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O Bandido da Luz Vermelha leva Helena Ignez a Roterdã: atriz será homenageada num dos principais festivais do mundo

O professor Gabe Klinger, radicado nos States desde criança,  é um dos curadores, ao lado do holandês Gerwin Tamsma, da mostra A Boca do Lixo, uma seção especial do Festival de Roterdã, a ser aberto semana que vem na Holanda, e prosseguindo até 5 de fevereiro.

Um dos principais do mundo, o festival vai homenagear o cinema marginal produzido em São Paulo entre o fim dos anos 1960 e meados dos 1980. Serão exibidos 16 filmes, de títulos sugestivos como “Fuk fuk à brasileira”, de Jean Garret; “Orgia ou o homem que deu cria”, de João Silvério Trevisan; “Oh! Rebuceteio”, de Cláudio Cunha; e, claro, “Senta no meu, que eu entro na tua”, de Ody Fraga —todos agora enxergados como cult no exterior, mas praticamente ignorados em seu país de origem, o Brasil.

A Boca do Lixo era o termo utilizado para se referir a uma região no centro da cidade de São Paulo onde funcionavam produtoras, distribuidoras e empresas de equipamento cinematográfico, mais ou menos no local que hoje é chamado de Cracolândia. Seus filmes nunca tiveram uma temática única, mas foram associados aos movimentos do Cinema Marginal e da Pornochanchada.

Só que, no cinema produzido na Boca, foram feitos faroestes, melodramas, kung-fus, comédias eróticas e qualquer outro tipo de obra de baixo orçamento com caráter popular. Seu principal cinema era o Cine Marabá, uma sala bonitona que servia como palco para a estreia dos filmes daquela turma.

— O que a gente ganhava num filme, gastava no próximo, sempre procurando melhorar o nível artístico e profissional — afirma Cláudio Cunha, diretor de “Oh! Rebuceteio” e “Snuff, víimas do prazer” (ambos incluíos na mostra de Roterdã, que vai viajar para o festival holandês) .  Além de Cunha, destacaram-se diretores como Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias, Ody Fraga, Rogério Sganzerla, David Cardoso e José Mojica Marins.

Uns faziam filmes de vanguarda; alguns, aventuras comerciais; outros, comédias eróicas. Na lista do Festival de Roterdã estão “A margem”, de Candeias; “O império do desejo”, de Reichenbach; “O despertar da besta”, de Mojica; e “O Bandido da Luz Vermelha”, de Sganzerla.

Obra-prima de Sganzerla, O Bandido desperta cada vez mais a atenção do mundo…

A Cinemateca Brasileira ajudou na restauração de algumas das cópias.A maioria dos filmes nunca havia sido legendada antes, e um dos trabalhos mais áduos da equipe da mostra foi traduzir alguns dos tíulos selecionados. “Fuk fuk àbrasileira”, por exemplo, virou “Fuk fuk Brazilian style”. Já no caso de “Oh! Rebuceteio”, nã foi encontrada uma tradução apropriada.

—O cinema da Boca do Lixo é uma alternativa interessante ao Cinema Novo porque tem mais a ver com a realidade urbana contemporânea do brasileiro —explica Klinger. —A primeira ideia de Roterdã era fazer uma mostra sobre o sexo no cinema brasileiro. Mas aí percebemos que o recorte de filmes da Boca do Lixo era mais interessante, com mais a se debater. Há obras que exploram o sexo, e outras que mostram a realidade mais triste do brasileiro.  Além disso, é uma maneira de exibir São Paulo no exterior. A imagem mais comum que se tem do brasileiro internacionalmente é a do Rio, nunca a de São Paulo. O curioso quanto ao cinema da Boca do Lixo é que sua incessante busca pelo sucesso foi também a responsável por seu fim —e ainda serve de explicação para o preconceito existente hoje contra parte daqueles filmes. Durante os anos 1970, alguns de seus cineastas passaram a optar por incluir cenas de sexo explícito, principalmente após “O Impéio dos sentidos”, do japonês Nagisa Oshima, ter recebido autorização para chegar à telas brasileiras a partir de uma medida judicial. Por conta do polêmico filme japonês, os diretores da Boca descobriram o caminho do sexo e das medidas judiciais. E conseguiram exibir seus filmes com toda a sacanagem que pudessem imaginar.

A intenção era atrair cada vez mais púlico. Mas também afastou as famíias das salas e fez com que o cinema brasileiro ficasse marcado pelos anos seguintes como um cinema baixo, sujo e apelativo.

—A censura atacava por um lado, e a banda podre da mídia, por outro. Chamavam todos os nossos filmes de “porno” alguma coisa. Era pornodrama, pornocomédia, pornochanchada ou pornoterror. Eu fiz o “Sábado alucinante”e chamaram de pornodiscoteca —lembra Cládio Cunha. —Foi isso que acabou com o nosso cinema. Nó deixávamos os departamentos de censura com os filmes retalhados e depois enfrentávamos uma mídia que nos tratava como marginais.

Agora, após a homenagem em Roterdã, essa história pode ser revista. Gabe Klinger pretende aproveitar as novas cópias dos filmes e levar a mostra para outros cantos do mundo, sobretudo para o Brasil. Seria uma maneira de resgatar um gênero que foi taxado com vários nomes pejorativos. Mas que, sobretudo, deveria ser lembrado como uma importante escola do cinema brasileiro.

* Reportagem de André Miranda, do Globo