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Luz nas Trevas pelo olhar, a inteligência e sensibilidade de Carlos Alberto Mattos

 
O filme de Helena Ignez  (e Rogério Sganzerla) – Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, que começa a entrar em circuito comercial em todo o país – vem amealhando elogios, aplausos, prêmios e convites para exibições e debates em todo o país, e até no esterior.

NEY MATOGROSSO é o protagonista. André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla e a própria Helena Ignez também estão no elenco.

Em face da propriedade exemplar da crítica de CARLOS ALBERTO MATTOS – um dos mais importantes, respeitados e consistentes analistas da Sétima Arte no país -, o AURORA DE CINEMA republica a crítica do emérito jornalista por julgá-la uma iguaria do mais alto quilate na apreciação fílmica de LUZ NAS TREVAS, um filme que todo estudioso de cinema, profissional da área, cinéfilo e interessado em boa diversão deve ver.

Com vocês, a análise de CARLOS ALBERTO MATTOS para LUZ NAS TREVAS… 

 
O BANDIDO ESTÁ VIVO !

Luz nas Trevas é, se não a primeira a merecer esse nome, uma das mais consistentes aventuras intertextuais já empreendidas pelo cinema brasileiro. Não é uma continuação do clássico O Bandido da Luz Vermelha, até porque o personagem do filme de 1968 morria no final imitando um pouco o Michel Poiccard de Acossado, um pouco o Pierrot le Fou de Godard. Não é uma resposta, nem uma usurpação. Talvez não seja nem mesmo uma retomada do mesmo personagem, já que o bandido maduro que apodrece na cadeia, vivido por Ney Matogrosso, contesta “o filme que fizeram sobre mim”.

Essa falta de “explicação” só faz acentuar os prazeres de se assistir a Luz nas Trevas. Desde, é claro, que o espectador passe pelo primeiro tranco do roteiro, logo no início, quando a narrativa em primeira pessoa passa de Luz para seu filho, e a história deste assume o protagonismo. O que é retomado, na verdade, é algo do espírito anárquico e ludicamente questionador do filme de Rogério Sganzerla. Se O Bandido era já um filme intertextual, colagem tropicalista de signos policiais, políticos e culturais da época, o roteiro que o próprio Sganzerla deixou para Luz nas Trevas permite incorporar o filme de 68 em sua malha de referências.

André Guerreiro Lopes e Bruna Lombardi em cena de Luz nas Trevas, dirigido por Helena Ignez

Assim, frases, trechos de áudio e de cenas em preto e branco do Bandido invadem a fantasmagoria colorida de Luz. Ora estão ali como um eco, ora como parte mesmo da continuidade da história que agora se conta. Há tanto a reedição em cores de alguns planos do Bandido quanto a recuperação, em outro contexto, de cenas memoráveis, como a do personagem comendo uma espiga de milho e olhando pelo binóculo. A edição em livro do roteiro do Bandido dá margem a uma sequência de Luz, assim como Sérgio Mamberti, visto em 68 como uma bicha caricata, volta como político assemelhado ao vivido antes por Pagano Sobrinho.

Os tempos são outros, claro, e o filme escancara isso de todas as maneiras. Sai o AI-5, entra o AR-15. Saem o rádio, as lojas de rua e as guarânias, entram as TVs de plasma, os shoppings e o rap. O que antes era trepidação agora é deslizamento em superfícies lustrosas. Jorge, o filho de Luz, segue os passos do pai sem a mesma boçalidade que caracterizava o cafajeste dos anos 60. Agora ele só quer saber de “ouro ou euro”. Não passa de um neobabaca cuja maior virtude, além de namorar Djin Sganzerla, é nos deixar ver que a lanterna era de fato vermelha.

O bandido, por sua vez, não avacalha mais nada. Virou um presidiário amargo, um brasileiro revoltado que inspira certos clichês do discurso anticorrupção. As reiteradas alusões aos “políticos” e aos “ricos”, que nunca vão para a cadeia, são um dos poucos traços óbvios num filme cheio de frescor e de um legítimo compromisso com a diversão crítica. É surpreendente ver como o personagem de Ney Matogrosso acaba incorporando marcas de Helena Ignez (o misticismo que o leva a adotar o novo pseudônimo de Luz Divina) e se transformando aos poucos no próprio Ney Matogrosso. A sobreposição de suas vozes de ontem e de hoje na apoteose musical fecha o círculo da habilidosa operação empreendida pelo filme.

De alguma forma, Luz nas Trevas lembra A Força do Amor (Breathless), a versão pop de Acossado que Jim McBride realizou em 1983 com Richard Gere e Valerie Kaprisky. Faz o mesmo deslocamento de contexto, de época e de referenciais. A maior diferença é que, no filme dirigido por Helena Ignez e Ícaro C. Martins, a metalinguagem é expressão de um engajamento mais autêntico e orgânico, familiar mesmo, com o original. Tudo bem que a indisciplina, visceral no filme de 68, aqui é mais premeditada. Mas não acredito que a temeridade de voltar ao Bandido pudesse ser mais bem-sucedida.  
 
 

André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla revivem romance de Jane e o Bandido

Os vencedores do É Tudo Verdade, por Carlos Alberto Mattos

A força dos personagens

Meirelles, Cuíca, Sganzerla

Apesar do espaço cada vez maior que os festivais de cinema brasileiros vão abrindo para os documentários, o É Tudo Verdade continua a ser a menina dos olhos da turma do real. É ali onde se forma um certo senso de comunidade, e o foco se concentra nas questões dessa modalidade de cinema. O festival virou um motivo a mais para novos documentaristas se aventurarem a bordo de suas câmeras.

No último dia 31, foram conhecidos os premiados da 17ª edição, encerrada no Rio e em São Paulo, seguindo dia 10 para Brasília e em maio para Belo Horizonte. O vencedor da competição brasileira de longas-metragens leva um prêmio no valor de 110 mil reais – mais um motivo de interesse para quem lida com os orçamentos miúdos da chamada não-ficção.

O que salta aos olhos desse conjunto de sete trabalhos selecionados pelo festival é, mais que tudo, a força dos personagens centrais. À exceção de Tokiori – Dobras do Tempo, de Paulo Pastorelo, que trata de uma rede de imigrantes japoneses numa área rural de São Paulo, os demais são dominados por personalidades fortes. Quatro delas dão título aos respectivos filmes, mostrando como a personalização é dado recorrente na pauta dos documentaristas brasileiros. De todos, Mr. Sganzerla, de Joel Pizzini, e Os Irmãos Roberto, de Ivana Mendes e Tiago Arakilian, antípodas em matéria de estilo, são os que mais se colam à forma de expressão dos seus personagens.

Pizzini cria uma espiral barroca de referências para apresentar o cineasta Rogério Sganzerla através de quatro grandes admirações: Orson Welles, Oswald de Andrade, Noel Rosa e Jimmi Hendrix. Pelo uso abundante de falas de Sganzerla, numa edição veloz, o filme reproduz a sua verve de enfant terrible, as alusões obsessivas e o estilo indisciplinado que o fizeram, assim como Glauber Rocha, quase tão importante pelo que disse e escreveu como pelo que filmou. A impressão de excesso é parte da proposta um tanto avassaladora de ser fiel ao personagem.

No extremo oposto da escala de irreverência, Os Irmãos Roberto enfoca, com imagens e depoimentos bem organizados, o trabalho dos arquitetos modernistas Marcelo, Milton e Maurício Roberto, responsáveis pelo célebre escritório MMM Roberto. O filme os apresenta através de falas e imagens bem compostas, editadas de maneira a sugerir linhas de continuidade e harmonia de formas condizentes com a obra que enfoca. Embora nada se fale da vida pessoal dos Roberto, são eles, como personagens, que norteiam um debate mais amplo sobre os destinos arquitetônicos do Rio de Janeiro.

Uma figura como Dino Cazzola, o produtor cinematográfico italiano que registrou a criação e consolidação de Brasília durante três décadas, tem sua vida privada referida rapidamente em Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília. No filme, Andrea Prates e Cleisson Vidal trazem uma seleção de imagens daquele acervo praticamente desconhecido. A intenção é contar a história da capital por um viés crítico, ainda que se utilizando de filmagens quase sempre “chapa branca” em sua origem. Mas os poucos dados biográficos de Cazzola despertam a curiosidade do espectador. Com sua cidade destruída, ele teria ajudado os pracinhas brasileiros na Itália e vindo com eles para o Brasil ao fim da II Guerra.

Paralelo 10, de Sílvio Da-Rin, e Coração do Brasil, de Daniel Santiago, são filmes de expedição que se inscrevem numa das primeiras tradições do documentário brasileiro. Mesmo assim, são os personagens principais que controlam o timão dos docs. Paralelo 10 viaja com o sertanista José Carlos Meirelles por um rio do Acre, nas proximidades da área dos índios isolados. Meirelles é um dos fundadores da nova mentalidade indigenista que visa respeitar o direito do índio ao não contato. Já em Coração do Brasil, são três homens de idade avançada que se dispõem a refazer a viagem que empreenderam 30 anos antes ao centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Aqui também, é a personalidade dos viajantes que acaba se sobrepondo às peripécias do trajeto.

Nenhum, porém, é mais pitoresco do que o personagem-título de Cuíca de Santo Amaro. O poeta de cordel que fez a crônica social e política de Salvador nos anos 40 a 60 era um Malasartes nativo, um “canalha modesto” no dizer aproximado de Millôr Fernandes. Sua trajetória entre escândalos, propinas e a picardia dos versos é contada com gosto no filme de Joel de Almeida e Josias Pires. Há poucas imagens de Cuíca, mas seu perfil está na tela pelas vias de um bom relato.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

Carlos Alberto Mattos e a Mostra do Filme Etnográfico

O calendário de festivais de cinema no Rio ficou com uma lacuna irreparável no ano passado. Por dificuldades na busca de patrocínio, Patrícia Monte-Mór e José Inácio Parente não puderam realizar a Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Este ano, felizmente, a mostra volta em sua 15ª edição com toda força e patrocínio da Eletrobrás, Secretaria de Cultura do Estado do RJ e Prefeitura/Riofilme. Na abertura, ontem, foi exibida a co-produção luso-brasileira O Manuscrito Perdido, de José Barahona.

A partir desta quinta e até dia 24, o Museu da República vai abrigar exibições na sala de cinema, nos jardins e nas quatro cabines de visionamento. Nestas últimas, o espectador faz seu próprio programa com todos os filmes da mostra e mais a coleção completa do Etnodoc. Dos 350 filmes inscritos, a programação vai reunir mais de 100, realizados no Brasil e em outros 16 países. José Inácio Parente destaca não só a quantidade de trabalhos, mas a liberdade crescente na linguagem dos filmes, muitos dos quais se desprendem do modelo tradicional de entrevistas + material de arquivo.

Além do habitual Laboratório do Filme Etnográfico – este ano com Angela Torresan, professora brasileira da Universidade de Manchester/Granada Centre, já com inscrições encerradas –, haverá um fórum de debates envolvendo diretores brasileiros e estrangeiros com filmes na mostra. Vários desses filmes são perfis biográficos de antropólogos: An Ecology of Mind foi dirigido por Nora Bateson e versa sobre as ideias de seu pai, o antropólogo Gregory Bateson, casado com Margaret Mead; The Professional Foreigner: Asen Balikci and Visual Ethnography, de Rolf Husmann, discute o fazer do filme etnográfico a partir da trajetória de um de seus expoentes; Elogio da Graça, de Joel Pizzini, é um carinhoso retrato do cineasta Arne Sucksdorff a partir das lembranças de sua esposa brasileira, Maria da Graça Sucksdorff. É interessante notar que esse foco temático coincide com um momento do cinema brasileiro em que estão prestes a entrar em cartaz Paralelo 10, de Silvio Da-Rin (sobre o sertanista José Carlos Meirelles) e Xingu, de Cao Hamburger (ficção sobre os Irmãos Villas-Boas).

Eu vou mediar uma das mesas do fórum, sobre Biografia no Filme Etnográfico, com participações de Nora Bateson, Rolf Husmann e Joel Pizzini. Outras mesas terão os realizadores de As Hiper Mulheres e o francês Emmanuel Grimaud, cujos trabalhos de antropologia visual podem enfocar tanto o gestual dos cineastas de Bollywood como os movimentos de máquinas e robôs.

A mostra vai ser uma boa chance para quem ainda não viu filmes brasileiros recentemente elogiados e premiados. É o caso de Marcelo Yuka no Caminho das Setas, Angeli 24 Horas, Cinematógrafo Brasileiro em Dresden, Terra Deu Terra Come, Copa Vidigal, Babás, Avenida Brasília Formosa, Walachai, Terras, As Batidas do Samba, A Falta que me Faz, Acercadacana, Icandomblé, Soldados da Borracha e Formas do Afeto: Ensaio sobre Mário Pedrosa. Emilio Domingos vai estrear o seu Quando Xangô Apitar, mais um doc ambientado no inesgotável samba da Mangueira.

Entre os filmes internacionais, uma atração que reputo imperdível é Pink Saris, de Kim Longinotto. Folheando o catálogo on line, já agendei conhecer os seguintes: Awareness, o último rebento do inefável casal David e Judith MacDougall, de quem será exibido também o clássico Lorang’s Way; The Lover and the Beloved: a Journey into Tantra; Cooking up Dreams (sobre o papel social da gastronomia no Peru), Djeneba (retrato intimista de uma família do Mali) e Kings of the Beetles (uma competição de besouros-rinocerontes na Tailândia filmada pelo convidado Emmanuel Grimaud).  

As homenagens do evento este ano se dirigem ao cineasta Adrian Cowell, que muito e bem filmou a Amazônia brasileira, e à escritora e pesquisadora Lélia Coelho Frota, uma grande amiga da Mostra.

* Texto do jornalista Carlos Alberto Mattos – leia mais em http://carmattos.com/

“Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo”

Crônica de mortes anunciadas

Fé e teimosia’ – eis como o Padre Ricardo Rezende define sua perseverança na solidariedade aos lavradores sem terra e na denúncia do trabalho escravo, mesmo depois de frequentar uma lista de pessoas marcadas para morrer. Padre Ricardo é personagem e guia do docEsse Homem Vai Morrer Um Faroeste Caboclo”, de Emilio Gallo. Além das virtudes do sacerdote, o filme trata também do medo, da violência e da impunidade que adensam o ar de várias cidades do sul do Pará, nosso farnorte sem lei.

O doc foi lançado na última sexta, em DVD no Cine Glória (Rio de Janeiro), ao mesmo tempo em que entra em cartaz na sala e tem exibição programada no Canal Brasil. A estratégia ‘tudo ao mesmo tempo’ visa tirar do marasmo a distribuição de documentários no Brasil. Coisa que a Original Video e a Vitrine Filmes vêm fazendo também. Há por aí muita coisa boa limitada às sessões de festivais e de mostras.

Esse Homem Vai Morrer é uma delas. Foi realizado em 2006, quando Padre Ricardo retornou pela primeira vez à diocese de Rio Maria, onde vivera entre 1988 e 1996. Como ele, diversos religiosos, sindicalistas, advogados e juízes frequentaram e continuam frequentando as tais listas de morte anunciada. As vítimas potenciais sabem até quantos milhares de reais valem suas cabeças no mercado da pistolagem de aluguel. Ricardo teve mais sorte que a Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005. Esse episódio ecoa na voz de Dira Paes, que faz duas vinhetas ficcionais no filme e é uma das várias celebridades envolvidas com a denúncia das listas de morte no Pará.

Emilio Gallo reúne histórias de mortos e de sobreviventes, assim como ouve as razões de dois fazendeiros que se dizem atingidos por invasões de propriedade (a maior parte delas griladas, ou seja, apropriadas sem documentos de posse ou com documentos falsos). Não há aqui veleidades de estilo ou de modernidade narrativa. A câmera na mão do próprio diretor cria seu espaço dramatúrgico de maneira crua e incisiva. O que interessa é o que as pessoas dizem, não o que o filme pode fazer com o que elas dizem. Isso pode soar meio amador aqui e ali, com tomadas de cobertura e intervalo que reforçam o caráter um tanto doméstico da filmagem. Mas não se pode negar que esse despojamento é produtivo para a premissa do filme, que é chamar a atenção das pessoas para a grande tragédia paraense.

Os cinco anos que se passaram não tiraram a atualidade do filme. Hoje existe uma lista com 18 pessoas juradas de morte no sul do Pará. ‘A situação está no plenilúnio. Vai cair alguém não demora muito’, alerta Emilio, deixando claro que a personagem de Dira Paes se baseia um pouco nele mesmo. Esse Homem Vai Morrer é um pequeno filme feito contra a morte, contra o medo e a injustiça.

Acesse: http://carmattos.wordpress.com/ https://twitter.com/carmattos.

Esse Homem Vai Morrer” (Brasil201175’) Diretor: Emilio Gallo Com: Letícia Sabatella, Carla Marins, Leonardo Vieira, Marcos Winter e Bete Mendes, entre outros.

DVD: Menu interativoSeleção de cenas Tela: Widescreen (16:9) Áudio: Dolby Digital (5.1 e 2.0) Idioma: português Legendas: não informadoExtras: não tem

Distribuição: 2001 Vídeo