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Pandemia: assunto popular, como a novela. Valmir Moratelli comenta

Valmir Moratelli analisa contexto atual da narrativa preferida dos brasileiros diante da pandemia que fez TV Globo alterar programação

Jornalista, escritor, poeta, cineasta e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio, Valmir Moratelli tem como epicentro de suas pesquisas acadêmicas a teleficção brasileira.

Convidado para escrever sobre o panorama atual, que alcança também as telenovelas da TV Globo, reproduzimos aqui a apreciação de Moratelli sobre o momento insólito pelo qual passa essa paixão nacional com quem convivemos desde que a TV Globo levou ao ar sua primeira telenovela, ainda em 1965.

Em nota oficial divulgada na segunda, 15 de março, a emissora informou sobre a suspensão das gravações de suas novelas, a antecipação do final de outras e a inclusão de novas reprises na grade de sua programação. A nota gerou diversas reportagens e causou bastante repercussão nas redes sociais esta semana.

Em bela matéria do colega Marcelo Canellas, a emissora afirma:

“não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real”.

As medidas, super acertadas, tomadas pela direção da TV Globo incluem: intensa cobertura jornalística sobre a Covid-19, liberação da plataforma Globo Play e dos canais de televisão fechada da Globosat (Globo News, SporTV, Multishow, Telecine, Canal Brasil, dentre outros). Uma demonstração clara, relevante e inconteste de responsabilidade social, solidariedade e exemplar respeito ao público, de parte da maior emissora de televisão do Brasil.

Vejamos então o que diz Valmir Moratelli* sobre o tema:

“Em decisão inédita na história da teledramaturgia brasileira, a medida adotada pela TV Globo é uma forma de prevenir a pandemia. Mas o que significa esta paralisação para o país que tem nas novelas sua principal fonte de entretenimento gratuito? Como a população vai se manter em casa, em quarentena pelas próximas semanas, se abstendo das tramas que vinha acompanhando como “Malhação”, “Salve-se Quem Puder” e “Amor de Mãe”? Apenas “Éramos Seis“, já nos últimos capítulos, terá um desfecho. Sua substituta, “Nos Tempos do Imperador”, precisará esperar o desenrolar do drama real que a população enfrenta no combate ao Covid-19.

“O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública”, afirma o especialista (Foto: Divulgação)

Interromper uma novela não é tão comum no Brasil. Por outros motivos, a TV Globo já teve que embargar produções em andamento. “Roque Santeiro”, de 1975, tinha 10 capítulos editados e quase 30 gravados quando, na noite de estreia, foi proibida de ir ao ar. No ano seguinte, o mesmo aconteceu com “Despedida de Casado”, que vinha sendo escrita para às 22 horas. Em ambos os casos, o bloqueio foi imposição da censura do Governo Militar.

Há também exemplos de produções que foram encurtadas drasticamente por rejeição do público e consequente queda da audiência. Os telespectadores largaram de lado “Cuca Legal”, de 1975, e a novela de Marcos Rey foi encurtada para 118 capítulos. Em 2001, “Bang Bang”, de Mario Prata, perdia público a cada exibição, o que fez a direção da emissora diminuir a duração dos capítulos que, dos habituais 55 minutos, passaram para 45. “As Filhas da Mãe”, de 2001, teve audiência abaixo do esperado. Resultado: A trama de Silvio de Abreu terminou com 125 capítulos. A título de comparação, o sucesso retumbante de “Avenida Brasil”, de 2012, teve 179 capítulos – dois meses a mais no ar.

O que acontece agora em nada se compara com os exemplos do período da ditadura, quando produções foram interrompidas por ordem do governo, ou com tramas encurtadas por questão de audiência, imprimindo a implacável força do mercado. O público fica, já na próxima semana, sem os capítulos inéditos por decisão estratégica da emissora, visando a não colocar em risco de contágio ao Covid-19 os quase 300 funcionários – entre elenco, equipe técnica e de produção – que trabalham em cada obra.

“O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma”

No comunicado enviado à imprensa, a TV Globo informou que tomou a decisão por coerência com os aspectos característicos da sua teledramaturgia, visto que “não há novelas sem abraços, apertos de mãos, beijos, festas, cenas de briga, cenas de amor, cenas de carinho, tudo aquilo que reflete a vida real, mas que, hoje, não pode ser encenado em segurança”. No livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma” (2019, ed. Autografia), resultado de uma pesquisa de mestrado, detalhei duas décadas recentes de produções da emissora, entre 1998 e 2018, diante das transformações políticas de quatro presidentes (Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer).

As telenovelas brasileiras são reflexo dos nossos tempos, servindo de registro histórico às mudanças sociais. Estabilidade econômica, diversidade sexual, a questão das cotas, ascensão da chamada classe C, maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Nada passou incólume pelas ficções da TV. E agora que o mundo se vê obrigado a parar as atividades a fim de frear a pandemia, não seria diferente com a ficção. O silenciar das novelas acompanha o desenrolar de um assunto grave, da ordem de saúde pública, arremata Moratelli.

Protagonistas da novela ‘Amor de Mãe’, que teve gravações interrompidas esta semana TV Globo. (Reprodução/Globo)

Em um país onde 99% dos lares brasileiros têm televisão, forjando gerações diante dos amores e dissabores de protagonistas e vilões, fica difícil imaginar um cenário em que nossas rotinas, momentaneamente, serão sem novas novelas. É verdade que a audiência geral da TV aberta vem caindo em relação à última década, principalmente pela maior oferta de streaming, catapultando o telespectador a ser programador de sua TV. O momento é propício ao crescimento dessas novas plataformas– a própria GloboPlay vem lançando séries e documentários inéditos. Mas nem todos os órfãos de novelas vão migrar para a GloboPlay ou Netflix.

Dados do IBGE mostram que mais de um terço dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet. Interromper suas novelas é um recado que a TV Globo dá à sociedade e às autoridades. O cancelamento de uma “instituição nacional”, como é o caso da novela das 21h, transmite a ideia da seriedade coletiva que o país precisa ter pelas próximas semanas.

Parte do elenco da novelo Avenida Brasil, uma das reprises transmitidas pela Rede Globo neste momento de pandemia. (Reprodução/Globo)

No lugar das produções interrompidas nos últimos dias, a TV Globo vai reexibir tramas bem aceitas pelo público (“Totalmente Demais” e “Fina Estampa”, por exemplo), além de aumentar o tempo de transmissão dos telejornais no canal aberto e reforçar o conteúdo da GloboNews. O que também vem em boa hora para a emissora, visto que a CNN Brasil estreou no final de semana trazendo possibilidades de concorrência à altura de seus programas. Oferecer escolhas internas ao público, cada vez mais exposto a outras opções, é uma estratégia certeira. Enquanto a população fica sem os afagos de “Amor de Mãe” , ou aguarda pelas aventuras de “Nos Tempos do Imperador”, resta-nos entender que quarentena não é drama e nem histeria. É o mundo real chacoalhando nossas rotinas a tal ponto que interrompeu até a ficção. A telenovela há de resistir. Até porque esperamos todos por um happy end.

* Valmir Moratelli é jornalista e doutorando da PUC-Rio.

*Artigo originalmente escrito para o site da jornalista Heloisa Tolipan.

Brasil e França vão estrear coprodução na TV

Em euros, dólares ou reais ? Dividir a conta do audiovisual com colegas estrangeiros é um caminho a ser explorado por produtores brasileiros.

O fenômeno, que no cinema já rendeu filmes como “À Deriva” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, atinge também a TV. O RioContentMarket, evento internacional que reúne profissionais do setor, terminou sexta com apresentação de vistosas coproduções e um acordo entre as associações de produtores independentes de TV no Brasil e no Reino Unido.

Brasil e França se uniram para Rouge Brésil, ou Vermelho Brasil, um longa-metragem que também vai virar minissérie de cinco capítulos, a ser exibida na Rede Globo e numa emissora francesa.

A parceria é trinacional: do lado de cá, Conspiração Filmes, Globo Filmes e Riofilme; a produtora francesa Pampa Films e o diretor canadense Sylvain Archambaut também aportam no projeto.

Com o respeitável orçamento de nove milhões de euros, Vermelho Brasil narra justamente um conflito entre dois países agora parceiros. A trama retoma 1555, quando uma expedição francesa comandada por Nicolas de Villegagnon tentou tomar o Brasil de Portugal, com uma invasão fracassada na baía de Guanabara (Rio de Janeiro).

Como base, os produtores usaram o romance histórico homônimo. Em 2001, o livro rendeu o Goncourt (importante prêmio literário da França) ao escritor Jean-Christophe Ruffin –adido cultural do Consulado Geral da França em Recife de 1989 a 1990.

A produção está em marcha desde o começo do século. As filmagens aconteceram em setembro, e a previsão é estrear em 2013, nos dois continentes.

     
Cena da coprodução "Vermelho Brasil"
Cena da coprodução “Vermelho Brasil”

Sócio da Conspiração, Ricardo Rangel disse ter bancado “o preço do pioneirismo”, fazendo malabarismo para conciliar os acordos bilaterais que o Brasil mantém com França e Canadá.

Ele define Vermelho Brasil como o maior projeto de TV do país, fora algumas superproduções da Rede Globo.

Fabiano Gullane, da Gullane Filmes, também se aliou à França em seu novo projeto: “Amazônia – Planeta Verde”. Ele anunciou o projeto, rodado em 3D e só com personagens animais, ao lado de Stéphane Millière, da produtora francesa Gédéon.

O longa é contado pela perspectiva de um macaco prego, único sobrevivente de um acidente aéreo na Amazônia.

PARA INGLÊS VER

A ABPITB (Associação Brasileira de Produtoras Independentes de TV), que organiza o RioContentMarket, selou no terceiro dia do evento um protocolo de cooperação e coprodução com o Pact, seu equivalente no Reino Unido.

Brasil e Reino Unido ainda não possuem acordo bilateral. Na área televisiva, os produtores nacionais só têm canais diplomáticos com Alemanha e Canadá.

Para brasileiros, a aliança é uma chance de absorver lições do mercado britânico. Em 2003, os produtores de lá foram beneficiados com uma lei que exigia cota mínima de 25% de programação independente nos canais abertos.

Entre os indies do Brasil, há expectativa para impulso semelhante na produção. Por aqui, é a TV paga que serve de trampolim: em abril, entra em vigor uma lei que estabelece cotas de produções brasileiras independentes nos canais fechados.

Para o diretor-executivo da Pact, John McVay, os dois parceiros vivem em tempos frutíferos para seu mercado audiovisual. “Parece uma combinação perfeita.”

Produtoras do país europeu ainda não são páreas para uma Endemol, a holandesa responsável por Big Brother, mas tentam se consolidar como exportadoras de formatos. Um reality show deve chegar em breve ao país, no programa de Luciano Huck, na Globo: Ruim de Roda, em que os piores motoristas testemunham seus carros serem destruídos por um monstro robótico gigante.