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O lado B de Hollywood pelo crítico LG de Miranda Leão

O crítico L.G. de Miranda Leão reconstitui a história das produções B e sua contribuição para a Sétima Arte

Em 30 de abril passado, neste Caderno 3, publicamos texto sobre o valor intrínseco dos filmes “noir” (Luz sobre Sombras) e do “thriller”,louvando-os em seu conjunto e no legado das influências individuais deixadas pelos cineastas dos anos 40/50, um dos quais, Robert Siodmak, está a merecer uma homenagem póstuma por sua contribuição à arte do cinema. Tratamos hoje dos filmes B, nos quais, mesmo com baixo orçamento e dificuldades outras, foi possível fazer alguns filmes sugestivos de sua importância.

Cena de “Detour”, um filme de Edgar G. Ulmer…

Afinal, como conceituar o filme B, denominado pelos americanos de “B movie”? Um celuloide de orçamento modesto geralmente exibido como o segundo filme de um programa duplo, o chamado “double feature” ou “double bills”. Os B movies começaram a aparecer regularmente nas telas americanas em 1932 e foram a norma e não a exceção em 1935. O fenômeno do filme B, como se sabe, foi gerado pela forte demanda por um entretenimento pouco dispendioso durante a Depressão de 1929 nos EUA e pela necessidade dos grandes estúdios de Hollywood (e nem eram tão grandes assim) para manter suas cadeias de exibição de filmes supridas com uma programação constante. Havia pouco lucro, mas também pouco risco na produção de filmes B, como registra Gerald Mast em seu “The Studio Years”.

“The Man from Planet X, de Edgar G. Ulmer

 

Quanto aos filmes A, isto é, produções mais ricas no topo das “double bills” eram exibidos na base de um percentual dos ganhos das bilheterias, enquanto os filmes B eram arrendados por uma taxa básica de juros (“fixed flat rate”) sem levar em consideração a frequência de espectadores. À medida em que os maiores estúdios gradualmente perdiam interesse no filme B, surgiu uma proliferação de pequenos estúdios independentes (coletivamente conhecidos como Poverty Row fila da pobreza), Gower Gulch (ravina aurífera do poeta inglês John Gower) ou B-Hive (enxame de abelhas) especializados na produção de filmes B por um lucro pequeno mas quase sempre garantido. Os principais estúdios B foram chamados Republic e Monogram, mas havia muitos outros, incluindo-se nomes agora esquecidos como Grand National, Mascot, PRC (Producers Releasing Corporation), Tiffany, Sono Art-World Wide, Chesterfield, Victory, Invincible, Ambassador-Conn, Puritan e Majestic.

O ator Boris Karloff, em “The Body Snatcher”, de Robert Wise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Produção dos Estúdios B

Na luta para consolidar-se, os estúdios B começaram a produzir seus filmes com velocidade surpreendente como compensação pela perspectiva de lucro insuficiente por cada filme concluído. O típico filme B, como já frisamos, era um filme curto (o chamado “quickie”) feito num orçamento do tipo “bargain-basement” com “coolies” (trabalhadores braçais, indianos ou chineses) sob condições e horas de trabalho extremamente apertados para filmagens, enquanto os diretores (e futuros cineastas) dispunham de pouco tempo para inspiração ou criatividade. Esses filmes eram tipicamente de gênero com um conceito de fórmula, com maior frequência um melodrama criminal ou um Western, mas muitas vezes uma despretensiosa comédia tipo “lowbrow”, um romance leve ou um filme de horror ou fantasia de ciência-ficção.

Cartaz de filme do cineasta Rudolph Maté…

No todo, o filme B era tratado pelos críticos do “establishment” com o maior desprezo, isso quando os roteiros chegavam a ser lidos e, na verdade, a grande maioria dos milhares desses filmes produzidos por baixo preço e filmados ao longo dos anos mereciam ser mesmo ignorados. A maioria deles era mesmo mal escrita ou mal roteirizada, presos a fórmulas desgastadas e direção padrão, com falsos cenários de papelão, pano de fundo e uma cinematografia indiferente, traindo suas origens humildes. Nada obstante, de tempos em tempos a fábrica do B Pictures chegou, pasmem os leitores, a produzir verdadeiras gemas e até mesmo clássicos menores, segundo consta na análise feitas por analistas da época. Houve alguns realizadores expatriados, ansiosos para trabalharem nos EUA, e diretores admirados e de talento. Muitos tinham afinidades com a arte do século, outros já conheciam a importância das imagens em movimento e do que poderiam sugerir, outros primavam pela síntese visual com desprezo pelo supérfluo, outros ainda pela importância da luz e dos movimentos de câmara.
Assim, cineastas como Val Lewton, Edgar G. Ulmer, Andre de Toth, Rudolph Maté e, muito depois, Roy Rowland são alguns dos nomes de “filmmakers” que de alguma forma conseguiram atuar com nobreza dentro do sistema da “fábrica” de filmes B e criar muito boas realizações plenas de ação e atmosfera, com atores de categoria interpretando personagens incomuns e recriando fórmulas através de inventividade, competência e afinidade com a arte.

Fim do “Double Feature”

Em 1948, a decisão antitruste da Suprema Corte dos EUA forçou os principais estúdios a desfazerem-se de suas próprias cadeias teatrais, considerando o crescimento concorrente da TV e a crescente sofisticação dos frequentadores das salas de cinema. A decisão histórica de 1948 sinalizou o fim do “double feature” e também o declínio do filme B. Películas de baixo orçamento continuaram a ser feitos, enquanto as novas fábricas de filmes B, como a Allied Artists e a American International Pictures (AIP), emergiram da cena hollywoodiana. Mas a era do grande filme B, capaz de produzir milhões de fotogramas (ou suportes) desperdiçados, e também de alguns memoráveis e despretensiosos pequenos filmes de qualidade, tinha desaparecido no início dos anos 50 ou mesmo pouco antes disso. Chegaram outros tempos e com eles a nostalgia que marcou de forma indelével a juventude desaparecida de milhares de cinéfilos. Fomos um deles.

* L. G. DE MIRANDA LEÃO é crítico de CINEMA com mais de 50 anos de atividade ininterrupta, e autor dos livros ANALISANDO CINEMA e ENSAIOS DE CINEMA, ambos encontráveis na Livraria CULTURA.

Cinema, a Arte do século ?

 

“O cinema é a fotografia em movimento, mas a fotografia elevada a uma unidade rítmica plena de significados”…

O pesquisador, professor e crítico de cinema, L.G. de Miranda Leão, escreve sobre o reconhecimento do cinema como Arte.

 Voltamos ao velho tema sobre se cinema é realmente a arte do século. Claro, há décadas o cinema tem sido definido como tal, e vários autores o colocam como arte dinâmica ao lado das artes estáticas. Afinal, costuma-se perguntar: como conceituar arte? Não é do escopo destas linhas entrar no labirinto das definições. Mas, das várias e complexas, uma das mais simples, sem dúvida, é aquela do saudoso J. R. Capablanca, ex-campeão mundial de xadrez, segundo o qual “a arte consiste na transformação de uma boa ideia em matéria”. Imaginemo-nos como um comerciante ou produtor de filmes. Sabedores de um drama vivido por um casal de amigos em dificuldades econômico-financeiras, logo pensaríamos em ajudá-los. Essa ajuda poderia ser contratar um bom roteirista e aplicar os nossos recursos disponíveis para levar a bom termo esse apoio aos amigos. Feito o filme, com razoável retorno e possibilidades de ajudarmos a quem precisa, teríamos transformado a ideia de ajuda em matéria. Este é apenas um exemplo banal da definição de JRC. Quanto a definir cinema como 7ª Arte, apoiemos-nos no crítico e teórico italiano Ricciotto Canudo (1877 – 1923), nascido em Gioia delle Calle na Itália. Foi ele quem classificou e difundiu as artes, começando, segundo alguns registros, com a música, dança, pintura, arquitetura, teatro e literatura, vindo depois a 7ª (cinema) e a 8ª (a fotografia). Após fixar-se em Paris, em 1902, Canudo tornou-se figura líder da vida cultural francesa, atuando como anfitrião de artistas como Pablo Picasso (1881 – 1973), Raoul Dufy (1877 – 1953) e Fernand Léger (1881 – 1955). Quando começou a escrever suas análises críticas sobre arte e o cinema mudo em 1907 como meio de expressão, Canudo propiciou uma base para o subsequente pensamento europeu sobre a estética do cinema. Pois foi ele, no fim de contas, quem cunhou a frase “7ª Arte” para descrever a nova arte. Assim fundou em 1920 o Clube dos Amigos da 7ª Arte em Paris e em 1923 planejou a realização de um filme mudo em colaboração com a figura marcante de Marcel L´Herbier (1888 – 1979), proeminente realizador impressionista do “avant-garde” com influência sobre vários diretores do período, notadamente o brasileiro Alberto Cavalcanti (1897 – 1982) e Claude Autant Lara (1903 – 77). Coube, aliás, a L´Herbier fundar o IDHEC, a famosa escola francesa de cinema. Em 1954, dirigiu L´Herbier vários filmes para a TV francesa, um dos quais o instigante “La Citadelle du Silence”, de 1937, exibido depois nos cinemas de Paris. Discordância O renomado teórico Ralph Stephenson, autor de “The Cinema as Art”, obra exponencial com J. R. Debrix, discorda da classificação de Canudo segundo a qual o cinema é a fusão de três artes do espaço (pintura, arquitetura e dança) e de três artes do tempo (música, teatro e literatura). A proposição de Canudo tem sido usada para mostrar que o filme não é uma arte em seu próprio direito, mas o argumento do italiano não convence. Para Stephenson, o cinema não é apenas a soma dessas seis artes, mas algo novo e diferente de todas elas. Apesar, disso, a lista pode servir para ilustrar a complexidade dos elementos que a compõem. Para concluir, convém distinguir entre fotografia (a 8ª arte) e cinema. Valemo-nos de uma definição do saudoso Stanley Kubrick, realizador de alguns dos filmes mais importantes do século XX. Para SK, “o cinema é a fotografia em movimento, mas a fotografia elevada a uma unidade rítmica plena de significados, e esta, em troca, tem o poder de gerar e ampliar nossos sonhos e pesadelos”. Isso porque, como escreveu o filmólogo Román Gubern, “um filme é como uma simulação involuntária do sonho; quando as luzes do ambiente se apagam, a noite invade a sala de cinema, é como o ato de fechar os olhos: começa então na tela e no próprio interior do homem a incursão na noite do inconsciente; as imagens, como no sonho, aparecem e desaparecem, dissolvem-se e escurecem, o tempo e o espaço tornam-se flexíveis, retraem-se e dilatam-se à vontade, a ordem cronológica e os valores relativos à duração já não correspondem à realidade…”. Eis a riqueza da 7ª Arte!

L.G. DE MIRANDA LEÃO

Ensaios de Cinema em Debate

LG de Miranda Leão, ensaísta, crítico de cinema, jornalista e professor aposentado de Língua Inglesa e Literatura Americana tem encontro marcado com o público hoje, a partir das 18h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza.

 

Na pauta, o programa TROCA DE IDÉIAS, onde vai debater pontos abordados em seu mais recente livro – ENSAIOS DE CINEMA (edital Cultura da Gente do BNB) -, e responder a questionamentos da platéia.

Uma ótima oportunidade para ouvir o crítico, conversar com o eminente professor e trocar idéias sobre assuntos relativos à Sétima Arte. 

 

De graça, no CCBN Fortaleza, hoje, 18h…

Mais informações: (85) 3464.3108 

Deu na Sônia Pinheiro…

* Reproduzindo notícia publicada sexta, 8 de outubro, na coluna da jornalista Sônia Pinheiro

TELONA

Depois de articular o júri da edição 6 do Festival de Cinema Latino-Americano de Canoa Quebrada (Curta Canoa), a jornalista & atriz Aurora Miranda Leão já tem convite para compor a comissão julgadora de outros dois festivais: em Goiânia e no Piauí.

 

Nestes festivais, Aurora lançará o novo livro -Ensaios de Cinema, coletânea reunindo alguns dos mais consistentes textos sobre a sétima arte- de seu pai, o crítico LG de Miranda Leão.

 

Patrocinado pelo edital Cultura da Gente, do Banco do Nordeste, o livro tem prefácio do jornalista Rubens Edwald Filho, e será lançado também no FestCine Natal, início de dezembro.

BNB Clube Realiza Campeonato Anual de Xadrez

 

XADREZ – Campeonato Anual Será Terça

O XXVII Campeonato Anual de XADREZ, o fabuloso jogo da inteligência no Tabuleiro, acontece na próxima terça, 17, a partir das 19h, no Salão Capablanca do BNB Clube, em Fortaleza. Serão disputadas 7 rodadas, três vezes por semana (terça, quinta e sábado), começando sempre às 19:30h.

            O torneio selecionará os mais bem colocados para participação na próxima edição do Torneio Memorial CAPABLANCA, a mais  importante e tradicional competição enxadrística do Norte e Nordeste, a ser realizada em novembro em sua XXV edição. Na organização, o prof. LG de Miranda Leão, com apoio de Adelson Belchior Chaves, diretor –geral de Esportes do BNB Clube.

Quem quiser conferir, a entrada é gratuita.

Mestre Raúl Capablanca, homenageado no Torneio anual promovido pelo BNB