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PATRIMÔNIO CINÉDIA

Acabo de rever o programa Arquivo N da Globo News em homenagem aos 80 anos da CINÉDIA, a primeira companhia produtora de cinema do país e que continua viva, funcionando no bairro carioca de Santa Teresa, graças ao empenho indormido e a determinação de Alice Gonzaga, filha de seu fundador, o pioneiro Adhemar Gonzaga.

                O Arquivo N é um dos bons programas da grade da Globo News, um entre tantos apresentados pela emissora líder de audiência da tevê em circuito fechado. Sempre um grande tema, um assunto que merece ser mais conhecido.

                Em especial este Arquivo N com a Cinédia, apresentado por Leilane Neubarth – jornalista das melhores entre tantos do time da emissora -, vale a pena ser visto, revisto, gravado para a posteridade.

                 No programa, que começa mostrando cenas onde aparece Nélson Gonçalves cantando, e faz um passeio por imagens do Rio de outrora – Copacabana e Ipanema quase desertas, evidenciando uma cidade onde o carnaval “ano a ano transbordava por todas as ruas do Rio” -, um bom prólogo para falar sobre a criação da Cinédia. A companhia nasceu no bairro de São Cristóvão numa iniciativa impensável para a época e, através do rico material de arquivo (guardado a sete chaves e mil emoções por Alice Gonzaga), vislumbramos o que foi a iniciativa ousada e pioneira de Adhemar Gonzaga, o jornalista que sempre teve paixão por cinema e cujo grande sonho era ver consolidada uma indústria de cinema no Brasil.

                Adhemar foi aos Estados Unidos para conhecer de perto a “fábrica de sonhos” de Holywood. E quando desembarcou de volta no Rio de Janeiro, trazia na bagagem (ainda muito mais forte) o sonho da fundação da Cinédia, ancorado no que viu de melhor e mais moderno.

        Antes da CINÉDIA, o trabalho jornalístico de Adhemar se fez , notar em duas publicações: as revistas Palcos e Telas e a Cinearte, de 1926. E como o próprio Adhemar conta em imagens que o Arquivo N mostrou, “A Cinédia foi fruto de dois trabalhos anteriores, a Cinearte,  e o filme Barro Humano”.

 Mas tem ainda a história de Lábios sem Beijos, que a cineasta pioneira Carmen Santos tentou fazer com direção de Ademar mas acabou não conseguindo concluir. Como era dele mesmo o roteiro, Adhemar acabou dirigindo o filme, que foi lançado em 1930, com produção de Paulo Benedetti, e que os registros guardam como o primeiro grande êxito bilhetérico da Cinédia.

Já o professor Hernani Heffner, que leciona História do Cinema na PUC carioca, destaca o fato de que, numa época em que não havia patrocínios nem leis de incentivo, Adhemar Gonzaga “resolveu inventar uma coisa que ele mesmo chamava de Cinema Brasileiro: o sonho era criar uma grande produtora de Cinema Brasileiro, nos moldes do que se fazia de melhor no mundo.”
 
O Arquivo N da Globo News mostra imagens preciosas de Adhemar Gonzaga em documentário onde informações relevantes compõem um mosaico no qual se compreende a grandeza e importância do trabalho de Adhemar, inclusive revelando passagens inusitadas como uma cena na qual um personagem precisava ser atropelado e ele mesmo se dispôs a ser a vítima “para dar mais realismo” à cena .

Adhemar Gonzaga dirigindo a “estrela” Carmen Miranda…

Do Arquivo N sobre a Cinédia, anotamos algumas máximas para atiçar a curiosidade e interesse de jovens estudantes e pesquisadores da Cultura e do Audiovisual Brasileiros:

* Adhemar falava sempre em nome de uma coletividade
* Adhemar foi praticamente o “descobridor” de Carmen Miranda
* Grandes nomes foram revelados através dos filmes da Cinédia: Grande Otelo, Oscarito, Paulo Gracindo, Dercy Gonçalves, Cyl Farney, Rodolpho Mayer, Emilinha Borba, Marlene…

* Um dos grandes sucessos da Cinédia foi Pinguinho de Gente, de 1949, direção de Gilda de Abreu, uma das mais caras produções da companhia, à época dois mil contos, sendo uma das mais caras produções do cinema brasileiro – como diz Alice: “Só a cascata de baianas brancas descendo as escadas, já valia o filme”. De fato, a seqüência é primorosa !

Carmen Miranda: Artista “descoberta” pelo pioneiro Adhemar Gonzaga

A Cinédia estava sempre produzindo mas como era a própria companhia quem bancava os filmes, era preciso sempre fazer o que dava,  mais retorno de bilheteria, os musicais para que entre um musical e outro, fosse possível ousar mais e fazer então um filme mais sério  – foi o caso de O Cortiço, de 1945, direção de Luiz de Barros.

Entre as grandes produções da CINÉDIA, o emblemático Alô, Alô Carnaval, direção de Adhemar Gonzaga, “um filme eterno porque as gerações que se sucedem vão estar sempre interessadas em vê-lo porque os grandes nomes da música brasileira da época estão lá – Lamartine, Almirante, Carmen e Aurora Miranda, Marlene, Emilinha…”, afirma Alice Gonzaga.

As irmãs Carmen e Aurora Miranda: Estrelas da CINÉDIA

Aliás, outra pérola do Arquivo N é a entrevista de Leilane feita com Alice em 1986, quando a pesquisadora/escritora conta detalhes de produções como Anjo do Lodo, de 1951, direção de Luiz de Barros, que teve problemas com a censura por conta de uma cena onde a ex-vedete Virgínia Lane aparecia em “trajes menores”. Há ainda a passagem com a famosa “cena das rabanadas”, onde o saudoso Grande Otelo conta (em entrevista de 1985 a Sandra Passarinho) sobre as “dificuldades” para fazer a cena – um trunfo !

Nestes 80 anos de Cinédia, são 56 longas realizados e mais de 700 documentários entre curtas e médias-metragens e cinejornais, a maioria perdidos pelo desgaste do tempo.

E o programa termina com um precioso alerta de Alice Gonzaga, cuja sabedoria é fruto da familiaridade de muitos anos de trabalho e dedicação, na lida cotidiana com as dificuldades de preservação de um acervo do porte do da Cinédia:

” Se os donos de seus acervos não se mexerem e deixarem por conta de terceiros a preservação de seu material pensando que eles vão fazer, não se enganem não porque eles não vão fazer mesmo”.

    E nós, apreciadores, estudantes, estudiosos, pesquisadores e amantes da História do Cinema Brasileiro solidarizamo-nos com Alice Gonzaga e prestamos nossa sincera homenagem ao pioneirismo exemplar da CINÉDIA e de Adhemar Gonzaga, ao mesmo tempo em que parabenizamos a determinação e bravura de Alice em seguir firme e apaixonadamente a trajetória iniciada por seu pai, legando às atuais e futuras gerações o mais rico patrimônio privado de preservação da memória audiovisual brasileira.

Na edição 2008 do GUARNICÊ, em São Luís, Alice Gonzaga, Aurora Miranda Leão e Euclides Moreira Neto

           Preservando a memória audiovisual da CINÉDIA, Alice colabora sobremodo para manter viva parte significativa de décadas de História Brasileira – conservando-se através dos filmes a atuação de artistas do teatro, do rádio, da música, da moda, técnicos, fotógrafos, ambiência sócio-política-econômica, paisagens naturais, enfim, através desta singular memória audiovisual preserva-se todo um acervo riquíssimo da vida cultural do país.

     Portanto, VIVA a CINÉDIA ! Salve Alice Gonzaga !

     

E Parabéns à equipe da Globo News (Leilane Neubarth, em especial) pelo senso de oportunidade de realização do Arquivo N e à Petrobrás, que vem contribuindo fortemente na restauração de filmes do acervo da CINÉDIA. Saravá !