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Dois Irmãos: Luiz Fernando Carvalho faz Poesia da obra de Hatoum

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Cauã Reymond, em papel difícil, reafirma imenso talento…

A minissérie que abriu o tradicional janeiro de grandes minisséries na TV Globo terminou ontem após 10 capítulos de uma produção com a assinatura prodigiosa e relevante de Luiz Fernando Carvalho (LFC).

DOIS IRMÃOS surge após a força dramático-imagética que foi a novela Velho Chico, também dirigida por Luiz Fernando, mas estava já gravada há 2 anos.

Trata-se de adaptação da obra homônima do escritor amazonense Milton Hatoum, adaptada por Maria Camargo. Conta a saga de uma família de libaneses residente em Manaus. O foco central da ação são os gêmeos Omar e Yaqub (vividos em 3 fases distintas pelos atores Lorenzo Rocha, Matheus Abreu e Cauã Reymond). Os gêmeos, desde garotos, vivem em disputa pela atenção dos pais, Halim (Antonio Caloni/Antonio Fagundes) e Zana (Juliana Paes/Eliane Giardini), e o amor da jovem Lívia (Monique Bourscheid/Bárbara Evans). Assim como no livro, a história é narrada por Nael (Ryan Soares e Irandhir Santos), filho de Domingas (Zahy Guajajara), um misto de agregada e empregada da família dos gêmeos.

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Quem acompanha o trabalho sempre instigante e competente de Luiz Fernando Carvalho já sabe: quando vem obra dele, vem produção esmerada, misto de beleza e reflexão, calmaria rítmica e avalanche emocional, músicas que evocam ou sublinham sentimentos que permeiam as emoções em relevo na trama, despertando uma polaridade que conjuga – com extrema delicadeza e pertinência – o claro e o escuro, o trágico e o alegre, o erótico e o rude, o avanço e retrocesso, o direito e o avesso, o sagrado e o profano, a beleza e o sombrio.

Em DOIS IRMÃOS – que a TV Globo lançou com o ótimo apelo “Assista a esse Livro !” – essa polaridade, ancestral e típica da vida, é moldura e conteúdo que Luiz Fernando Carvalho alcança e converte em refinada linguagem, traduzida em brilhante forma artística.

O duplo de cada personagem, das ações, dos acontecimentos, das reações, é dado precípuo da obra. Quem acompanhou com atenção, por certo lembrar-se-á dos momentos de pura euforia de Zana (a matriarca dividida entre Juliana Paes e Eliane Giardini), as nuances de Halim (Antônio Calloni e Antônio Fagundes), e o duelo permanente entre os gêmeos, com a recorrente polaridade evidenciando-se na eterna rivalidade entre irmãos, ademais sendo esses personalidades tão distintas, movidos por ódio e vingança desde muito cedo.

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Trabalho de caracterização foi tão perfeito que levamos um ‘susto’ quando o personagem Nael cresceu e apareceu com Irandhir Santos: parecia tratar-se do mesmo ator em idade mais avançada… Sensacionallll !!!

O escritor Milton Hatoum, amazonense autor do livro, deve estar muito feliz: as vendas de seu livro tiveram expressivo aumento após a estreia da minissérie, e sua obra agora ganha visibilidade nacional. E quem pode concorrer com o alcance da Televisão ? Ganhou Hatoum, ganhamos nós com esta Jóia da Teledramaturgia que é a minissérie DOIS IRMÃOS.

Mesmo já considerando, há tempos, LFC como um dos mais relevantes e competentes diretores de Teledramaturgia do país – costumamos dizer que “Todos os outros fazem novela; só Luiz Fernando Carvalho faz obra de Arte” -, o diretor sempre nos surpreende – positivamente – a cada novo trabalho.

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Que riqueza é assistir a uma obra assinada por LFC ! Que refinamento ele empresta a detalhes ! São pequenas pérolas encravadas em blocos de capítulos, perfazendo um total criativo cuja obra final deve equivaler mais que a um longa-metragem em esforço, trabalho e alcance, tal é o preciosismo na arquitetura cênico-imagética que facilmente identifica-se nas criações de LFC. O diretor é mestre na construção de um matelassê teleaudiovisual que evidencia uma enorme diversificação de intertextualidades, cujo acme é uma analogia constante, permanente, sutil e evidente entre as questões evocadas nas tramas e nas injunções que se desenrolam qual num tabuleiro de xadrez, complexo e inextricável, que esboça a realidade paradoxal e polarizada de um país perplexo ante tantas adversidades.

Em DOIS IRMÃOS é possível também identificar um diálogo com o clássico “O Tempo e os Conways”, do dramaturgo inglês J.B. Priestley, e ainda com O Jardim das Cerejeiras, do notável Anton Tchecov. Outros mais poderão ser aludidos. Esses me vêm à memória agora. O fato é: o sensório de Luiz Fernando Carvalho é pródigo em criar analogias, em promover diálogos, em promover alianças, mergulhando longe e fundo para emergir e iluminar a obra a qual ele está ‘construindo’ com matizes e texturas que apontam, insistentemente, para um universo multifário e poliédrico, pois assim esboça-se a sensibilidade do diretor, conforme o olhar mais atento pode perceber em suas notáveis criações artísticas. Nesse viés, Luiz Fernando Carvalho traz em seu arcabouço uma multiplicidade de influências, inspirações, estilos, e PERGUNTAS ( qual um garimpeiro, sempre em busca de novas pepitas preciosas) que o tornam um profícuo detonador de sentimentos e emoções aflorando em direções várias. É preciso ser muito tosco para não se sentir tocado pelos magnânimos quadros audiovisuais que LFC consagra às suas obras.

*Não sei o nome do clássico do cancioneiro mundial que encerrou a minissérie, mas que achado ! Mão na Luva, como diria Machado de Assis.

Assim, tendo essa ligação estreita e oxigenante com o dia-a-dia do país, é que Luiz Fernando – do alto de sua inquietação criativa – percebeu a ‘necessidade’ de alterar a edição dos capítulos finais de Dois Irmãos, ante a gravidade da rebelião de presídios acontecida em Manaus. Como disse o diretor em entrevista à colega Cristina Padiglione:

“Faz uns dez dias, estava editando a cena da morte de Halim, abatido sobre seu sofá cinza, mudo, cristalizado, perplexo diante das transformações que se iniciaram naqueles tempos, mas que chegam ao ápice nos dias de hoje! Na semana de estreia, assassinatos se multiplicaram nos presídios de Manaus, uma capital abandonada e praticamente esquecida, que entrou para o mapa mundi da tragédia da vida real e ficcional a um só golpe. Tudo se misturou na minha cabeça. Entendo a edição como algo móvel, dinâmico, como a vida. As improvisações continuam ali. Não trabalho com cartilhas. Meu olhar se interessa por estes acasos e espelhamentos. Os acontecimentos em Manaus modificaram a forma de editar os capítulos finais, sim. Senti a necessidade de incorporar à decadência, já posta no romance, a reflexão machadiana de que ‘o progresso já nasce em ruínas’. A edição se tornou mais crítica e política ao refletir o tempo que passa e sua ideia de progresso”.”

Um Viva muito grande e sonoro ao formidável elenco de DOIS IRMÃOS, no qual destacam-se as atuações de Juliana Paes, Antônio Calloni, Eliane Giardini, Antônio Fagundes, Irandhir Santos, e a criação impactante de Cauã Reymond, que esbanjou talento, sensibilidade e invejável profissionalismo.

*Bom rever Michel Melamed, Isaac Bardavid, Ary Fontoura, Maria Fernanda Cândido e Carmen Verônica.

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PARABÉNS ao maestro Luiz Fernando Carvalho e a toda a fabulosa equipe que com ele tornou possível a realização exponencial de DOIS IRMÃOS ! Uma obra que nos enche de admiração por sua riqueza como criação teleaudiovisual, e também por nos relembrar que, no Brasil, há sim motivos muitos para nos orgulharmos, conforme ficamos ao sermos partícipes de um tempo em que se produz obra tão digna em meio a tantas coisas que nos envergonham neste Brasil dos anos 2000.