Arquivo da tag: Hernani Heffner na CineOP – leia no #blogauroradecinema

Alice Gonzaga conquista público e filme de Betse de Paula é ovacionado em Ouro Preto

Alice estreia - edit               Antes da pré-estreia em Ouro Preto , Alice Gonzaga concede entrevista                                                                          

                                                                                         *Aurora Miranda Leão

      A Mostra de Cinema de Ouro Preto, em sua 12ª edição, foi um momento bonito e importante para o Cinema. Com uma programação recheada por cursos, seminários, lançamentos de livros, exibições e debates, a CineOP foi aberta na noite de 22 de junho com uma solenidade marcada por homenagens, falas contra o desmanche da cultura e a permanente agressão aos indígenas.

No histórico Cine-Teatro Vila Rica, lotado, justas homenagens a quem tanto faz pelo cinema: o pesquisador Antônio Leão (com vários livros importantes e um trabalho de formiguinha feito sem nenhum apoio oficial), e a montadora Cristina Amaral (com extensa lista de grandes filmes no currículo); a entrega do Troféu Vila Rica à india Para Yxa Pi; a apresentação da índia Avelin Buniacá Kambiwá, e uma belíssima performance do Coletivo Negras Autoras. Podemos dizer que o tom da solenidade de abertura da CineOP pode ser resumido nas palavras de Para Yxa Pi: “No Brasil, todos temos sangue indígena – nas veias, no coração ou nas mãos. Qual é o seu caso?”

  Mas foi o documentário Desarquivando Alice que encerrou a solenidade oficial de abertura da CineOP, e o clima foi o esperado para um pontapé inicial de qualquer grande evento: risos, aplausos, comunicação imediata, farta e espontânea com o personagem-tema do filme de Betse de Paula.

Betse e Alice noite - edit

         Desarquivando Alice Gonzaga, mais recente documentário de Betse de Paula, tem a arquivista Alice Gonzaga como tema central (com poderosa consultoria do pesquisador Hernani Heffner) e apresenta imagens da protagonista desde a infância, quando fez pontas nos filmes da CINÉDIA – o primeiro estúdio de cinema do Brasil, propriedade de seu pai, Adhemar Gonzaga -, e que transformou-se na vida de Alice desde 71, quando a notável pesquisadora perdeu o pai. Entre cenas inéditas e preciosas, como um dos momentos de Alice Gonzaga esbanjando sua loura beleza ao lado do inesquecível Grande Otelo; o ‘arquivamento’ no cemitério; o véu de noiva tantas vezes usado e que “nunca teve casamento desfeito”; passagens que abordam a presença de Orson Welles no Brasil (foi Adhemar Gonzaga quem emprestou equipamento ao cineasta quando os estúdios americanos quiseram cercear sua atividade fílmica no Brasil) até a insólita queima de nitrato – que impressiona sobremodo a quem é da área audiovisual –, o filme caminha para um final apoteótico que enfatiza o empoderamento feminino protagonizado por uma intrépida Alice e captado por uma sensível e astuta Betse.

alice e telão - Cópia

 O filme começa e revela uma força notável: mesmo após a abertura impactante da CineOP com apresentações e falas de forte cunho político, Desarquivando Alice segue seu curso e envereda pelo universo da preservação, cada vez mais premente nos embates atuais pela relevância de que se reveste hoje o cultivo à memória. E o que se estabeleceu no Cine Vila Rica aquela noite foi uma imediata e notável sintonia com o público. Como bem diz o jornalista Adriano Garrett, “É preciso também destacar o quão prazeroso é acompanhar Alice Gonzaga em tela; a cada nova tirada bem-humorada ela nos faz esquecer temporariamente as deficiências da produção. Mais do que isso, na história dela está contido todo um imaginário do Brasil de ontem e de hoje, passando por temas como as dificuldades estruturais e culturais para mulheres atingirem posições de poder e chegando à preservação da memória de um país, algo que, é importante destacar, se deu no caso de Alice graças a uma vontade pessoal, longe de políticas governamentais.

      Ao criar uma dialogia com Alice Gonzaga, o público tomou conta daquela noite emocionante em Ouro Preto e foi, ele também, o centro das atenções na CineOP. Com olhares atentos, riso solto e gargalhadas permanentes, o que se viu/ouviu em Ouro Preto foi uma bela página de entrosamento filme-plateia-personagem, em que a diretora Betse de Paula saiu cercada de aplausos e assentimento.

       Em seguida a exibição, a Universo Produções anfitrionou uma bela festa com jantar generoso para participantes, realizadores, produtores e convidados. E esta foi um ótimo termômetro para confirmar o acerto do filme de Betse de Paula-Alice Gonzaga: o que mais se ouvia ali eram elogios fartos e emocionados para o Desarquivando Alice.

Betse e Alice OP edit

         Dia seguinte, no QG do Festival – organizado com prodigiosa eficiência pelas irmãs Fernanda e Raquel Hallack e sua Universo Produções – só deu Alice Gonzaga. E Betse de Paula. Ou seja: a dupla que teve a feliz ousadia de DESARQUIVAR o imenso patrimônio do Cinema Brasileiro através da CINÉDIA, marcou um gol de placa, consagrado pelas inúmeras manifestações de carinho, apoio e aplausos dos mais variados matizes: as muitas entrevistas que solicitavam Betse e Alice, os muitíssimos cumprimentos de quem passava pelas cercanias da Universo Produções, e as diversas críticas favoráveis que proliferavam por sites, blogs, programas de rádios, jornais e redes sociais. Como a do crítico Luiz Zanin Oricchio: “Alice Gonzaga, bem entrevistada por Betse, que mantém presença discreta no filme, revela-se uma cicerone das mais desembaraçadas sobre a história do cinema brasileiro e da sua própria família. Fala sem disfarçar do que gosta e de que não gosta. E conta uma história que é das mais apropriadas para um festival de cinema cujo foco é a preservação. Diz ela que um dia perguntou ao pai sobre o paradeiro de determinado filme e, impaciente, Adhemar lhe teria respondido que isso não interessava; estava preocupado com o próximo projeto e não com velharias. Com o futuro e não com o passado. […] Já perto do final da vida, ele muda de ideia. Diz que seria preciso recuperar tudo, pois ninguém podia adivinhar a quantidade de esforço presente em cada uma daquelas antigas películas que haviam produzido. ‘Acho que daí me meio o impulso para a recuperação de todo o nosso acervo’, diz Alice.”

elas fotografadas - edit

       Vale ressaltar que Desarquivando Alice já tem agenda para exibição no Festival Internacional de Cinema de Arquivo, que acontece em novembro, na capital carioca, honroso convite feito por seu curador, Antônio Laurindo.

        Exibir Desarquivando Alice na CineOP reverte-se numa belísssima e poderosa pré-estreia para um filme que tem tudo para ser exibido pelos quatro cantos do país e que coloca em evidência a atualíssima questão da Memória como potência sociocultural e elemento-chave para ressignificação do Patrimônio, tão necessário quanto mais precisa de atenção e cuidado.

Alice prefeito e Betse - edit

Até o prefeito de Ouro Preto surpreendeu ao encontrar Alice numa loja e se dizer encantado com o filme…  foto: Aurora de Cinema

Ao trazer à tona uma personagem emblemática, que é puro magnetismo e diante de quem não se pode passar despercebido – muito bem codinominada pelo jornalista Artur Xexéo como A Primeira Dama do Cinema Brasileiro –, Desarquivando Alice Gonzaga promove um banho de carisma, ao qual se adere instantaneamente e que constrói, de forma simples e ao embalo da espontaneidade, uma narrativa de pura imersão na memória do cinema brasileiro e avulta o empoderamento feminino que Alice Gonzaga representa, ainda que não tenha buscado isso como meta, mesmo que isso tenha se dado da forma mais inconsciente possível.

Alice e eles - edit

Tietando Alice Gonzaga: João Luiz Vieira, Ana Ballalais e Luis Alberto Rocha Melo…

   Por outro lado, ao evidenciar o empoderamento de Alice, Betse de Paula contagia o público e a sensação é de que todas nós, femininas e feministas, saímos do cinema empoderadas. Assim, ver Desarquivando Alice Gonzaga é tomar consciência do quanto pode a força de quem trabalha comendo pelas beiradas, com constância, poder de decisão e firmeza, e que influencia justamente por seguir adiante, como a água, sem enfrentar obstáculos mas aprendendo a contorná-los e, por isso mesmo, vencendo-os, devagar e sempre.

       Aplausos de pé para a tríade Alice-Betse-Desarquivando !

Alice Bet Hernani

Encontro de Cinema: Betse de Paula, Hernani Heffner e Alice Gonzaga em Ouro Preto…