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Helena Ignez: ‘Tudo que eu fiz como diretora, eu aprendi no Set…’

AURORA DE CINEMA direto do I Nossas Américas, Nossos Cinemas

Atriz e cineasta conta o que leva alguém a ser ator: “É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas”

Ela afirma que existem bons filmes em todos os gêneros ‘porque o filme não deve estar preso a rótulos nenhuns nem a correntes nenhumas. O bom filme tem que ser verdadeiro. E a gente sente quando o filme é verdadeiro, quando não foi feito pra enganar.

Helena Ignez começou no teatro, na Bahia, e logo depois seguiu para o Rio e juntou-se a um grupo onde estavam os dramaturgos Vianninha e Armando Costa:  “Ensaiávamos peças e apresentávamos na periferia do Rio e na Paraíba” E deixa escapar uma certa tristeza e/ou desencanto: ‘filmes nossos nunca foram exibidos em Cuba…’, afirma, ao mesmo tempo, que “uma revolução pessoal, do comportamento, profundo, isso é que eu acredito que existe em mim com mais força”. Afinal, foi esta atriz que um dia acabou presa numa farmácia em Porto Alegre, no auge dos anos sombrios, simplesmente porque estava de minissaia e isso ainda não era permitido – “era simplesmente uma minissaia, mas ela era ‘perigosa’”.

O sentido libertário, da expressão sem preconceitos ou discriminações, perpassa toda a vida, carreira, e maneira de estar no mundo desta atriz tão importante quanto necessária. Por ter um sentido autoral profundo, é fácil perceber a própria Helena Ignez em suas obras, e as obras criadas por ela são como monumentos vivos, construídos com o sentimento de quem sabe estar produzindo páginas relevantes para a cultura do Brasil na esperança de ver dias melhores chegando. Foi dessas reflexões que Helena Ignez tirou uma frase lapidar de seu filme de estréia, Canção de Baal:

“Ela é adúltera, tem que levar porrada” – esta fala é de um camponês, dirigida à mulher na peça BAAL, do dramaturgo Bertold Brecht, e foi ouvindo-a que Helena sentiu os primeiros insigths pra criação de seu roteiro. Acho que o ser Mulher é como um índio, eu me sinto um índio.

As coisas são tão complicadas ou pouco entendidas que Martim Gonçalves, o antropólogo baiano, autor de livros importantes e pessoa respeitada nos meios acadêmicos (homem que culturalizou o jovem baiano), criador de um movimento bacana em Salvador, ‘foi expulso de lá pelos estudantes de esquerda e o Partido Comunista… eles escreveram em todas as paredes: “Sai veado”. Foi nesta época que eu me solidarizei com Martim, resolvi sair de Salvador, e fui trabalhar no Rio’.

AC – Que motivos lhe levaram a querer ser atriz e garantem sua permanência no ofício do teatro e do cinema ?

HI – Talvez uma necessidade de ser outro, de compreender o outro, é uma vivência a mais que se busca ao procurar a emoção do teatro e do cinema. É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas, se não você vai ficar triste, e isso é vital. O que eu quero é conhecer melhor as pessoas. Eu não tenho vontade de me destacar não, em nada. Eu acho que todos nós somos destaque e merecemos atenção.

AC – Olhando toda a sua trajetória, como avalia a forma como você se insere no panorama artístico brasileiro ?

HI – Talvez o meu mérito seja reconhecer o mérito dos trabalhos que eu fiz, e considero todos muito importantes, eles são pontos de iluminação na minha vida, como por exemplo, o primeiro trabalho, o curta-metragem O Pátio, onde fui dirigida por Glauber Rocha… Meu intuito é fazer como diretora com o mesmo ímpeto com que fiz como atriz. Porque bons atores fazem bons filmes. E o que me interessa no cinema é justamente este poder de transformar, que vai contra o estereótipo da masculinidade. Se isso não fosse possível, eu não teria o menor prazer em fazer cinema.

Ney e Helena em cena de Luz nas Trevas

Sobre a escolha de Ney Matogrosso para protagonizar Luz nas Trevas (segundo longa da diretora que vem angariando elogios por onde passa), ela diz que não foi fácil, pois queria um ícone, um homem de 70 anos, que soubesse cantar, que ultrapassasse a figura do “Bandido”: Teria que ser um bandido original, teria que ser um homem do mesmo naipe do Ney, porque eu sabia que as comparações e cobranças seriam muitas. O Luz é um filme que custou R$ 2 milhões de reais, vencedor em 4 editais. Foram minhas filhas Paloma Rocha e Sinai Sganzerla que sugeriram o nome de Ney Matogrosso para o filme. E a escolha foi muito acertada: Ney Matogrosso está muito bem como o ‘bandido’.

Mulher que conquista pela simplicidade, charme, elegância, inteligência refinada e sensibilidade aguçada, Helena é também uma mulher cujo oxigênio é matéria de encantaria, o que a faz uma mulher apaixonada e apaixonante. O amor, amizade, cumplicidade, afeto, sentido de admiração e saudade de todos os momentos vividos ao lado do grande e eterno amor (o cineasta Rogério Sganzerla), está presente em todas as entrelinhas: “Quem me inspirou mais, como cineasta, ainda me interessa e vai me inspirar vida afora foi e é Rogério Sganzerla”.

Difícil não encher os olhos de lágrimas sentindo a emoção escoar pelas palavras de Helena Ignez : “Me encantei com o cinema dele, sua energia impressionante e a inteligência fora do comum de Rogério Sganzerla…”

Em São Paulo, foi lançado esta semana o documentário Mr. Sganzerla, que tornou-se possível graças à imensa generosidade de Helena Ignez, que cedeu todo o material de arquivo. O filme, dirigido por Joel Pizzini, foi o vencedor do É Tudo Verdade deste ano, e será o filme de abertura da primeira edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba, que começa hoje na capital paranaense. 

Ideias e frase lapidares de HELENA IGNEZ 

“Rogério Sganzerla é um cineasta que ainda precisa ser muito estudado para ser compreendido em sua plenitude. Ainda há muito a se descobrir sobre ele”.

“Acho que um filme não pode ser desclassificado porque foi feito com uma técnica menor, com menos dinheiro e menos condições técnicas. As idéias não pertencem às técnicas”.

“Um diretor de cinema não pode desconhecer ou menosprezar o Teatro. É indispensável ! Os grandíssimos diretores de Cinema tem uma boa relação com o Teatro. Cito por exemplo o caso de um ator como João Miguel: ele vai sempre além do que o roteiro lhe dá. Se o ator não tiver seu ABC, seus signos, seus códigos próprios, ele não consegue avançar, ir mais além”.

Para os que estão começando na carreira ou pretendem ingressar na área do Audiovisual, a recomendação de Helena Ignez é simples e clara: “Ler, ler muitíssimo, sobretudo os pensadores do Cinema.

E para finalizar nosso bate-papo, HELENA IGNEZ cita uma frase do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que é fonte inspiradora para o novo longa da diretora, intitulado RALÉ:

“Vamos indigenizar o Brasil e reinventar esta história”.

Helena Ignez na noite em que foi homenageada no I Encontro Nossas Américas, Nossos Cinemas, realizado em Sobral, no sertão cearense…

Pelo fortalecimento dos laços Brasil, Caribe, América Latina

AURORA DE CINEMA direto do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS

Bem preservado, Theatro São João é pequena jóia no coração de Sobral (foto AML) …

Breve painel sobre o DIA-A-DIA EM SOBRAL

Terminou na noite de sábado, com saldo bastante positivo, a primeira edição do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS, realizado em Sobral, município do sertão cearense, há poucas horas da capital.

Depois de proveitosas mesas temáticas que ocuparam as manhãs do Theatro São João e das 4 mesas de trabalho formadas para dar melhor encaminhamento às discussões e à redação da chamada Carta de Sobral, a volta pra Fortaleza na manhã de domingo, em ônibus que congregou a maioria dos participantes, foi de troca de afetos, e-ms, contatos e muitos planos para a segunda edição, cujo país-sede será o Peru.

Geraldo Sarno e Eryk Rocha: foco no documentário e nos processos de criação

Tendo como pontos altos a mesa com o cineasta Eryk Rocha, a exibição do documentário Transeunte e uma festa-surpresa oferecida pelo prefeito de Sobral aos participantes – a animação rolou solta na penúltima noite do Encontro – o I Nossas Américas, Nossos Cinemas escreveu uma ousada página nos anais da Cultura do Ceará, e uma nova página na história das convergências/ similaridades/possibilidades de parcerias entre povos da América Latina e do Caribe.

O que se falou, escreveu, partilhou, vivenciou e sonhou junto em termos de integração de povos tão semelhantes, em tantos aspectos, e tão distanciados por barreiras que precisam ser vencidas, foi algo de suma importância para a almejada construção de um novo capítulo no panorama audiovisual destes povos, representados em Sobral por muitos jovens de diversas gerações que querem fazer cada vez mais Cinema e partilhar suas experiências com tantos hermanos.

Alguns pontos dos ‘bastidores’  a destacar:

* A ótima qualidade do material gráfico distribuído, com design de Ricardo Baptista, onde chama a atenção a arte com figuras da cultura popular, criação do artista brasiliense Jô Oliveira;

* O desfile de belos vestidos usados por Bárbara Cariry, que chamavam atenção pelas belas estampas e destacavam a simpatia e simplicidade da Diretora-Geral do Encontro;

* A apresentação segura de Jamile Teixeira, que também trajava modelos finos e fez um Cerimonial marcado por boa dicção, elegância e cortesias;

* A ‘estratégica’ pausa para um cafezinho (delícia !) com bolachinhas saborosas, sessões de fotos e muito bate-papo;

* A simpatia da cineasta cubana Lázara Herrera e a incansável disposição do boliviano Humberto Ríos;

* O olhar atento da cineasta mexicana Saudhi Batalla, que não se desgrudava de sua câmera e fazia fotos de todos, o tempo todo;

A cineasta peruana Carmen Rosa Vargas e Aurora Miranda Leão…

* O índio equatoriano que levou belas peças da artesania criada por seu povo e vendeu todas muito rápido, espalhando cores e beleza pelos espaços do Encontro;

* A ótima tradução de Flávio Duarte Bossa Freitas, possibilitando a nosotros acompanhar a fala do cineasta canadense Michel Régnier;

* A simpatia e poder de aglutinação do produtor Tito Amejeira, um dos Curadores, o mais brasileiro dos argentinos, que no sábado era só felicidade dividindo uma original Tequilla mexicana com os convidados, no restaurante Lancelot, o qual, aliás, serviu uma comida típica, variada e deliciosa, todos os dias do evento;

Os realizadores Arthur Leite, Golda Barros e Bruno Pires…

* A presença massiva dos muitos realizadores de cinema, que foram quase unânimes na constante presença nos espaços do produtivo Encontro, sem deixar de comparecer, toda noite, de forma também quase unânime, a um passeio pelos bares da noite sobralense;

* A presença de Helena Ignez e Sérgio Mamberti na Parada Gay de Sobral, tarde de sábado…

Bárbara Cariry e Helena Ignez na noite de Homenagem à atriz…

… tem muito mais ainda mas fica pra adelante…

No próximo post, novas anotações do I Encontro Nossas Américas, Nossos Cinemas.

Na última noite do Nossas Américas: realizadores de vários lugares…

Cinema lota Theatro São João e Helena Ignez é aplaudida

AURORA DE CINEMA direto do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS

O Encontro foi aberto numa manhã de chuva em Sobral, Theatro São João (1875) lotado, palavras descontraídas de boas vindas da Diretora, Bárbara Cariry (que estava muito elegante num longa de delicada estampa) , do Prefeito Clodoveu Arruda, e de uma realizadora do Equador, que falou ‘em nome dos povos originários’ e foi muito aplaudida.

Em seguida, o produtor argentino Tito Amejeiras coordenou a mesa de abertura, formada por vários cineastas do Caribe, da Guatemala e de Cuba. Na platéia, muitos jovens realizadores, produtores, organizadores de Festivais, os cineastas Rosemberg Cariry (pai de Bárbara, que fez a fala mais bonita do Encontro), e Geraldo Sarno, o cineclubista Claudino de Jesus (presidente da Federação Internacional de Cineclubes), diversos jornalistas de vários Estados, e ainda a Homenageada da noite, a atriz e cineasta Helena Ignez.

Você, amigo leitor, que me alegra e orgulha com sua visita cotidiana, vai me perdoar, mas este post só estará completo mais tarde, ou amanhã. Quando as imagens do que acontece em Sobral estarão aqui pra você conferir.

Tudo vai depender do andamento dos trabalhos em Sobral (e do bom fluxo da internet), pois as atividades são muitas e intensas, há representantes de mais de 15 países reunidos por aqui, a troca de experiências e convívios tem sido bem proveitosa, e se avolumam as ideias para a redação da Carta de Sobral – documento que será finalizado, lido e divulgado publicamente no último dia do I ENCONTRO NOSSAS AMÉRICAS, NOSSOS CINEMAS.

A Escola de Música é um bom equipamento cultural  do Estado, que abriga a sede das Mesas Temáticas de trabalho do Encontro, e é lá, no epicentro da sonoridade, onde o Cinema domina os corações e as conversas durante o dia. Porque há ainda oficinas sendo ministradas, de graça, para a população: Roteiro e Direção de Arte estão na pauta, e os professores são Michelline Helena e Sérgio Silveira.

Vale ressaltar também a acolhida super profissional da equipe de produção, onde há esmero no cuidado com participantes e convidados, e não posso deixar de ressaltar o sorriso sempre benfazejo e a atenção cuidadosa pra que tudo transcorra da melhor forma que atende pelo nome de Teta Maia, querida atriz e produtora, mãe da jovem Bárbara Cariry, que sonhou todo este evento e reuniu condições para realizá-lo.

A noite prosseguiu no Theatro São João e foi de emoção e beleza, oportunidade na qual Helena Ignez recebeu significativa placa de Homenagem, acompanhada de belo buquê de rosas e flores coloridas num bonito arranjo.

Por feliz coincidência, era a noite de aniversário da geminiana Helena Ignez e ela desceu do palco ao som dos PARABÉNS PRA VOCÊ ! de toda uma encantada plateia.

As fotos foram muitas e ficaram ótimas.

Mas ficam pro próximo post.

Djin Sganzerla faz últimas apresentações de O Belo Indiferente…

Atriz está em cartaz no SESC Consolação em atuação magnânima. Espetáculo tem direção de Helena Ignez e André Guerreiro Lopes

É tão esmeradamemte bem cuidada a atuação de Djin Sganzerla para a cantora carente, insana, perturbada e sofrente da peça escrita por Jean Cocteau que é difícil não cair no lugar comum ao pretender dizer qualquer coisa sobre o espetáculo.

Mas deixar passá-lo em brancas linhas seria um pecado, no qual não quero incorrer.

Estive uma semana em Sampa e um dos objetivos de minha ida foi assistir à Djin no teatro. Estive na platéia muitas vezes e a cada noite fui tocada de modo diferente. Porque o grande intérprete não se repete nunca. Em geral, pulsa no ritmo dos espectadores, noutras vezes é ele quem conduz o público conforme o calibre de sua emoção.

Djin, Helena Ignez e Aurora Miranda Leão: teatro na noite paulista

O Belo Indiferente é um texto difícil. Não é fácil falar da dor da rejeição/solitude/desatenção/desamor/indiferença. Esses sentimentos carregam sempre muita dor, o que só acresce mais obstáculos ao seu desabafo, inda mais quando este é praticado em solilóquio.

Djin Sganzerla topou o desafio. Mergulhou fundo no abismo da busca interior por um personagem sofrido/sofrente, e saiu de lá com invejável fôlego. É esta a sensação que percorre o âmago do espectador que assiste a O Belo Indiferente, em cartaz no terceiro andar do espaço cultural SESC Consolação.

DJIN: beleza e maestria para falar de tristeza e rejeição…

A atriz tem a suprema sorte de carregar no sangue os genes artísticos do pai cineasta (o memorável Rogério Sganzerla) e da mãe atriz, cineasta, artista plástica, escritora, Helena Ignez. E é Helena quem assina a direção do espetáculo, compartilhada com o também ator, diretor, videomaker e grande fotógrafo André Guerreiro Lopes.

E é quase impossível uma receita dar errado quando todos os ingredientes estão certos, bem medidos, inteligentemente unidos.

O BELO INDIFERENTE que São Paulo e seus muitos visitantes podem conferir até a próxima sexta no SESC Consolação é um momento teatral de suprema relevância no contexto cultural contemporâneo. Vale a pena ser visto, mesmo por aqueles que não tem muita afeição pelo Teatro em versão monólogo.

Embora Djin esteja em cena ao lado de Dirceu de Carvalho, este não diz sequer uma palavra. O que também é ato difícil, corajoso, e digno de aplausos. Sabe lá o que ser Ator e ficar uma hora em cena ouvindo o que seu personagem ouve e não esboçar quase nenhuma reação, perfazendo toda a intensa curva dramática do espetáculo sem pronunciar sequer um Ai ? Pois Dirceu faz isso e o faz com competência. Teve a humildade necessária para assumir o papel e tem a grandeza exigida pelo eloquente texto de Cocteau. A ele também o nosso aplauso sincero.

Helena Ignez, que estreou no teatro fazendo este monólogo, teve papel decisivo na hora de indicar a montagem para Djin e André, casados na vida real, e amantes super modernos no filme Luz nas TrevasA Volta do Bandido da Luz Vermelha, cujo lançamento está agendado para maio, no Rio.

Esta aguerrida baiana que despontou para o teatro nos anos de 1960, e que em 1968 provocou uma revolução na forma de interpretar das atrizes brasileiras por sua atuação insólita, visceral e ultra transgressora no filme-marco de Rogério Sganzerla (a obra-prima O BANDIDO DA LUZ VERMELHA), tem mesmo ares de xamã, musa, e maga. Ou então deve carregar escondidinho por entre suas longas madeixas uma varinha de condão… só isso para explicar o porquê de Helena Ignez transformar em ouro tudo o que toca.

A montagem de O BELO INDIFERENTE é um acerto do começo ao fim. Impregnada do ritmo veloz destes nossos tempos, linkados em fruições de mil matizes, esta montagem ganha contornos de instalação visual, entrecortada por sons que dominam o ambiente, vindos de todos os quadrantes, dialogando com discursos visuais criados pela câmera ágil e sensível de André Guerreiro Lopes e o resultado não podia ser outro: O BELO INDIFERENTE é uma encenação inteligente e sensivelmente poderosa.

Djin Sganzerla numa cama que é o próprio retrato da lancinante rejeição…

Ainda pudesse alguém achar o texto entediante, repetitivo, doloroso de ouvir ou coisa que o valha, toda a ambiência cênica proposta por seus criadores, faz com que os aplausos ecoem de forma unânime e ninguém permaneça indiferente a este belo espetáculo. O que mais se alcança dos escólios da platéia, ou se consegue entreouvir quando as luzes de acendem, são as pessoas fazendo comentários de identificação, contando ter vivido tal situação, ou que fulana passou por isso, ou “coitada dela, ainda tá nessa…”, e coisas do tipo.

Em O Belo Indiferente, que Jean Cocteau escreveu especialmente para sua amiga, a cantora Edith Piaf, a dor do desamor e da rejeição, a facada do desafeto e da espera inútil, e o desvario do sentimento que tem como resposta a indiferença se confundem com a falta de amor próprio, com a inexistência de auto-estima, e/ou com a cegueira trágica de um ego mal resolvido ou abandonado. Tudo isso é magistralmente traduzível na cena acme do espetáculo, quando um dos símbolos do amor bem realizado, a cama, se afirma como um deserto de aspereza, iniqüidade, e morte de qualquer emoção aceitável entre duas pessoas que partilham o mesmo espaço.

A cena mais parece um quadro do genial artista belga René Magritte, de uma eloquência chocante, magnânima, necessária. Um luminar da Direção.

Não dá pra se dizer fã, apreciador, aprendiz ou estudioso de teatro ou das novas mídias e não compactuar deste momento forte, vibrante, memorável do Teatro Brasileiro.

E vamos à fabulosa equipe técnica: Simone Mina responde pela Direção de Arte, cenografia e figurinos; a iluminação cabe a Marcelo Lazzaratto; e a concepção sonora é de Gregory Slivar.

Para tornar possível a montagem, colaboram o Ministério da Cultura, a Mercúrio Produções, o Estúdio Lusco Fusco, a Sabesp e o Serviço Social do Comércio. E os colaboradores especiais são: Tufi Duek, e Casa da Sogra – Soluções Sonoras. Apoio: Gopalla Madhavi (restaurante de saborosa culinária – lacto vegetariana com sabores da Índia), Goa, Amazônia, Helaine Garcia, Dona Estética, Banana Verde, Yam, Barão da Itararé, Rota do  Acarajé, Vegacy (Cozinha Vegetariana), Cantina Luna di Capri, Cantina e Pizzaria Piolin, Planeta’s Restaurante, Alves Lavanderia e Tinturaria, Bar do Batata, e Pres Pizza.

Parabéns ao SESC pela aposta no ousado projeto de Djin, André e Helena. Um acerto com absoluto louvor !

E um abraço muito especial de PARABÉNS a esta trupe ultra charmosa e pra lá de competente que são Djin Sganzerla, André Guerreiro Lopes e a amada Helena Ignez.

Que O Belo Indiferente ganhe mais e mais palcos do país !

André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla constroem juntos uma bela carreira…

Enquanto não fica pronto e chega às telas o longa-metragem baseado na peça, que Helena Ignez e André Guerreiro Lopes elaboram juntos, com o auxílio luxuoso da câmera de André Dragoni, mais um jovem e promissor cineasta que o Brasil precisa conhecer.

Helena Ignêz e Jean-Claude Bernardet: Homenageados celebraram em Bagé o Cinema de todas as fronteiras…

Filmes de A a Z; Realizadores na mesma vibe; vários Estados representados; Celebridades, cinéfilos e voluntários de prontidão; além das festas mais descontraídas com cantoria e dança – este o tom do Festival mais agregador do país

O centenário Palacete Pedro Osório: Cultura em cenário de Cinema…

A cidade gaúcha começou a respirar CINEMA desde o sábado, 10 de dezembro, data na qual foi aberto o III FESTIVAL DE CINEMA DA FRONTEIRA.

Talvez muito poucos pudessem imaginar que ali se viveria, durante sete dias, um verdadeiro vendaval de Cinema, com filmes, encontros e discussões sobre a Sétima Arte pululando em todos os quadrantes.

Dos mais compenetrados aos mais brincalhões, teve de tudo no III FESTIVAL DE CINEMA DA FRONTEIRA, realizado pela Prefeitura Municipal de Bagé, através de sua Secretaria de Cultura. De 10 a 17 de dezembro, Bagé parou para ver, ver, ouvir, curtir, discutir e aplaudir CINEMA.

A centenária sede da Prefeitura Municipal de Bagé (foto Joyce Miranda Leão)

A produção bajeense surpreendeu e havia quase 30 filmes de curta-metragem em competição, fato merecedor de orgulho pelos cidadãos bajeenses, uma vez que até há pouco não se falava em produções audiovisuais em Bagé.

Cena de O Sabiá, curta de Zeca Brito, rodado totalmente em Bagé…

Para isso, concorreram fortemente as muitas oficinas audiovisuais promovidas pela Prefeitura Municipal, motivada sobretudo pela efeméride dos 200 anos do município do Pampa gáucho, que, aliás, é tão bonito, que deixou meio mundo de visitantes encantados e querendo retornar em 2012.

Assim, o Festival de Cinema da Fronteira – que foi o último do ano no país – serviu como grande território de agregação e CONGRAÇAMENTO entre a multifária teia de profissionais que se envolvem, por aptidão, talento, paixão e/ou vocação, nas lides cinematográficas.

Édson Papo Furado: velha guarda do samba capixaba na tela de Bagé…

Desde um filme de um jovem iniciante, como o cineasta capixaba GUI CASTOR ( o documentário Anjo Preto, contando a história do sambista Édson Papo Furado, lá de Vila Velha), passando pelo emblemátivo OLGA (de Jayme Monjardim) e chegando aos consagrados Whisky e El Baño del Papa, e até ao recém-lançado Antes que o mundo acabe…, o Festival de Cinema da Fronteira revelou-se uma importante, neecessária e singular vitrine para o Cinema dos mais diverosos gostos, olhares, sintonias e formas de expressar a vida através das imagens sonorizadas, ou sons imageticamente pensados.

A Diva HELENA IGNEZ, exemplo único de Mulher, Mãe, Atriz libertária e vanguardista, Diretora consagrada e produtora adiante de seu tempo, conquistou Bagé pela simplicidade, elegância dos gestos, beleza de seu filme Luz nas Trevas e magia contagiante de sua intepretação no clássico O Bandido da Luz Vermelha.

Quem aproveitou para ver Helena Ignêz nos dois filmes, jamais verá cinema do mesmo jeito.

Por outro lado, JEAN-CLAUDE BERNARDET, o exponencial Pensador de Cinema, diante do qual todos nós sabemos muito pouco, reafirmou o que ouvimos falar a respeito dos verdadeiros sábios: eles são tão comumente simples que se parecem com qualquer um de nós. Mas ao lado da invejável simplicidade, simpatia, cordialidade, delicadeza e refinamento dos gestos e das palavras, pulsa uma inteligência vibrante, um comichão de sapiciência e observação precisa que, quando indagado, tem sempre uma resposta convincente, sóbria, judiciosa. Uma lição de vida e de respeito ao Cinema estar e conversar com Bernardet.

Portanto, conviver com Jean-Claude Bernardet e Helena Ignez nestes dias de sol, chuva e leve frio em Bagé foi um presente dos Deuses – do Teatro, do Cinema, da Boa Conversa, do Ser Humano esculpido em argamassa de metal precioso.

Que venham novos, maiores e melhores Cinema da Fronteira.

Como almeja e promete o Prefeito Dudu Colombo, que foi, desde a primeira hora, um entusiasta e incentivador do Festival de Cinema da Fronteira.

Escritora Elvira Nascimento, Helena Ignêz, Aurora M. Leão e artista bajeense Marilu Teixeira…

Saraváaaaaaaaaaaa !!!

Defronte à Catedral: depois do Festival de Cinema, Bagé passa a ser vista como um pólo de produção e difusão no interior gaúcho… (foto Joba Migliorin)

INGRA LIBERATO e LEONARDO MACHADO encerram CINEMA DA FRONTEIRA

Festival que trouxe Helena Ignez e  Jean-Claude Bernardet  a Bagé, terá cerimônia de encerramento esta noite, no Museu Dom Diogo…

Atriz querida por onde passa, INGRA Liberato está em Bagé para participar da última confraternização de Cinema do ano no Brasil… 

Leonardo Machado, natural de Bagé, subirá ao palco simbolizando todos os artistas da Capital Pampeana do Cinema

Como acontece em todo festival de cinema, é hoje a noite mais esperada desta terceira edição do Festival de Cinema da Fronteira, aberto em Bagé (RS) no último dia 10, com destacada noite de teatro, música e falas oficiais no bosque do Palacete Pedro Osório (imponente sede da Secretaria de Cultura do Município).

Com comissões julgadoras formadas por Adriana Niemeyer, Catalina Moragues, Arly Arnaud e Mirela Meira – BINACIONAL -, e Sirmar Antunes, Miguel Ramos, Danny Gris, Beca Furtado, Ito Carvalho e Mariana Xavier – BAGÉ 200 Anos -, os concorrentes recebem logo mais, às 21h, em solenidade no belo Museu Dom Diogo de Souza, as estatuetas as quais farão jus os vencedores.

Telão na praça da Catedral: cinema de graça é realidade no Festival de Bagé… (foto J. Migliorin)

A solenidade consta de apresentações de coreografias por bailarinas e alunas de dança da cidade (Bagé é cenário onde a dança é fértil), seguindo-se a cerimônia de entrega de troféus, sob o comando de Ingra Liberato e Leonardo Machado; em seguida, show de Lisandro Amaral no Centro de Lazer Administrativo (antiga sede da Reffesa), com exibição de filmes da Mostra Lusófona.

Festival de Cinema da Fronteira: clima de congraçamento começou muito antes do encerramento… (foto Joba Migliorin)

Na sequência, uma grande festa de congraçamento entre todos os participantes e os funcionários da Secretaria de Cultura do Município, deverá tornar inesquecível esta terceira edição do Festival de Cinema da Fronteira.

Salve, Salve !

Que venha 2012 !

Porque Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis…

Porque o Resto é sempre maior que o principal… 

Antes que os desavisados venham me perguntar o que resta em um de meus mais recentes trabalhos, o curta RESTA UM, prefiro responder numa das formas onde sou mais afoita: escrevendo. 

Resta você que entende a intenção da obra ou resta você que vai sair do cinema perguntando sobre o que é mesmo o assunto do filme, ou ainda, qual o sentido deste filme. 

Porque…. 

Resta Um filme a ser feito, um fotograma a ser exibido. 

Resta Um desejo de falar da vida e contar da alegria através do cinema. Resta Um desejo de contagiar e fazer coro ao convite de Sílvio Tendler para tentar fazer mais gente entrar nesta canoa. 

Resta Um ator que não estava nas filmagens, um vinho que não foi tomado, e um beijo que não foi roubado. 

Resta até mesmo você que pensa que o filme homenageia o Cinema Marginal, que de marginal só tem mesmo a má vontade e incompetência dos que não tem coragem de ousar porque se pelam de medo de errar, e errando, revelar-se, afirmando sua ignorância suprema ante a importância e história do Cinema Brasileiro. 

Resta um ator que não entrou neste filme mas estará num próximo, feliz da vida pela alegria de celebrar o encontro e a verdade das palavras. 

Resta Um espectador que chegou atrasado e um diretor que não foi convidado. 

Resta Um convite que não foi aceito e um amor que não se realizou. Resta Um filme que não foi feito e um roteiro inacabado, um caminho a ser seguido e um piano esquecido no canto da sala. 

Resta Um punhado de bons filmes a ver e belas músicas pra ouvir. 

Resta Um violão que emudeceu e um canto de passarinhos que não se reproduziu.  

Resta Um carinho esquecido, um afago a ser lembrado e um afeto nunca recebido.

Resta Um filme a ser visto, um aplauso a ser ouvido e um som a ser imitado.

Resta Um enquadramento por fazer, um som e uma luz em sintonia. 

Resta Um coração a ser tocado, um amor a ser encontrado.

Resta Um barco no oceano e um barco-olho rumo ao infinito.

Resta Um motivo a mais para se cultivar a ética, um passo a mais a ser dado, um gesto a menos a ser esquecido.

Resta Um belo quadro na parede, flores viçosas na varanda e um roteiro a ser escrito.

Resta Um canto triste a embalar a solidão e um tango sempre disposto a tocar. 

Resta Um coro de pássaros a anunciar uma manhã na qual os jornais só estampem boas notícias e um amor de pai e mãe que nem a dor da ingratidão abafou. 

Resta Um gol argentino a ser aplaudido, um drible de Messi a ser imitado e uma canção de Lupicínio ecoando na sala. 

Resta Um desvario a ser socorrido, um cotidiano de sonhos a percorrer o imaginário e um arrojo de Kubrick a ser lembrado. 

Resta Um quadro de Picasso a querer ver, um Renoir ainda intacto, um Rembrandt pra quem desconhece as nuances da cor, e um bolero de Ravel acordando as madrugadas douradas. 

Resta Um caminho novo a buscar, uma ousadia transgressora a perseguir e um lixo amontoado na calçada que Vik Muniz precisa transformar. 

Resta Um samba em homenagem à nata da malandragem, um swingue de Gil e Mautner, uma atriz com a grandeza e a competência genuína de Helena Ignêz, um desejo de ouvir a contagiante gargalhada de Zéu Brito e mais algumas pérolas de Wisnik. 

Helena Ignêz evidencia beleza e altivez da mulher brasileira no cinema…

Resta Um canto feliz de andorinha a sonorizar a espera tão acalentada, e um movimento de Tchaikovsky tocando pra quem não tem medo da música clássica. 

Resta Um verso de Ferreira Gullar pra ler, um texto de Graciliano que não nos sai da cabeça, um personagem para Selton Mello interpretar, e um ator da grandeza de Emiliano pra gente ensinar aos que ainda vão chegar. 

Resta Um brilho no olhar da criança esquecida nas madrugadas soturnas das grandes cidades, e um brilho de esperança no gesto de quem vivencia a solidariedade. 

Resta Um take a mais de Zeca Ferreira, mais um documentário que Gui Castor está a concluir, uma nova inquietude imagética de André da Costa Pinto, e uma constante disposição de celebrar as invenções fílmicas de Zeca Brito. 

Resta Um outro Benjamim de Gardenberg para Paulo José, um outro Suassuna para Nachtergaele, um texto com a concisão de Carlos Alberto Mattos, um novo documentário com a assinatura de João Moreira Salles e o precioso olhar de Coutinho. 

Resta Um livro a ser lido e um grande autor a ser celebrado.

Resta Um disco bonito na vitrola, um guardanapo com um poema que a noite revelou, um lenço para amparar lágrimas de amor.

Resta um quadrilátero de paixão nas esquinas nas quais ela em vão aguardou um adeus. Resta Um um sinal de que a vida é o bem maior.

Resta Um poeta que a noite teima em querer despertar e um silêncio revelador que o ouvido atento antevê.

Resta Um desassossego da alma em desalinho pela paixão que arrebata e se intromete nas horas mais improváveis. 

Resta Um violão dedilhando Bossa Nova e um bar em Ipanema rememorando Vininha.

Resta Um choro de flauta aguardando Pixinguinha e um verso ousado de Clarice, Coralina ou Adélia Prado.

Resta Um solo de Toquinho, uma marchinha do Lalá, um twiiter de Carpinejar e um olhar acurado de Caetano que a manhã precisa revelar.

Resta Um minuto para que possamos afirmar a palavra necessária e um espanto ante à embriaguez do luar.

Resta Um comovido apelo à Paz e uma busca incessante pela alquimia dos grandes amores.

Resta Um olhar sempre atento à obra de Truffaut e à dramaturgia de Fassbinder, um interesse crescente pelo bandoneon de Piazzolla e um espanto ante à indiferença da sociedade do descartável. 

Resta Um motivo sempre novo para ver Fernanda representar e reler a grandeza necessária de Ibsen. 

Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis e um incontido apego aos lugares onde a emoção fez amigos e plantou saudades.  

Resta Um cantinho, um violão, um microfone para celebrar Mário Reis e um anseio de ouvir cantar como Francisco Alves. 

Resta Um filme de Bressane a ser visto e estudado, e um olhar acurado sobre a cinematografia inspiradora da Belair.

 

Resta Um dilacerante silêncio ante a brutalidade do desaparecimento de John Lennon e um incontido mal-estar ante as ingerências nefastas da política no cotidiano. 

Resta Um infinito e revolucionário desejo de se perpetuar nos fotogramas que hoje são pixels nas alquimias da edição digital, tão rápida e eficiente que nos faz brincar com as horas e achar graça da facilidade de criar temporalidades diversas, fazer andar pra frente e retroceder nos ponteiros de nossa imersão cotidiana. 

Resta Um constante e permanente desejo de continuar abraçando o cinema brasileiro e um desejo intermitente de ouvir o som paralâmico da guitarra de Herbert Vianna.  

Resta Um indormido desejo de expressar-se e traduzir em imagens o que vai n’alma e no pensamento. 

Resta Um permanecente intuito de reaprender a amar pra não morrer de amar mais do que pude. 

Resta, sobretudo, essa vontade enorme de acertar e prosseguir fazendo CINEMA e apostando em coisas nas quais acreditamos, sejam elas concludentes ou não.  

Carvana e Milton Gonçalves em O Anjo Nasceu, segundo filme de Bressane…

Resta ademais um desejo de falar de vida, o aconchego do abraço amigo nas noites eternas, e a ânsia de chegar a um tempo onde a ingratidão morra de sede, a indiferença naufrague de tédio, a injustiça definhe por inanição e a estupidez se envergonhe de existir… 

Porque, enfim, Resta Um desejo de amar e ser amado

Amar sem mentir nem sofrer

Desejo de amar sem mais adeus… 

Enfim, Resta Um anseio de que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. 

* O título deste artigo e as palavras finais nos foram inspirados por textos do cronista Artur da Távola, bem como as citações óbvias aos versos do saudoso poeta Vinícius de Moraes. 

 

Vinícius de Moraes, poeta que ilumina e inspira…

Tributo a uma das mais relevantes atrizes de nosso Cinema, HELENA IGNÊZ

Para o jornalista CARLOS ALBERTO MATTOS,Ver Helena Ignez nos filmes marginais é tomar contato com a plena liberdade do desejo’

HELENA IGNÊZ é a grande homenageada do Festival de Cinema da Fronteira, que começa em Bagé no próximo dia 10…

A baiana ultrajante

Minha admiração pela atriz – e agora diretora – Helena Ignez vem de longe. Vem dos anos 1960, época em que ela afrontou a ordem e os bons costumes da esquerda e da direita, sagrando-se musa maior do cinema marginal brasileiro.

Filha da pequeno-burguesia baiana, preparada para ser esposa de diplomata, Helena sempre foi uma mulher dicotômica. Na juventude, antes de se casar com Glauber Rocha, assinou uma coluna social com o pseudônimo de Krysta e antecipou a moda hemp vestindo mocós de sarja. Joaquim Pedro de Andrade, que tocou o âmago da sua doçura na Mariana de O Padre e a Moça, disse que ela caminhava entre a santidade e a sensualidade. Há pouco tempo, quando Monique Gardenberg escolheu-a para viver a monja budista e a Madame Petit Pont da peça Os Sete Afluentes do Rio Ota, ouviu de José Celso Martinez Correa a seguinte aprovação: “Você acertou. A Helena é mesmo monja e perua”.

Talvez por não ter abraçado um estilo de interpretação naturalista, nunca a vemos no mesmo panteão das grandes atrizes, junto com Fernanda, Cacilda e Marília. Assim como Leila, Norma e Sônia, Helena é da estirpe das mulheres-evento. Através dela, o cinema talvez não cresça, mas se adensa e penetra mais fundo.

Ver Helena Ignez nos filmes marginais é tomar contato com a plena liberdade do desejo. As saias curtíssimas, os pequenos seios freqüentemente à mostra, os olhos grandes de boneca, a boca devoradora e suavemente dentuça, tudo emoldurado pela juba loura, exalam o erotismo e a irreverência de uma pin-up envenenada. Ela agencia e subverte as poses de glamour girl como se injetasse ácido sob o glacê do bolo. E a câmera a segue, imantada. Capta seus berros, rodopios, danças loucas. Helena é uma intempérie na tela.

Em 1970, Helena associou-se ao marido Rogério Sganzerla e a Julio Bressane para fundar a produtora Belair, que no curto espaço de sete meses produziu, quase simultaneamente, seis radicais e baratíssimos longas-metragens. Helena atuou em todos. A experiência, no auge da ditadura, foi interrompida pelo alerta de um general. Estavam na mira da repressão. Em menos de 24 horas, os três embarcaram para Paris. Rogério e Helena exilaram-se entre Londres, Nova York e o Saara.

De volta, anos mais tarde, Helena afastou-se do cinema, do teatro e da televisão. Entrou para o movimento Hare Krishna, abraçou o taoísmo e dedicou-se à criação de Sinai e Djin, suas filhas com Rogério. Mas, ao contrário de Odete Lara, que trocou definitivamente a carreira pela vida espiritual, Helena fez um lento retorno em novos trabalhos de Sganzerla (Nem Tudo é Verdade, O Signo do Caos e a peça Savannah Bay, de Marguerite Duras), Bressane (São Jerônimo) e Guilherme de Almeida Prado (Perfume de Gardênia). Distante da imagem de menina bandida, hoje ela escolhe papéis mais reflexivos e comporta-se como profissional exemplar.

A trajetória e a personalidade de Helena Ignez reservam para ela um lugar único entre as grandes mulheres do cinema brasileiro.

Um Hotel 5 Estrelas com categoria de DEZ

Dos acertos do Amazonas Film Festival ou de como me tornei manauara

Conhecer Manaus foi uma dádiva. Terra de meus avós paternos, do  Amazonas só ouvi desde menina boas notícias. Meus queridos João  – o doce – e Virgínia – a pimenta, não se furtavam nunca a falar da terra querida, a qual deixaram porque vovô queria fazer Medicina, e na Amazônia, àquele tempo, isso não era possível. E depois da Bahia e do Rio, o Dr. João Valente de Miranda Leão veio ancorar no Ceará e aqui teve seus três queridos Luiz, Júlia Luzia e Reynaldo.

Confesso não conseguir gostar do Açaí nem do Cupuaçu, mas os sabores do Tucunaré, Tambaqui, Aruanã, Surubim e Pirarucu são deveras incomparáveis. Meus avós tinham mesmo, entre tantas outras qualidades, um paladar refinado.  Sem contar que minha avó era uma índia de fortes poderes: conquistou vovô João de forma irremediável; sabia cozinhar como poucas – tudo que fazia era bom além da conta; desenhava e confeccionava seu próprio figurino – assaz moderno pra época (chegou a escandalizar Fortaleza por ser talvez a primeira mulher da ‘sociedade’, esposa de médico, que ousou usar calça comprida em praça pública e à luz do dia); tinha uma voz magnética e tocava qualquer música ao piano, que teclava sem jamais ter estudado.

Essa digressão afetiva vem a propósito de minha recente visita a Manaus, onde fui recebida com a melhor das atenções e o maior dos carinhos pela organização milimetricamente competente do VIII Amazonas Film Festival. A avalanche de cuidados e esmero com a qual a equipe comandada pelo poeta Robério Braga (pra sorte do povo amazonense, Secretário de Cultura do Estado) recebe seus convidados é qualquer coisa além da excelência. Nada a reclamar, nenhuma crítica é cabível, muito ao contrário, só há o que bem louvar neste Amazonas Film Festival que está tornando o Amazonas uma vigorosa vitrine da Cultura Brasileira para o mundo.

Secretário Robério Braga: presença constante no Festival…

O mais notável: este tratamento especial da equipe de produção, comandada com afinco e competência por Cervantes Sobrinho (o produtor-executivo mais sereno com quem já pude partilhar o convívio), não é privilégio apenas para os convidados ilustres, artistas ou imprensa. A fartura de generosidade e gentilezas parece um grande braço do rio Amazonas impregnando-se por todos os afluentes onde a produção se faz erigir. 

Seguindo nessa trilha, outro não  poderia ter sido o hotel encontrado para acolher os felizes participantes do Amazonas Film Festival. O Caesar Business, de tantas e tão profundas qualidades, foi o nosso porto seguro em Manaus. Difícil ter vontade de deixar suas dependências pra fazer qualquer coisa.

A produção do festival, atenta a detalhes que somam positivamente, cuidou de nos receber desde a entrada com enormes banners. No hall do Caesar Business, adesivos e cartazes do Festival por todos os lados, até mesmo no chão, criando uma atmosfera de adesão ao festival anunciada já nos primeiros passos.

É preciso dizer: tudo no Caesar Business de Manaus apresenta-se com precisão de ourives: são três elevadores, com os quais nunca se perde tempo esperando; quartos extremamente funcionais, confortáveis e delicadamente decorados; um ar-condicionado que funciona sem dar alarde; telefonistas que nos atendem ao primeiro toque; um impecável room-service; uma bonita e agradável piscina, com bela vista por sobre parte de Manaus, com abundante espaço para pegar um bronze ou engrenar uma conversa (à noite, sempre estavam ali os notívagos de plantão); e então chegamos ao principal atrativo, a cozinha do Caesar Business.

O que é aquilo ? Como definir as deliciosamente incomparáveis iguarias ali ofertadas todos os dias, manhã/tarde/noite ? O que são aqueles funcionários sempre de cara alegre, nos atendendo com prestimosidade e inigualável desvelo e simpatia ?

Eu deixei Manaus, como todos os amigos com quem troquei idéias sobre, absolutamente cheia de boas recordações daquela terra singularmente poderosa e hospitaleira, e encharcada de saudade daquele Hotel onde qualquer um se sente uma pessoa especial e necessária.

Tão bom ou melhor ainda do que apregoavam meus adoráveis avós, João e Virgínia, são os peixes saídos das mãos e ‘fabricados’ pela exímia criatividade de alguns experts da Culinária abrigados no Caesar Business. Sem dúvida, ali o Tucupi, o Surubim, o Pirarucu e o Tucunaré ganham novos e requintados sabores, tantas são as formas pelas quais nos são oferecidos, cada um mais excepcionalmente delicioso que o outro. Não lembro nunca de ter passado uma semana inteira comendo peixe. Pois lá no Caesar Business isso aconteceu e só vim me dar conta depois. Tive a felicidade de passar uma semana provando e aprovando novas modalidades das finas receitas com diferentes tipos de peixe, as quais os prestativos garçons e garçonetes nos ofereciam sempre com um sorriso no rosto.

Parte da equipe do Caesar Business Manaus: primando pelo bom atendimento…

Depois de uma semana de puro desfrute da mais dedicada e atenciosa produção de festival de cinema do pais, amplificada pela magnânima acolhida no Caesar Business, resta constatar:

Manaus me chegou como um inesperado presente e ficará para sempre no coração da minha memória como a terra onde reencontrei minhas raízes mais profundas; vi como se faz produção com sabedoria, cordialidade e deferência aos itens mais elementares que permeiam a convivência humana; conheci um Hotel Cinco Estrelas com categoria de DEZ (cuja estada jamais esquecerei); reencontrei estimados parceiros (Saleyna Borges, Tetê Mattos, Antônio Leal, Ingra Liberato, Igor Cotrim, Rosa Malagueta, Douglas Soares, Hernani Heffner, e Alice Gonzaga, uma amiga mais que querida) e fiz novos, como Cervantes Sobrinho, Tânia Carvalho, Arnaldo Galvão, Roberval Duarte e a adorável Helena Ignêz – a quem já conhecia muito pelos filmes emblemáticos da Belair e do ‘cinema marginal’ (trazida por meu pai desde menina como “a mais bela atriz do Cinema Brasileiro”).

Com o adorável Chaplin de Rômulo Hussen, Aurora Miranda Leão e Helena Ignêz atravessam o elegante ‘tapete vermelho’…

Mas Helena Ignêz – esta atriz esplendorosa, diretora premiada e mulher muito além de seu tempo -, é tão especial que merece uma crônica inteira. Que fico a dever e pretendo escrevê-la muito em breve.

Solenidade de abertura do VIII Amazonas Film Festival no Theatro Amazonas…

Neste ponto, vale abrir um destaque para os patrocinadores do Amazonas Film Festival:  a Coca-Cola e o Banco Daycoval, que se unem ao Governo do Estado do Amazonas para que o Amazonas Film Festival seja o grandioso festival que é.

Resta-me então agradecer a organização do Amazonas Film Festival pelo honroso convite e pela inaudita satisfação de me proporcionar dias tão felizes e especiais na capital amazonense, de onde saí me sentindo uma quase autêntica manauara e muito mais brasileira.

Ingra Liberato levou sua beleza para desfilar no Amazonas (ao lado do ator Luís Felipe, ambos no elenco de O Carteiro, longa de Reginaldo Faria)…

Beatriz Lindenberg, Arnaldo Galvão e Aurora Miranda Leão chegando ao Theatro Amazonas, noite de abertura…

O Secretário Robério Braga saúda o cineasta Fernando Meirelles, homenageado desta edição…

Antônio Leal, Alice Gonzaga e Tetê Mattos: alegria contagiante que se perpetuou por todo o Amazonas…

Ao lado de ‘Chaplin’, o ator mexicano Alfonso Herrera, ex-RBD, o mais assediado e simpático do Festival

Viva o Amazonas ! Vida longa ao Amazonas Film Festival !   

Djin, uma Bela nada Indiferente…

Helena Ignêz diz que peça é “A radiologia de um amor infeliz”

Ela é filha de dois ilustres da Cultura Brasileira, dois ícones do nosso Cinema. Isso, por certo, deve pesar na estrada de qualquer um, e é preciso muita garra e uma luz muito especial para seguir em frente, dignificando o legado dos pais e perfazendo seu próprio caminho, longe dos ‘compromissos’ que o sobrenome forte pode transformar em cobrança.

Bonita, elegante, sensual e atriz de entrega total ao personagem, ela vem trilhando uma estrada que só dignifica e honra o eloquente legado. Embora sua trajetória exista por seus próprios méritos, é evidente a absoluta intersecção com os alicerces semeados pelos pais, e é patente que sua coerência e pungente inserção na seara cultural exista embasada naqueles, e plena das energias emanadas do ilustre casal, protagonista de uma das mais belas e férteis parcerias da cena artística nacional.

Falo de Djin Sganzerla, a jovem e bela atriz, fruto do amor da grande atriz Helena Ignêz com o polêmico e prolífico cineasta Rogério Sganzerla, jornalista, escritor e gomem de Cinema, tão cedo partido do nosso convívio.

Djin é a filha mais nova e estreou como atriz no último filme do pai, o emblemático O Signo do Caos, de 2003. De lá pra cá, vem fazendo papéis de destaque e arrebatado prêmios por muitas dessas atuações – como é o caso do filme Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi, no qual ela contracena com Gustavo Falcão (!).

Agora, Djin está em cartaz no SESC Consolação, em Sampa, com a peça O Belo Indiferente, texto escrito por Jean Cocteau especialmente para a musa Edith Piaf. A montagem  atual tem direção de André Guerreiro Lopes (marido de Djin), em parceria com Helena Ignêz, e está revestida de pitadas de irreverência na sua abordagem sobre as relações humanas, especificamente o amor.

Pouco encenada no Brasil, O Belo Indiferente registra no currículo, durante os anos 80 e 90 do século passado, atuações icônicas como as das atrizes Helena Ignez (sua mãe), Glauce Rocha e Maria Alice Vergueiro.

Apesar de tratar-se de um monólogo, a montagem atual traz dois personagens: Ela, vivida por Djin Sganzerla, e Ele (Dirceu Carvalho). Ela fala e Ele se cala. O enredo é simples. Durante uma madrugada, uma cantora espera seu amor num quarto de hotel. Seu amado Emílio, enfim, chega! Sem dizer uma palavra, anda pelo quarto, deita-se na cama e lê, tranqüilamente, seu jornal. Ela tenta por todos os meios atrair sua atenção, mas nenhuma estratégia é suficiente: ironia, raiva, sedução, confidências, denúncias, ameaças.

Como será rompida essa incômoda indiferença ? Isso é que o público saberá assistindo ao espetáculo.

Sobre a parceria com a filha, com quem já trabalhou em dois filmes e outros espetáculos, Helena diz que a vontade de acertar reina. “Dirigir um ator é sempre um ato de amor”, explica. Lopes concorda e não reclama de ter a sogra como parceira. “Está sendo muito natural. Cada um traz para a montagem o que tem de melhor”.

Djin Sganzerla segue os passos da mãe, a eterna musa Helena Ignêz

Todos concordam: a experiência e familiaridade de Helena com a obra ajudaram na hora de dar profundidade ao drama da personagem. Além de ter feito Djin recordar da primeira vez em que viu a mãe encenando: Eu era pequena. Tive medo que aquele homem machucasse a minha mãe”, conta. Medo de comparações, ela não tem. “Deixo qualquer pressão para trás.”

Para aproximar o público do casal problemático, o cenário coloca a plateia dentro do espaço cênico, o qual serve como quarto e mente da cantora. “Assim, é mais fácil perceber a grande questão: o que faz uma mulher linda e inteligente não se desprender dessa relação ruim ?”, conclui Lopes.

Contracenando com o marido André Guerreiro Lopes em Luz nas Trevas, longa dirigido pela mãe, Helena Ignêz, e Icaro Martins

André Guerreiro Lopes diz buscar ressaltar a atemporalidade e dramaticidade poética do texto.

“Fugimos de um enfoque naturalista para retratar a situação de uma mulher em crise e seu amante num quarto de hotel. Ao invés de ‘trazer para os dias de hoje, buscamos o que existe de profundamente humano neste amor obsessivo…”.

A montagem original, que estreou em Paris em 1940 com atuação de Edith Piaf, causou controvérsias entre o público da época. Traduzida para todas as línguas, o texto foi encenado por grandes atrizes do mundo.

Djin já foi premiada pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor atriz de 2008 por sua atuação no filme Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi, o qual também lhe rendeu prêmio no Festival de Cinema Luso Brasileiro, em Portugal.

Djin Sganzerla recebendo elogios significativos por sua atuação em O Belo Indiferente…

Serviço
O BELO INDIFERENTE

Temporada – Quintas e sextas, às 21 horas. – 60 minutos. Até 16 de dezembro.
Ingressos – R$ 10,00; R$ 5,00 (usuário matriculado, estudante com carteirinha e aposentado) e R$ 2,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes).
Espetáculo recomendável para maiores de 12 anos.