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Viajando Teatro…

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José Celso Martinez Corrêa amplia seu polêmico Teatro Oficina através do projeto Dionisíacas em Viagem.

Quatro peças vão circular por 10 meses pelo país e poderão ser vistas por platéias de até 25 mil pessoas por sessão. São sete estados, entre eles Bahia, Amazonas e Pará.

 

PERMANÊNCIA de HÉLIO OITICICA

Em 1979, o penetrável Nas Quebradas (PN28), “assimilação das construções das favelas”, como define o curador Fernando Cocchiarale, foi instalado num galpão em São Paulo por Hélio Oiticica. Tal como definia o artista sobre essas instalações, era um labirinto sem teto, “espaço livre” para o “participador” entrar, caminhar, ter uma “visão e posição diferentes” do que seria a obra – e agora, o Nas Quebradas renasce e retorna à cidade, abrigado dentro do Teatro Oficina (foto abaixo).

“O penetrável vai ser incorporado às nossas peças”, diz a atriz Camila Mota, integrante do grupo do diretor José Celso Martinez Corrêa. A partir da abertura da exposição Hélio Oiticica – Museu É o Mundo, realizada pelo Itaú Cultural, Nas Quebradas poderá ser experimentado pelo público e, em abril, a instalação vai integrar as apresentações dos espetáculos Taniko, Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!, Bacantes e O Banquete.

Nas Quebradas (PN28). Penetrável de Oiticica com “assimilação das construções das favelas”

Ainda, de frente para o Teatro Oficina, Oiticica estará presente: sete de seus Cama-Bólide, caixas de madeira com tendas criadas em 1968 que, como o título, se transformam em camas, ficarão abrigados na Rua Jaceguai. “É o mais imprevisível dos trabalhos”, diz Camila Mota – naturalmente, as obras estarão à disposição dos mendigos da região. “Nosso objetivo de atuar com os bólides era inventar algo criativo para lidar com o problema de falta de moradia“, continua a atriz.

Antiarte. O anarquista e “marginal” Hélio Oiticica – que tinha uma vida social no Morro da Mangueira e, como “amigo bandido”, o Cara de Cavalo. Em 1965 foi expulso da abertura da mostra Opinião 65 do Museu de Arte Moderna do Rio por levar ao evento os integrantes da escola de samba Mangueira vestidos com parangolés (as capas coloridas que eram a pintura-viva do artista) – ficaria satisfeito se hoje presenciasse suas obras no bairro do Bixiga.

“Antiarte é a proposição da fusão criador-espectador”, disse Hélio em 1966. “Sua vivência no morro não foi a de um sociólogo, mas verdadeira e íntegra”, diz Cocchiarale, completando que a postura política do artista era “libertina”, voltada para a “revolução comportamental do indivíduo”.

Perenidade de OITICICA confirma magnitude do Artista

Ao mesmo tempo em que um trabalho de 1968 como o Cama-Bólide seja atual e provocativo, a inauguração da mostra do artista, no sábado, no Itaú Cultural, já revela que alguma coisa mudou: 13 integrantes da Mangueira vestidos com parangolés foram convidados pela instituição para abrir a exposição e isso, agora, não causa mais estranhamento (a abertura ainda contará com participação do músico Jards Macalé e de integrantes do Teatro Oficina). Inevitavelmente, como afirma Cocchiarale, o mercado, “como absorve tudo”, incorporou a antiarte de Oiticica, valorizando suas obras, hoje presentes em renomadas instituições internacionais. Inevitavelmente, ainda, o incêndio, no ano passado, que destruiu obras do artista (leia abaixo) contribuiu para elevar ainda mais seus preços.

MACALÉ nas Telas

 Uma das histórias a respeito de Jards Macalé dá conta de que puseram esse nome artístico nele porque o compositor jogava futebol tão mal quanto o jogador Macalé, do Botafogo. O público vai poder tirar a prova em Jards Macalé – Um morcego na porta principal, documentário que chega ao circuito amanhã (assista ao trailer) . O músico joga bola numa das cenas do filme, que traz entrevistas com o próprio e com gente que fez parte da vida e da carreira de Macalé, como Maria Bethânia, José Celso Martinez Corrêa e Gilberto Gil. Com direção e roteiro de Marco Abujamra e do jornalista do GLOBO João Pimentel, o documentário ganhou o prêmio especial do júri do Festival do Rio de 2008.

Jards Macalé foi filmado em 2002 e 2003, e partiu da vontade de Pimentel de falar do seu antigo vizinho.

– O Macalé morava perto da casa dos meus pais, e um dia eu quis fazer aula de violão com ele. Apareci na casa dele, fiquei tocando a campainha e nada; até que ele, que estava dormindo, apareceu de cueca, tomou meu violão e fechou a porta na minha cara – lembra Pimentel.

Um pouco desse temperamento do músico está na tela, em histórias como a que Dori Caymmi conta. Ao modificar um acorde numa música de Jards Macalé contra sua vontade, Dori foi surpreendido por um Macalé muito enraivecido, que entrou num lotação onde ele estava e gritou para todos os passageiros ouvirem que ele o “tinha traído com aquela mulher”, como se os dois tivessem um romance.

O filme traz Yards Mahatkalef – como o músico diz que é seu nome em árabe – sendo entrevistado por Jaguar e lhe contando como foi expulso de quatro colégios; fotos de álbuns de família; e trechos de filmes em Super-8 do tempo em que morou em Londres com Caetano Veloso. Há ainda Nelson Pereira dos Santos falando das trilhas que o músico fez para filmes seus, como “O amuleto de Ogum”, em que Macalé também atua.

Jards Macalé levou Pimentel e Abujamra a entrevistarem cerca de 50 pessoas; em torno de 20 entraram na obra.

– Uma das nossas grandes dificuldades foi o fato de não haver material sobre o Macalé. O que líamos sobre ele eram sempre curtas referências em obras sobre outros. Então tivemos que ir atrás de muita gente, para formar um material de pesquisa – conta Marco Abujamra.

Essa ausência de material talvez seja explicada pelo modo como ele preferiu conduzir sua carreira, acrescenta Abujamra:

– Ele atravessou o Opinião, a época dos festivais… Produziu um dos mais importantes discos do Caetano, “Transa”, e foi com ele para Londres. Mas não se fixou a nenhum grupo. Poderia ter feito isso com o tropicalismo, por exemplo, quando Bethânia e os outros baianos frequentavam a casa dele. Mas o Macalé sempre pautou a trajetória dele em cima de princípios próprios, não fez concessões mercadológicas e sempre teve personalidade forte, que não permitia interferências no seu trabalho. Depois desse documentário, o que a gente pôde concluir é que ele faz só o que está com vontade de fazer.

* Texto de Alessandra Duarte