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Helena Ignez: ‘Tudo que eu fiz como diretora, eu aprendi no Set…’

AURORA DE CINEMA direto do I Nossas Américas, Nossos Cinemas

Atriz e cineasta conta o que leva alguém a ser ator: “É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas”

Ela afirma que existem bons filmes em todos os gêneros ‘porque o filme não deve estar preso a rótulos nenhuns nem a correntes nenhumas. O bom filme tem que ser verdadeiro. E a gente sente quando o filme é verdadeiro, quando não foi feito pra enganar.

Helena Ignez começou no teatro, na Bahia, e logo depois seguiu para o Rio e juntou-se a um grupo onde estavam os dramaturgos Vianninha e Armando Costa:  “Ensaiávamos peças e apresentávamos na periferia do Rio e na Paraíba” E deixa escapar uma certa tristeza e/ou desencanto: ‘filmes nossos nunca foram exibidos em Cuba…’, afirma, ao mesmo tempo, que “uma revolução pessoal, do comportamento, profundo, isso é que eu acredito que existe em mim com mais força”. Afinal, foi esta atriz que um dia acabou presa numa farmácia em Porto Alegre, no auge dos anos sombrios, simplesmente porque estava de minissaia e isso ainda não era permitido – “era simplesmente uma minissaia, mas ela era ‘perigosa’”.

O sentido libertário, da expressão sem preconceitos ou discriminações, perpassa toda a vida, carreira, e maneira de estar no mundo desta atriz tão importante quanto necessária. Por ter um sentido autoral profundo, é fácil perceber a própria Helena Ignez em suas obras, e as obras criadas por ela são como monumentos vivos, construídos com o sentimento de quem sabe estar produzindo páginas relevantes para a cultura do Brasil na esperança de ver dias melhores chegando. Foi dessas reflexões que Helena Ignez tirou uma frase lapidar de seu filme de estréia, Canção de Baal:

“Ela é adúltera, tem que levar porrada” – esta fala é de um camponês, dirigida à mulher na peça BAAL, do dramaturgo Bertold Brecht, e foi ouvindo-a que Helena sentiu os primeiros insigths pra criação de seu roteiro. Acho que o ser Mulher é como um índio, eu me sinto um índio.

As coisas são tão complicadas ou pouco entendidas que Martim Gonçalves, o antropólogo baiano, autor de livros importantes e pessoa respeitada nos meios acadêmicos (homem que culturalizou o jovem baiano), criador de um movimento bacana em Salvador, ‘foi expulso de lá pelos estudantes de esquerda e o Partido Comunista… eles escreveram em todas as paredes: “Sai veado”. Foi nesta época que eu me solidarizei com Martim, resolvi sair de Salvador, e fui trabalhar no Rio’.

AC – Que motivos lhe levaram a querer ser atriz e garantem sua permanência no ofício do teatro e do cinema ?

HI – Talvez uma necessidade de ser outro, de compreender o outro, é uma vivência a mais que se busca ao procurar a emoção do teatro e do cinema. É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas, se não você vai ficar triste, e isso é vital. O que eu quero é conhecer melhor as pessoas. Eu não tenho vontade de me destacar não, em nada. Eu acho que todos nós somos destaque e merecemos atenção.

AC – Olhando toda a sua trajetória, como avalia a forma como você se insere no panorama artístico brasileiro ?

HI – Talvez o meu mérito seja reconhecer o mérito dos trabalhos que eu fiz, e considero todos muito importantes, eles são pontos de iluminação na minha vida, como por exemplo, o primeiro trabalho, o curta-metragem O Pátio, onde fui dirigida por Glauber Rocha… Meu intuito é fazer como diretora com o mesmo ímpeto com que fiz como atriz. Porque bons atores fazem bons filmes. E o que me interessa no cinema é justamente este poder de transformar, que vai contra o estereótipo da masculinidade. Se isso não fosse possível, eu não teria o menor prazer em fazer cinema.

Ney e Helena em cena de Luz nas Trevas

Sobre a escolha de Ney Matogrosso para protagonizar Luz nas Trevas (segundo longa da diretora que vem angariando elogios por onde passa), ela diz que não foi fácil, pois queria um ícone, um homem de 70 anos, que soubesse cantar, que ultrapassasse a figura do “Bandido”: Teria que ser um bandido original, teria que ser um homem do mesmo naipe do Ney, porque eu sabia que as comparações e cobranças seriam muitas. O Luz é um filme que custou R$ 2 milhões de reais, vencedor em 4 editais. Foram minhas filhas Paloma Rocha e Sinai Sganzerla que sugeriram o nome de Ney Matogrosso para o filme. E a escolha foi muito acertada: Ney Matogrosso está muito bem como o ‘bandido’.

Mulher que conquista pela simplicidade, charme, elegância, inteligência refinada e sensibilidade aguçada, Helena é também uma mulher cujo oxigênio é matéria de encantaria, o que a faz uma mulher apaixonada e apaixonante. O amor, amizade, cumplicidade, afeto, sentido de admiração e saudade de todos os momentos vividos ao lado do grande e eterno amor (o cineasta Rogério Sganzerla), está presente em todas as entrelinhas: “Quem me inspirou mais, como cineasta, ainda me interessa e vai me inspirar vida afora foi e é Rogério Sganzerla”.

Difícil não encher os olhos de lágrimas sentindo a emoção escoar pelas palavras de Helena Ignez : “Me encantei com o cinema dele, sua energia impressionante e a inteligência fora do comum de Rogério Sganzerla…”

Em São Paulo, foi lançado esta semana o documentário Mr. Sganzerla, que tornou-se possível graças à imensa generosidade de Helena Ignez, que cedeu todo o material de arquivo. O filme, dirigido por Joel Pizzini, foi o vencedor do É Tudo Verdade deste ano, e será o filme de abertura da primeira edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba, que começa hoje na capital paranaense. 

Ideias e frase lapidares de HELENA IGNEZ 

“Rogério Sganzerla é um cineasta que ainda precisa ser muito estudado para ser compreendido em sua plenitude. Ainda há muito a se descobrir sobre ele”.

“Acho que um filme não pode ser desclassificado porque foi feito com uma técnica menor, com menos dinheiro e menos condições técnicas. As idéias não pertencem às técnicas”.

“Um diretor de cinema não pode desconhecer ou menosprezar o Teatro. É indispensável ! Os grandíssimos diretores de Cinema tem uma boa relação com o Teatro. Cito por exemplo o caso de um ator como João Miguel: ele vai sempre além do que o roteiro lhe dá. Se o ator não tiver seu ABC, seus signos, seus códigos próprios, ele não consegue avançar, ir mais além”.

Para os que estão começando na carreira ou pretendem ingressar na área do Audiovisual, a recomendação de Helena Ignez é simples e clara: “Ler, ler muitíssimo, sobretudo os pensadores do Cinema.

E para finalizar nosso bate-papo, HELENA IGNEZ cita uma frase do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que é fonte inspiradora para o novo longa da diretora, intitulado RALÉ:

“Vamos indigenizar o Brasil e reinventar esta história”.

Helena Ignez na noite em que foi homenageada no I Encontro Nossas Américas, Nossos Cinemas, realizado em Sobral, no sertão cearense…

Amazônia, Gorki e Eduardo Viveiros de Castro no novo filme de Helena Ignez

Atriz e diretora premiada, Helena Ignez tem roteiro instigante para falar de Humanidade e saudar a Vida 

Diretora prepara terceiro longa com elenco encabeçado por NEY Matogrosso, Djin Sganzerla e Igor Cotrim….

Ela diz estar numa época de completa efervescência artística. E demonstra alegria com isso.

É verdade. Depois do boom que foi sua aparição no cinema na década de 1970, Helena Ignez vive outro momento de consagração e reconhecimento à sua tocante dedicação à Sétima Arte.

Considerada uma Diva do quilate de Marlene Dietrich e Marilyn Monroe, Helena Ignez sempre foi uma das mais belas e ousadas atrizes do Cinema Brasileiro.

Cresci ouvindo meu pai dizer que eu precisava conhecê-la porque ela era bela demais, de uma beleza ousada e sensual, diferente de todas as outras.

E meu pai sempre foi um habitué e estudioso da Sétima Arte. Por isso, e por sua grande admiração por Orson Welles, tinha em Rogério Sganzerla (companheiro da Diva por 35 anos e também um assumido fã do genial artista americano),  um exemplo de grande cineasta. E encontraram-se muitas vezes e o tema principal das conversas era esse.

Portanto, eu sempre admirei Rogério e Helena, e gostava dela muito antes de a conhecer.

Até que chega o dia tranquilo no qual conheço Helena Ignez e nossa sinergia foi imediata. Parece até havia uma trilha do instante ecoando A energia da Amazônia abençoou… Além de tudo que ouvira sobre ela, encantei-me pela mulher de alma translúcida, coração apaixonado, gestos delicados, inteligência refinada, simplicidade cativante e beleza que se entranha no modo de ser e conceber a vida. Por isso, transita entre o Cinema e o Teatro com tanta maestria e consegue ser tão magnânima

A arte de Helena Ignez tem a força poderosa de sua visão de mundo, que traduz uma alma visceralmente interessada em propagar o Bem, brindar a Beleza, espalhar o amor ao próximo, saudar a Natureza, e brindar o dom da vida.

Helena Ignez em Bagé, em foto de Aurora Miranda Leão…

Esta mulher admirável vem sendo constantemente convidada para homenagens em festivais de cinema pelo país, onde acontecem exibições de seus filmes (aqueles nos quais atuou ou os que dirigiu), ou aonde vai para levar a energia de sua presença e também compor comissões julgadoras.

Assim, Helena esteve recentemente no Amazonas Film Festival, no Festival Nacional de Cinema de Goiânia, na edição do Festival do Rio realizada em Berlim, no III Festival de Cinema da Fronteira (Bagé-RS), e segue, no final de janeiro, para o concorrido festival de Roterdã (Holanda). Neste último, ela será jurada, posto até então ocupado por um único brasileiro, o querido mestre Júlio Bressane – de cinematografia aplaudida mundialmente.

Helena Ignez tem um currículo numeroso, recheado de grandes trabalhos, seja no teatro, no cinema, na dança, e mesmo nas artes plásticas. Os dois filmes que dirigiu – Canção de Baal e Luz nas Trevas – tem repercussão mundial, e já ganharam diversos prêmios em todos os lugares por onde passaram – um reconhecimento importante e salutar ao trabalho desta pacifista da Arte.

Helena Ignez leva a Amazônia no pescoço: a jóia é uma criação Rita Prossi…

Agora, entre tantos projetos nos quais está envolvida, Helena Ignez se debruça sobre RALÉ, o terceiro longa, no qual vai atuar e dirigir, juntando grandes amigos e a equipe que já a acompanha há algum tempo.

RALÉ é inspirada no texto homônimo do renomado dramaturgo russo Máximo Gorki (escrito em 1901), mas vai muito além do texto que o inspirou, e promove uma instigante sintonia com a visão inovadora do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, defensor da idéia de um Perspectivismo transformador, a partir da Amazônia e a força de seu povo pioneiro. Para Viveiros de Castro, a Amazônia é o epicentro do mundo.

Helena Ignez vai então colocar o epicentro do mundo na tela e a Amazônia é o primeiro set onde pretende aportar, a partir de maio, acompanhada do ator e cantor NEY MATOGROSSO – “um ator extraordinário, com quem quero sempre trabalhar”.

Ney Matogrosso e Helena Ignez em cena de Luz nas Trevas

HELENA IGNEZ aproveitou a recente estada em Bagé – durante o III Festival de Cinema da Fronteira, e falou pela primeira vez, publicamente, sobre o projeto de filmar RALÉ:

“No fundo, o filme fala sobre a transformação que é possível acontecer nas pessoas através do pensamento. Porque as pessoas que compõem essa RALÉ são todas pessoas que a vida, de alguma forma, chicoteou em algum momento, e elas conseguiram transpor situações degradantes, e se transformaram. O filme foca, sobretudo, o momento em que elas estão saindo para uma transformação maravilhosa através do pensamento”.

Helena no teatro, dividindo a cena com a filha Djin Sganzerla…

Helena Ignez está em fase de captação de recursos. Sua filha Sinai Sganzerla assina a produção executiva, e a Mercúrio Produções (dela e das filhas) é a produtora oficial. Apesar de dizer que estamos num momento não tão favorável para a Cultura,  Helena está empolgada com o novo trabalho e crê que possa estar, já em maio, com a equipe técnica filmando no Amazonas, onde tem cenas de incrível força e plasticidade, ao lado do amigo NEY Matogrosso, protagonista da história.

“O filme tem grande parte ambientada na Amazônia, junto a uma populaçãao ribeirinha, com sequências diferentes, onde estamos eu e Ney, ligadas à cultura amazônia e xamânica. Um filme com um apelo muito visceral para se enxergar a Amazônia em sua devida importância e pluralidade, como epicentro do mundo. Ali está todo um manancial de riqueza natural, essencial para as transformações que o mundo vai vivenciar nas próximas décadas. E o mundo precisa estar alerta para isso e dar a devida atenção àquele rosário de forças poderosas que emana do pulmão do Brasil, a Amazônia”.

Em recente passagem por Manaus, Helena Ignez aproveitou para investigar ainda mais esse universo que pretende colocar na tela: passou a noite num resort na selva, entrosou-se com artistas amazonenses, adquiriu peças da joalheira Rita Prossi (conhecida internacionalmente pela beleza de suas peças artesanais), conversou sobre o filme com a Film Comission e a Secretaria de Cultura do Estado, visitou por duas vezes o Museu do Homem do Norte, e andava sempre com um caderninho, anotando tudo o que pudesse acrescentar ao seus estudos sobre a Amazônia.

 
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Helena Ignez no tapete vermelho do Amazonas Film Festival, com Rômulo Hussen e Aurora Miranda Leão…

Eu fui testemunha destas caminhadas de Helena e posso dizer o quanto a atriz saiu verdadeiramente maravilhada com o que viu. Ela diz: “Manaus é um lugar elegantíssimo, um lugar do Brasil que precisa ser conhecido e é a porta para o epicentro do mundo, que é nosso, e que é a Amazônia. E este lugar está entranhado no pensamento antropofágico ligado a Oswald de Andrade e a Rogério Sganzerla, porque a Ralé é uma história ligada a esse pensamento, enriquecido pelos estudos vigorosos deste antropólogo de reconhecimento mundial que é o Eduardo Viveiros de Castro”.

Igor Xotrim, que  também está no elenco, foi convidado por Helena Ignez ainda em Manaus…

E continua: “Nosso filme é de baixo orçamento, de um milhão de reais, e terá também locações numa cidade grande, que deve ser São Paulo, onde vamos fazer cenas de uma cidade em construção, e onde será acentuada a questão da identidade brasileira”.

QUEM É VIVEIROS DE CASTRO

Apontado por Claude Lévi-Strauss como o fundador de nova escola na antropologia e considerado hoje um dos maiores antropólogos do Brasil, Eduardo Viveiros de Castro defende a idéia de que os mitos indígenas têm elementos filosóficos freqüentemente ignorados pelo Ocidente.

Para ele, “A sociedade moderna poderia se inspirar no pensamento indígena para repensar sua relação com a natureza”.

O antropólogo já deu sinal verde a Helena Ignez para explicitar suas ideias nesta Ralé, que será protagonizada por Ney Matogrosso.

Que venham então os patrocínios e apoios para que nossa eterna Diva, atriz consagrada e diretora inspiradora, possa colocar a Amazônia seminal e essa pulsante inspiração no pensamento indígena nas telas de todo o mundo.

* As fotos dos índigenas que ilustram este post são de Viveiros de Castro…

Que venha a RALÉ ! – brasileira, amazônica, indígena, visceral, libertária, renascida como Fênix e inspirada em Gorki e Viveiros de Castro para acrescentar ao enorme e salutar mosaico da cinematografia brasileira a sensibilidade de Helena Ignez e as vivências e visões de mundo de toda a turma que vai compor sua impactante e urgente RALÉ.

Em companhia de Alice Gonzaga, Helena Ignez aproveitou a ida a Manaus para conhecer o antigo Cine Éden e defender sua reabertura.

Helena Ignez em visita ao atelier da artesã de jóias, Rita Prossi, em Manaus…

HELENA IGNÊZ: “Com a minha pequena contribuição, espero tornar o Brasil melhor, mais interessante”

Musa do cinema marginal, Helena Ignez fala da vida e da relação com Glauber Rocha: “Paguei um preço altíssimo”

A atriz que foi casada com dois dos maiores diretores de cinema brasileiros, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, fala sobre a vida e o cinema 


Helena Ignez continua em ritmo frenético de trabalho…

Naquela quinta-feira, 1º de dezembro, ela estava triste. Havia recebido a notícia de que um amigo querido, e pai de sua neta Helene, tinha falecido de câncer, na França. Ao telefone, sua voz parecia embargada, e a emoção trouxe lembranças de tempos bons, vividos em Salvador, onde o conheceu. Extremamente ligada aos sentimentos, e aos encontros que a vida lhe proporcionou, Helena Ignez, completamente baiana, como ela se define, é do mundo. Tudo por causa do cinema. Participa de festivais de cinema realizados fora e dentro do país, ou para receber homenagens, ou para divulgar os filmes dela e do cineasta Rogério Sganzerla, com quem foi casada.

Aliás, ter sido esposa dos cineastas Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, considerados pela crítica como gênios do cinema brasileiro, não seria o bastante para que Helena fosse reconhecida. Embora tenham sido fatos muitos importantes, são pouco para definir o que ela é, e o que significa para a cultura cinematográfica brasileira. Atriz de cinema e teatro, construiu sua carreira no Brasil, dentro do gênero do cinema marginal, termo, aliás, que ela discorda, pois para ela, “a própria essência do cinema brasileiro são esses filmes, no mais, os outros, ou estão muito ligados à televisao ou à outras áreas do consumo”.

Inventou uma forma nova de atuar, debochada, extravagante. Linda e provocante, aos 16 anos foi Glamour Girl em Salvador, tal como uma Miss, fez muitos homens das artes suspirarem, como João Ubaldo Ribeiro, com quem acabou só cultivando amizade. Começou a atuar com 17 anos, no curta ‘O Pátio’, de Glauber Rocha. Dentre tantos clássicos do cinema marginal, atuou em ‘A Grande Feira’ (1961), de Roberto Pires e ‘O Bandido da Luz Vermelha’ (1968), de Rogério Sganzerla. Aos 70 anos, continua trabalhando em um ritmo frenético. Em entrevista ao iBahia, Helena Ignez fala sobre seus projetos atuais e futuros, as dificuldades de se fazer cinema no país, a sua relação com Salvador, e a mágoa de não ter podido criar a sua primeira filha, Paloma Rocha. Confira.

Como está a sua vida atualmente?

A minha vida, hoje em dia, é uma vida completamente voltada ao trabalho, à arte e aos sentimentos, porque a arte é como a vida, é imensa. A forma de me dedicar a ela é acreditando nela profundamente. Levo uma vida de trabalho intenso, não só no Brasil, como fora do Brasil. Faço uma média de três a quatro viagens internacionais por ano, levando os filmes de Rogério Sganzerla e os meus, como ‘Luz nas Trevas’, que acabei de apresentar em Berlim, há cinco dias. Apesar de todas as dificuldades que nós, realizadores e artistas em geral, enfrentamos, meu trabalho tem se desenvolvido muito bem.

Aurora, Rosa Malagueta e Helena Ignêz durante o Amazonas Film Festival…

Quais são as dificuldades, especificamente?

A alta burguesia brasileira ainda não percebeu exatamente o valor da arte. Nesse momento da era Lula, o cenário se modificou um pouco. Todos os meus filmes, eu faço através de editais. De certa forma melhorou, porque pelo menos temos os editais e a possibilidade de, com isso, termos nossos filmes e peças de teatro realizados.

E o que você tem realizado? Fala um pouco sobre seus projetos.

Agora me descobriram para homenagens e como júri em festivais. Inclusive, em breve, vou receber uma homenagem no Festival de Cinema de Bagé. Atualmente estou em São Paulo com ‘O Belo Indiferente’. É uma instalação, da qual faço a direção, junto com André Guerreiro Lopes e minha filha Djim Sganzerla, e tem uma modernidade total. Uma instalação cênica extremamente ligada às artes plásticas, e que vai se tranformar num filme. Esse espetáculo foi considerado por algumas revistas brasileiras, como a Bravo, como um dos melhores do Brasil atualmente, e a Folha de São Paulo distinguiu entre os melhores espetáculos em cartaz. A grande alegria da minha vida é, junto com minhas filhas, está continuando essa obra, que comecei extremamente jovem em Salvador, com 17 anos, estreando e produzindo ‘O Pátio’, junto com Glauber.

Eu tenho três projetos. Um que é de transformar ‘Belos Indiferentes’ em filme, e já começamos a filmar. Tenho um roteiro, chamado ‘Ralé’, que é meu projeto maior, que pretendo filmar em maio. Ele fala um pouco do pensamento sobre o indígena, do antropólogo Eduardo Ribeiro de Castro, e tem no elenco muitos atores que fizeram o ‘Luz nas Trevas’, como Ney Matogrosso, que é um ator extremamente amado, Dijim Sganzerla, Aurora Miranda, que esta me ajudando na produção, Igor Cotrim, que ganhou um prêmio com ‘Elvis e Madona’, e tem o lançamento, em 2012, do ‘Luz nas Trevas volume 1 e 2’, a partir do edital em distribuição da Petrobrás, que ganhamos.

Helena Ignêz (con Alice Gonzaga): no Amazonas, onde foi homenageada, em defesa da reabertura do Cine Éden…

Você citou as homenagens que tem recebido. O que você acha sobre o reconhecimento do seu trabalho estar acontecendo?

Eu vejo que existe uma valorização desse trabalho que eu fiz com Rogério e com outros artistas, como Glauber e Julio Bressane, e isso tudo é muito valorizado principalmente pelas novas gerações. Acho isso bacana, porque vai ser jogado no futuro, sem a menor dúvida. Mas eu acho que não merecia. Sinceramente eu lutei sem ego. Acreditando numa coisa maior que eu mesma, sem esquecer jamais a frase de ‘O Bandido da Luz Vermelha’ “Sozinho a gente não vale nada”. Com a minha pequena contribuição, espero tornar o Brasil melhor, mais interessante.

O que você acha do título que te deram de musa do Cinema Marginal?

Essa palavra marginal carrega a dignidade vinda da frase de Hélio Oiticica “seja marginal, seja herói”, mas eu penso que não é marginal. A própria essência do cinema brasileiro são esses filmes, no mais, os outros, ou estão muito ligados à televisão, ou à outras áreas do consumo. Então esse cinema tem que ser considerado como muito importante, porque é um cinema livre, de pensamento, que questiona e que quer saber. Sou uma atriz que tem 70 anos de idade, que lutou sua vida inteira e que encontrou seus pares no mundo. É cinema marginal por isso, porque não é para a grande maioria.

Como foi a sua formação no cinema e no teatro, em Salvador?

A minha formação foi a mesma de Glauber, na Escola de Teatro, Música e Dança de Salvador, e assim até hoje venho desfilando esse colar de pérolas que, não sei se por sorte ou por carma, tenho a felicidade de ter nas mãos. Desde muito cedo eu venho sabendo o que é cinema e o que é arte, e com essa responsabilidade é que vou desenovolvendo a minha vida. Sou extremamente ligada emocionalmente a Salvador, e estou triste pela Salvador atual, que eu chamo de ex-Salvador.

Helena Ignêz passeia por Manaus com uma inquietação  criativa admirável… (foto de Aurora M. Leão)

Em que a cidade atual difere da Salvador presente nas suas lembranças?

Salvador se dedicou excessivamente ao comercialismo, ao axé, a cultura fácil e a cultura de massa, que não dignifica. Ela não acredita na inteligência do público, só no que há de mais medíocre. Eu conheci uma Salvador extremamente criativa, com artistas absolutamente geniais, como João Gilberto, o primeiro dos artistas baianos, que em nada é lembrado hoje em dia na música popular baiana. Tem surgido músicos extraordinários como Letieres Leite, que produz, mas não alcança o público por causa do axé, um axé estranho e que está, de certa forma, encobrindo essa grande força que é o ritmo, e sua riqueza. No momento a música está amarrada a esse Carnaval voltado para os camarotes. É um momento de vulgaridade e de desinteresse. Eu estou indignada porque faço parte disso também. Eu sou baiana, sou completamente baiana.

E o cinema baiano, você tem acompanhado? Se sim, tem gostado do que tem visto?

Adoro o cinema baiano. Ele tem sofrido muitíssimo, de certa forma, injustamente, porque foi onde nasceu um grande gênio, uma figura extraordinária e que tinha uma luz que cega, que é Glauber Rocha. Agora eu tive com um artista baiano da nova geração, o Henrique Dantas, que também está tentando trazer essa imagem de Salvador que a gente conheceu. Edgar Navarro é outro cineasta que eu acho interessante, o Pola, com ‘O Jardim das Folhas Sagradas’, o Gilson Rodrigues, quem conheceu de perto sabe o valor dele. E tantos outros baianos.

Houve um tempo em que você se afastou um pouco do trabalho, viajou muito, visitou muitos templos, e chegou a morar em um. Em que período da sua vida, isso ocorreu?

Eu tinha 30 anos, e achava que era uma idade extremamente madura! Hoje eu vejo que as pessoas começam a fazer seus trabalhos nessa fase, de 28 a 30 anos. E eu já tinha feito muitos filmes, e estava cansada. Ai resolvi parar um pouco a carreira e me dedicar ao tai chi chuan, e outras práticas energizadoras. A única coisa que me interessava era saber de onde viemos, e para onde vamos. Só queria saber a essência da vida, mas é uma coisa que a gente nunca vai saber, mas só o esforço de querer saber já traz alguma coisa muito boa. Hoje não pratico com a mesma intensidade, mas o que sobrou foi muito profícuo em mim, e eu nunca vou esquecer.


Sinônimo de elegância, simpatia e força, HELENA IGNÊZ agradece aplausos no Theatro Amazonas….

Para terminar, recentemente Nelson Motta lançou a biografia de Glauber Rocha, “A Primavera do Dragão”. Nele, seu nome aparece muitas vezes, e seu relacionamento com Glauber é contado minuciosamente. Você já chegou a ler?

Não cheguei a ler por inteiro, por estar trabalhando muito, e vários jornalistas têm me telefonado, querendo saber a minha opinião. Eu acho que é um livro dele. É mais uma ficção do que um livro documental, porque existe uma dramatização de fatos corriqueiros. Mas existe uma boa intenção no livro, eu sei que ele gostava muito de Glauber. É um livro de honra a Glauber, com quem fiquei casada durante cinco anos. Nossa relação sempre foi muito profunda, até próximo a morte dele.

No livro, ele cita os problemas vividos por vocês, durante a separação. Teve ficção em algum momento do relato?

Realmente houve aquele caso relatado por Nelson (no livro, Nelson Motta conta que Helena teve um namorado, enquanto era casada com Glauber). Eu me separei dele por causa de um motivo que, hoje em dia, seria totalmente natural, mas há alguns anos, foi um escândalo enorme! Vivi todos os preconceitos possíveis do machista. Eu acabei ferindo ele, sem nenhuma vontade. Eu simplesmente precisava viver a minha vida. Havia um sufoco muito grande dele pra mim. No fundo ele não acreditava nessa ética machista mas, ao mesmo tempo, ele sofria muito com isso.

Ele sofreu muito com a separação e eu também. Eu paguei um preço altíssimo, porque não criei minha filha, Paloma (Paloma Rocha é cineasta, e presidente do Templo Glauber Rocha, local onde está reunida toda a obra de Glauber, seu pai). Judicialmente, ele tomou ela de mim, simplesmente porque eu era uma atriz jovem, bonita, tinha 20 poucos anos, enquanto que, por traz, ele tinha uma família. E foi por ela que Paloma foi criada. Apesar de não ter tido nenhum impedimento, não fui eu a responsável pela criação dela. Ela já tem 50 anos e pra mim é um assunto do momento. Afinal, ela é minha filha.

Por Flavia Vasconcelos, do Correio da Bahia