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Filme de Luis Rocha Melo e Anna Ballalai é bem recebido pela crítica

um homem e seu pecado

Depois de ter lotado sua sessão de estreia na Cinemateca do MAM carioca, o filme Um Homem e seu pecado, de Luis Rocha Melo, vem ganhando muitos elogios e críticas favoráveis de diversos profissionais de cinema.

Uma dessas críticas, a do cineasta Leo Pyrata, de Belo Horizonte, você confere aqui no #blogauroradecinema:

UM HOMEM E SEU PECADO

Leo Pyrata*

Um homem e seu pecado é o mais recente longa-metragem de Luís Rocha Melo e mais um fruto de sua parceria com Anna Karinne Ballalai dividindo roteiro, montagem e produção entre outras funções na fita. Antes de falar do filme, é prudente falar um pouco do cinema de Luís Rocha Melo e de seu modo de produção calcado no cinema de guerrilha gerando resultados singelos e bastante inventivos. Assim como em seu longa anterior Nenhuma fórmula para a contemporânea visão do mundo (2012), é importante ter em conta a intertextualidade oswaldiana e buscar a experiência de “ver com olhos livres” o filme. É preciso lembrar que estamos diante de um filme de cinema que não se prende às condições engessantes de produção subordinadas à existência de uma volumosa equipe de cinema, com grande aparato e departamentos, em que o set vai fechando vias nas filmagens externas. Estamos no território mais intimista caro ao cinema documentário de equipe reduzida, realizando ficção à luz e efeito das intempéries possíveis nesse caminho. Na linha daquele que Marcelo Ikeda e Dellani Lima chamaram de “cinema de garagem” e com um dado importante a ser levado em conta: as ruas são também um personagem e estão bem presentes no filme. O desenha a movimentação dos personagens aqui, e era algo que já me agradava bastante também no Nenhuma fórmula. O que é algo por si só bem agradável de ver, pois, na maioria das vezes, filmes que seguem esse modo de produção tendem a se isolar em locações fechadas, onde existe um maior controle. A mise-en-scène flui de forma melíflua e se organiza coletando planos cuja beleza orbita na esfera do possível, ungido pelo inventivo, e sem com que o frescor, o rigor e a beleza sejam negligenciados.

O primeiro plano do filme apresenta um crucifixo iluminado de forma que a luz projeta um triangulo pélvico estabelecendo uma síntese do conflito entre o sacro e o mundano. No contraplano, ajoelhado, está Lívido, interpretado por Pedro Henrique Ferreira. Um batedor de carteiras individualista que trabalha numa livraria com uma apatia quase estoica. Ele tem fixação por relógios e símbolos cristãos, como igrejas e crucifixos. Começa o filme de joelhos, rezando, suplicante, e, momentos depois, transa de forma truncada e sôfrega com uma moça que faz um desenho dele. Neste começo há mais nudez do que o recorrente no cinema brasileiro atual. A maneira com que ele se comporta no mundo também produz um incômodo deslocamento, que é vital para sua enunciação enquanto personagem de ficção. Muito dessa força se traduz tanto em seu olhar quanto na maneira com que ele flana pela cidade, como, por exemplo, na cena dos créditos de abertura, onde ele caminha como um Nosferatu do Brasil desprovido do “joie de vivre” tropical. O modo como Lívido caminha é peculiar e parece retraído como se o personagem usasse um cinto de castidade, e essa sensação será reiterada ao longo do filme.

Em seu ambiente de trabalho formal, Lívido é indagado por um cliente da livraria sobre a possibilidade de se encomendar um livro de Kafka. O tratamento da cena é kafkiano e, no desenrolar, Lívido embolsa para si o dinheiro da encomenda. O que já abre para a especulação do espectador: Lívido busca, ao jogar com o livre arbítrio, talvez conscientemente, a autossabotagem com o intuito de obter alguma reviravolta que faça com que ele consiga sentir alguma coisa. Um detalhe aí é que o livro em questão é Na Colonia Penal, e por conta dele é necessário um parêntese.

No livro Na Colônia Penal de Franz Kafka, uma paródia da ideia de pecado original surge na observação do oficial: “Nunca se deve duvidar da culpa”. Na Colônia Penal foi um livro influenciado pela novela O Jardim dos Suplícios, do escritor francês Octave Mirbeau, uma das grandes obras da literatura decadente. A segunda parte da novela se passa na China, na penitenciária de Cantão. A descrição minuciosa das torturas e seus instrumentos expostos ao ar livre num bosque, produz um contraste feérico perante as flores cultivadas no jardim que dá nome ao livro. Instrumentos de sofrimento salpicando a paisagem paradisíaca com lembranças infernais.

Lívido parece estar sempre deslocado nos espaços que habita perante a câmera. Uma angústia sóbria pontua seu gestual e a maneira com que ele se relaciona com o espaço e interage nos bares – afinal ele carrega culpa enquanto batedor de carteiras. O cinema já explorou a riqueza do gestual do batedor de carteira e suas relações estreitas com os truques de mágica, pois ambas abusam da sugestão do misdirection, mas no caso de Lívido vemos mais os efeitos da tensão. E a paranoia que os delitos produzem no bar onde ele vai beber se explicitam na troca de olhares com o policial, como se no fundo a verdadeira pulsão que busca nessa atividade é a de encontrar alguma forma de punição. Cabe comentar que a decupagem é bastante sofisticada e muito engenhosa no modo como apresenta os personagens e na maneira carinhosa com que filma o boteco, trazendo aqui à lembrança Fulaninha, de David Neves.

Não demora muito e Lívido é demitido da livraria pelo proprietário, Doutor Salles (interpretado por Roman Stubalch em sua última participação em um filme), por conta de seu comportamento de apatia extrema. Evento que não causa em Lívido nenhuma reação ou mesmo surpresa. Depois disso, Lívido é agredido por um homem na rua e novamente não esboça nenhuma reação diante da situação, que é tratada por ele de forma resiliente e passiva. O que deixa no espectador a impressão de algo como a serenidade de um jardineiro confiante diante do germinar de uma semente plantada. Sua deambulação continua no signo da inércia e é interrompida com um encontro inusitado com o poeta Charles Baudelaire, interpretado por Hernani Heffner, que numa paráfrase livre do poema em prosa Enivrez-vous, conclama que Lívido se embriague de vinho, virtude ou poesia para não ser um escravo martirizado do tempo.

Este evento é determinante para que Lívido resolva ir de encontro ao pai e para isso ele escreve para Victoria, sua irmã, interpretada por Anna Karinne Ballalai, propondo que eles visitem o pai, Doutor Gomes, por ocasião de seu aniversário de setenta anos. Lívido vai até o convento onde vive Victoria e a convence a fazer a viagem com ele. Os dois partem para Barra de São João, cidade onde foram criados, para um provável acerto de contas com o passado. A mudança radical do figurino de Victoria após abandonar o hábito religioso caracteriza uma forte metanoia reversa e abre espaço para conjecturas acerca dos pormenores de seu claustro.

A sequência da chegada em Barra de São João traduz em seus planos com frescor a maneira com que o filme enfrenta as ruas com desembaraço, e ali orbita seu universo respirando através de seus personagens. Antes do retorno dos filhos ao encontro do pai, há um encontro alegórico com a ruína numa pequena pausa onde Lívido se recompõe aguardando Victoria. As ruínas onde habitam os bichos de saturno – afinal a natureza onde se imprime a imagem do processo histórico é a natureza decaída. O estado da estória se funde com o cenário de forma concreta – afinal, a presença incontornável da ação do tempo segue reduzindo lembranças e demolindo fachadas condenadas aos escombros da memória. E desse índice sutil de mortificação, o efeito sobre Lívido se traduz da maneira travada, que seu caminhar e sua expressão corporal assumem conforme vai se aproximando o momento de reencontro com o pai. Movimento de retorno às origens e acerto de contas com o passado. Um mergulho como gesto de renovação da própria vida. Dados os detalhes da narrativa, cabe ao espectador mergulhar no gesto praticado pelo cinema proposto aqui por Luís e Anna, e corporificado também por Pedro. Afinal, é no corpo em cena que habita o cinema também. O encontro de Lívido com o pai, Doutor Gomes, interpretado por Otoniel Serra (irretocável em seu último papel no cinema), um personagem incrível que parece sufocar o filho de forma carinhosa, conduz o convívio entre eles para as raias do insuportável e situa de forma coesa o conflito que paira sobre Lívido. É provável que sua determinação em entender e ajudar o filho acabe, por linhas tortas, encaminhando-o e conduzindo-o ao seu renascimento. A figura religiosa e solar do pai bloqueia o desejo incestuoso que Lívido manifesta pela irmã, num sonho e na cena onde visitam o túmulo materno. O fato de Lívido se negar a verbalizar seus problemas o acaba jogando para o campo da ação através de um gesto violento contra o pai, na mesa de almoço após um momento de oração, onde ele se nega a dizer amém. O evento também liberta Victoria e os separa. Ainda que o rompimento paterno seja compartilhado, fica evidente que a atração entre eles está mais na cumplicidade que no desejo. Uma vez livre e alcançado seu retorno de saturno, vemos Lívido num observatório, ainda batendo carteiras, mas agora livre do peso da atração culposa que sofria pela ascendência do pai.

Pode-se apontar em Um homem e seu pecado ecos da fase derradeira de David Neves na forma segura, desembaraçada, serena e tranquila com que as situações são colocadas em cena, suavizando um pouco a dramaticidade barroca da premissa. Este tratamento cuidadoso proporciona ao espectador uma experiência ímpar na cinematografia brasileira contemporânea.

*Leo Pyrata é cineasta. Realizou, entre outros filmes, o premiado curta Imhotep e o longa-metragem Subybaya.