Arquivo da tag: #malhacaotodaformadeamar

Malhação inclui pandemia e faz história

Malhação - Toda Forma de Amar": veja as primeiras impressões do ...

       Novela das 18h é única no país que adiciona o vírus à sua narrativa

Foi no capítulo final, exibido sexta, aos 3 primeiros dias de abril deste 2020.

Como é sabido, toda a programação da TV Globo foi alterada por conta da doença que assusta o mundo: a informação ganhou muito mais tempo e a equipe esmera-se na intensidade da cobertura jornalística. As gravações de todas as novelas pararam e somente “Éramos seis”, atração das 18h, foi finalizada no tempo previsto porque seu esquema de gravação já tinha sido finalizado. “Salve-se quem puder”, das 19h, e “Amor de mãe”, das 21h, tiveram suas histórias interrompidas, e devem retornar tão logo o isolamento social não seja uma premissa imperativa.

Elenco afinado e apuro estético marcam excelente estreia de ...
Éramos seis: novela cumpriu prazo previsto e trama não abordou pandemia.

“Nos tempos do Imperador”, novela de Alessandro Marson e Thereza Falcão, que iria estrear em substituição a “Éramos seis” e já tinha capítulos gravados, não entrou no ar e a estreia seguirá os protocolos de saúde necessários.

Desse modo, interrompidas abruptamente mas em decisão completamente acertada da direção da TV Globo, as novelas das 19h e 21h não puderam incluir em sua trama nenhuma citação ao caos social em que vivemos, quando uma doença gravíssima assombra gerações e deixa o mundo inteiro em estado de aflição.

“Toda forma de amar” inclui drama e impasse do coronavírus em sua diegese.

Entretanto, por algum motivo desses que só o Mistério responde, coube a “Malhação”, temporada Toda forma de amar, incluir as agruras deste tempo insólito, difícil e incongruente em seu discurso, o curso da comunicação que é verbo e imagem.

Essa insuspeitada inclusão funcionou bem demais porque muito bem realizada. Ainda havia muitas situações da narrativa à espera de resolução: conflitos pediam desfechos e personagens precisavam ter seus destinos definidos. Isso poderia gerar um tremendo vácuo na trama e tornar insosso e pouco plausível o final da história.

Ao contrário disso, o que se viu foi um diálogo pujante, importante e oportuno entre os dois protagonistas da trama. Foi lindo e, sobretudo, necessário. Nós não acompanhávamos a novela; aqui acolá, via uma cena ou outra. E foi por acaso que estava diante da telinha quando a cena em que a pandemia é inserida começa e me rouba a atenção.

Rita e Felipe formam o par romântico mas não trocam beijo nem abraço no capítulo final.

Rita (Alanis Guillen) e Filipe (Pedro Novaes) estão no centro da cena, no meio da cidade (a imagem evidencia o espaço cenográfico vazio) e travam um diálogo que começa assim: “A gente ainda tem que contar tudo que não vai poder mostrar para as pessoas por conta dessa epidemia de coronavírus”, diz ela, que havia sido sequestrada e passara dias num cativeiro. Filipe completa: “Realmente essa epidemia acabou atrapalhando um pouco o final da nossa história”. Ambos estão com fisionomia serena mas não escondem a sensação de desamparo e espanto diante do que estão vivendo. Embora estejam ali para indicar os rumos da trama, que está chegando ao final, há um subtexto que perpassa toda a ambiência e que comunica muito fortemente a perplexidade que toma conta de todos nós neste momento.

No encontro registrado pela cena, estavam tristes e com ar desenxabido não apenas a Rita e o Filipe, mas também a Alanis e o Pedro, ao mesmo tempo em papéis que lhes deram chance de revelar sua competência para o métier da interpretação (os dois ganharam bastante adesão do público), mas, sobretudo, simbolizando uma gama de sentimentos agora comuns a todos os brasileiros diante deste panorama invasivo e indesejável de pandemia.

Novela 'Malhação - Toda Forma de Amar': Rita fica com Filipe após ...
Alanis Guilen e Pedro Novaes: talento e carisma na Malhação 2020.

Tê-los como epicentro do último capítulo de “Toda forma de amar” tem uma simbologia ainda mais forte. Porque eram o par romântico que todos queriam ver juntos no final. Ademais para Alanis e Pedro, jovens atriz e ator, acostumados a gravar a novela cercados de pessoas as mais diversas — da figuração ao contrarregra, dos câmeras aos diretores -, ter de finalizar a história, que sempre tem um elenco majoritariamente jovem, sem um abraço, sem um beijo, num cenário vazio, no qual a solitude impera, inesperada e obrigatória, deve ter sido um momento inaugural estranho. E a sensação do espasmo diante de tantas interrogações e a imprecisão da continuidade, revestiu a cena de sutil assombro, afirmando a supremacia do enredo da vida real sobre a criação literária.

O que aconteceu com “Malhação” foi um caso claro de transcurso da comunicação, conforme a classificação proposta pelo mestre Artur da Távola em seus preciosos estudos sobre a linguagem televisiva, em especial sobre a telenovela. Segundo o jornalista/cronista/escritor, a comunicação segue um processo que abrange oito cursos. O mais conhecido deles é o discurso, sobre o qual recai a maior parte das análises. Mas há ainda os outros sete, que são: decurso, recurso, incurso, excurso, percurso, concurso e transcurso.

O transcurso é o mais complexo e profundo componente do curso da comunicação. Ele se faz em dois planos: através da comunicação e acima dela. Surge através de algo que vai além do curso habitual ou previsível, algo que o ultrapassa. Registra-se quando se estabelecem momentos muito especiais, únicos, dentro da comunicação: são fenômenos de integração súbita de toda uma equipe. Ele acontece raramente, jamais como norma ou técnica alcançada. Ao contrário, o transcurso escapa ao controle de qualquer técnica. É, por definição, súbito e incontrolável. A partir dele, obtém-se níveis profundos de comunicação e empatia.

O assunto é deveras instigante. Nesta “Malhação” 2020, há um caso claro de transcurso da comunicação no momento em que a pandemia de coronavírus se interpõe na vida do país. E foi isso que aconteceu com a atração das 18h: um transcurso, sabiamente incorporado à narrativa.

Câmera subjetiva substitui Domingos Montagner em 'Velho Chico' e ...
Morte de Domingos Montagner foi outro caso de transcurso encravado na narrativa.

Assim com “Toda forma de amar”, como semelhante foi no caso da morte do ator Domingos Montagner em plena realização da novela “Velho Chico”, em 2016. Lá, como cá, os autores do texto e a direção da novela (além da direção da emissora) absorveram com enorme competência e propriedade a manifestação do real em seus enredos ficcionais. Faz-se relevante, portanto, que ressaltemos o acerto na condução das narrativas.

No caso específico de “Malhação”, a autoria (escritores e diretores) assina seu passaporte para a história da teledramaturgia brasileira ao incluir, de forma oportuna, inteligente, importante e necessária, a dureza da pandemia na diegese da obra, na qual as tramas paralelas foram encerradas com o casal protagonista narrando em off os desfechos de cada uma.

O final de “Toda forma de amar” alcançou enorme repercussão nas redes sociais, dividindo-se os comentários entre elogios e críticas. A maioria não gostou do final sem um beijo, o que é sempre esperado nas histórias românticas, seja em que lugar ocorram, porém era absolutamente necessário cortar qualquer afago por conta da covid-19; outros tantos reclamavam que tal ou qual ponta da trama ficou sem esclarecimento.

Enfim, em que pese a validade das perguntas sobre a narrativa, o que mais conta é a afirmação da vitalidade da novela das 18h, como prova o grande índice de posts nas redes sociais. Outrossim, o que mais fica patente é o lugar de destaque que “Malhação” ganha na literacia da teleficção seriada.

“Malhação — Toda forma de amar” entra para a história da Teledramaturgia como o único exemplar brasileiro que incluiu a pandemia em seu discurso textual e imagético. Assim, o momento difícil e aflitivo pelo qual passa o Brasil (como de resto, o mundo inteiro) por causa do invisível inimigo, é histórico também através da narrativa dramatúrgica nacional, reafirmando, com louvor, a dialogia intensa, constante, bonita e convergente do real com a ficção.

Trama 2020 é de autoria de Emanuel Jacobina.

Enfim, Malhação — Toda forma de amar, de autoria de Emanuel Jacobina e com direção artística de Adriano Melo, teve final cercado de emoção, a qual veio muito mais da força do real invadindo o ficcional, do que propriamente dos impasses dramáticos que reclamavam solução. E, pela primeira vez na história, a Teledramaturgia Brasileira precisou mudar o rumo de sua trivialidade (a TV Globo interrompeu o curso normal de exibição das tramas e suspendeu todas as gravações de telenovela, por tempo indeterminado) para enfrentar uma pandemia como a que o planeta vive agora e #malhacao arrepiou colocando a gravidade da doença na diegese de “Toda forma de amar”.

Por tudo isso, “Malhação — toda forma de amar” entra para a posteridade com destaque e merece nosso aplauso. Portanto, a todos que participaram e contribuíram para a realização de mais uma MALHAÇÃO, nossos calorosos Parabéns !

Malhação: Toda Forma de Amar é menos vista que reprise de Por Amor ...

Novela teve boa audiência e temas fortes como o embate entre mãe biológica e adotiva.