Arquivo da tag: Nildo Parente

Nildo Parente, Um Adeus Emocionado e Emocionante

 

Conheci-o no final dos anos 60, ele belíssimo, chegado de Fortaleza e já fazendo teatro, nas mesas do La Gondola ,num jogo que consistia em lembrar o nome de atores secundários; de tecnicos de filmes principalmente americanos.E sempre ganhava! Os outros “jogadores” eram Fabiano Canosa (criador dos primeiros “cinemas de arte” no Brasil, que levou o Cinema brasileiro pra NY,onde passou a ser programador de um cinema cult no East Village e orientou Sonia Braga nos seus primeiros passos nos States);Napoleão Moniz Freyre e Renato Coutinho, ambos atores e tb amigos do Nildo.

Em 1969 ficamos amigos durante a preparação e filmagem do único filme que protagonizou – o hoje clássico Azyllo muito louco, do mestre Nelson Pereira dos Santos, filme naquela época incompreendido apesar de ter recebido no Festival de Cannes do ano seguinte o Prêmio Luis Buñuel da crítica, com a presença do diretor e dele.

Aqueles muitos meses de preparação no Rio, onde montamos atelier na Rua Paschoal Carlos Magno, em S.Teresa, comandado pelo diretor de arte Luiz Carlos Ripper, nos aproximou logo.Ripper aglutinava atores e equipe à sua volta para produzirem as bijouterias e objetos artesanais do filme.A chegada em Paraty foi triunfal.Nós tres fomos na frente.Nildo queria se deixar impregnar pela cidade que passou a frequentar através de outros filmes ali realizados ou qdo tinha tempo livre.Fez muitos amigos.

Frequentei quase todas as noites o espetáculo Hoje é dia de rock no Teatro Ipanema.Além dos amigos Nildo e Isabel Ribeiro,oriundos do filme em Paraty,o teatro virou point dos descolados de todas as áreas, atraídos pela ideologia hippie do texto de José Vicente e tb pela direção de Rubens Correia que imprimiu uma atmosfera de viagem lisérgica e comunhão ao espetáculo.

À partir do meu primeiro filme (Mãos vazias, 1970) sempre pude contar com o grande e disciplinado ator nos meus projetos (os longas O princípio do prazer e For All; o curta Acendedor de lampiões e como narrador do curta sobre nosso mestre,Nelson Filma); além de filmes que produzi para outros diretores e que o indiquei (Republica dos assassinos, de Miguel Faria Jr.; Ajuricaba, de Oswaldo Caldeira;entre outros).

Em 2009 assisti à cerimônia de entrega do Prêmio Especial pela sua carreira no For Rainbow Festival de Fortaleza – onde exibiram um audacioso curta em que atuava ao lado de Ney Matogrosso.Disciplinado, chegou mais cêdo do que todos, observando tudo, conferindo a qualidade do som, elogiando a cenografia transformadora do Cine São Luiz, na Praça do Ferreira, que frequentou durante sua juventude.Emocionado, recebeu o troféu das mãos de Verônica Guedes – diretora do Festival e autora da brilhante idéia da homenagem.

No meio do ano passado fui convidado pelo Canal Brasil , para minha surprêsa, a dirigir um documentário sobre Nildo para a série Retratos brasileiros.Ele já tinha tido o primeiro AVC, filmamos em sua pequena cobertura cercado de livros e de filmes, e parecia estar se recuperando bem.Foi uma tarde alegre onde relembramos nossa juventude, as aventuras e loucuras que vivemos juntos, e ele sorria, sentindo-se prestigiado e excitado com a lembrança de toda a sua vasta carreira no teatro; no cinema e na TV.

Mexia em fotos tiradas de caixas; irritava-se quando demorava a lembrar o nome de um espetáculo ou de um autor.

Quando enviei-lhe o DVD pronto, telefonou-me, satisfeito e agradecido.

A última vez que nos vimos foi no aniversário da empresária Yvone Kassú, no La Fiorentina, point do teatro e do cinema desde os anos 60.Elegante como sempre, com seu característico e iluminado sorriso, beijou-me com o cumprimento que marcou nossos encontros. Hy, By God ! e eu respondia, Hy, Teremp Donil .

Lembrar do Nildo é lembrar da atriz  Thais Moniz Portinho e de Fabiano Canosa – seus melhores amigos; inseparáveis companheiros de muitos anos dos 75 que Nildo viveu – agora mais órfãos do que todos nós.

Viva o Padre Simão ! como gritava o coral feminino constituído por Leila Diniz; Ana Maria Magalhães e Irene Stefânia no Azyllo muito louco que permanecerá sob seu comando na nossa história pessoal e na do cinema brasileiro.

 
Luiz Carlos Lacerda

Adeus a NILDO PARENTE…

É o cineasta LUIZ CARLOS LACERDA quem informa:

Triste notícia: hoje à tarde o nosso querido NILDO PARENTE  faleceu no Hospital Silvestre, em Santa Teresa (RJ), aos 75 anos, depois do terceiro AVC…

Nildo estava em coma há cerca de 2 meses. Ano passado fiz um documentário sobre ele para a série Retratos Brasileiros do Canal Brasil, exibido em outubro.

NILDO viu o filme e ficou muito feliz pela homenagem. Já tinha tido o primeiro AVC mas aparentava estar se recuperando. Estava contratado até hoje pelaTV Globo e iria participar, mais uma vez, de uma novela de GILBERTO BRAGA, destavez INSENSATO CORAÇÃO, mas não chegou a gravar.
Vamos prestar uma homenagem ao querido ATOR. Assim que souber do local e hora, eu avisarei. Hoje essa informação é capaz de sair no Jornal da Globo.
Adeus, amigo !
Beijos,
Bigo.
 
NILDO, ao lado de NEY MATOGROSSO, no curta DEPOIS DE TUDO
Com Daisy Lúcidi: destaque em PARAÍSO TROPICAL, do amigo Gilberto Braga
NILDO contracena com NEY MATOGROSSO no curta DEPOIS DE TUDO, de Rafael Saar
UM POUCO MAIS sobre NILDO PARENTE
 
Nildo Parente estreou no cinema, no filme O Homem que Comprou o Mundo (1968), de Eduardo Coutinho.

Em seguida, fez o papel principal no longa Azyllo Muito Louco (1969), de Nelson Pereira dos Santos, onde atuou ao lado de Luiz Carlos Lacerda e Leila Diniz, voltando a filmar com Nelson “Quem é Beta?” (1972), “Tenda dos Milagres” (1977) e “Memórias do Cárcere” (1983).

O período em que NILDO PARENTE mais atuou foi na década de 70, quando, em papéis de diferentes importâncias e sob a direção de cineastas diversos, fez mais de 20 filmes, entre esses “Anjos e Demônios” (1970), de Carlos Hugo Christensen: “São Bernardo” (1972), de Leon Hirszman: “Os Condenados” (1973), de Zelito Viana: e “Coronel Delmiro Gouvêa” (1977), de Geraldo Sarno.

Nos anos 1980 e no começo dos 1990, fez mais de dez filmes: “Luz del Fuego” (1981), de David Neves; “Rio Babilônia” (1982), de Neville D’Almeida; “O Beijo da Mulher-Aranha” (1984), de Hector Babenco; e “Natal da Portela” (1988), de Paulo Cezar Saraceni.

Nos anos 90, participou dos filmes “Bela Donna” (1998), de Fábio Barreto; “Seja o que Deus Quiser” (2002), de Murilo Salles; e “Inesquecível”, de Paulo Sérgio Almeida.

Seus principais trabalhos em teatro foram “Hoje é Dia de Rock”, de Rubens Corrêa; “Francisco de Assis”, de Ciro Barcellos; e “Ai Ai Brasil”, de Sergio Brito.

Nildo fez parte do elenco do Grande Teatro Tupi, onde encenou aproximadamente 20 peças do programa, de 1958 a 1963.

Na televisão, trabalhou em diversas novelas, como “Água Viva”, “América”, “Senhora do Destino” e “Celebridade”. Em 2007, Nildo Parente participou da novela Paraíso Tropical.

Em 2008, após participar do espetáculo “As Eruditas”, Nildo voltou aos palcos, desta vez ao lado de Francisco Cuoco e grande elenco, com a peça “Circuncisão em Nova York”. O ator também esteve na TV, em participação especial nos últimos capítulos da novela Amor e Intrigas, na Record.

Ainda em 2008, NILDO esteve no curta Depois de Tudo, co-produção da ONG Cinema Nosso com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e pôde ser visto também no longa Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi.

Em 2009, Nildo Parente fez participação especial na série “A Lei e o Crime”, da Record. No mesmo ano, subiu ao palco no espetáculo “Medida por Medida”.

Seu mais recente trabalho foi no longa-metragem Chico Xavier. dirigido por Daniel Filho.

NILDO PARENTE era cearense e esteve em Fortaleza muitas vezes, aqui tinha muitos amigos, entre eles a estilista Fátima Castro. Numa das últimas vezes, subiu ao palco do Teatro José de Alencar ao lado de EMILIANO QUEIROZ, conterrâneo e grande amigo, e Ada Chaseliov, entre outros, no belo espetáculo OS FANTÁSTIKOS
Encontrei com Nildo várias vezes e era sempre um prazer estar com o ator, figura das mais agradáveis e educadas, aquele tipo que de imediato chamamos BONACHÃO, além de ser um ator querido na classe artística, sem nenhuma afetação e muito talento.
NILDO PARENTE já deixa saudades… Descansa em paz, NILDO !
 

Pra não esquecer RUBENS CORREA

O ator Sergio Fonta lembra perfeitamente do impacto que sentiu ao ver Rubens Corrêa (1931-1996) em cena pela primeira vez. Foi na montagem do Teatro Ipanema para O arquiteto e o imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, em 1970.

Assisti nove vezes. Fiquei deslumbrado com o espetáculo de Ivan de Albuquerque (1932-2001) e com as interpretações de Rubens e José Wilker. Nós entrávamos no teatro e tínhamos a sensação de que estávamos no meio de uma densa floresta. Quando as luzes eram acesas, percebíamos que havia jornais pendurados como longas folhas. Nós atravessávamos esta “floresta”, até que as folhas eram suspensas e nos deparávamos com o palco nu – reconstitui o ator.

Mais tarde, Fonta iria iniciar uma convivência marcante com o ator, seja entrevistando-o para veículos como Jornal de Ipanema e o Jornal de Letras e até contracenando em peças. A partir de suas lembranças e de uma vasta pesquisa, prepara, neste momento, uma biografia sobre Corrêa para a Coleção Aplauso, da editora Imprensa Oficial, coordenada pelo crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Na época de O arquiteto e o imperador da Assíria, Fonta trabalhava como jornalista. Ainda não tinha ingressado na carreira de ator. Um pouco antes conheceu Rubens pessoalmente.

A imagem mais nítida que tenho dele é a do sorriso largo. E do olhar que brilhava – lembra Sergio Fonta, dividido atualmente entre o desenvolvimento da pesquisa, o trabalho como membro do júri do Prêmio Shell e a expectativa da retomada da temporada de Amadeus, encenação de Naum Alves de Souza para o texto de Peter Shaffer.

Os caminhos de Rubens Corrêa e Sergio Fonta também se cruzaram em Flor do milênio, espetáculo poético-teatral dirigido pelo primeiro em 1982, a partir de um roteiro do segundo em cima de poesias de Denise Emmer. Fonta viveu intensamente a fase do Teatro Ipanema, marcada pela parceria entre Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, desde o fim da década de 50, no Teatro do Rio.

Rubens morava com a mãe numa bela casa de pedra. Tinha o sonho de construir um teatro. Vendeu a casa com a condição de que o prédio construído no lugar abrigasse um teatro no térreo. Assim aconteceu, e ele foi morar na cobertura – conta.

Fonta não esquece o impacto de montagens como Hoje é dia de rock.

– Era um texto libertário encenado numa época de repressão e que ganhava com a interpretação espiritualizada do elenco – sublinha Fonta, acerca do texto de José Vicente (1945-2007), centrado na travessia de uma família, do interior do Brasil rumo à cidade grande. – O cenário do Luiz Carlos Ripper (1943-1996) era a estrada que a família percorria e rasgava o espaço do Ipanema. No último dia de apresentação havia tanta gente querendo ver que todo mundo foi celebrar na praia. Um belo momento de comunhão.

Muitos outros trabalhos de Rubens virão à tona no livro. Um deles, em O beijo da mulher aranha, montagem de Ivan de Albuquerque para o texto de Manuel Puig (1932-1990), foi, inclusive, esmiuçado no livro Sobre o trabalho do ator, de Mauro Meiches e Silvia Fernandes. Cabe mencionar O futuro dura muito tempo, seu último espetáculo, no qual dividiu o palco com Vanda Lacerda (1923-2001), sob a direção de Marcio Vianna (1949-1996). Artaud foi, com certeza, um capítulo à parte.

Considero Artaud o legado de Rubens, a herança de toda uma vida. Quem o viu em cena não passou incólume pela experiência de entrega e reflexão sobre sanidade e insanidade – constata Fonta, bastante emocionado.

Mesmo que tenha se notabilizado como ator de teatro, Rubens será lembrado no livro através de seus trabalhos no cinema e na televisão.

No cinema e na TV ele nunca chegou perto da dimensão que alcançou no teatro. Mesmo assim, esteve bem em novelas como Kananga do Japão. No cinema se destacou em Álbum de família (1981), de Braz Chediak, e, especialmente, em Na boca da noite (1971), adaptação de Walter Lima Jr. da peça O assalto, de José Vicente, que fez com Ivan de Albuquerque – enumera.

Durante a fase de pesquisa, Sergio Fonta vem recorrendo ao arquivo impresso guardado na Funarte e a livros como Reflexões sobre o teatro brasileiro no século 20, organizado por Fernando Peixoto, e realizando entrevistas com artistas bastante próximos de Rubens, como Nildo Parente, Ivone Hoffman, Fernando Eiras e Sergio Mamberti, além dos filhos de Ivan de Albuquerque e Leila Ribeiro.

Num determinado momento, Mamberti precisou mudar-se mudar para São Paulo e não tinha onde guardar a mobília. Como coincidiu com a época de construção do Teatro Ipanema, Rubens falou para colocá-la no palco – revela Fonta, que deverá conversar com José Wilker, Simon Khoury, Angel Vianna e Rosamaria Murtinho.

Não é sua estreia no campo da pesquisa. Há alguns anos, ajudou Sergio Viotti na concepção da Dulcina e o teatro de seu tempo, biografia da atriz e diretora Dulcina de Morais (1908-1996).

Desejo fornecer um painel para que o leitor que porventura não o tenha visto em cena entenda o que significou. Era uma pessoa dotada de grande generosidade natural – resume.

* Texto de Daniel Schenker

NR: ATOR MONUMENTAL, a biografia de RUBENS CORREA  a sair pela Colecão APLAUSO, tem importância seminal para a dramaturgia brasileira.

RUBENS CORREA atingiu um patamar interpretativo de rara sensibilidade, perspicácia, pertinência.

Lamentável que as novas gerações pouco ou nada saibam do Artista, que também foi diretor e produtor de montagens marcantes na história da cena teatral brasileira. Até na web, é quase impossível achar imagens de Rubens…

Tive a feliz oportunidade de ser aluna de RUBENS CORREA em oficina ministrada aqui em Fortaleza, no Teatro José de Alencar, se não me trai a memória, ainda em 1994. Rubens era mesmo um Ser Humano Iluminado, raro, sensível, inteligência, refinado.

Quando ele entrava na sala – como o era quando adentrava o palco – era como se todas as energias parassem pra que algum alquimista assumisse o leme da embarcação. Antes disso, tive também oportunidade de entrevistá-lo, ainda em meados da década de 1980, quando protagonizou o belíssimo espetáculo QUASE 84 no Teatro Ipanema, ao lado de Ivan de Albuquerque, com primorosa direção de Fauzi Arap.

RUBENS CORREA merece todo APLAUSO.

Era um Gigante dos nossos PALCOS & TELAS.