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Irandhir Santos e o sortilégio da criação de Zelão

Irandhir

Irandhir e a nova fase de Zelão, personagem central de ‘Meu Pedacinho…’

IRANDHIR SANTOS é destes atores de entrega absoluta, mergulho total no universo do personagem. Transfigura-se com a fortaleza de um raio. É premiado pela participação em diversos filmes. Mas como a maioria da plateia brasileira ainda vive de lotar apenas as salas de cinema que exibem blockbusters, ele até então só era bastante conhecido de quem atua no meio audiovisual – sejam os profissionais da imprensa, artistas, realizadores, produtores, técnicos e diretores.

Irandhir é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco, com vasta carreira no cinema, e chegou à TV pelas mãos e o olhar atento e sensível do diretor Luís Fernando Carvalho. A estréia foi em 2007 na minissérie A Pedra do Reino, baseada em obra de Ariano Suassuna. Ali ele já mostrava um pouco de seu talento inconteste. Depois veio ‘Amores Roubados’, a excepcional minissérie de  George Moura e José Luís Villamarim, mas é agora, através da novela Meu Pedacinho de Chão, que ele ganha a adesão do público e torna-se conhecido e amado por todo o país.

Vida é drama. Dramaturgia é representação da vida. O drama consiste no equilíbrio dos impulsos contraditórios e doentios do ser. Portanto, a realidade está sempre carregada da representação que dela fazemos, sendo a representação, sempre, uma expressão da realidade. A televisão é meio para consumo imediato, linear e superficial. Vivendo de capítulos diários, da relação emissor-mercado, e de personagens que estão sempre num em-se-fazendo (pois que evoluem e se alteram com o desenvolvimento da obra),  a telenovela – nosso principal produto artístico de exportação -, é o único campo da criação dramática na qual o retorno do público é concomitante à realização. Para o ator, cujo aprofundamento interpretativo no teatro provém de meses de ensaio, na televisão acontece no decorrer da própria representação, por isso o ator precisa criar constantemente, e os que se destacam vão se aperfeiçoando à medida em que evoluem em seu escopo criativo.  Na TV, por não usar a plenitude do corpo, o ator desenvolve mecanismos empáticos diversos. Mas embora a emoção possa ser profunda e a artisticidade sendo inerente, a relação da audiência com a TV é passageira, superficial, logo sem status cultural e conseqüente repercussão intelectual.

Zelão este

Aproveitamos o momento de enlevo do público ante à criação de Irandhir Santos para o enigmático e conflituado personagem Zelão, para escrever algumas ideias acerca do trabalho do ator, o qual há muito nos conquistou com um talento formidável.

É possível ver Irandhir Santos atuando em diversos filmes (quem não viu na telona, pode se valer dos DVDs). E, em todos, encontra-se um personagem completamente diferente, não só porque as obras são diferentes e os personagens representados são outros, mas porque o ator integra a marcante categoria de intérpretes que alcançam suas personas através da invisibilidade em que mergulham seu ser para assumir, integralmente, o universo – psicológico, sociológico, filosófico, emocional – de seus filhos diletos, os personagens.

Assim, Irandhir Santos é um ator que pertence ao seleto grupo de Atores de Personagem. Esse grupo é formado por aqueles que diluem-se como pessoa, intérprete ou representação. Ao ser que lhe é dado criar, ele empresta todas as suas energias criativas e vitais. Essa total entrega de Irandhir a seu considerável repertório de composição, faz dele um intérprete notável de tipos os mais diversos. A luz que Irandhir deixa dominar sua criação não é a do ego e sim a da diafania. É assim agora com o enigmático, carente e emotivo Zelão, protagonista de Meu Pedacinho de Chão – a primeira novela naif brasileira, com dramaturgia de Benedito Ruy Barbosa, e uma enorme e primorosa equipe comandada por Luis Fernando Carvalho.

Assim com Zelão, assim como o foi com o ‘Clecinho’ do premiado Tatuagem, do diretor Hilton Lacerda (!). E nós poderíamos citar aqui toda a galeria de personagens memoráveis interpretados por Irandhir: desde o humilhado operário Nonato de Olhos Azuis, de José Joffily, até o apaixonante poeta libertário Zizo de Febre do Rato, de Claudio Assis, passando pelas atuações em O Som ao Redor (Kléber Mendonça Filho), ‘Viajo porque preciso/Volto porque te Amo’(Karim Aïnouz), ou o de ‘Tropa de Elite 2’, de José Padilha… e você, leitor, é bem capaz de citar vários outros personagens do ator. Estará certo também.

Irandhir Santos tem a notável e raríssima capacidade de anular-se diante da tarefa de criar uma nova vida através de seu ser: tornar-se diáfano para dar vez, vida e visibilidade a um ser que não lhe pertence mas ao autor e ao diretor. É um ato de absoluta coragem e de complexa (des) organização humana, psicológica e estética. Atores de Personagem (AP), como Irandhir, não interpõem seu ego nem as fantasias que o alimentam em sua criação. “Espécie de bruxo bendito com poderes de anular a própria pessoa, ele é pura persona a falar por intermédio do personagem. Uma vez concebido, vivido, sentido, criado, composto, livre, independente, próprio, peculiar, aí sim subordina-se – e com que disciplina – ao diretor e aos desejos (quando consultado) do autor. Mas o ser que emana do ator já é um ser autônomo que escapou ao controle consciente do ator, por mais que este o possua e use”, conforme diria o mestre Artur da Távola (o mais profícuo, sabedor e sensato crítico de televisão que tivemos no Brasil).

No caso específico de Irandhir Santos, o personagem é uma rebeldia da fantasia que subverte as hierarquias da arte dramática. É aparição, magia, criação pura e independente. O personagem é assim um sortilégio, ao qual alguns atores com esse perfil interpretativo de Irandhir, entregam-se em profunda simbiose, inventando quem não se sabe mas se adivinha ou alcança por intuição.

Atores como Irandhir Santos, antes de serem seguidores de si mesmo, de doutrinas, de pessoas, de líderes como o autor ou o diretor, são arautos de intrincadas emoções, entregando-se a alguém a quem não conhecem mas anteveem. E é nessa magia de TRANS-figuração que emerge um outro ser, integral, próprio, uno, provindo de regiões misteriosas. Esse novo ser, que no caso de Meu Pedacinho de Chão atende por ‘Zelão’, é um intruso bem vindo, tão mais rico e pródigo quanto menos interferências faça sobre ele o ator. Essa humildade essencial, capaz de anular até o próprio ego, promove um contato com a transfiguração e o mistério.

Irandhir Santos está, portanto, com a personificação notável do apaixonado e apaixonante Zelão, respondendo por uma das mais belas criações interpretativas de todos os tempos na Teledramaturgia Brasileira, favorecendo o contato diário do público (no qual nos inscrevemos grata) com um intérprete do mais alto quilate, e fornecendo riquíssimo material para pesquisa e estudos da arte milenar da Interpretação, com a criação perfeita de um tipo como o Zelão da cidade fictícia de Santa Fé (figura que mescla traços do homem interiorano comum com tipos que afloram do cordel e das histórias em quadrinhos), numa atuação primorosa com requintes de apurado senso estético, respeito à dramaturgia e disciplina cênica, dessa forma alcançando um patamar a qual só os atores considerados geniais alcançam. Porque aliam a todo seu inventivo material de Intérprete uma capacidade inconteste, afetiva e eloqüente de cativar com empatia e habilidade irretocável.

Irandhir Santos é Ator para ser aplaudido em cena aberta, ou com tela iluminada, por uma plateia devota, entusiasta e de pé, solenemente encantada.

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Jornalista Aurora Miranda Leão celebra o ator Irandhir Santos…

Receba, pois, querido Irandhir, o comovido #AplausoBlogAuroradeCinema !