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Filmes vencedores do prêmio Finaliza

 O Programa Cinema do Brasil, a Associação do Audiovisual e a Cinecolor Digital divulgam os sete projetos selecionados para o Prêmio Finaliza 2012, destinado a filmes em fase de pós-produção.

São eles: Amparo, de Ricardo Domingos Pinto e Silva (FinoTrato Consumação das Imagens); Cores, de Francisco Garcia (Kinoosfera Filmes); De Menor, de Caru Alves de Souza e Tata Amaral (Tangerina Entretenimento); Life Art, de Andradina Azevedo e Dida Andrade (Filmes da Lata); Mão na Luva, de Roberto Bomtempo (Movimento Carioca); O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra (Gullane Entretenimento); e O Rio nos Pertence – Operação Sonia Silk, de Ricardo Pretti (Daza Produção Cultural).

Entre 12 e 19 de julho, durante o 7º Festival Latino-Americano, em São Paulo, os filmes serão exibidos em sessões privadas, assistidas apenas pelos membros do júri e por pessoas ligadas às diferentes áreas da cadeia produtiva audiovisual. Ao término de cada sessão, o projeto deverá ser apresentado pelo diretor ou produtor para a audiência, que fará seus comentários sobre a obra com o objetivo de contribuir para o produto final. Dentre os filmes, será escolhido um vencedor, o qual receberá serviços de laboratório no valor equivalente a R$ 99,4 mil para finalizar seu filme.

O prêmio final de R$ 99,4 mil é oferecido pela Cinecolor Digital. O valor será dividido em correção de cor, edição de som, pré mix, mix final, DCP e Cópia HDcam SR. A premiação é inspirada nas edições do Cine en Construcción, realizadas nos tradicionais festivais de Toulouse (França) e San Sebastián (Espanha).

O 7º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo acontecerá no Memorial da América Latina, Cinemateca Brasileira e Cinesesc.

Breno Silveira faz filme sobre o Rei do Baião

Sanfoneiro de forró será protagonista em novo longa de Breno Silveira 

 Mais de 5.000 candidatos disputaram o papel principal do filme Gonzaga — de Pai para Filho, novo longa de Breno Silveira. Mas foi o quase desconhecido Nivaldo Carvalho, paulistano de 31 anos, que já tinha encarnado Luiz Gonzaga no teatro, quem ganhou o papel: “É minha primeira experiência como ator. No início, tive dificuldade, devido à minha timidez, mas a música me ajudou muito, pois também exige tempo e sensibilidade. A minha aparência e o timbre de voz ajudaram igualmente”, diz Nivaldo.

A entrada dele no filme tem um fato curioso: no último dia de inscrições para os testes, a mulher dele, Daniela, enviou para a produção uma foto da capa de um CD e um vídeo, nos quais Nivaldo aparecia com trajes à la Gonzagão. Poucas horas depois, ele recebeu um telefonema, convocando-o para um teste no dia seguinte.

Nivaldo em cena no filme ‘Gonzaga — de Pai para Filho’ | Foto: Divulgação

Nivaldo em cena no filme ‘Gonzaga — de Pai para Filho’ | Foto: Divulgação

“Aluguei um carro e fui para o Rio. Chegando no teste, me caracterizei, toquei uma música e li alguns textos. Eles gostaram, mas disseram que eu não sabia nada de atuação”, diverte-se Nivaldo. “O processo de seleção durou meses. Àquela altura, eu já acreditava que conseguiria o papel”, conta o sanfoneiro-ator.

Com estreia prevista para outubro, o filme aborda a relação de Gonzagão com o filho Gonzaguinha, sendo que 3 atores vão interpretar o Rei do Baião: Nivaldo será o velho Lua, dos 30 aos 50 anos, auge da carreira do artista.

Filme vai homenagear dois dos maiores compositores do Brasil | Foto: Divulgação

Filme vai homenagear dois dos maiores compositores do Brasil | Foto: Divulgação

Assim como o Rei do Baião, Nivaldo veio de uma família de músicos. Já gravou com a lendária Banda de Pífanos de Caruaru e, desde 2007, investe na carreira solo. Nasceu e vive em São Paulo, mas tem raízes nordestinas: seus pais e avós são de Jaicós, no Piauí, onde ele morou por anos.

Milagre no mausoléu do Rei do Baião

Ainda no período de testes, Nivaldo foi visitar a cidade natal de Luiz Gonzaga, Exu (PE). Visitou o museu do Rei do Baião e foi fazer uma oração no túmulo do Gonzagão. “No momento em que entrei no mausoléu, a produção ligou novamente, dessa vez me convocando para conhecer o Breno Silveira. Foi uma choradeira só da minha família”, diz o ator.

Já escolhido como um dos atores principais do longa, ele fez um laboratório digno de sanfoneiros antigos: tocou em locais curiosos, como estações de trem, tudo isso para entender as dificuldades pelas quais esses músicos passavam.

Além de toda a pesquisa, Nivaldo chegou a perder nove quilos para se encaixar no personagem: “O Breno me auxiliou a entrar no personagem, ele acreditou em mim, disse que eu vivi as coisas que o Gonzagão viveu”, afirma um emocionado Nivaldo.

Helena Ignez: ‘Tudo que eu fiz como diretora, eu aprendi no Set…’

AURORA DE CINEMA direto do I Nossas Américas, Nossos Cinemas

Atriz e cineasta conta o que leva alguém a ser ator: “É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas”

Ela afirma que existem bons filmes em todos os gêneros ‘porque o filme não deve estar preso a rótulos nenhuns nem a correntes nenhumas. O bom filme tem que ser verdadeiro. E a gente sente quando o filme é verdadeiro, quando não foi feito pra enganar.

Helena Ignez começou no teatro, na Bahia, e logo depois seguiu para o Rio e juntou-se a um grupo onde estavam os dramaturgos Vianninha e Armando Costa:  “Ensaiávamos peças e apresentávamos na periferia do Rio e na Paraíba” E deixa escapar uma certa tristeza e/ou desencanto: ‘filmes nossos nunca foram exibidos em Cuba…’, afirma, ao mesmo tempo, que “uma revolução pessoal, do comportamento, profundo, isso é que eu acredito que existe em mim com mais força”. Afinal, foi esta atriz que um dia acabou presa numa farmácia em Porto Alegre, no auge dos anos sombrios, simplesmente porque estava de minissaia e isso ainda não era permitido – “era simplesmente uma minissaia, mas ela era ‘perigosa’”.

O sentido libertário, da expressão sem preconceitos ou discriminações, perpassa toda a vida, carreira, e maneira de estar no mundo desta atriz tão importante quanto necessária. Por ter um sentido autoral profundo, é fácil perceber a própria Helena Ignez em suas obras, e as obras criadas por ela são como monumentos vivos, construídos com o sentimento de quem sabe estar produzindo páginas relevantes para a cultura do Brasil na esperança de ver dias melhores chegando. Foi dessas reflexões que Helena Ignez tirou uma frase lapidar de seu filme de estréia, Canção de Baal:

“Ela é adúltera, tem que levar porrada” – esta fala é de um camponês, dirigida à mulher na peça BAAL, do dramaturgo Bertold Brecht, e foi ouvindo-a que Helena sentiu os primeiros insigths pra criação de seu roteiro. Acho que o ser Mulher é como um índio, eu me sinto um índio.

As coisas são tão complicadas ou pouco entendidas que Martim Gonçalves, o antropólogo baiano, autor de livros importantes e pessoa respeitada nos meios acadêmicos (homem que culturalizou o jovem baiano), criador de um movimento bacana em Salvador, ‘foi expulso de lá pelos estudantes de esquerda e o Partido Comunista… eles escreveram em todas as paredes: “Sai veado”. Foi nesta época que eu me solidarizei com Martim, resolvi sair de Salvador, e fui trabalhar no Rio’.

AC – Que motivos lhe levaram a querer ser atriz e garantem sua permanência no ofício do teatro e do cinema ?

HI – Talvez uma necessidade de ser outro, de compreender o outro, é uma vivência a mais que se busca ao procurar a emoção do teatro e do cinema. É como se no íntimo sobrasse espaço para outras almas, se não você vai ficar triste, e isso é vital. O que eu quero é conhecer melhor as pessoas. Eu não tenho vontade de me destacar não, em nada. Eu acho que todos nós somos destaque e merecemos atenção.

AC – Olhando toda a sua trajetória, como avalia a forma como você se insere no panorama artístico brasileiro ?

HI – Talvez o meu mérito seja reconhecer o mérito dos trabalhos que eu fiz, e considero todos muito importantes, eles são pontos de iluminação na minha vida, como por exemplo, o primeiro trabalho, o curta-metragem O Pátio, onde fui dirigida por Glauber Rocha… Meu intuito é fazer como diretora com o mesmo ímpeto com que fiz como atriz. Porque bons atores fazem bons filmes. E o que me interessa no cinema é justamente este poder de transformar, que vai contra o estereótipo da masculinidade. Se isso não fosse possível, eu não teria o menor prazer em fazer cinema.

Ney e Helena em cena de Luz nas Trevas

Sobre a escolha de Ney Matogrosso para protagonizar Luz nas Trevas (segundo longa da diretora que vem angariando elogios por onde passa), ela diz que não foi fácil, pois queria um ícone, um homem de 70 anos, que soubesse cantar, que ultrapassasse a figura do “Bandido”: Teria que ser um bandido original, teria que ser um homem do mesmo naipe do Ney, porque eu sabia que as comparações e cobranças seriam muitas. O Luz é um filme que custou R$ 2 milhões de reais, vencedor em 4 editais. Foram minhas filhas Paloma Rocha e Sinai Sganzerla que sugeriram o nome de Ney Matogrosso para o filme. E a escolha foi muito acertada: Ney Matogrosso está muito bem como o ‘bandido’.

Mulher que conquista pela simplicidade, charme, elegância, inteligência refinada e sensibilidade aguçada, Helena é também uma mulher cujo oxigênio é matéria de encantaria, o que a faz uma mulher apaixonada e apaixonante. O amor, amizade, cumplicidade, afeto, sentido de admiração e saudade de todos os momentos vividos ao lado do grande e eterno amor (o cineasta Rogério Sganzerla), está presente em todas as entrelinhas: “Quem me inspirou mais, como cineasta, ainda me interessa e vai me inspirar vida afora foi e é Rogério Sganzerla”.

Difícil não encher os olhos de lágrimas sentindo a emoção escoar pelas palavras de Helena Ignez : “Me encantei com o cinema dele, sua energia impressionante e a inteligência fora do comum de Rogério Sganzerla…”

Em São Paulo, foi lançado esta semana o documentário Mr. Sganzerla, que tornou-se possível graças à imensa generosidade de Helena Ignez, que cedeu todo o material de arquivo. O filme, dirigido por Joel Pizzini, foi o vencedor do É Tudo Verdade deste ano, e será o filme de abertura da primeira edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba, que começa hoje na capital paranaense. 

Ideias e frase lapidares de HELENA IGNEZ 

“Rogério Sganzerla é um cineasta que ainda precisa ser muito estudado para ser compreendido em sua plenitude. Ainda há muito a se descobrir sobre ele”.

“Acho que um filme não pode ser desclassificado porque foi feito com uma técnica menor, com menos dinheiro e menos condições técnicas. As idéias não pertencem às técnicas”.

“Um diretor de cinema não pode desconhecer ou menosprezar o Teatro. É indispensável ! Os grandíssimos diretores de Cinema tem uma boa relação com o Teatro. Cito por exemplo o caso de um ator como João Miguel: ele vai sempre além do que o roteiro lhe dá. Se o ator não tiver seu ABC, seus signos, seus códigos próprios, ele não consegue avançar, ir mais além”.

Para os que estão começando na carreira ou pretendem ingressar na área do Audiovisual, a recomendação de Helena Ignez é simples e clara: “Ler, ler muitíssimo, sobretudo os pensadores do Cinema.

E para finalizar nosso bate-papo, HELENA IGNEZ cita uma frase do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que é fonte inspiradora para o novo longa da diretora, intitulado RALÉ:

“Vamos indigenizar o Brasil e reinventar esta história”.

Helena Ignez na noite em que foi homenageada no I Encontro Nossas Américas, Nossos Cinemas, realizado em Sobral, no sertão cearense…