do organizador, colaborou ativamente o cineasta André Ristum, que já havia dedicado ao pai o curta metragem “De Glauber para Jirges” (2007), realizado a partir de cartas enviadas por Glauber Rocha ao amigo Jirges Ristum, então na Itália, em 1976. 

 

“Conheci meu pai duas vezes, de formas diferentes. A primeira foi a mais comum, através do contato pessoal, da convivência, desde meu nascimento até o começo da adolescência. Mas esta era a visão do ponto de vista de uma criança, uma visão idealizada, infantilizada. A segunda forma foi após a morte dele, através dos relatos e histórias que os vários amigos e parentes foram trazendo ao longo dos últimos 25 anos. Aos poucos, essas histórias me ajudaram a construir uma imagem mais real, com uma visão mais adulta, entendendo quem foi meu pai”, afirma André Ristum 

Jirges Ristum nasceu em São Tomás de Aquino, interior paulista, em 1942. A família se mudou para Ribeirão Preto, onde passou a infância e parte da juventude. Estudou direito, e logo começou carreira na imprensa. No final dos anos 60, mudou-se para a Europa. Viveu em Varsóvia, Roma e Londres. Estudou sociologia na London School of Economics and Political Science. 

É já no começo dos anos 70 que se envolve com o cinema. Em Roma, participa da produção de “Anno Uno” (1973-1974), de Roberto Rossellini, como assistente de direção. É ator e diretor de “Claro” (1975), de Glauber Rocha. Depois, assistente de direção de Bernardo Bertolucci em “La Luna” (1978) e de Michelangelo Antonioni em “O Mistério de Oberwald” (1979). 

Com a Lei da Anistia, recupera seu passaporte brasileiro. Está de volta ao país no começo dos anos 80. Logo participa da realização de “Rio Babilônia”, de Neville de Almeida (1981). Pouco depois, publica “Guardanapos” (1983), sua estreia como poeta. Morre prematuramente, de leucemia mielítica aguda, em 18 de janeiro de 1984.  

 “Contraditório e, por vezes, conturbado, pautava sua vida por uma lógica revolucionária ao mesmo tempo em que, à deriva em sua condição romântica, quase que se deixava guiar pelas estrelas”, define-o a irmã caçula, Juçara Ristum Vieira.

BODAS DE CINEMA com ELY AZEREDO

 
Com alguma modéstia, Ely Azeredo apresenta-se ao leitor que não o conhece como o crítico de cinema que atuou em diários de circulação nacional pelo mais longo período de tempo no Brasil.  Foram 50 anos de reflexão, divididos especialmente com os do leitores de Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo.

Ao lançar, Olhar Crítico (Instituto Moreira Salles, 416 págs., R$ 54), Azeredo oferece uma súmula de sua produção – 98 textos que deixam claro que o tamanho de sua contribuição não se mede apenas pelo tempo de prática, mas pelo que ensina sobre o ofício ao qual dedicou sua carreira.

Azeredo teve atuação notável num dos períodos mais ricos da produção e discussão cinematográfica no Brasil, o da eclosão do Cinema Novo, no final da década de 50. Como se deu na França, com a Nouvelle Vague, o Cinema Novo promoveu a entrada em cena não apenas de uma nova geração de cineastas, mas também de críticos, que apoiaram o movimento com entusiasmo.

De uma geração anterior, em atividade desde o final da década de 40, Azeredo viu com simpatia a onda de renovação provocada pela geração de Glauber Rocha, a ponto de, em 1961, batizar o movimento com o rótulo (Cinema Novo) que ficou para a história, mas logo entrou em atrito com os cineastas e críticos “alinhados”.

 
Os textos de Azeredo sobre filmes do Cinema Novo incluídos na coletânea expõem a luta de um crítico independente, analisando obras no calor da hora e sob pressão dos próprios cineastas e de seus aliados.

Azeredo elogia Barravento e aprecia “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber, embora sublinhe: “Sem ser o maior filme até hoje produzido neste planeta, como querem alguns exagerados”. Gosta de Garrincha, Alegria do Povo e extasia-se com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, mas não poupa críticas a “Terra em Transe”, de Glauber, e a Porto das Caixas, de Paulo Cesar Saraceni, entre outros.

Na introdução do livro, Azeredo lembra uma observação do cineasta Cacá Diegues, para quem o Cinema Novo foi, entre outras coisas, “um partido”. Questionado pelo UOL sobre o assunto, o crítico observa que o núcleo central do Cinema Novo, formado por Glauber, Cacá, Joaquim Pedro, Leon Hirszman e Gustavo Dahl, “desejava uma crítica ‘alinhada’ com as diretrizes do movimento”. Conta Azeredo:

“Restrições a qualquer filme cinemanovista eram consideradas ‘alienação’, submissão ao colonialismo cultural etc. Quando me desliguei da ‘militância’ no Cinema Novo e critiquei alguns filmes frustrados, Glauber me pediu pessoalmente que parasse de ‘atacar o Cinema Novo’. Meus artigos na ‘Tribuna da Imprensa’, segundo ele, estariam criando dificuldades para a liberação de empréstimo no Banco Nacional para a produção de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Ora, como um crítico pode se pautar pelas expectativas bancárias de produtores?”

Azeredo lembra de outros três problemas que afetaram o trabalho dos críticos de cinema durante o período. Em primeiro lugar, a militância cinemanovista via com restrições a produção de cineastas não alinhados ao movimento, independente da qualidade dela.

“Nunca aceitei tentativas de terrorismo contra os cineastas ‘não cinemanovistas’. Aqui, como ocorreu na França com o grupo (da revista) Cahiers du Cinéma da Nouvelle Vague ao negar aptidão profissional a (Henri-Georges) Clouzot, (Claude) Autant-Lara e outros, houve tentativas de enxovalhar a reputação profissional dos não alinhados”, diz o crítico.

Em segundo lugar, lembra Azeredo, a defesa intransigente do Cinema Novo levou a militância a defender filmes de pouca qualidade. “Alguns ‘novos’ eram louvados pelos cinemanovistas, apesar de sua mediocridade. David Neves era considerado uma espécie de mestre de cerimônias do clã, e era louvado pelos CN, embora jamais tenha realizado um filme de valor”, afirma o crítico. “Só para mencionar um desastre: Neves jogou fora todos os valores de ‘Lucia McCartney’, de Rubem Fonseca, o que causou revolta na atriz protagonista, Adriana Prieto, que se solidarizou com minha crítica.”

Por fim, Azeredo fala do seu espanto com a adesão de críticos já experientes, na época, à defesa do movimento. “Estranhei que críticos de valor, como Alex Viany e Maurício Gomes Leite, tenham ingressado no ‘partido’ CN, perdendo a visão de conjunto da produção nacional. Um intelectual como Paulo Emílio Sales Gomes se tornou um ‘papa’ do novo culto, chegando a roteirizar uma das frustrações da vertente, ‘Capitu’, dirigido por Saraceni”.

Olhar Crítico não se detém no período do Cinema Novo. Estende-se até os primeiros anos do século 21, passando em revista a produção das décadas de 70, 80 e 90, até chegar aos principais títulos da chamada “retomada” do cinema brasileiro.

Fiel a seu mote desde os anos 60 – “promover um novo cinema brasileiro paralelamente a posições críticas independentes” – Azeredo avalia cada filme em função das qualidades e problemas que enxerga na obra em si, e também no contexto de sua época, dos diálogos do autor com os seus predecessores e com seus contemporâneos e do lugar do filme dentro da trajetória do cineasta. Um exercício duro, sujeito a erros e acertos, cumprido com coragem e honestidade pelo crítico.