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Cannes Terá Curtas Brasileiros

Márcia Farias é uma das poucas participantes da seleção do Brasil em Cannes que pode dizer, sem força de expressão, que desde criança sonha com a oportunidade de participar do festival. Isso porque seu berço é dos mais cinematográficos do cenário brasileiro. Ela é filha do produtor Rivanides Faria, o Riva, sobrinha do diretor Roberto Farias e do ator Reginaldo Faria. A “família de cinema” se completa com os também primos-diretores Lui e Mauro Farias e o primo-ator Marcelo Farias.

Márcia não errou o caminho e igualmente se tornou uma profissional experiente no meio, como assistente de direção dos cineastas Hector Babenco (Carandiru), Walter Salles (Abril Despedaçado) e Sérgio Machado (Cidade Baixa e no recente Quincas Berro d’Água), entre outros.

Mas, só agora, a carioca de 41 anos estréia na direção com o curta Estação. Seu sonho foi além e o filme, inédito por aqui, é o único brasileiro a disputar uma das competições oficiais do festival – a dedicada aos curtas. Além de Estação, outro projeto brasileiro selecionado, no formato, é A Distração de Ivan, de Cavi Borges e Gustavo Melo, a ser exibido na Semana da Crítica.

Há ainda a participação do peculiar Los Minutos, Las Horas, que, apesar de ser da diretora cearense Janaína Marques Ribeiro, representa Cuba na mostra paralela da Cinéfondation pelo fato de ter sido desenvolvido numa escola de cinema do país caribenho. “Demorou um pouco não é?”, brinca Márcia, para então justificar. “É que eu queria encontrar a história certa para desenvolver meu próprio projeto.”

E a chance apareceu durante os testes para atrizes da minissérie Alice (HBO), cuja equipe Márcia integrava, quando uma da jovens ouvida relatou a experiência que valeu a trama do curta. Nela, a personagem interpretada por Carolina Abras chega de viagem no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, e passa a morar ali e a viver o cotidiano do local, conhecendo freqüentadores e figuras incomuns. “Fiquei impressionada com o que a jovem contou”, diz a diretora.

Estação trata da idéia de um espaço de transição que ao mesmo tempo significa desorientação para alguns e idéia de casa e conforto para outros. O elenco ainda conta com a premiada atriz Denise Weinberg.

A expectativa em Cannes é pela visibilidade que um grande festival como esse propicia a um filme e seu realizador. Especialmente porque Márcia já prepara o primeiro longa-metragem sobre uma avó argentina que vem procurar seu neto no Brasil, depois que a ditadura militar os separou. “Mais uma vez conto uma história sobre o deslocamento de uma pessoa de seu local de origem e as conseqüências disso.

Cavi Borges e Gustavo Melo podem ser estreantes em Cannes, mas a carreira deles tem longa folha corrida. Cavi é proprietário de uma produtora no Rio de Janeiro, responsável por mais de 40 produções no formato curta. Ele mesmo assinou 18 trabalhos. Um deles é justamente A Distração de Ivan, que participou e foi premiado em diversos festivais brasileiros, entre eles o Cine PE e o Amazon Film Festival do ano passado.

“Não acredito que isso tenha ajudado de alguma forma o curta ser selecionado por Cannes”, diz Cavi. “Fiz a inscrição em toda as seções possíveis, mas só depois que o filme esgotou suas chances nas mostras do Brasil. Usei essa estratégia para dar uma vida útil maior ao trabalho.

No filme, coube a Melo, também com trabalhos anteriores no formato, a referência pessoal na história do menino Ivan e suas brincadeiras de bairro sempre atrapalhadas pela avó geniosa. Ela é interpretada pela atriz veterana Myrian Pérsia, ícone de filmes O Grande Momento (1957), que ensina teatro na ONG Nós do Morro, local onde os diretores buscaram apoio para formar o elenco de A Distração de Ivan.