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Um Pouco de História e Cinema Argentino

Quando o cinema do país platino conquista o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 com El Secreto de sus Ojos, de Juan José Campanella, já exibido em Fortaleza, nada tão pertinente quanto o crítico abordar, mesmo a vôo de pássaro o cinema argentino, de ontem e de hoje, e também um pouco da história dos nosso vizinho

Colonizada pelos espanhóis no século XVI e em luta desde então por maior liberdade comercial, e inspirados nas revoluções americanas (1776) e francesa (1789), os chefes crioulos (brancos nascidos nas América espanhola) reuniram-se e organizaram um movimento de emancipação sob liderança de José de San Martin, a qual culminou com a deposição do vice-rei espanhol (1810) e depois de muita luta com a declaração formal de independência (1816). A Argentina também desempenhou papel-chave na derrubada do domínio europeu no restante da América do Sul. Depois de um período de poder semiditatorial, o país emergiu como república democrática em meados do século XIX, mas desde então tem tido problemas recorrentes com a estabilidade política, periodicamente caindo sob domínio militar. 194 ou 200 anos de independência, pouco importa: os argentinos podem orgulhar-se da ruptura com o jugo espanhol, mesmo se o país não conseguiu desfrutar de uma unidade interna, como veremos mais adiante.

Breve histórico cultural

Neste ponto, cabe lembrar a origem da palavra argentina-argentine, do Francês Intermediário argentin, do Francês Antigo argent (silver, em inglês) + in-ine, donde argênteo (prateado, de prata), porque o distrito do chamado Rio da Prata (silver river) exportava o metal. Em verdade, juntamente com o ouro, o irídio, o paládio e a platina, a prata é um dos chamados metais preciosos, devido principalmente à sua relativa escassez, maleabilidade e resistência à oxidação atmosférica.

A República Argentina, só para aguçar a memória dos leitores, ocupa a maior parte meridional da América do Sul entre os Andes a oeste e o Oceano Atlântico a leste. Está limitada pelo Chile (ao sul e a oeste) pela Bolívia e Paraguai (ao norte) e pelo Brasil e Uruguai (a nordeste). Naturalmente muito se poderia escrever neste Caderno sobre a paisagem argentina, suas principais regiões, grupos populacionais, demografia, economia nacional, governo, educação, saúde e bem-estar, instituições culturais e aspectos psicossociais e políticos, notadamente no tocante à fragilidade das instituições democráticas em vários períodos de sua existência, às vezes conturbada, sabendo-se do esforço de alguns poucos líderes democratas para continuar a sustentar instituições governamentais viáveis. Pois uma característica da história argentina tem sido uma tensão crescente, com freqüência irrompendo em violência entre a Buenos Aires e o restante do país.

Aspectos político-sociais

Originariamente vinculada ao vice-reinado do Peru, a Argentina tornou-se em 1776 parte do então recém-criado vice-reinado do Rio da Prata com sua Capital em Buenos Aires. Em suma, o país caracterizava-se por cidades europeizadas e um grande interior amiúde atrasado em seu desenvolvimento. A economia argentina tinha como fulcro a exportação de carne bovina de primeira, uma de suas principais indústrias, mas tem havia crescimento recente de têxteis, plásticos e a indústria de engenharia e desenvolvimento de recursos minerais naturais, particularmente cobre. Substanciais depósitos de petróleo e gás ocorriam em várias partes do país e eram de suma importância para as indústrias em plena capacidade operacional. O país crescia a olhos vistos. República democrática em meados do século XIX, desenvolveu-se na Argentina, de 1825 a 1850, uma confederação de províncias sob a liderança de Juan Manuel Rosas, adotando-se três anos depois uma nova Constituição com a qual Buenos Aires se tornou um distrito federal. A partir de 1880 prosperou uma economia razoavelmente estável baseada na exportação de grãos e carne bovina. Já nos primeiros anos do século XX a Argentina passou a ser governada por uma coalisão de grupos conservadores, os quais elegiam os presidentes, como Julio Argentino Roca, figura dominante daquele tempo. Uma crise econômica em 1890 resultou no surgimento do Partido Radical, o qual assumiu o poder em 1916 e nele permaneceu até 1930, quando o Presidente Hipólito Irigoyen foi deposto pelo exército. De novo, sob governança conservadora até 1943, em plena II Guerra, a Argentina permaneceu politicamente instável e um processo ditatorial elegeu presidente o General Juan Domingo Perón (1895-1974), oficial de carreira do exército.

A famosa Casa Rosada, sede do Governo …

Perón e Evita

Perón assumiu o poder em 1946 e foi reeleito para novo mandato em 1951, não só pelas medidas adotadas para melhor distribuição da renda nacional como porque fortaleceu o movimento operário. A inegável popularidade de Perón se devia mais ao apelo carismático de Eva Perón, sua mulher. Depois da morte dela em 1952, a popularidade de Perón declinou rápida, particularmente após entrar em conflito com as hierarquias militares, o clero católico e as classes economicamente privilegiadas. Em 1955 Perón foi forçado a exilar-se na Espanha. Mas, com a “ressurreição” da poderosa força política do Partido Peronista, o caudilho retornou ao poder em 1973, somente para morrer menos de um ano depois. Com seu desaparecimento, sucedeu-o sua viúva, a vice-presidente Maria Estela Martinez de Perón, deposta aliás pelo exército em março de 1976.

De então a esta parte o painel histórico da argentina já se tornou mais conhecido dos leitores. Assim, o general Leopoldo Galtieri (22 dez 1981/18 jun 1982) presidiu a Argentina e tentou retomar as ilhas Malvinas (ou Falklands, para os ingleses) e enfrentou uma guerra desastrada. Seguiram-se-lhes Fernando de La Rúa (dez 1999 a dez 2001), depois Raul Ricardo Alfonsin (1983-1989), Carlos Saul Menem (1989-1995 e 1995-1999), Nestor Kirchner (2003-2007) e sua mulher Cristina (2007-).

Sobre Raul Alfonsin

De todos os presidentes argentinos cumpre destacar Raul Alfonsin, democrata, humanista, inimigo das torturas e dos torturadores, reconhecido aliás por sua contribuição institucional e por haver restabelecido a plena vigência das instituições republicanas e dos direitos e garantias individuais. Não admira ter dito alto e bom som esta frase lapidar: “A democracia argentina foi sempre interrompida pelos golpes militares. É preciso pôr um fim nisso”.

Os maiores responsáveis pelas violações dos direitos humanos durante o regime militar (a tal “guerra suja” da qual resultaram milhares de desaparecidos políticos) foram julgados e condenados pela justiça. Mas Alfonsin teve de ceder às pressões de setores militares (temia ele um atentado?) e às contradições do seu partido e impediu o julgamento de outros responsáveis por graves violações dos direitos humanos ao promulgar as leis do “Ponto Final” (mecanismo de prescrição antecipada) e “Obediência Devida” (a culpa dos responsáveis por atrocidades cometidas). Mas o Congresso Nacional considerou nulas essas leis em 2003, finalmente declaradas inconstitucionais pela Corte Suprema em 14 de julho de 2005.

Advogado e político argentino respeitado, e uma das figuras mais importantes da história do seu partido, a União Cívica Radical, Alfonsin opôs-se à guerra das Malvinas e ao oficialismo partidário representado por Fernando de La Rúa, a quem derrotou para presidente da República. Também denunciou o pacto militar-sindical vinculado à Junta Militar. Na convenção do Partido Radical, Alfonsin derrotou o jornalista Ítalo Luder e logo assinou o Tratado de Paz e Amizade com o Chile, pondo fim a uma disputa de limites. Mas Alfonsin não conseguiu resolver os graves problemas econômicos enfrentados pelo país, neles incluída uma taxa anual de 343% em 1988 e superior a 3000% para 1989, apesar de haver adotado a Plano Austral com a substituição da moeda. Alfonsin renunciou à presidência cinco meses antes do término do seu mandato em 1989, sucedendo-lhe Carlos Menem (1989-95), reeleito (1995-99). Nestor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007- ) são os derradeiros presidentes da Argentina, há pouco acusados de enriquecimento ilícito. Ficamos por aqui.

Nasce o cinema argentino

Os primeiros passos do cinema argentino, como bem registram os historiadores, foram dados em fins de 1886/1900 com a importação de câmaras de fabricação francesa, tendo-se filmado experimentalmente curtas e médias-metragens sobre o funcionamento de um Hospital de Clínicas e uma operação cirúrgica, uma abertura de avenida, a vida noturna da cidade (“Buenos Aires, a cidade que nunca dorme”, já dizia uma publicidade da época), a inauguração de um teatro, uma noitada de tangos e a maestria de um artista do bandônion (ou bandoneón, na escrita hispano-americana, espécie de acordeão quadrado com mecanismo e teclado semelhante ao da concertina). Segundo dizem, a criação desse instrumento nasceu de um turista alemão, também músico encantado com Buenos Aires e com as possibilidades do acordeão, por isso mesmo decidiu reduzir-lhe o tamanho e modificar alguns recursos. O bandoneón tornou-se em pouco tempo o instrumento mais típico das inesquecíveis noitadas de tangos argentinos.

A beleza inolvidável do Caminito, que vive lotado de turistas…
Em 1901-10, filmou-se o primeiro noticiário intitulado “Viaje Del Doctor Campos Salles a Buenos Aires” e abriu-se o caminho para a produção de filmes de longa-metragem, ou seja, películas de ficção e personagens com a estréia, em 1908, de “El Fuzilamento de Dorrego”, de Mario Gallo, imigrante italiano e artista versátil. À época, o filme foi considerado um épico histórico, segundo registram os enciclopedistas Kline & Nolan. Quanto ao mais, os festejos do centenário da Revolução de Maio, à qual já nos referimos, suscitaram noticiários e documentários diversos. Já se reconhecia então e se louvava o trabalho dos “cameramen” e dos iluminadores, bem assim o da edição.

Cena de O Segredo dos Seus Olhos, com Ricardo Darin e Soledad Villamil, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009

Mas somente em 1915 com a produção de “Amalia”, de Enrique Garcia, e “Nobleza Gaucha”, de Martinez, Guche y Cairo, os filmes argentinos se tornaram comercialmente bem sucedidos. Entre 1915 e 1927, a indústria cinematográfica do país viu nascer o estabelecimento de vários estúdios e também um melhoramento indiscutível em termos de proficiência técnica e da importância da edição. O cineasta dominante nesses tempos recuados, 1921-30, era José A. Ferreyra, cujos filmes, muitos aliás, como “El Tango de La Muerte”, “Flor de Durazno”, com apresentação de Carlos Gardel, “El Gaucho” e “Viejita” eram extremamente populares do ponto-de-vista local. A produção de filmes durante a era do cinema mudo alcançou uma realização de doze longas, enquanto Federico Valle produzia “El Apostol”, de Cristiani, Taborda e Decaud, desenho animado de longa-metragem em pleno cinema mudo. “El Último Malón”, de Alcides Greca, reconstruiu em detalhes o filme sobre o norte de Santa Fé.

L.G. DE MIRANDA LEÃO*
 * Critico de cinema

STANLEY KRAMER: Um Nome Importante

Clique para AmpliarStanley Kramer, produtor – diretor exponencial quando era entrevistado pelo jornaista John Stanley
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Clique para AmpliarKramer revisa o equipamento num momento de pausa na filmagem de  Orgulho e Paixão (1957)
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Clique para AmpliarA beleza de Vivien Leigh ainda impressionava 25 anos depois de “E O Vento Levou …”, aqui em A Nau dos Insensatos (1965)
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Poucos cinéfilos deste nosso tempo se dão conta da importância de Stanley Kramer, produtor-diretor dos melhores de quantos brilharam no cinema hollywoodiano e se projetaram além-mar.

Ousadia e competência foram sua marca. Se apreciadores da 7ª Arte forem ler esta biofilmografia de Kramer, antes uma homenagem póstuma deste crítico no Caderno de Cultura ao renomado cineasta, e recorrer às nossas distribuidoras para aquisição ou locação de alguns de seus filmes, poderão aquilatar melhor o valor intrínseco do cinema de Kramer.

Assim também a sua permanência em artigos de revistas estrangeiras ou em revisões feitas por cineclubes americanos ou europeus, graças aos quais se preserva para as novas gerações a memória crítica dos filmes de ontem e de seus mestres ou filmmakers, como queiram outros.

Há tempos vínhamos sentindo a ausência de Kramer neste espaço matutino, pois escolhas diversas não significam esquecimento ou preferências nossas por outros nomes, mas, sim, necessidade de mais pesquisas e referências sobre a importância do cineastra nova-iorquino no mundo do cinema. A exemplo dos nossos textos sobre Welles, Kubrick, Bergman, Resnais, Truffaut, Malle, Murnau, Riefenstahl, Scorsese, Losey, Godard, Mulligan, Eastwood, Dmytryk, Siegel, Winkler, dentre outros, impunha-se há tempos o nome do nosso ilustre homenageado.

Pontos de Partida

Stanley Earl Kramer nasceu em 29 de setembro de 1913 na cidade de Nova Iorque, próximo à vizinhança de classe trabalhadora de Manhattan conhecida como “Cozinha do Inferno” (Hell´s Kitchen).

Filho de pais divorciados, Kramer foi criado pela avó materna, fã do filme mudo. Além disso, a família Kramer tinha duas ligações familiares com a crescente indústria do cinema. A primeira porque a mãe do jovem Kramer trabalhava como secretária da Paramount Pictures, fundada em 1912 por Adolph Zukor (1873 – 1976), inquieto imigrante húngaro chegado aos EUA em 1888.

* Acompanhe o artigo de LG Miranda Leão na íntegra: www.diariodonordeste.com.br/cultura

Louis Malle, Alice e o Surrealismo no Cinema

Um pouco da história do romance ALICE pelo crítico de Cinema e professor de Literatura em Língua Inglesa, LG de Miranda Leão:

Louis Malle (1932-95) foi um dos grandes mestres do cinema sobre quem já escrevemos dois longos artigos para louvá-lo, um deles como homenagem póstuma. Desaparecido precocemente (vale Ao advérbio) aos 62 anos, quando muito ainda poderia fazer pela 7ª Arte, deixou, segundo críticos de nomeada, da Europa e dos EUA, onde se radicou por vários anos, um vazio difícil de ser preenchido. Ousado, inventivo, desafiador, proficiente no manejo dos elementos técnicos à disposição do “filmmaker”, Malle legou-nos obras-mestras imperecíveis, desde seu primeiro documentário com Jacques Cousteau, nos longes de 1956, a Ascensor para o Cadafalso (1957), Os Amantes (1958), 30 Anos Esta Noite (1963), Lacombe Lucien (1974), Lua Negra (1975), Menina Bonita (1978), Atlantic City (1980), Adeus Meninos (1987) e Perdas e Danos (1992).

Alice no Cinema

Por qual motivo, pergunta-se, obras como Alice no País das Maravilhas escritas no século XVIII continuam a fascinar leitores de várias idades e levá-las aos cinemas? Não é fácil encontrar uma resposta. Seja qual for, tem havido certa continuidade nas exibições de Alice.

A primeira das versões para o ecrã intitulada “Alice in Wonderland” (ou “Alice au Pays de Merveilles”, com título em francês) é de 1932, com roteiro escrito por dois cobras, Joseph L. Mankiewicz (irmão de Herman, co-roteirista de “Citizen Kane”) e William Cameron Menzies (recorde-se “Daqui a Cem Anos” / “Things to Come”, de 1936). Intrigante como adaptação, o filme foi considerado apenas regular porque desapontou o público e a crítica ao usar máscaras nos atores, tornando-os ineficientes. Uma falha da direção de Norman Z. McLeod. Participaram do filme, em início de carreira, Gary Cooper e Cary Grant.

Houve mais duas versões de Alice em 1951, a primeira um desenho animado de Walt Disney, com alguns momentos interessantes, mas o roteiro se perdeu ao modernizar e americanizar os personagens familiares. Com script de vários autores, teve direção de Clyde Geronimi, Hamilton Locke e Wilfred Jackson, com música de Oliver Wallace indicada para o Oscar. A outra versão de 1951, produzida nos EUA, França e Inglaterra (UGC/Rank/Lou Bunin), despertou algum interesse porque foi filmada em Nice com as marionetes de Bunin, mas Dinsey, por motivos ignorados, retirou seu “cartoon” dos cinemas. A versão de 1972, produzida na Inglaterra pelo sistema TODD-AO, foi escrita e dirigida por William Sterling com fotografia de Geoffrey Unsworth. A atriz Fione Fullerman interpretou Alice, Robert Helpman fez o chapeleiro louco, Dennis Price o Rei de Espadas, Flora Robson a Rainha de Copas. Apenas o fotógrafo fez jus ao British Academy of Film and TV Arts (BAFTA).

Estas as versões mais conhecidas e baseadas livremente nas obras de Lewis Carroll. Os cinéfilos interessados em saber mais alguma coisa sobre Alice devem assistir à adaptação feita por Tim Burton já em exibição nos cinemas. Há outras duas versões suscetíveis de intrigar os habitues de cinema, uma das quais, americana, de 1996, intitulada Lua Negra (Bad Moon), a qual devia ser traduzida por “Lua Má”, mais correta e para não confundir com outra sobre a qual discorremos mais adiante.

Louis Malle, criador de grandes obras do cinema, como Lua Negra, clássico do Realismo Fantástico

Este Lua Negra se baseia em romance de Wayne Smith (?) e foi dirigida por Eric Red com Mariel Hemingway interpretando Janet e não Alice. Quanto à mais antiga Lua Negra (Black Moon ou “Lune Noire”), de Louis Malle, de 1975, hoje um clássico do realismo fantástico, parece só estar disponível para quem conseguiu adquirir o DVD no Sul do País ou nos EUA. Parece pelo menos justo comentá-la de forma sucinta.

Leia a matéria na íntegra acessando http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=774173