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‘O Duplo’: Juliana Rojas e Sabrina Greve em Cannes

Filme da diretora brasileira, que vai ao festival pela quinta vez, entra na Semana da Crítica

 

Sabrina Greve em cena do curta “O Duplo”

 

O curta-metragem O Duplo, da brasileira Juliana Rojas, foi selecionado para o Festival de Cannes . O filme da diretora, que estreou ano passado seu primeiro longa, Trabalhar Cansa, será exibido na Semana da Crítica, mostra paralela que não integra a competição oficial.

Esta é a quarta vez de Juliana em Cannes, mas a primeira como diretora solo – as outras foram de filmes codirigidos com o parceiro Marco Dutra. A cineasta exibiu o curta Lençol Branco em 2005, na Cinéfondation, dedicada a filmes universitários; em 2007, recebeu o prêmio Descoberta na Semana da Crítica pelo curta Um Rumo; e em 2011 competiu com o longa Trabalhar Cansa na mostra Um Certo Olhar.

Persistindo no cinema fantástico dos trabalhos anteriores, O Duplo é baseado no mito nórdico do Doppelgänger, um ser fantástico que tem o dom de assumir a mesma forma de uma pessoa, mas representando seu lado negativo. No elenco, estão a ótima Sabrina Greve e Gilda Nomacce.

Atualmente, Juliana Rojas mora em Paris, onde trabalha no roteiro de seu segundo longa, dentro do programa de Residência do Festival de Cannes. Trata-se de As Boas Maneiras, nova parceria com Marco Dutra.

Sabrina Greve: atriz de atuação sempre marcante, está em novo curta

O Duplo é o único filme brasileiro na Semana da Crítica, que tem entre os destaques da programação o britânico “Broken”, de Rufus Norris, estrelado por Tim Roth e Cillian Murphy, e “J’Enrage de son Absence”, segundo longa da atriz Sandrine Bonnaire, com William Hurt.

O cinema brasileiro é convidado de honra em Cannes 2012. Até o momento, no entanto, só outros dois filmes do país estão confirmados na programação: “Na Estrada”, longa de Walter Salles que concorre a Palma de Ouro, e o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, fora de competição.

Três Décadas sem Vinícius de Moraes

 A Falta que o Poeta Faz…

                           

“Vinícius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.   

As palavras são do poeta Carlos Drummond de Andrade, referindo-se ao amigo Vinícius de Moraes logo após a morte dele. Já o jornalista José Castello, um dos biógrafos de Vinícius, escreveu:   

“O poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo. Para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável. Daí porque fazer sua biografia era obra ingrata”. 

 

Neste 9 de julho, faz-se 30 da passagem de Vinícius. 30 anos mais pobres. Partiu Vinícius, perdemos todos. Perdeu o mundo. Em Poesia, Amor, Música, Letra, Beleza, vida e lições de amor, paixão, entrega, solidariedade, enfim, estamos todos mais pobres. A lacuna é enorme, profunda e incômoda.  

  

    

Vinícius de Moraes agiganta-se a cada dia nas mínimas sementes onde é germinado: em trabalhos escolares, transposições para o teatro e o cinema, saraus literários, performances poéticas, concursos de sonetos, tema de redações, enfim, difícil mensurar, difícil encontrar quem não se pegue cantando de cor ao menos um verso do Poetinha.   

Parodiando o Poeta (que considerava o músico e amigo Pixinguinha, um santo), digo: Querido São Vininha, você caminha comigo aonde quer que eu vá e me leva sempre a repetir os mesmos versos por você dedicados a Garcia Lorca: “Poeta, não precisavas da morte para nada”. E quando bate a saudade bem grande de você, como agora, neste tempo tão próximo de mais um aniversário da sua partida, só resta reouvir suas músicas, reencantar-se e reaprender com elas, reler seus livros e observar o céu. Você por certo se esconde em alguma estrela de onde sussurra versos para a Lua, a linda mulher tão cheia de pudor que vive nua. 

VININHA, atento ao amigo querido PIXINGUINHA, que ele considerava um Santo…

Vinícius de Moraes, o Poeta que veio ao mundo para celebrar o Amor e falar da importância deste sentimento para pacificar o mundo e promover a comunhão entre os povos de todas as etnias, credos e continentes, partiu cedo, em 9 de julho de 1980, numa manhã fria de inverno carioca após passar a noite compondo com o parceiro querido, Toquinho.

    

Vina com Toquinho, o parceiro mais constante

O legado de VINÍCIUS é tanto maior quanto mais passa o tempo e mais aprofunda-se o entendimento de sua obra, quanto mais evidencia-se a lacuna descomunal que deixou acometendo de carência lúdica e emotiva sem par o cotidiano, e ainda mais descobrem-se novas leituras de sua vasta e riquíssima obra, a cada vez que se nos debruçamos sobre ela.   

     É melhor ser alegre que ser triste/A alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração…

  

       Vinícius, ou Vininha – como carinhosamente o chamavam os amigos próximos e como meu pai ensinou-me a chamá-lo desde menina – era libriano, aniversariante do 19 de outubro. Assim, foi no outubro de 2008, de muita chuva e algum frio no Rio, que se comemoraram os 50 da Bossa Nova, da qual Vina foi seu Farol sempre a apontar novas trilhas… e vieram os Afro-Sambas com Baden, o musical Pobre Menina Rica com Carlinhos Lyra, as parcerias com Edu Lobo, Antônio Maria, Francis Hime, Edu Lobo e Chico Buarque e os quase mil shows pelo Brasil e o mundo em companhia de Toquinho, ovacionados por onde passavam. Chega de Saudade…    

   Falar de Vinícius é sempre motivo de paixão. Lê-lo, estudá-lo ou re-ouvi-lo são coisas de enorme prazer e muita saudade. Saudade de alguém lindo demais, grandioso demais, amado demais pra não ser festejado, sempre. Viva Vinícius de Moraes ! Para sempre, nosso eterno Poeta do Amor, do Violão, do Mar, do Rio e das Mulheres !

Com Luizinho Eça e Nara Leão, cantora que virou “musa da Bossa Nova” e foi uma das muitas descobertas artísticas de Vinícius

   SARAVÁ, VININHA !

 Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão…

    

Com os amigos e parceiros, Tom Jobim e Chico Buarque: TESOUROS da MÚSICA POPULAR BRASILEIRA  E sobre este movimento musical, que virou estilo e revolucionou a música popular brasileira, Vininha dizia    

Bossa Nova é mais a solidão de uma rua em Ipanema que a agitação comercial de Copacabana. É mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão. É o canto puro de João Gilberto eternamente trancado em seu apartamento”, afirmou o Poeta em entrevista  no Songbook 2, do saudoso jornalista Almir Chediak. 

APLAUSO para SÉRGIO RICARDO

Um dos artistas brasileiros mais completos e criativos de todos os tempos, o compositor Sérgio Ricardo dividiu-se, e continua dividindo-se, entre as mais diversas expressões da arte.

Sérgio Ricardo – Canto Vadio, obra escrita por Eliana Pace, coincide com os 60 anos de carreira do artista e prova que ele fez muito mais do que quebrar um violão no palco. O lançamento da Coleção Aplauso acontece hoje na Casa das Rosas. 

“Quem guardou na lembrança apenas a imagem de Sérgio Ricardo quebrando seu violão, talvez ignore a biografia de um dos nomes mais marcantes da cultura brasileira.

Cantor, compositor, poeta, escritor, cineasta com assinatura em uma série de curtas e longas-metragens premiados no Brasil e no exterior, pintor e um dos precursores da Bossa Nova, Sérgio Ricardo é um artista multimídia graças à sua inquietação e que está sempre se revezando entre a música e o cinema, o cinema e a pintura, a pintura e a música”.

É dessa maneira que a jornalista Eliana Pace, autora da biografia de Sérgio Ricardo, resume o significado do artista na abertura do livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com lançamento marcado para HOJE, 10 de maio, às 19 horas, na Casa das Rosas – Av. Paulista, 37.

Todo escrito em primeira pessoa, o livro percorre a vida de Sérgio, pseudônimo de João Lutfi, desde seu nascimento em Marília, interior paulista, no ano de 1930. Seu pai, comerciante, era “um grande contador de histórias” e leitor voraz, enquanto a mãe “cantava o tempo todo, até mesmo na cozinha ou lavando roupa”.

Sua infância foi típica de um menino do interior. Mais velho de quatro irmãos, aos 17 anos foi morar em São Vicente, com um tio. Ali trabalhou na Rádio Cultura, exercendo praticamente todas as funções. Pouco tempo depois realizou o sonho de ir morar no Rio de Janeiro, dessa vez com outro tio. Logo na seqüência, sua família também se mudou para a ainda capital federal.

Após uma breve e indisciplinada passagem pelo Exército, realizou o sonho de tocar piano na noite. Nesta fase fez amizades com diversos artistas que viriam a se tornar, como ele, expoentes da música nacional. Entre eles, Tom Jobim, João Donato, Johnny Alf e João Gilberto – de quem se tornou grande amigo e o influenciou a tocar violão.

 

Uma das curiosas passagens de sua vida aconteceu com Dick Farney, um de seus ídolos: “Ele veio durante o meu ensaio para ouvir Tu És o Sol, que eu tinha acabado de compor, e assim que saí do piano, sentou-se e aprendeu a música na hora. Impressionou-me a sua rapidez, cantou e tocou lindamente, dizendo que queria gravar a música. Fez apenas um reparo num acorde, queria mudar um mi bemol menor por um mi bemol maior, achava que ficaria melhor. Discordei e foi a maior burrice que fiz na vida”. Farney levantou-se do piano, foi embora e não gravou a música.

Entre idas e vindas, foi convidado para ser ator da TV Tupi e radioator da Rádio Tamoio. Depois, passou por várias emissoras, como ator, apresentador e diretor de programas, inclusive pela TV Globo. Sergio conta também sobre seu lado cineasta, tendo dirigido diversos filmes. Era grande amigo de Glauber Rocha – foi autor da trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Terra em Transe, além de filmes de outros diretores – e conviveu com figuras como Roberto Santos, Cacá Diegues, Leon Hirzsman, David Neves, Ruy Guerra, Capovilla e Joaquim Pedro de Andrade. Como se não bastasse, Sérgio foi também ator teatral, tendo sido dirigido inclusive por Augusto Boal e Chico de Assis. 

Fica clara no livro a contrariedade de Ricardo em rotular os gêneros musicais. Até mesmo sobre sua participação na “criação” da Bossa Nova o biografado mostra-se reticente: “Eu gostava muito dos shows que fazíamos, Pernas e outras composições minhas tinham a cara do movimento, mas eu não concordava com as regras estabelecidas pelo clubinho do Ronaldo Bôscoli: ser ou não ser Bossa Nova. ser ou não ser Bossa Nova.Johnny Alf não era Bossa Nova, João Donato não poderia ser Bossa Nova, nem Vinicius com suas canções de amor maravilhosas que ganhavam uma nova dimensão e que fez uma revolução poética na música popular”.

Sua preocupação com as questões sociais brasileiras e sua ligação com os partidos de esquerda fizeram com que fosse censurado durante o regime militar. Criou o Circuito Universitário, pelo qual fazia apresentações com cenários improvisados em universidades e permitia a participação dos estudantes nas apresentações. Quanto mais a repressão aumentava, mais Sergio Ricardo atuava nos “bastidores”, quase isolado, enquanto outros artistas exilavam-se.  

Sobre o famoso episódio em que quebrou o violão no palco, durante o Festival da Record de 1967, Sergio explica que tinha a ver com o avanço da repressão. Mas as conseqüências não foram boas: “O pior foi estar, daí em diante, não só na mira da censura, mas na autocensura das gravadoras, rádios e TVs, fato que dificultava a divulgação do meu trabalho ou da minha contratação para shows. Até ser esquecido como artista”. 

Sérgio Ricardo é ainda autor de três livros e, atualmente, desenvolve outra de suas vocações artísticas: a pintura. No final do livro, há a discografia completa, todas as músicas compostas, as trilhas sonoras gravadas, os filmes dirigidos e os livros escritos.

 

CAETANO na infância da velhice

Para Caetano Veloso, o tempo ajuda a melhorar, a se renovar e a incorporar aprendizagens para seguir desfrutando de uma música que rendeu ao cantor o deu reconhecimento mundial e com a qual hoje se sente na infância da velhice.

Estou na infância da velhice. Sem querer, dediquei toda a minha vida à música popular e foi algo muito bom porque desde muito pequeno adorava cantar”, disse Caetano à AFP, em uma série de entrevistas via e-mail, antes de sua chegada a Miami para um show na terça-feira.

Caetano, de 67 anos, conta que quando era jovem tinha outros interesses, como a literatura e o cinema, mas que a música foi se impondo em sua vida com força.

Ele diz que se sente “agradecido”, como “se uma mulher bonita o tivesse escolhido”, e que, por isso, trabalha “como se não tivesse dado ainda tudo que ela merece”.

O mais popular e reconhecido músico brasileiro contemporâneo mencionou o crescimento da música em espanhol nos Estados Unidos e a influência da brasileira, e disse que a entrada de sua obra no mercado americano não é um objetivo que o motiva.

“Não penso em ganhar ou perder espaço nos Estados Unidos, e sim, em poder fazer uma música melhor do que a que fiz até agora. Vejo o futuro de uma perspectiva mais brasileira, que não depende muito dos Estados Unidos”.

Em relação ao restante do continente, CAETANO  diz que o “Brasil é um estranho e enorme país onde as pessoas falam português”, o que o diferencia da grande onda hispânica ou do mercado latino que vem influenciando os Estados Unidos.

No entanto, a música brasileira conta com

 figuras comoCarmen Miranda, João Gilberto, Tom Jobim e Milton Nascimento” que são conhecidos e admirados por muitos em um país que fala inglês e que é o mais poderoso do mundo, e isso é muito valorizado por nós”, completou.

Sobre as novas tendências musicais, Caetano diz gostar do “reggaeton e também do funk carioca”, apesar de considerar um estilo “muito menos polido”.

E em relação às novas gerações de músicos no Brasil, afirma que se deve prestar atenção tanto na cantora de samba e bossa nova Roberta Sá, como nas bandas alternativas Babe Terror e Rabotnik.

Pensa em Miami como um lugar em que há forte impacto da música latina e diz que em seu show, no teatro Fillmore de Miami Beach, espera encontrar muitos imigrantes hispânicos e brasileiros que vivem na cidade, mas também alguns “jovens americanos que me descobriram através de David Byrne, Beck, David Longstreth, Devendra Banhart e Panda Bear, que se interessaram pela minha música”.

A apresentação em Miami tem também uma sensação especial porque é sua primeira visita aos EUA desde que o presidente Barack Obama, por quem sente um “particular afeto”, chegou àCasa Branca.

“O look de Obama encanta tanto a mim como às minhas irmãs, porque se parece muito com nosso pai, que era um mulato elegante, com as orelhas de abano”, disse.

“Acredito que sua chegada à presidência é um grande acontecimento”, completou Caetano, que valoriza as conversas iniciadas por Washington com a Rússia para reduzir os arsenais nucleares e o possível fechamento de Guantánamo, mas lembra: “os Estados Unidos não podem apagar no Afeganistão as mentiras do Iraque”.

 

CAETANO: Artista atravessa o tempo como vinho…

ARTE é Tão Importante quanto a VIDA

Felipe Hirsch não pára. Se a estréia simultânea do filme Insolação e da peça Cinema sugeria que ele pudesse dar um tempo para respirar e divulgar seus trabalhos, não é bem por aí. Hirsch trabalha as noites e madrugadas inteiras (“durmo das 6h às 11h”) e conversa sobre seus próximos projetos, música e a paixão pela arte com profundidade e desenvoltura, como se estivesse falando de algo trivial. Pura rotina.

 
AE
Felipe Hirsch: “A arte precisa ser
tão importante quanto a vida”
 

Rotina esse que segue em alta rotação. As peças do repertório da Sutil Companhia – “Não Sobre o Amor”, “Viver Sem Tempos Mortos”, “Avenida Dropsie” – seguem viajando pelo Brasil e o mundo, e outras três devem ser remontadas. A ópera “O Castelo do Barba Azul”, do compositor húngaro Béla Bartok, volta em maio; a primeira parte de “Os Solidários”, com Marco Nanini, deve retornar como “Pterodáctilos”; e o primeiro grande sucesso da carreira de Hirsch, “A Vida É Cheia de Som e Fúria”, baseado em “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, pode ser remontado em função de seu aniversário de 10 anos. 

“Meu desafio é tirar as pessoas da frente da televisão”, afirma o diretor em entrevista ao iG, que também serve para ilustrar sua polivalência. Afinal de contas, não é qualquer um que tem no currículo espetáculos com Fernanda Montenegro e até um show com Roberto Carlos e Caetano Veloso, no ano passado, em homenagem a Tom Jobim. Na entrevista abaixo, o diretor continua falando de como foi trabalhar com esses grandes nomes da música e da dramaturgia, da vontade de dirigir um musical e da necessidade de lotar os teatros. “A arte precisa ser tão importante quanto a vida”.

Como foi dirigir o show do Caetano e do Roberto?
Fui lá por dois motivos. Porque tenho um carinho imenso pela [produtora] Monique Gardenberg, e logicamente uma admiração imensa pelo Caetano e pelo Roberto, mas fui muito porque sou um alucinado pelo Tom Jobim. Lembro do meu pai escutando Tom, tocava muito na minha casa. Tom é o símbolo de um Rio de Janeiro que eu conheço e partilhei – sou de lá, apesar de sair muito cedo. Foi um processo intenso pelas características e visibilidade da coisa toda, mas acho que fomos muito atentos para que fosse íntegro. É muito fácil em projetos desse tamanho que a coisa se corroa por dentro, já que existe uma quantidade de vaidades, de interesses, fúteis ou não, muito grande, não só dos artistas. O tempo conta as coisas melhor. Acho que quando a gente escuta um disco do Chico Buarque e Caetano em 1972, a gente tem toda a memória para criar junto. Hoje quando a gente vê um encontro desses, as coisas são mais distantes umas das outras do que próximas. Não sei como esse trabalho ficará no tempo. Tenho muita curiosidade de olhar para trás e ver o que aconteceu.

Para mim era improvável que você acabasse trabalhando com esses medalhões da MPB.

Eu também achava improvável, mas por isso aceitei. Admiro muito o Caetano, mas ele se dirige, seus shows são lindamente dirigidos. Se ele me chamasse pra dirigir um show dele, diria que de jeito nenhum faço melhor do que aquilo. O Roberto também tem o show dele para o público dele, que é muito bem realizado para o que interessa a ele e a esse público. Foi uma situação única e por isso me uni a ela porque gosto de estar nesses lugares improváveis. Quanto mais eu misturar coisas, mais me sinto feliz.

Você também já trabalhou com grandes nomes da dramaturgia brasileira: Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Marieta Severo. Como é sua relação com eles?

O bonito dessa história toda é quando você desperta neles uma paixão infantil, que é o que fez eles começarem. Você tem que se relacionar com isso, e não com o que eles se tornaram, de toda essa trajetória de vaidade. Quando você desperta aquilo, você percebe que eles são uns meninos, garotos lunáticos que conseguiram passar a vida inteira fazendo isso aqui [aponta para o teatro]. Eles são realmente irresponsáveis, curiosos. Você vê que eu trabalhei com o Paulo [Autran, em “O Avarento”] e ele nunca falou “eu sei fazer isso” ou “isso eu já fiz muito”. Paulo era uma criança, realmente. Fernanda [Montenegro, em “Viver Sem Tempos Mortos”] é também. É isso que você acessa neles, a paixão. E acho que por isso também de alguma maneira eles gostam de trabalhar comigo, porque não sento na frente deles para ficar cultuando. Sento pra dizer, “escuta, também sou um garoto maluco, mas comecei depois de vocês”. Existe um jogo infantil nisso tudo.

Divulgação
Fernanda Montenegro: “ela é uma criança”

O programa de rádio que você participa, “Rádiocaos”, está agora sendo transmitido também no Rio de Janeiro. Você está tocando algum outro projeto relacionado à música?


Queria muito me dedicar ao Rádiocaos. Se eu tivesse grana, só faria isso: escrever sobre música, ter um programa de rádio, amaria fazer isso por um tempo. Mas infelizmente não consigo me dedicar só a isso. E não só por grana, mas também por todas essas ideias perturbadas que você está ouvindo (risos). O fato é que eu não consigo parar a minha vida para fazer um programa de rádio. Eu adoraria fazer um musical. Mas o meu musical não ia ser muito para o [teatro] Alfa (risos).

O que você está achando dessa febre de musicais que chegou ao Brasil?

 
Eu adoro, não tenho preconceito com teatro nenhum. Eu quero é teatro lotado, de qualquer tipo. Posso não me interessar artisticamente, mas daí a ficar queimando, tendo preconceito… Meu desafio é tirar as pessoas da frente da televisão. Não vou atacar quem está fazendo algo diferente. Existe teatro para 100 pessoas, 200 e para mil. E aí? Também acho que os bombeiros deviam liberar as escadas, porque se alguém está arriscando a vida, é porque tem alguma coisa que preste lá dentro (risos). A Vida É Cheia de Som e Fúria tinha 70, 100 pessoas nas escadas. Quero 200 pessoas nas escadas ! É o seguinte: quanto mais deixarmos a relação com a arte essa massa chata, careta, que em parte também se deve aos artistas, mais a gente vai ser jogado a um canto. Quero teatro lotado, duas mil pessoas vendo Paulo Autran fazendo Molière. É uma coisa linda! Quero a Praça Roosevelt lotada. Não preciso admirar artisticamente tal espetáculo ou outro: quero discutir esse espetáculo, porque isso com certeza vai gerar outros maravilhosos. Arte não é para mesquinhar. Arte é para dominar, precisa ser tão importante quanto a vida, não é supérflua.

Vou falou do sucesso de “Som e Fúria”. Você espera repetir algo tão fenomenal em relação a público no futuro?


Não, nem nunca me preocupei com isso. Aliás, sou um mal acostumado: em qualquer lugar que a gente vá, temos público. Formamos esse público, graças a deus, que não é só de classe, é um público de arquitetos, designers, jornalistas. Desperta o interesse porque fazemos as coisas de alma aberta, acertando e errando, e a gente dá muita importância para o erro. Nunca foi o ponto fazer uma coisa mais ou menos popular, embora eu goste muito da relação do público com a casa cheia. Gosto muito de briga na porta, é um ingrediente muito importante (risos).

E vai ter algo para lembrar os 10 anos do “Som e Fúria” em 2010?

Estamos negociando direitos. Em 2006, quando paramos de fazer o espetáculo, os direitos foram vendidos pela Touchstone Pictures para um musical que faliu em 14 dias na Broadway. O problema é que a partir dessa venda, mudou muito o caráter de liberação envolvendo essa obra. Agora a negociação é com a Disney, para você ter uma ideia. Mas estamos tentando seriamente, temos até um patrocínio para fazer isso.

* Do IG…