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É TUDO VERDADE em ABRIL

A primeira lista com 15 documentários brasileiros inéditos em longa, média e curta-metragem é divulgada pelos organizadores do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que acontece entre 8 e 18 de abril em São Paulo e entre 9 e 18 de abril no Rio. A entrada é gratuita. A seleção internacional e novos títulos nacionais inéditos serão anunciados em breve.

É a 15.ª edição do festival, que promoverá o lançamento mundial de sete longas e médias na mostra competitiva. Segundo o diretor do evento, Amyr Labaki, a maioria dos cineastas vai participar do festival pela primeira vez. O vencedor entre os concorrentes em longa e média-metragem vai ganhar um Troféu É Tudo Verdade criado pelo artista plástico Carlito Carvalhosa. Já o vencedor em curta-metragem vai levar, além do troféu, um prêmio de RS$ 6 mil. Há ainda o prêmio CPFL Energia/É Tudo Verdade no valor de RS$ 100 mil. 

 Confira a lista de longas e médias-metragens:

Arquitetos do Poder, de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé (RJ, 90 min)

Um mergulho na relação entre mídia e política no Brasil, destacando a evolução das técnicas de propaganda nas campanhas eleitorais – de Getúlio a Lula.

O Contestado – Restos Mortais, de Sylvio Back (RJ, 158 min)

Back retoma agora em documentário o tema de seu segundo longa-metragem ficcional, “Guerra dos Pelados” (1970). Uma das maiores epopeias do país, a Guerra do Contestado (1912-1916) envolveu milhares de civis e militares no interior do Paraná e de Santa Catarina, num combate envolvendo disputa fundiária e questões de fronteira, heróis fardados e líderes messiânicos, discursos utópicos e massacres sanguinários.  

Eu, o Vinil e o Resto do Mundo, de Lila Rodrigues e Karina Ades (SP, 72 min)

Um retrato de jovens da periferia de São Paulo que participam do maior campeonato de DJs da America Latina, o Hip Hop DJ. O sonho da música irmana moradores de todos os cantos da megalópole. 

 

Fora de Campo, de Adirley Queirós (DF, 52 min)

No Brasil existem cerca de 500 clubes de futebol profissionais. 40 times disputam as séries A e B do campeonato brasileiro. Apenas 8% fazem parte da elite do futebol. Uma radiografia seca deste universo, tomando Brasília por microcosmo.

 

Manual Prático de Como Ter Sucesso na Política Brasileira, de Felipe Lacerda (RJ, 104 min)

Um estudo de caso dos métodos utilizados pelos políticos nacionais para permanecer no poder, a partir do cotidiano de um vereador do interior do Amazonas. 

Programa Casé – O Que a Gente Não Inventa, Não Existe, de Estevão Ciavatta (RJ, 80 min)

A extraordinária trajetória de Adhemar Casé (1902-1993), um vendedor de rádio que fez história no rádio, na TV e na publicidade brasileira, lançando nomes como Noel Rosa, Carmem Miranda e Orlando Silva.

 Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira (MG, 89 min)

Pedro de Alexina, 82, conduz, como mestre de cerimônias, o funeral de João-Batista, morto aos 120 anos. Ali, não se sabe o que é documentário ou ficção, cinema ou vida. 

 Programas especiais 

No Meio do Rio, entre as Árvores, de Jorge Bodanzky

Resultado de uma expedição ao Alto Solimões, na Amazônia, que ministrou oficinas de vídeo, fotografia e circo a diversas comunidades ribeirinhas, o filme capta imagens de um mundo amplo, de grande beleza, mas em que a exploração econômica predatória deixou marcas. Filmagens dos próprios habitantes da região ajudam a compor um olhar de raro frescor sobre a Amazônia. 

O Estado das Coisas  

Doce Brasil Holandês, de Mônica Schmiedt

Unidas à distância por um sobrenome comum de origem holandesa, duas historiadoras, a brasileira Kalina Wanderley e a alemã Sabrina van der Ley, exploram as raízes e as contradições da lenda que se criou acerca da invasão holandesa a Pernambuco, no século 17. Maurício de Nassau é definido por alguns moradores de Recife como “o melhor prefeito que a cidade já teve”.

 

Sobre Rios e Córregos, de Camilo Tavares

Assentada sobre cerca de 1.500 km de rios e córregos, a cidade de São Paulo transformou-se num caso peculiar de transformação da água – tanto em solução quanto em problema. Através de depoimentos de especialistas analisa-se o histórico de uma convivência conflituosa, marcada por canalizações, desvios de curso de rios, especulação imobiliária e habitação irregular.

 Competição Brasileira de curtas-metragens

 Bar da Estação, de Leonardo Ayres Furtado (MG, 17 min)

 Todos os dias, José dos Santos abre o Bar da Estação, no pequeno município de Ribeirão Vermelho, em Minas Gerais.

 Bernnô, de Pedro Gorski (SP, 24 min)

Um retrato do artista plástico, paulistano do bairro do Limão, que através do domínio das técnicas de pintura automotiva, construiu uma carreira como artista, reconhecido pelo público e pela crítica.

 Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima (PA, 21 min)

Outubro de festa. Romeiros, operários, escultores, estilistas, decoradores, guardas da Santa, fogueteiros, promesseiros, tocadores de sinos. Todas as classes, todas as idades. Todas as mãos que constroem a maior manifestação de fé do Brasil.

Querida Mãe, de Patricia Cornils (SP, 25 min)

Uma conversa entre cartas escritas por uma mãe e os sentimentos que provocam, 44 anos depois, em sua filha. Que não a conheceu.

 Xetá, de Fernando Severo (PR, 20 min)

Durante o desordenado processo de colonização do noroeste do Paraná, nos anos 40, uma população indígena foi expulsa de suas terras; os poucos sobreviventes se dispersaram. A quase extinção desse povo acabou contribuindo para provocar um desastre ecológico irreversível na região.

 Karl Max Way, de Flavia Guerra e Maurício Osaki (SP, 25 min)

Karl Max é capitalista. É também um motoboy brasileiro em Londres. Quer ganhar dinheiro para ter uma vida melhor. Para isso, precisa encarar ‘pequenos’ problemas: ilegalidade e risco de vida.

Acontecências, de Alice Villela e Hidalgo Romero (SP, 23 min)

Documentário filmado na aldeia Asuriní do Xingu, em 2007, durante pesquisa de campo da antropóloga Alice Villela. Trata-se de um olhar poético sobre o material bruto.

As Aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro (PE, 20 min)

O artista Paulo Bruscky (pioneiro na gravação eletrônica, filme super 8, vídeo) entra na plataforma de relacionamento virtual “second life” e conhece um ex-diretor de cinema, Gabriel Mascaro, que hoje vive, se diverte e trabalha fazendo filmes na rede virtual.

Se meu Pai Fosse de Pedra, de Maria Camargo (RJ, 20 min)

O escultor Sergio Camargo morreu há 18 anos. Se os ossos que restaram na sepultura são seus restos mortais, seriam as esculturas seus “restos vitais”? No filme, o ponto de vista é o da filha que se defronta com o artista e com o homem que ele foi.

É Tudo Verdade – 15º Festival Internacional de Documentários

São Paulo – 8 a 18 de abril

Rio de Janeiro – 9 a 18 de abril

Entrada gratuita em todas as salas de cinema

Salas em SP

Espaço Unibanco de Cinema

Rua Augusta, 1475 – sala 1 / (11) 3288.6780

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Álvares Penteado, 112 / (11) 3113.3651

Cinemateca Brasileira

Largo Senador Raul Cardoso, 207 – sala BNDES /

Reserva Cultural

Avenida Paulista, 900 – sala 4 / (11) 3287.3529

Cinemark Eldorado

Avenida Rebouças, 3970 / (11) 2197.7472

Salas no Rio

Unibanco Arteplex

Praia de Botafogo, 316 – sala 6 / (21) 2559.8750

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Primeiro de Março, 66 / (21) 3808.2020

Instituto Moreira Salles

Rua Marquês de São Vicente, 476 / (21) 3284.7400

Ponto Cine Guadalupe – Guadalupe Shopping

Estrada do Camboatá, 2300 / (21) 3106.9995

Cine Santa Teresa

Rua Paschoal Carlos Magno, 136 / (21) 2222.0203

Cinemark Downtown

Avenida das Américas, 500 / (21) 2494.5004

BODAS DE CINEMA com ELY AZEREDO

 
Com alguma modéstia, Ely Azeredo apresenta-se ao leitor que não o conhece como o crítico de cinema que atuou em diários de circulação nacional pelo mais longo período de tempo no Brasil.  Foram 50 anos de reflexão, divididos especialmente com os do leitores de Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo.

Ao lançar, Olhar Crítico (Instituto Moreira Salles, 416 págs., R$ 54), Azeredo oferece uma súmula de sua produção – 98 textos que deixam claro que o tamanho de sua contribuição não se mede apenas pelo tempo de prática, mas pelo que ensina sobre o ofício ao qual dedicou sua carreira.

Azeredo teve atuação notável num dos períodos mais ricos da produção e discussão cinematográfica no Brasil, o da eclosão do Cinema Novo, no final da década de 50. Como se deu na França, com a Nouvelle Vague, o Cinema Novo promoveu a entrada em cena não apenas de uma nova geração de cineastas, mas também de críticos, que apoiaram o movimento com entusiasmo.

De uma geração anterior, em atividade desde o final da década de 40, Azeredo viu com simpatia a onda de renovação provocada pela geração de Glauber Rocha, a ponto de, em 1961, batizar o movimento com o rótulo (Cinema Novo) que ficou para a história, mas logo entrou em atrito com os cineastas e críticos “alinhados”.

 
Os textos de Azeredo sobre filmes do Cinema Novo incluídos na coletânea expõem a luta de um crítico independente, analisando obras no calor da hora e sob pressão dos próprios cineastas e de seus aliados.

Azeredo elogia Barravento e aprecia “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber, embora sublinhe: “Sem ser o maior filme até hoje produzido neste planeta, como querem alguns exagerados”. Gosta de Garrincha, Alegria do Povo e extasia-se com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, mas não poupa críticas a “Terra em Transe”, de Glauber, e a Porto das Caixas, de Paulo Cesar Saraceni, entre outros.

Na introdução do livro, Azeredo lembra uma observação do cineasta Cacá Diegues, para quem o Cinema Novo foi, entre outras coisas, “um partido”. Questionado pelo UOL sobre o assunto, o crítico observa que o núcleo central do Cinema Novo, formado por Glauber, Cacá, Joaquim Pedro, Leon Hirszman e Gustavo Dahl, “desejava uma crítica ‘alinhada’ com as diretrizes do movimento”. Conta Azeredo:

“Restrições a qualquer filme cinemanovista eram consideradas ‘alienação’, submissão ao colonialismo cultural etc. Quando me desliguei da ‘militância’ no Cinema Novo e critiquei alguns filmes frustrados, Glauber me pediu pessoalmente que parasse de ‘atacar o Cinema Novo’. Meus artigos na ‘Tribuna da Imprensa’, segundo ele, estariam criando dificuldades para a liberação de empréstimo no Banco Nacional para a produção de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Ora, como um crítico pode se pautar pelas expectativas bancárias de produtores?”

Azeredo lembra de outros três problemas que afetaram o trabalho dos críticos de cinema durante o período. Em primeiro lugar, a militância cinemanovista via com restrições a produção de cineastas não alinhados ao movimento, independente da qualidade dela.

“Nunca aceitei tentativas de terrorismo contra os cineastas ‘não cinemanovistas’. Aqui, como ocorreu na França com o grupo (da revista) Cahiers du Cinéma da Nouvelle Vague ao negar aptidão profissional a (Henri-Georges) Clouzot, (Claude) Autant-Lara e outros, houve tentativas de enxovalhar a reputação profissional dos não alinhados”, diz o crítico.

Em segundo lugar, lembra Azeredo, a defesa intransigente do Cinema Novo levou a militância a defender filmes de pouca qualidade. “Alguns ‘novos’ eram louvados pelos cinemanovistas, apesar de sua mediocridade. David Neves era considerado uma espécie de mestre de cerimônias do clã, e era louvado pelos CN, embora jamais tenha realizado um filme de valor”, afirma o crítico. “Só para mencionar um desastre: Neves jogou fora todos os valores de ‘Lucia McCartney’, de Rubem Fonseca, o que causou revolta na atriz protagonista, Adriana Prieto, que se solidarizou com minha crítica.”

Por fim, Azeredo fala do seu espanto com a adesão de críticos já experientes, na época, à defesa do movimento. “Estranhei que críticos de valor, como Alex Viany e Maurício Gomes Leite, tenham ingressado no ‘partido’ CN, perdendo a visão de conjunto da produção nacional. Um intelectual como Paulo Emílio Sales Gomes se tornou um ‘papa’ do novo culto, chegando a roteirizar uma das frustrações da vertente, ‘Capitu’, dirigido por Saraceni”.

Olhar Crítico não se detém no período do Cinema Novo. Estende-se até os primeiros anos do século 21, passando em revista a produção das décadas de 70, 80 e 90, até chegar aos principais títulos da chamada “retomada” do cinema brasileiro.

Fiel a seu mote desde os anos 60 – “promover um novo cinema brasileiro paralelamente a posições críticas independentes” – Azeredo avalia cada filme em função das qualidades e problemas que enxerga na obra em si, e também no contexto de sua época, dos diálogos do autor com os seus predecessores e com seus contemporâneos e do lugar do filme dentro da trajetória do cineasta. Um exercício duro, sujeito a erros e acertos, cumprido com coragem e honestidade pelo crítico.

Mídia Reverencia 80 da CINÉDIA

Produtora de clássicos da cinematografia nacional e responsável pelo início da industrialização do setor no país, a Cinédia completa, a 15 de março, 80 anos de inestimáveis serviços prestados à SÉTIMA ARTE. Hoje voltada para a preservação da memória deste importante capítulo que escreveu na história do cinema brasileiro, a empresa comemora o iminente lançamento de cópias restauradas de sete longas filmados entre 1936 e 1950, entre outras novidades.

O ÉBRIO, maior sucesso de bilheteria da Cinédia, é uma das grandes atrações do acervo da companhia carioca

Dois estão entre os mais conhecidos produzidos nos estúdios de São Cristóvão, no Rio: Bonequinha  de Seda (1936), de Oduvaldo Vianna, e Berlim na Batucada (1944), de Luiz de Barros. Considerada a primeira superprodução nacional e um dos filmes mais importantes de sua década, Bonequinha inaugurou uma série de inovações como o uso da grua e de maquetes. Nele, a jovem Marilda (Gilda de Abreu, convidada após a recusa de Carmem Miranda), supostamente recém-chegada de Paris, é apresentada à sociedade carioca, que se rende à finesse da moça sem saber que ela jamais estivera na Europa. Berlim também traz uma crítica bem-humorada ao debochar das potências envolvidas na Segunda Guerra Mundial, que prejudicou a produção cinematográfica também por aqui. Estrelam a película Procópio Ferreira, Francisco Alves e o Trio de Ouro, formado por Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas.

Bonequinha ficou apenas cinco semanas em cartaz no Cine Palácio e saiu por imposição de estúdios estrangeiros. Já “Berlim” é um musical belíssimo que traz o Francisco Alves como o malandro Zé Carioca”, conta Alice Gonzaga, presidente do Instituto para a Preservação da Memória do Cinema Brasileiro, diretora da Cinédia e filha de seu fundador, o jornalista Adhemar Gonzaga.

Os outros cinco filmes – “Obrigado, Doutor” (1948), “Estou Aí?” (1949), “Poeira de Estrelas” (1948), “Dominó Negro” (1950) e “A Inconveniência de Ser Esposa” (1950) – resgatam a valiosa contribuição como diretor e produtor de Moacyr Fenelon, um dos fundadores da famosa Atlântida Cinematográfica, conhecido como também pelo trabalho de sonorização de filmes como Alô, Alô, Carnaval ! (1936), de Adhemar Gonzaga. Em agosto, as películas farão parte de mostra que homenageará o profissional no Instituto Moreira Salles.

O trabalho de restauração, iniciado há cerca de dois anos, está em fase de finalização e deve se encerrar nos próximos meses. As sete cópias poderão ser lançadas também em DVD e Blue-Ray. Elas se juntarão aos outros 17 longas já recuperados (a Cinédia produziu 55 entre 1930 e 1952) que serão exibidos em inúmeros festivais pelo país. Entre eles, o maior sucesso da produtora, “O Ébrio” (1946), de Gilda de Abreu, uma das maiores bilheterias do cinema nacional até hoje.

Os planos não param por aí. Em abril, a Cinédia começará a oferecer cursos sobre cinema e palestras, dando início ao projeto de transformar em centro cultural o casarão em que funciona hoje, em Santa Teresa.

Este ano, a CINÉDIA deve dar o pontapé na digitalização de aproximadamente 90 mil documentos de seu acervo. São fotos, roteiros originais e diários de filmagem, entre outros, reunidos desde o início do século por Adhemar e Alice.