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Fla-Flu Musical Chega às Telas

Roda Viva. Chico Buarque e o MPB4 ficaram em 3º lugar do festival que, sob a ditadura, virou cenário de uma disputa ideológica Em abril, os diretores Renato Terra e Ricardo Calil já haviam falado com o Estado, superexcitados com a escolha de seu documentário Uma Noite em 67 para abrir a etapa paulista do É Tudo Verdade. O maior festival de documentários do País foi uma vitrine e tanto para o filme que surgiu como desdobramento da monografia de conclusão do curso de Comunicação de Terra, em 2003. Ele se debruçou sobre a era dos grandes festivais de música, nos anos 1960/70. Decidido a fazer um longa documentário, chamou seu amigo jornalista, Calil. Trabalharam cinco anos no projeto, ganharam apoio da Videofilmes e da TV Record, que abriu seu arquivo.

Quatro meses e meio mais tarde Uma Noite em 67 está chegando aos cinemas, depois de passar pelos festivais de Ouro Preto e Paulínia. É o tipo do filme que levanta o público e Terra e Calil já se acostumaram a ver espectadores exaltados – e eufóricos com o que para muitos ainda é uma novidade. Uma Noite em 67 dirige seu foco para a noite de encerramento do Festival da Record de 1967, talvez o mais emblemático dos festivais de música ocorridos no País. Algo decisivo ocorreu naquela noite. O Brasil vivia sob uma ditadura e o palco virou cenário de uma disputa ideológica. A guerra da canção de protesto com a guitarra elétrica, símbolo da dominação imperialista, que Gilberto Gil usou em Domingo no Parque.

Colocar guitarra elétrica na MPB era considerado de direita. Os artistas de raiz, contrários à guitarra, eram de esquerda. Houve um clima de radicalismo – um Fla-Flu musical, como define Calil. “Não quisemos fazer um filme didático, mas trabalhar o emocional, entregando ao público um documentário que as pessoas precisam completar.” E elas completam – e como! Quatro músicas dominavam a competição – Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria. “Até hoje elas polarizam as opiniões. Tem gente que reclama por que Alegria, Alegria não ganhou, ou Roda Viva,” O público que viveu a época agradece aos diretores por trazê-la de volta. Os jovens, porque o filme os projeta num mundo que não conheceram. “Tem gente que vem falar com a gente chorando, no final”, diz Calil.

Embora o desfecho seja conhecido, o formato é de thriller, com direito a suspense. “Daniela Thomas deu um retorno muito interessante”, conta Calil. “Ela considerou o filme hitchcockiano.” Renato Terra avalia que essa reação decorre de uma característica do próprio filme. “Não montamos o filme (com Jordana Berg) visando a esse efeito, mas para expressar as diferenças entre as pessoas em cena. Havia ali concepções diversas de música, comportamento, política. Isso gera um confronto, suspense.”

Terra considera um privilégio ter feito o filme com apoio da Videofilmes. “Tínhamos o (Eduardo) Coutinho, o João (Moreira Salles), grandes documentaristas, que discutiam com a gente, davam sugestões, questionavam nossas escolhas e isso muitas vezes nos levava a fortalecer ainda mais o que queríamos.” Os diretores já foram sondados para levar Uma Noite em 67 ao Festival de Roterdã. “Não fechamos nada, mas acho legal. Esses artistas possuem grandeza, têm uma carreira internacional, há demanda pelo filme.” O público aplaude Dzi Croquettes em cena aberta nos cinemas que exibem o outro documentário. Aplaudirá Uma Noite em 67?

 “Acho que sim”, diz Terra. “São filmes que provocam orgulho, fortalecem a cidadania. Mostram do que somos capazes.”

Luiz Carlos Merten – O Estado de S.Paulo

LPs de Jorge Ben e Tom Zé de Volta

 

Os primeiros volumes do projeto são A Tábua de Esmeraldas (1974) e África Brasil (1976), de Jorge Ben – gravados antes de o cantor acrescentar Jor ao sobrenome. Vêm na seqüência Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1975), obras-primas de Tom Zé.

Outros álbuns licenciados que devem virar vinil até o final do ano são os dois primeiros dos Secos & Molhados, lançados em 1973 e 1974 com Ney Matogrosso em destaque. E três pedras fundamentais do rock dos anos 1980: Nós Vamos Invadir sua Praia (1985), do Ultraje a Rigor, e Cabeça Dinossauro (1986) e Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987).

  Divulgação  
Polysom relança clássicos da música brasileira em vinil
Os discos África Brasil e Nós Vamos Invadir sua Praia, serão relançados pela Polysom

Editais Funarte

A Funarte está lançando 34 editais de fomento às áreas de teatro, dança, circo, artes visuais, fotografia, música, literatura, cultura popular e arte digital. Serão concedidos mil prêmios e bolsas de até R$ 260 mil, para projetos de produção, formação de público, pesquisa, residências artísticas, apoio a festivais e produção crítica sobre arte. 

Funarte

Com investimento total de R$ 56,8 milhões, a Funarte e o Ministério da Cultura acabam de lançar 34 editais de fomento às áreas de teatro, dança, circo, artes visuais, fotografia, música, literatura, cultura popular e arte digital. Serão concedidos mil prêmios e bolsas de até R$ 260 mil, para projetos de produção, formação de público, pesquisa, residências artísticas, apoio a festivais e produção crítica sobre arte. 

Foram lançadas as novas edições dos prêmios Myriam Muniz (teatro), Klauss Vianna (dança) e Carequinha (circo) e da Rede Nacional Artes Visuais – que estão entre as principais políticas públicas para as artes no Brasil. O apoio à literatura, à criação em música erudita e à circulação de música popular também está mantido. Além disso, muitas inovações garantem espaço para novos formatos e novas interações estéticas no país.

Pela primeira vez, a Funarte lança editais para seleção de festivais. Há também prêmios para artes cênicas na rua e o apoio a residências artísticas no Brasil e no exterior. A instituição investe na composição de música erudita, em concertos didáticos na rede pública de ensino e na gravação de CDs de música popular. Nas artes visuais, a Funarte volta a apoiar festivais e salões regionais, além de viabilizar projetos de pesquisa e reflexão crítica sobre artes contemporânea. A fotografia será tratada como categoria à parte, com o Prêmio Marc Ferrez.  

O orçamento da Funarte para 2010 é de R$ 101,6 milhões – sete vezes maior que o de 2003, e o maior em vinte anos de história da Fundação. Os programas foram elaborados a partir das diretrizes do Plano Nacional de Cultura, do Ministério da Cultura, com ampla participação da sociedade, por meio de diversos encontros com a diretoria colegiada da instituição e com os Colegiados Setoriais. Os projetos inscritos são analisados por comissões externas, contando sempre com representantes de todas as regiões brasileiras.

Inscrições abertas em todo o país. Editais, fichas  de inscrição e mais informações: www.funarte.gov.br.

VideoFilmes lança trailer de Uma Noite em 67

Selecionado para abrir a 15ª edição do É Tudo Verdade em São Paulo, o documentário Uma Noite em 67 já tem trailer oficial. O filme, com a direção de Renato Terra e Ricardo Calil, traz para o cinema a final do III Festival de Música Popular, que se transformou num marco da história cultural do Brasil.  

O longa tem depoimentos inéditos de Chico Buarque, Caetano Velloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Edu Lobo e Sérgio Ricardo, finalistas do Festival. 

Uma Noite em 67 é uma produção da Videofilmes. 

Para fazer download do trailer acesse o link:

 http://www.sendspace.com/file/v2qmok  

Ficha técnica

Direção: Renato Terra e Ricardo Calil

Coprodução: VideoFilmes e Record Entretenimento

Produção executiva: João Moreira Salles e Maurício Andrade Ramos

Consultoria: Zuza Homem de Mello

Direção de Fotografia: Jacques Cheuiche

Som: Valéria Ferro

Montagem: Jordana Berg

Mixagem: Denilson Campos

Produção: Beth Accioly

Coordenação de produção: Carolina Benevides

Coordenação de finalização: Bianca Costa

Pesquisa: Antônio Venâncio

BEZERRA da SILVA em DOC

O Brasil inteiro conhece e cantou com Bezerra da Silva sucessos como Malandragem, Dá Um Tempo, Minha Sogra Parece Sapatão e Malandro É Malandro e Mané É Mané. Porém, pouca gente ouviu falar do pedreiro, do técnico em refrigeração, do carteiro ou do bombeiro que resgata cadáveres, autores desses sambas antológicos. É aqui que pega o documentário Bezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme, de Márcia Derraik e Simplício Neto, que passa domingo no Auditório Ibirapuera, dentro do festival In-Edit Brasil, de documentários musicais. 

Chico Buarque já tinha cantado a bola: o verdadeiro malandro é trabalhador, mora longe e chacoalha no trem. O filme de Márcia e Simplício confirma a sentença e tem caráter de denúncia: nenhum desses compositores viu a cor do dinheiro fazendo música. Em entrevista ao Estado, um deles, Roxinho (autor de diversos sambas gravados por Bezerra), diz que até teve a ilusão de um dia viver de direito autoral. “Mas o próprio Bezerra tirou isso da cabeça da gente. O Carlos Colla (compositor) uma vez me falou que com um sucesso daqueles ele trocava de carro todo ano, mas ele tem advogado, tem os canais pra cuidar dos interesses dele. Nós, não”, diz o pedreiro compositor.

No filme, Bezerra confirma as denúncias e solta farpas contra editoras, gravadoras e profissionais de rádio. “Muita gente de renome no rádio não faz nada, só rouba.” O documentário, que foi feito há quase dez anos, até agora só foi exibido esparsamente em festivais. Ironicamente, nunca entrou em circuito comercial porque, segundo Márcia Derraik, as editoras até agora não liberaram os direitos e todas músicas desses compositores que são o foco do filme e nunca receberam o que lhes é devido.

“É uma loucura você pensar que esses caras fizeram hits que deram vários discos de ouro pro Bezerra e muitos deles hoje não têm onde morar”, diz a diretora. “Adezonilton, um dos compositores de Malandragem, Dá Um Tempo, que foi gravado até pelo Barão Vermelho, é morador de rua. É muito cruel.”

O longa originou-se do curta Coruja, realizado em 2001. Desde o início, a ideia era dar visibilidade aos compositores dos quais ninguém falava. Como lembra Roxinho, Bezerra foi o único cantor de renome a colocar os autores com ele nas capas dos discos. Acusado de fazer apologia da bandidagem, Bezerra, que apareceu empunhando revólver e acuado pela polícia em capas de discos, se defende: “Isso é o Brasil, e eu canto isso. Dizem que sou cantor de bandido, mas quem defende bandido é advogado e juiz. Eu canto os compositores da favela.” Em outra sequência arremata: “Não posso cantar o amor, porque nunca tive. Sou realista.”

O amor fica de fora, mas os temas recorrentes da música de Bezerra estão lá, cantados e comentados no filme, de maneira aberta, com pitadas de bom humor e sem preconceito: gírias, crenças, drogas, armas, malandragem, política, sogras. Se como diz o cantor, “o morro não tem voz”, ele teve essa função. Como Bezerra, o documentário fascina por desvendar o que há na toca da coruja.

* Texto de Lauro Lisboa Garcia

Uma Noite em 67 – É TUDO VERDADE

O filme Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, foi o selecionado para abrir a 15ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em Sampa, próximo dia 8. Uma Noite em 67 é de arrepiar. Uma fascinante viagem na máquina do tempo”, testemunha o crítico Amir Labaki, diretor do É Tudo Verdade

Segundo a dupla Renato e Ricardo, ambos estreantes na direção, o longa foi concebido como um convite para viver a final do III Festival de Música Popular, que se transformou num marco da história cultural do Brasil. Além das imagens de arquivo, os grandes finalistas Chico Buarque, Caetano Velloso, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Edu Lobo e Sérgio Ricardo enriquecem o documentário com depoimentos inéditos sobre aquela noite.  

A idéia é que a sala de cinema reproduza um pouco da estrutura do teatro da Record, com as pessoas sentadas diante daquele espetáculo que está acontecendo na frente delas. Fizemos um filme que não dá muitas respostas prontas, opiniões fechadas. Estamos propondo uma experiência”, explica Renato Terra.

Uma Noite em 67 é uma produção da Videofilmes.  Mais informações www.umanoiteem67.com.br e www.eradosfestivais.com.br 

É Tudo Verdade 

O festival acontece entre 8 e 18 de abril em São Paulo e entre 9 e 18 de abril no Rio de Janeiro.  É Tudo Verdade é o principal evento dedicado à cultura do documentário da América Latina.

A sessão de abertura é exclusiva para convidados e a entrada é gratuita em todas as demais sessões.  

Ficha técnica

Direção: Renato Terra e Ricardo Calil

Coprodução: VideoFilmes e Record Entretenimento

Produção executiva: João Moreira Salles e Maurício Andrade Ramos

Consultoria: Zuza Homem de Mello

Direção de Fotografia: Jacques Cheuiche

Som: Valéria Ferro

Montagem: Jordana Berg

Mixagem: Denilson Campos

Produção: Beth Accioly

Coordenação de produção: Carolina Benevides

Coordenação de finalização: Bianca Costa

Pesquisa: Antônio Venâncio

 João Moreira Salles: Documentarista de escol, tudo que o cineasta produz é de excelente qualidade

Gonzaga, Nordeste e Baião

Novas revelações sobre Gonzaga, o Rei do Baião

Autor de dois estudos sobre o músico, jornalista Assis Ângelo prepara o que define como a mais completa biografia do artista, incluindo toda sua filmografia e discografia

O Luiz Gonzaga marqueteiro, que fazia lobby pelo baião; o visionário que, já no Rio, na década de 40, percebeu que havia público consumidor para sua música nos grandes centros – migrantes, como ele, que se mantinham fortemente ligados à sua terra; o primeiro artista a lançar discos com registros do gênero nordestino por excelência. Esse personagem fascinante segue inspirando o jornalista paraibano Assis Ângelo, autor de dois livros sobre ele, e que agora está terminando um novo, a ser lançado no segundo semestre, o qual considera o mais completo.

A publicação trará não só lances da biografia de Gonzagão, mas também bibliografia referente a ele, sua filmografia (apareceu em filmes como Astros em Desfile, de José Carlos Burle, de 1942, Este Mundo É Um Pandeiro, de Watson Macedo, de 46) e, claro, a discografia completa, incluindo as versões do baião em outras línguas, como espanhol, inglês, italiano, francês, japonês e o idioma da Ilha de Páscoa. Baião (“Eu vou mostrar pra vocês…”) foi bastante gravada no exterior, enquanto Asa Branca foi a mais registrada no Brasil.

Este mês, o escritor foi até Buenos Aires, procurar dados que comprovassem uma informação bastante significativa, que dá a dimensão de seu sucesso nos anos 50: a de que, à época, o governo argentino baixou uma norma de proteção à música local, tamanho era o sucesso do tal do baión – a música brasileira mais autêntica que existe, nas palavras do parceiro Humberto Teixeira, a única que ofereceu aos nordestinos desterrados um espelho para que se reconhecessem.

“Gonzaga foi o divisor de águas da música brasileira, não à toa esse é o nome do livro. Nunca ninguém havia gravado baião, forró, xaxado, toada nordestina. O interessante foi que ele, que nunca entrou numa escola, sacava da parte comercial, planejou lançar o baião. Percebeu que a sanfona fazia sucesso, viu que os nordestinos que moravam no Sul gostavam de ouvi-lo falar das coisas da sua terra”, conta Assis, que conheceu o mestre em 1978, em São Paulo, quando o entrevistou pela primeira vez.

Os dois acabaram se tornando próximos – Gonzaga só o chamava de “paraíba”. Por muitas vezes, o ouviu dizer “eu quero é ser cartaz”, uma demonstração de que o filho de Mestre Januário queria apresentar a música nordestina para todos os brasileiros.

Além de horas e horas de conversas com o Rei do Baião, o autor se apoiou também em relatos de gente como os compositores Mario Lago e Luiz Vieira, os músicos Dominguinhos (seu único herdeiro artístico, como o próprio dizia), Hermeto Pascoal e Oswaldinho, os cantores Elba Ramalho, Roberto Luna e Carmélia Alves (a Rainha do Baião), entre outros que conviveram com Gonzagão.

O feliz encontro, em 1945, com Humberto Teixeira, o advogado que o conhecia pela fama de seus 24 discos e que viria a se tornar seu parceiro em Asa Branca, Baião, Qui Nem Jiló, Assum Preto, Légua Tirana e em outros sucessos, e a quem Gonzaga batizaria de Doutor do Baião, é uma passagem importante.

ESTE ENCONTRO inclui um nome fundamental para a consolidação da parceria Gonzaga-Humberto: o nome do cearense LAURO MAIA, consagrado como grande compositor na década de 40.

Lauro Maia é, até hoje, o único compositor cearense gravado por João Gilberto (a canção Trem de Ferro) e foi ele quem indicou a Gonzaga o encontro com Humberto Teixeira, de quem era cunhado.

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Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira: parceria rendeu grandes músicas e momentos excepcionais do Doc de Lírio Ferreira

Gonzaga procurava um letrista e foi até o escritório de Teixeira, no centro do Rio, convocá-lo, depois das ótimas recomendações feitas por Lauro Maia sobre o conterrâneo HUMBERTO TEIXEIRA.  

O artista do povo, que se vestia com trajes e chapéu de couro típicos do sertão, e o literato, que só andava de terno, se completavam – eram “o canhão e a pólvora”, como brinca Otto, pernambucano como Gonzaga, no documentário sobre Teixeira, de Lírio Ferreira, O Homem Que Engarrafava Nuvens. Juntos, eles fizeram do baião o gênero que tomou conta do Brasil, colocando o Nordeste no mapa cultural do País, como ensina o filme.

* Com informações de Roberta Pennafort, RIO