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Roberto Carlos: o sol sobre a estrada da MPB… e o Sol sobre a estrada é o Sol !

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                                                                                                          *Aurora Miranda Leão

           Roberto Carlos é um fenômeno de Comunicação. Há muito, o notável artista capixaba, deixou de ser apenas um cantor que compõe lindamente, e passou a ser a Força Estranha das coisas que são muito grandes para esquecer.

         Janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar... Estes versos soam forte nos solos do Brasil e revestem-se de um significado emblemático. Para entendê-los em plenitude e entender o tanto de significado que carregam, faz-se mister saber e/ou rememorar parte da história do país.

            Vivia a nossa Pátria-Mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações… O Brasil vivia os anos sombrios da ditadura – esta mesma, registrada em música, literatura e jornalismo -, que existiu de modo inconteste e extirpou a liberdade de seu território, instaurou a violência, a censura, a disparidade social e os desmandos do poder de ordem vária.

Por conta da abjeta repressão, as idéias libertárias foram perseguidas enquanto artistas e pensadores foram obrigados a deixar o país. Augusto Boal, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Juca de Oliveira, Guarnieri, Fernando Gabeira, Júlio Bressane, Ferreira Gullar, Artur da Távola, Henfil, Betinho e tantos outros passaram anos no exterior, impedidos de voltar à terra natal.  Seus crimes ? Defender a Liberdade !

  É preciso que você, caro leitor, saiba que foi preciso a dor e a luta de muita gente para que você pudesse hoje viver num território onde habita a liberdade, e onde qualquer um pode cantar em alto e bom som – “As luzes e o colorido que você vê agora, nas ruas por onde anda, na casa onde mora…” (ainda que preconceitos nefastos insistam em permanecer vivos).

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Roberto anteviu o símbolo em que Caetano se transformaria: “janelas e portas vão se abrir pra ver você chegar…”

Aqueles anos perversos e inolvidáveis, registram essa inserção poética de Roberto Carlos tem uma atuação poética relevante no que toca esse período umbrífero. Foi o Rei, que com sua voz terna, afinada e inconfundível, destacou a energia de Caetano Veloso para o país quando o músico ainda vivia no exílio e dele pouco se podia falar por aqui. Naqueles terríveis anos de 1970, Roberto Carlos, já um ídolo nacional, jogou luzes, da forma que lhe foi possível, na tensa e deplorável vida sociopolítica brasileira ao celebrar os caracóis de Caetano.  Sim, eram os cachinhos de Caetano que traduziam “um soluço e a vontade de ficar mais um instante”. Algo assim como está tatuado no cancioneiro nacional:  Um dia a areia branca seus pés irão tocar e vai molhar seus cabelos a água azul do mar…

               Por tudo isso, Roberto Carlos abrir seu Especial deste 2017 que se aproxima do final saudando Caetano Veloso foi uma poderosa expressão da grandeza do artista e da riqueza de sua obra. Você poderá indagar: “Caetano ?, mas Caetano nem estava lá...”

            Sim, o baiano querido e festejado em todo o território nacional, não estava lá fisicamente mas Caetano é o autor da música-tema de Roberto Carlos. Foi Veloso quem definiu o Rei como essa força poderosa e inaudita que nos leva a cantar, gerações e gerações, inoxidavelmente, como se o tempo, ainda que passe, tenha o dom de conseguir passar sem nos envelhecer.

            Em seguida, Roberto cantou a sua monumental Fera Ferida, que Caetano gravou em 1987 e, a partir daí, a inscreveu com letras garrafais nas páginas de ouro da Música Brasileira.

           Thiago Iorc, Djavan (dividindo o microfone com o Rei em Pétala e As curvas da estada de Santos), a Sereia Isis Valverde, Simone e Simária, e Erika Ender foram os convidados deste Especial.

              Ao longo de todas essas décadas nas quais Roberto Carlos construiu uma carreira singular no país, estiveram com ele na estrada artistas de todos os matizes, ritmos, tendências. Basta dar uma passada pelo YouTube e você encontrará trocentas vozes distintas cantando e encantando com o Rei. Méritos para o Grande Artista, seu empresário Dody Sirena (que tem uma noção importante sobre o que representa Roberto Carlos para o país), e o magnânimo naipe de músicos que acompanha o Rei há tempos.

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Isis Valverde: Ritinha é a Sereia dos versos do Rei.,,

        O Especial deste 22 de dezembro teve um público muito superior ao dos anos anteriores. A prévia de dados em tempo real, medida pela Kantar, mostra que o programa alcançou cerca de 30 pontos em São Paulo, uma das maiores médias dos últimos 10 anos. Ou seja, bem acima dos 25,1 pontos de 2015 ou dos 22 pontos do ano passado. Mais da metade das TVs ligadas na região estava sintonizada na Globo. Cada ponto do ibope em SP (desde ontem) agora vale por cerca de 72 mil domicílios.

         Roberto Carlos inova e se renova a cada ano ao estar sempre se reinventando, seja pelo funk, o axé, o bolero, o samba, o pagode, o rock, o rap, o hip hop, a Bossa Nova, a salsa, o forró e a música sertaneja. Isso é parte do que explica a presença permanente, benfazeja e instigante de Roberto Carlos na Cultura Brasileira. Além disso, o Rei encanta com sua voz terna, a afinação perfeita, o repertório precioso e cantando cada vez melhor, como diz o colunista Ricardo Feltrin:

“Voz poderosa e com ampla tessitura, sua afinação é absolutamente perfeita, além de uma tonalidade muito bonita. RC não erra, semitona e nem sequer desliza em uma única nota”.

         Aqui, um dado curioso: a presença de RC se irmana a de Caetano Veloso na Música ! Não à toa, os dois artistas dialogam em músicas seminais do cancioneiro popular brasileiro: seja porque um cantou a canção do outro, seja porque outro escreveu pra um, ou porque ambos entoaram juntos músicas e letras que se eternizaram no coração de quem ama. Sim, aquele coração de que nos fala Djavan, no qual, vez em quando, fica faltando um pedaço…

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   Acontece que Roberto Carlos e Caetano Veloso são duas vertentes de um mesmo polo irradiador, no qual a vida brasileira trafega e transita com igual vigor a partir dos ricos atalhos dialógicos erigidos pela obra dos dois artistas. É como se a Força Estranha que vê o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino pusesse no riacho os pés que um dia a areia branca irão tocar, e era solto em seus passos, bicho livre, sem rumo, sem laços… por isso essa Voz, essa voz tamanha…

         Roberto & Caetano, Caetano & Roberto são como a água que nasce na fonte serena do mundo e que abre um profundo grotão… Gotas de água da chuva, alegre arco-íris sobre a plantação da MPB ! E assim como essa sinergia fina pode ser sentida na poesia de Guilherme Arantes também se vislumbra nas paralelas dos pneus pelas duas estradas nuas (RC e CV) em que nos encontramos com algumas das principais matrizes que configuram a riqueza do pulsar da identidade brasileira. Tema para futuro artigo nosso.

           Hoje, sorrindo, somos nós que choramos ao ouvir Roberto Carlos cantando cada vez melhor e simbolizando o notável Patrimônio Imaterial que atende pelo nome de Música Popular Brasileira.

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Roberto Carlos e suas letras primorosas: “Eu sei que flores existiram mas que não resistiram a vendavais constantes”…