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A Profissão de Ator como um rito…

Matheus Nachtergaele De Volta à TV …

Rodrigo FonsecaMatheus Nachtergaele / Foto Leonardo Aversa

Mantenha os ouvidos atentos às palavras de Matheus Nachtergaele. A partir do dia 11 de abril, quando estrear “Cordel encantado”, a próxima novela das seis da Rede Globo, profecias hão de brotar de seus lábios. Por vezes, ele vai falar de fé:

Tenho a sensação de que me comporto diante da beleza que são os rituais religiosos como um antropólogo capaz de ver inclusive a profissão de ator como um rito. Um rito com uma forte função social. Ser ator no Brasil é acreditar que você pode fazer o seu próprio povo se ver e se descobrir – diz o paulistano de 42 anos, escalado para o elenco do folhetim das 18h no papel de Miguézim, profeta fundador da fictícia cidade de Vila da Cruz.

Outras vezes, a porção profética de Nachtergaele vai falar de política:

Miguézim vive na fissura provocada pelo dom de iluminar os outros: é capaz de se divertir com o que conhece, ao mesmo tempo em que sofre com a dor de saber. Já eu… eu me alegro com a sensação de que, politicamente, o Brasil está caminhando para uma boa direção. Mas sofro com a impressão de que muita coisa de base deixou de ser feita.

Já sobre a arte, Matheus Nachtergaele, dentro ou fora das novelas, sempre há de falar. Segundo seus colegas, ele sequer tem a escolha de não falar dela.

– Para Matheus, ser artista não é profissão. É doutrina – diz a atriz Dira Paes. – Tive a honra de atuar no primeiro trabalho dele como diretor, o filme “A festa da menina morta”, e pude vê-lo exercendo todas as suas potencialidades artísticas, que não são poucas.

Pela barba grossa que Matheus vem ostentando, Miguézim já deu seus primeiros sinais de vida, transformando as feições do ator e cineasta. Há 14 anos na TV, ele emplacou pelo menos quatro personagens marcantes: o travesti Cintura Fina de “Hilda Furacão” (1998); o herói pícaro João Grilo em “O auto da Compadecida” (1999); o vidente Helinho de “Da cor do pecado” (2004); e o peão Carreirinha de “América” (2005).

Atuar não é um ofício fácil. Com o tempo, você percebe que as pessoas, suas espectadoras, o conhecem mais do que você a elas. Você sai de casa para tomar um chope e nota que todo mundo te olha. Os personagens te deixam exposto, nu. Às vezes, você se pergunta: “Será que eu quero isso para mim?”. Outras vezes, você adora. Fazendo novela, o que muda é o fato de que você nunca sabe a trajetória completa que seu personagem pode ter. Em “Cordel encantado”, já me contaram que Miguézim guarda um mistério. Mas ninguém me contou qual – diz Matheus, cuja trajetória se mistura com a evolução do cinema brasileiro desde a Retomada.